Em nosso último artigo, tratamos da verdadeira
interpretação a ser dada à famosa afirmação de que “a caridade não conhece
limites”. Bem entendido, tal princípio é tão verdadeiro que não há a menor
dúvida de que aqueles que o contestassem teriam perdido inteiramente o senso
católico. Com efeito, a caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo nos urge a que
façamos bem a todos, e ainda mesmo aos inimigos. Parentes ou estranhos, amigos
ou inimigos, correligionários ou adversários, patrícios ou estrangeiros,
hereges ou pagãos, a todos se deve estender a caridade do verdadeiro católico.
Assim, nem as diferenças de raça, nem as de língua, nem ainda as de religião
são suficientes para deter o curso da caridade cristã. E, como esta não se
detém ante qualquer barreira, bem se pode dizer dela que não tem limites.
Mas se se entende pela
afirmação de que a “caridade não conhece limites” que ela impõe obrigações
iguais para com os parentes e os estranhos, os patrícios e os estrangeiros, e
sobretudo os que são católicos e os hereges, pagãos, ou sectários de filosofias
e sistemas políticos condenados, há nisto um erro gravíssimo. Nem nossas
obrigações são as mesmas para todas estas classes de pessoas, nem elas obrigam
do mesmo modo. E, por isto, pretender que temos as mesmas obrigações, sempre
igualmente fortes, e em todos os casos e circunstâncias, para com os bons
filhos da Santa Igreja e os que professam doutrinas condenadas, é gravíssimo erro
que não se pode nem se deve suportar.
Procuraremos, hoje, analisar outra questão
importantíssima. Costuma-se dizer que “devemos odiar o erro e amar os que
erram”. Quem ousaria negar o sublime princípio que essa frase define? Do que se
alimentou o zelo de todos os apóstolos que desde os primórdios da Igreja até
hoje, em linha ininterrupta, têm combatido o erro procurando salvar das garras
dele os que erram? Exatamente de um ódio ao erro e de um amor ao pecador.
Diminua-se no espírito do apóstolo ou este ódio ou este amor, e ele deixará de
ser um apóstolo autêntico.
Entretanto, esta frase precisa ser bem entendida.
Devemos certamente amar os que erram, e isto ainda mesmo quando no paroxismo de
seu ódio à verdade eles nos causam os maiores prejuízos e nos infligem as mais
tremendas afrontas. Mas como devemos amá-los? Em outros termos, no que deve
consistir concretamente esse amor? Em que sentimentos, em que ações se deve ele
traduzir? A pergunta não é ociosa. Deus que é infinitamente Sábio não julgou
suficiente recomendar-nos que “O amassemos sobre todas as coisas e ao próximo
como a nós mesmos, por amor a Ele”; pelo contrário, julgou o Criador necessário
promulgar dez mandamentos em que esse preceito do amor ficasse bem definido,
perfeitamente explicitado e as obrigações daí decorrentes concretamente
descriminadas. E a Santa Igreja ainda julgou dever acrescentar cinco
mandamentos aos dez que Deus promulgara nos primeiros tempos: tudo isto só para
que o cumprimento do preceito do amor não ficasse entregue aos caprichos do
sentimentalismo, mas se efetuasse conforme a vontade de Deus.
Assim, pois, não é supérflua a questão. Amemos os
que erram. Ai dos que não amam os pecadores e os hereges! São eles próprios
hereges e pecadores. Mas como se devem amar os hereges e pecadores? Por
exemplo, é contrário ao preceito da caridade, como o define a Igreja,
combater-se e desautorizar-se a pessoa de quem sustenta e propaga o erro, para
assim melhor combater o próprio erro?
É uma interessante questão, que muito de perto diz
respeito ao “Legionário”, que tantas vezes tem sido atacado como mau intérprete
do pensamento católico, porque ao mesmo tempo que denuncia as grandes heresias
políticas de nossos tempos, não poupa censuras a seus fautores. Age o
“Legionário” contra o que a doutrina católica preceitua sobre a caridade?
Vamos aos argumentos. Gostaríamos de saber em que contraríamos a doutrina católica ou o espírito do Evangelho
com o que abaixo se segue.
* * *
Ainda mesmo que se combata o erro, será legítimo
atacar encarniçadamente as pessoas que o sustentam? A
isto respondemos que muitíssimas vezes esta prática é conveniente, e não só
conveniente, senão indispensável e meritória perante Deus e a sociedade.
Com efeito, não é pouco freqüente a acusação que se
faz ao apologista católico de lidar sempre com os aspectos pessoais das
questões. E quando se lançou em rosto a um dos nossos que atacou uma
personalidade, parece aos liberais e aos que têm ressaibos de liberalismo, que
não há mais o que dizer para o condenar.
E não obstante não têm razão. Não, não a têm. As
idéias más devem ser combatidas e desautorizadas, deve-se torná-las aborrecíveis e desprezíveis, e detestáveis à multidão, à
qual tentam arrastar e seduzir. Além do mais, pelo princípio de causalidade, as
idéias não se sustentam por si próprias no ar, nem por si próprias se difundem
e propagam, nem por si próprias causam todo o prejuízo à sociedade. São como as
flechas e balas, que a ninguém feririam se não houvesse quem as disparasse com
o arco e o fuzil. Ao arqueiro e ao fuzileiro se devem dirigir, pois, em
primeiro lugar os tiros de quem deseje ferir sua mortal pontaria, e qualquer
outro modo de guerrear poderia ser muito conforme aos princípios liberais, mas
não teria o sentido comum, nem de longe. Os autores ou propagandistas de
doutrinas heréticas são soldados com armas envenenadas: suas armas são o livro,
o periódico, a arenga pública, a influência pessoal. Não basta, pois, recuar
para evitar o tiro: o que em primeiro lugar se deve fazer, por ser mais eficaz,
é pôr fora de combate o atirador. Assim, convém desautorizar e desacreditar seu
livro, periódico ou discurso, e não só isto, como ainda desautorizar ou
desacreditar em alguns casos sua pessoa. Sim, sua pessoa, pois que este é o
elemento principal do combate, como o artilheiro é o elemento principal da
artilharia e não a bomba, nem a pólvora, nem o canhão. Em certos casos, pois, é
legítimo publicar suas infâmias, ridicularizar seus costumes, cobrir de
ignomínia seu nome e apelido. Sim; e isto se pode fazer em prosa ou em verso,
com gravidade ou com chiste, por meio da gravação e por todos os meios que
ainda se venham a inventar. Só é necessário que a mentira não seja posta a
serviço da justiça. Isso não; ninguém tem o direito de se distanciar da verdade
por pouco que seja, mas nos limites desta não deve ser esquecida aquela frase
de Cretineau-Joly: “A verdade é a única caridade permitida à História” e,
poder-se-ia acrescentar “também à defesa da Religião e da sociedade”.
O hábito dos Santos Padres prova esta tese. Ainda
mesmo os títulos de suas obras dizem claramente que, ao combater as heresias,
procuravam desferir o primeiro tiro contra os heresiarcas: “Contra Fortunato maniqueu; contra Adamantox; contra Felix; contra Secundino; quem foi Petiliano;
dos gestos de Pelágio; quem foi Juliano,
etc”. De sorte que quase toda a polêmica do grande
Agostinho foi pessoal,
agressiva, biográfica, por assim dizer, tanto quanto doutrinária; corpo a corpo
com o herege tanto quanto com a heresia. E o mesmo poderíamos dizê-lo de todos
os Santos Padres.
De onde tiraram, pois, os liberais, a estranha
novidade de que, ao combater os erros se deve prescindir das pessoas, e até
mesmo afagá-las e acariciá-las? Atenhamo-nos ao que sobre isto ensina a
tradição cristã, e defendamos nós, ultramontanos, a
Fé como sempre ela foi defendida na Igreja de Deus. Fira, pois, a “espada” do
polemista católico, fira e vá direito ao coração, pois que esta é a única
maneira verdadeira de combater.