Em artigos anteriores temos mostrado a ação nociva
do liberalismo religioso, que timbra em deformar nos católicos as virtudes mais
adequadas à luta e ao combate, criando assim o tipo ridículo do “carola”
inofensivo e inepto, que o próprio liberalismo é o primeiro a estigmatizar
afirmando que a Igreja não é capaz de produzir figuras diversas desta.
Se o liberalismo se empenhou particularmente em
iludir as massas católicas a respeito da virtude da fortaleza, é certo que
outra virtude, a da perspicácia, também tem sido muito combatida pela
propaganda liberal. Muitos católicos se terão por certo espantado quando
afirmamos que o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma inigualável escola
de energia e heroísmo no sentido mais belicoso da palavra. Sua surpresa não
será menor se lhes dissermos hoje que o Evangelho é uma inigualável escola de
perspicácia, e que Nosso Senhor Jesus Cristo inculcou reiteradamente esta
virtude.
* * *
O que vem a ser perspicácia? É a virtude pela qual
nosso olhar, transpondo as aparências enganosas apresentadas pelas pessoas com
quem lidamos, penetra até à realidade mais recôndita de sua mentalidade. Assim,
diz-se de uma autoridade eclesiástica ou civil que é perspicaz se, através da
prolixidade dos conselhos e informações que recebe, sabe discernir a verdade do
erro, adotando em conseqüência uma linha de conduta conforme os interesses que
tem em mãos. Dentro da mesma ordem de idéias, pode-se dizer que é perspicaz um
médico que sabe discernir a existência de uma moléstia através dos mais
ligeiros indícios. E no mesmo sentido ainda se chamaria perspicaz o detetive
que sabe interpretar as circunstâncias aparentemente mais insignificantes,
delas deduzindo com segurança qual foi o autor de um crime. Difícil seria
imaginar uma profissão ou condição social em que a perspicácia não fornecesse
ao homem os mais inestimáveis recursos para o cumprimento de seus deveres. O
pai de família, o professor, o diretor de consciências precisa discernir em
seus alunos, dirigidos ou filhos, os mais ligeiros sintomas das crises que se
esboçam, a fim de prevenir o que de futuro seria talvez impossível remediar. O
homem de Estado não pode deixar de distinguir, por entre as múltiplas
manifestações de amizade que seu alto cargo suscita, os amigos sinceros dos
insinceros: todo o êxito de sua carreira política está condicionado a esta
aptidão. Os advogados, militares, industriais, comerciantes, banqueiros,
jornalistas, etc., etc., não podem exercer convenientemente suas funções, nem
poupar aos interesses que têm em mãos os mais graves sacrifícios, se não forem
munidos de uma perspicácia hoje mais necessária do que nunca.
A este respeito queremos insistir muito
especialmente: todo mundo tem, em certas circunstâncias, o direito de arcar com
prejuízos que afetem seus interesses individuais. Ninguém, entretanto, tem o
direito de expor os interesses de terceiros. Haverá situação mais ridícula do
que a de alguém que declare romanticamente haver comprometido os interesses de
terceiros que lhes estavam confiados, porque “foi bom demais e confiou
excessivamente na bondade alheia”. “Bom demais”? É realmente ser “bom demais”
sacrificar ao amor próprio de uma meia dúzia de aventureiros os interesses
sagrados confiados à pessoa que assim procura se inocentar? Quem não percebe
que essa “bondade” fora de propósito redundou em uma injustiça cruel para com
os terceiros prejudicados no caso?
Apliquemos na ordem concreta dos fatos estes
conceitos. Um apóstolo leigo que, por “excessiva bondade”, tolera em alguma
associação membros gangrenados nos quais confia infundadamente, e que ocasionam
a perda de todos os outros, não é um traidor que sacrifica cruelmente os
elementos sãos e inocentes aos elementos culpados?
“Se teu pé de escandaliza, corta-o. Se teu olho te
escandaliza, arranca-o”. É esta a máxima do Evangelho. Mas quanta perspicácia é
necessária para perceber a premência de certas amputações! E, no entanto, o
apóstolo leigo que não sabe discernir a oportunidade destes cortes dolorosos,
ou não sabe apreciar a utilidade de tais amputações, não é menos inepto nem
menos perigoso para o laicato católico do que o médico que desprezasse
sistematicamente o emprego dos processos cirúrgicos.
* * *
Não foi outra a razão pela qual Nosso Senhor, além
de recomendar a amputação dos membros gangrenados de qualquer sociedade humana,
falou de modo todo particular contra os falsos profetas e os lobos disfarçados
em ovelhas. Qual a virtude que nos faz evitar os aventureiros arvorados em
profetas senão a perspicácia? Qual virtude que nos leva a repelir o lobo metido
na pele da ovelha senão a perspicácia? E o que de mais triste do que, por falta
de perspicácia, seguir falsos profetas ou abrir o aprisco às falsas ovelhas?
Por isto mesmo Nosso Senhor não se limitou a pregar
a perspicácia, mas deu dela exemplos
insignes e memoráveis. Assim, quando o Divino Mestre denunciava os fariseus, o
que fazia senão estimular a perspicácia de seus ouvintes, desmascarando aqueles
sepulcros caiados, brancos por fora e por dentro cheios de podridão? E,
entretanto, se o “Legionário” dissesse de alguém - de um violador de tratados e
concordatas por exemplo - que é um sepulcro
caiado, quem não afirmaria que além de faltarmos com a caridade estaríamos
cometendo um juízo temerário?
Em torno deste capítulo dos juízos temerários,
quanta teologia de água doce não se tem feito?
É precisamente para desfazer um pouco do ridículo
romantismo edulcorado e pietista, que em torno da
questão do juízo temerário se tem formado, que escreveremos nosso próximo
artigo.