Nos artigos anteriores acentuamos os graves
inconvenientes a que muitos católicos expõem a Igreja, cancelando inteiramente
de seus processos de ação quaisquer manifestações de energia. Resumindo em duas
palavras a doutrina que vimos sustentando, lembraremos apenas a nossos leitores
que o Evangelho contém, a respeito de apostolado, duas parábolas de máxima
importância, nenhuma das quais deve ser esquecida em benefício da outra. Nosso
Senhor fala em ovelhas perdidas e em lobos com pele de ovelha. Quem visse nas
ovelhas desgarradas do redil apenas lobos vorazes disfarçados com a pele de
suas vítimas não poderia, evidentemente, ser o bom pastor que vai ao longe,
enfrentando perigos e desprezando fadigas, salvar a ovelha perdida. Que dizer,
entretanto, do católico que, até o contrário, vencendo obstáculos sem conta,
desce ao fundo do abismo, com perigo para si mesmo, e ali recolhe
carinhosamente um lobo astuto, afagando-lhe com meiguice a fingida pele de carneiro;
que abrisse triunfante com sua “conquista” as portas do redil, soltasse ali o
fruto de seu caridoso apostolado, e, depois de um prolongado e terno olhar para
o gáudio com que a nova “ovelhinha” se encontrava em
“confraternização” com as demais, fosse dormir sobre os louros de tão brilhante
feito?
É evidente que qualquer católico leigo que queira
proceder com prudência deve preferir a introduzir um lobo no aprisco do Bom
Pastor, correr o risco de deixar de fora alguma ovelha inocente. O conselho
parece cruel? E, por ventura, não será ainda mais cruel expor a risco grave e
real todo o aprisco?
Costuma-se repetir com muita razão que há mais
alegria no Céu por um pecador que se converte do que por cem justos que
perseveram. Mas esta afirmação do Evangelho não pode deixar de ser considerada
em conjunto com as tremendas ameaças com que Nosso Senhor fulmina aqueles que,
de qualquer maneira, concorrem para a perdição das almas, que já se encontravam
no caminho da virtude. Ao indivíduo que por imperícia, consciente ou
inconscientemente culposa, abrisse o redil ao lobo mascarado de ovelha, se
aplicaria com toda a propriedade a expressão de Nosso Senhor: “Melhor seria
para ele que lhe atassem uma pedra de mó no pescoço e o atirassem ao fundo do
mar”.
E não lhe valeria como escusa o ter agido por
excesso de zelo no temor de sacrificar uma ovelha possivelmente inocente. No
Céu há realmente mais alegria por um pecador que faz penitência do que por
noventa e nove justos que perseveram. Mas, por isto mesmo, precisamente porque
passar do pecado ao estado de graça é a maior das venturas, decair deste estado
para o de pecado é desventura não menor. Logo, não se poderia pretender que a
conversão de uma alma recompense a Nosso Senhor os riscos que com isso se faça
correr a outra alma. Pensar de modo diverso seria blasfemar contra Deus,
atribuindo-lhe maldade por dois títulos: a) supondo que a Providência não
dispusesse outros meios para a salvação da ovelha inocente sacrificada pela
razoável prudência do pastor avisado; b) imaginando que Deus dispõe das almas
como um jogador de roleta dispõe de suas moedas, e de bom grado se expõe ao
risco de perder uma delas a fim de ganhar, se bem sucedido, duas, dez ou cem.
Preconizar tais aventuras apostólicas é entrar em conflito com a economia da
Providência. E ninguém ignora o que sucede a quem zomba da Providência de Deus.
É curioso que em uma época de cavilosas
maquinações, em conseqüência das quais países inteiros têm desabado como que
devorados pelo caruncho de conspirações a modo de quinta coluna; em uma época
em que as heresias procuram disfarçar-se com rótulo cristão, (...) inimigos
ainda mil vezes mais perigosos, como o nazismo,
tomam ares de sacristão para melhor iludir os fiéis; é precisamente nesta época
que, em certos círculos católicos, ganha terreno um otimismo ingênuo e
eufórico, para o qual toda a malícia do mundo contemporâneo, toda a corrupção,
toda lascívia, todo desbragado egoísmo de nossa sociedade contemporânea, da
qual Pio XI escreveu que está na iminência de se tornar
pior do que era antes de Nosso Senhor; que tudo isso não passa de um equívoco.
E de um equívoco tão tênue que com uma meia dúzia de sorrisos este mundo será o
melhor dos mundos.
O paganismo antigo foi vencido pelas preces dos
eremitas, pelo sangue dos mártires e pelos suores dos evangelizadores.
Lendo-se, entretanto, certos tratados de Ação Católica,
tem-se a impressão de que o mundo moderno pode ser regenerado com os simples
sorrisos desses novos apóstolos, mais felizes do que Orfeu, pois que nem sequer precisam de flauta para amansar às
feras.
Perdoem-nos certos confrades no apostolado,
disseminados um pouco por toda a parte neste imenso Brasil e para os quais
escrevemos este artigo, se nesta última comparação entrou alguma ironia, aliás muito
explicável, na pena de quem está escrevendo depois de todo um dia de afanoso
trabalho. Mas causa-me horror verificar uma certa maré montante de ingenuidade,
que diariamente produz as mais novas e variadas manifestações e ganha dia a dia
mais terreno.
Lembrem-se estes amigos, a quem tanto amo em Nosso
Senhor. que o apóstolo leigo que não tiver desenvolvido todos os seus recursos
a fim de precaver contra os lobos as ovelhas do Bom Pastor não poderá no leito
de morte fazer a sublime oração de Nosso Senhor: “Meu Pai, dou-Vos
graças porque, daqueles que me destes, a nenhum perdi”.