A “Estrela do Mar”, excelente órgão da Confederação
Nacional das Congregações Marianas, publicou há pouco um luminoso trabalho
condenando com serena firmeza o pretenso “apostolado de infiltração” que os
católicos fariam, freqüentando bailes mundanos com o intuito de os moralizar.
Quem conhece o grande discernimento e a notável prudência com que aquela
revista é dirigida, não pode duvidar de que, se essa solução foi publicada de
modo tão minucioso e claro, é porque correspondia a uma premente necessidade.
Com efeito, a maior parte dos erros que viciavam a formação religiosa dos
católicos brasileiros de há vinte ou trinta anos atrás está renascendo.
Evidentemente, esses erros pretendem ajustar-se ao sabor dos novos tempos, e
alegando argumentos muito diversos dos que, há algumas décadas, tanta
popularidade lhes valeram. Mas só o que mudou foram os atavios dos erros. Estes
conservavam, intrinsecamente, a mesma natureza. É a ressurreição de defuntos que
assistimos. Mas de defuntos que, com aparência de saúde e de vida, nada
perderam da podridão e do mofo que trazem da sepultura.
Por oposição aos católicos acomodatícios e
relaxados, infelizmente tão freqüentes entre nós, aos católicos (?) liberais
que procuravam acomodar as idéias e o teor de vida de nosso século às máximas
da Igreja, formou-se em nosso país uma geração espiritual de católicos
completos, radicais nas suas convicções como no seu modo de viver, igualmente
inimigos dos contrabandos doutrinários que pretendem conciliar a heresia com a
verdade, e as escamoteações da moral, que visam acomodar as consciências
piedosas com o mal.
Este movimento recebeu de Jackson
de Figueiredo um impulso extraordinário. Sua nota dominante era uma sede devoradora
de radicalismo santo, de autenticidade indiscutível, de austera intransigência.
E, por isto, o inimigo supremo era para ele não o adversário declarado, mas o
prosélito das doutrinas suspeitas, das heresias encobertas, das idéias que
procuram situar-se na periferia da ortodoxia, dos costumes que procuram
sofismar com a moral, etc., etc. Para os católicos formados nessa escola, tinha
um sentido preciso a palavra do Espírito Santo: “se fosses frio ou quente, eu
te aceitaria, mas como és morno começo por vomitar-te de minha boca”.
Dentro desta ordem de idéias, considerava-se que, quanto mais completa
a ruptura do católico com os costumes do mundo, quanto mais radical seu horror
à paganização do século, tanto mais perfeita sua
formação. Por isto mesmo, era com geral enlevo que se contemplava a formação,
nas fileiras marianas, de toda uma geração de moços
puros e fortes, que, repudiando decididamente qualquer cumplicidade com os
erros do século, se afastavam inteiramente das diversões pagãs. E, pelo contrário,
dava provas de um singular liberalismo o Congregado que procurasse acomodar sua
consciência com o sentimento de regalo que lhe causasse a freqüência de
diversões imorais. Assim, a noção de católico completo, autêntico e radical
comportava evidentemente uma ruptura decidida com tudo quanto, de qualquer
maneira e ainda que de longe, fere a modéstia cristã.
Mas o erro sabe renascer com arte. Daí o fato de
aparecer hoje em dia uma hábil e sinuosa explicação para uma conciliação entre
o católico autêntico e o espírito do mundo, sob pretexto de apostolado de
infiltração. Evidentemente, o excelente artigo da “Estrela do Mar” já fez
justiça a esse erro. Membros da Ação Católica, Congregados Marianos,
Vicentinos, Membros do Apostolado da Oração ou de
Ordens Terceiras, todos lucram com a leitura desse excelente trabalho, cujas
conclusões a todos se aplicam.
* * *
Secundando esse esforço altamente construtivo da
Confederação Nacional das Congregações Marianas, construtivo no sentido mais
legítimo e mais nobre dessa palavra hoje tão deformada por interpretações
heréticas, quero denunciar mais alguns sintomas dessa ressurreição de defuntos.
Todos se lembram da situação verdadeiramente
deprimente a que o orgulho das antigas irmandades e
confrarias reduzia os Sacerdotes colocados em sua direção. Para os pobres
Comissários, não havia peias que bastassem. Parece que cada irmandade
considerava como seu problema no 1 reduzir à impotência o respectivo
Comissário: nas sessões da irmandade, assistia-lhe o modesto papel de ouvir tudo
quanto se deliberasse, e apenas enunciar sua opinião quando estava em jogo
alguma questão de doutrina nos problemas econômicos e administrativos, o mais
leve aviso ou conselho que desse seria tido como uma perigosa intromissão em
seara alheia; nas próprias funções sacerdotais, o espírito abominável das irmandades se refletia estabelecendo para o Sacerdote
odiosas restrições, pois que em certas irmandades lhe
era até negado o direito de guardar as chaves do Sacrário, enquanto em outras
lhe era vedado tratar certos temas incômodos, como, por exemplo, o inferno, a
emenda da vida, etc., etc.
A situação não poderia ser nem mais inconveniente,
nem mais injusta. A própria dignidade do caráter sacerdotal exige que, sempre
que em um ambiente esteja um Sacerdote, a pessoa de confiança da Igreja seja
ele. As graças de estado, o cunho sacramental da Ordem, a longa formação
recebida em Seminário etc., tudo isto constitui um acervo de garantias que
justifica largamente essa asserção. Ora, por sua natureza, as irmandades e associações de fiéis são depositários dos mais
altos interesses espirituais da Igreja. Esta não quer, não pode e não deve ser
indiferente ao que fazem as associações de leigos. E, por isto mesmo, o
Sacerdote tem naturalmente indicado seu lugar em qualquer associação em que se
encontre: ele é a autoridade indiscutível, o árbitro supremo dentro do sodalício, o diretor por excelência, ante cuja autoridade,
em qualquer assunto, todos devem inclinar-se.
Exatamente por isto, é próprio do perfil espiritual
do católico autêntico um inflexível e amoroso espírito de disciplina para com o
Sacerdote. Dotado de uma personalidade forte, saberá o católico autêntico arcar
com quaisquer responsabilidades e tomar quaisquer iniciativas. Mas sempre que o
Diretor de sua associação lhe mandar executar coisa diversa do que desejaria, é
com perfeita serenidade que ele saberá inclinar-se e obedecer sem discutir.
No entanto, quem ousaria negar que esse espírito
hoje morto na maior parte das irmandades renasce em
certas concepções acerca da situação do Assistente Eclesiástico na Ação
Católica? Alguns entendem que o Assistente tem apenas um direito de veto
puramente doutrinário. Caso nada se diga ou se resolva contra a doutrina
católica, seu papel é calar-se, respeitosamente. Outros lhe concedem o direito
de voto também nas outras questões. Mas um simples voto individual, que pode
ser derrotado pela maioria. São os mais generosos, os mais indulgentes, em uma
palavra os mais clericais...
Quem pode não ver que é velho e surradíssimo
anticlericalismo maçônico que renasce nestas
concepções? Quem pode não perceber que, se por absurdo prevalecessem na Ação
Católica estes conceitos, o Assistente Eclesiástico estaria reduzido ao papel
do mais desarmado e apagado dos Comissários das Irmandades
maçonizadas do século passado? Pelo temor que em
certos círculos parece formar-se de uma exagerada influência do Sacerdote na
Ação Católica, quem não perceberia que está criando novo alento o brado de Gambetta: “o clericalismo, eis o
inimigo!”
* * *
O grande chavão dos liberalões
do século passado era que, se é bom ser-se católico, o exagero constitui sempre
um grave perigo. Por isso, o tipo ideal de católico era o que fosse bem comportadinho perante os desmandos do século: desbotado nas
idéias, desbotado nas palavras, desbotado nas atitudes, o católico deveria
tomar, na sociedade contemporânea, a posição humilde e secundária que em certos
romances tem o filho ilegítimo ou o parente pobre. Jamais seus lábios se
deveriam abrir para proferir uma condenação ardente, ou apóstrofe veemente, uma
réplica fulgurante. Isso não quadrava bem com sua condição de indivíduo
atrasado e antiquado, que a sociedade, por mera bondade, ainda suportava. Sua
eterna posição deveria ser de a de um indivíduo invariavelmente agachado diante
de tudo e de todos, pronto a todas as defecções sob pretexto de caridade e
humildade.
Exatamente por isto, todas as atitudes contrárias
ao respeito humano, todos os gestos santamente chocantes, que combatessem a
pestilência dos maus ambientes pelo “escândalo” do bom exemplo, todas as
atitudes que revelassem uma intrepidez na fé e um heroísmo na virtude, eram
severamente proscritas.
Quem diria que tudo isso começa hoje a renascer
novamente? Quem diria que, sob pretexto da infiltração, há quem sustente que o
católico deve evitar de arvorar claramente o pendão da Fé, que deve evitar
todas as atitudes ou todas as opiniões capazes de desagradar a corrupção do
século, que ele deve, para atrair as almas a Cristo, esconder cuidadosamente
que ele pertence à Igreja de Cristo, e que, em lugar de proclamar a doutrina de
Cristo para fazer com que as almas se encantem com seu perfume, deve ocultar
sua fé, e insinuá-la como uma mercadoria de contrabando! Ó São Paulo, que
entrava de chofre no areópago a fim pregar Jesus Cristo, e Jesus Cristo
crucificado! Evidentemente, há situações excepcionais que impõem uma regra de
conduta imensamente moderada. Mas quem não veria a geral deserção que essa
conduta acarretaria, caso ela fosse apregoada como regra universal de procedimento?
* * *
Tudo isto mostra que os mornos estão levando a cabo
uma ofensiva, e que esta ofensiva está ganhando terreno. Sob pretextos novos é
o velho erro que renasce, apoiado desta vez - fenômeno surpreendente - por
figuras de internacional reputação intelectual e moral.
Mas, graças a Deus, essa onda será efêmera, e a Igreja, esclarecendo
os transviados, condenará esse neo-modernismo
religioso que Pio X com tão santa energia abateu.