A “HTM”, agência oficiosa do governo de Vichy, comunicou há dias, ao público paulista um telegrama
em que retrata a atual situação de Paris. Depois da catástrofe, um grande e sombrio silêncio se
fez sobre a capital francesa. E, no Brasil, inúmeros têm sido os corações que não pensam sem
angústia e sem amargura no que poderá estar sucedendo nessa cidade à qual estão
tão vinculados os afetos brasileiros.
Assim, pois, o “Legionário” passará a pôr em relevo
os principais tópicos daquele telegrama, tanto mais insuspeito quanto procede
de uma agência que se tem empenhado em pintar com as mais róseas cores que a
realidade permita, a situação trágica da França.
Não é este o lugar nem o momento de se tentar um
processo contra a cultura francesa. É certo que da França nos tem vindo
muitas sementes de corrupção e de impiedade. Seja-nos lícito, entretanto,
narrar a este propósito um episódio significativo. Certa vez, encontrava-se um
Bispo brasileiro, e um dos mais insignes, presentes a um jantar de Prelados
franceses. Durante a refeição, aquele nosso virtuoso e eminente patrício travou
conversa com um Bispo vizinho, no qual comunicou seu pesar pela onda de imoralidade
e de ceticismo que nos vinha da França. E o prelado francês, com aquela finura
cortês que caracteriza o espírito de sua terra e de sua gente, lhe deu a
seguinte resposta: é certo que a França exporta muita coisa lamentável, mas
quem faz as encomendas? Não serão porventura as nações estrangeiras? Com
efeito, a França do século XIX, por exemplo, não produziu apenas um monstro
como Gambetta, um ímpio como Renan, ou atrizes levianas como as que, nas “boites” de Montmartre, escandalizavam
os viajantes do mundo inteiro. Produziu ela também um Luiz Veillot, um Ozanam, um Montalembert, um Lacordaire, e uma rosa de pureza e de candura como Santa Terezinha do Menino Jesus. Se a humanidade inteira, em lugar de se abeberar nas fontes
de talento e de santidade que nunca se estancaram em terras de França, se ia dessedentar nos antros da corrupção ou nas obras dos apóstatas,
de quem a culpa? Só da França?
Quem poderia, por exemplo, ousar dizer que só a Alemanha
tem culpa porque em tantos países do mundo se começa a imitar o Sr. Hitler?
Quem não compreende que o Sr. Hitler não é a Alemanha, que há uma Alemanha heróica
até o martírio, fiel a Cristo até nos maiores sacrifícios, a Alemanha do
Cardeal Falhauber e de Thereza Neumann, que o mundo contemporâneo não imita porque ele abomina o
bem e adora o mal?
* * *
Tudo isto posto, é bem de se ver que Paris cometeu graves
pecados e sofre imensos castigos. A capital da França, da filha primogênita da
Igreja, foi durante muito tempo autora de escândalos sem fim. Ela se circundou
de luzes, e foi chamada a Cidade-Luz. Ela se encheu
de alegrias profanas, e foi chamada metrópole mundial da alegria. Em seus
museus, em seus cenáculos intelectuais, em suas galerias artísticas, ela não
cultuou somente a verdade, a beleza, e o bem, mas pôs seu talento ao serviço do
erro, do mal e da ignomínia. Por isto mesmo, baixou sobre ela uma catástrofe
apocalíptica. Apagaram-se as luzes da Cidade-Luz.
Silenciaram os cânticos joviais de seu povo sempre alegre. Estão desertas suas
escolas, seus museus, suas galerias. Há quem sustente que mãos criminosas já
começam a dispersar os tesouros acumulados durante tantos séculos... Emudeceu o
talento parisiense. A ruína em que está Paris lembra, ponto por ponto, as
grandes desgraças que, na narração do Antigo Testamento, se abatiam sobre
Jerusalém quando ela violava seus deveres.
À cabeceira dessa grande agonia, quantos profetas
se tem acumulado! Na sua maioria são profetas que afetam os sentimentos de dor
de Jeremias apenas para poder mais facilmente recriminar a França e justificar
a ocupação nazista. É o lobo assumindo ares de ovelha...
Não será essa nossa atitude. Reconhecendo embora,
com a tristeza com que os profetas reconheciam a culpabilidade de Jerusalém, que Paris está muito longe de ser uma cidade inocente, é
com o coração pesado de amarguras, que comentamos a desgraça em que caiu. Com
efeito, tinha Paris uma missão histórica na Cristandade. E sua ruína deve por
nós ser chorada como os profetas choravam a ruína de Jerusalém, deixando transparecer
através do pranto as esperanças e o desejo de uma ressurreição.
Se a desgraça de Paris foi merecida, adoremos e
beijemos a Mão Divina que permitiu a punição. Nem por isso, entretanto,
desculpemos aqueles a quem tão grande desgraça se deve. Crer nos desígnios da
Providência não é, por certo, justificar, desculpar, ou ao menos atenuar toda a
gravidade da infração que a desgraça de Paris representa quanto às leis da
moral internacional.
* * *
A que está reduzida essa grande e tão querida
cidade, essa cidade tão maior quanto mais está prostrada sob os golpes
purificadores do sofrimento?
A “HTM” começa por afirmar que “a cidade está menos
triste e a atmosfera menos pesada”. Mais adiante ela assegura que “o
reabastecimento se torna um pouco melhor. Os cartões de carne dão direito à
compra desse alimento, o que não se via desde longo tempo”.
Mas em seguida a agência acrescenta: “Mas, de todo
modo, a miséria é tão grande que as autoridades cogitam de fornecer cartas
profissionais de lixeiros àqueles que vão, todas as manhãs, remexer latas de
lixo. A concorrência de amadores chegou a tal ponto que os velhos praticantes
desse novo ofício resolveram agrupar-se em corporação”. Mais adiante diz a Havas: “nos jardins de Paris são arrancadas as batatas e
colhidos os últimos feijões. O prefeito de Paris acaba de proibir que ponham em
exibição nas vitrines mais de dez pares de sapato por metro linear”, isto
porque “era inútil tentar compradores eventuais para os quais o problema do
calçado se apresenta de forma cada vez mais angustiosa”. Com efeito, o telegrama
esclarece, algumas linhas depois, que se ainda são numerosas as parisienses que
não andam com calçados de sola de madeira “o fato causa admiração”. Causa
também admiração que elas “andem ainda com meias de seda”. Quanto à tristeza,
essa passagem é típica: “Os franceses parecem estar cansados de sair à noite, e
sobretudo de serem obrigados a voltar à casa a pé. Os teatros ou dão peças do
antigo repertório ou continuam os êxitos da estação passada”. Ao que parece,
até os antigos enfeites, guardados no fundo de caixas e baús, se vão tornando
mais raros. Com efeito, “os chapéus são naturalmente diferentes do que eram há
seis meses. Não se vêm mais véus, há menos passarinhos multicolores, menos véus
ondulantes ao vento, mas em compensação peles e penas, e mesmo rendas”. Tristes
e pobres restos das modas passadas...
* * *
Quem não vê aí a enormidade do castigo? Paris, com
seus jardins artísticos transformados em grosseiros pomares, já devastados pela
fome de seus habitantes; Paris com suas ruas escuras à noite, sem tráfego e sem
meios de locomoção; Paris com seus habitantes crescidos à sombra dos castelos e
dos palácios, na frequentação assídua dos restaurantes os mais suntuosos, e
hoje revolvendo as latas de lixo em “filas de amadores”; Paris cujas mulheres começarão
a usar tamancos pois que qualquer sapato de sola de madeira não é senão um
tamanco disfarçado; Paris a cidade da última moda, que exuma agora no fundo das
gavetas as pontas de renda e as penas de passarinhos de outros tempos, a fim de
conservar um pouco de elegância, e um pequeno sorriso mesmo na desgraça, é bem
Paris ferida pela mão de Deus.
Mas se Deus pune assim essa cidade, que punição há,
com isto, para toda a Cristandade! A antiga capital dos Reis Cristianíssimos,
hoje tomada pelas tropas do neo-paganismo! Do alto do
céu, que dirão São Luiz e Santa Joana d'Arc?
Nessa hora de desgraça, não amaldiçoemos Paris, não
batamos palmas aos que a oprimem, não nos acumpliciemos
com os que a desolam. Rezemos por Paris. Se das cinzas dessa terrível
penitência renascer uma cidade convertida, que mais podemos desejar para a
França, que é e será sempre a Primogênita da Igreja?