Vimos, em artigos anteriores, os
graves inconvenientes que para a sociedade em geral, e muito especialmente para
a família, acarreta o vício do jogo. Tanto basta para demonstrar a inteira
procedência dos motivos que levaram o episcopado paulista a protestar contra
esse escândalo permanente que são as faustosas casas de jogo existentes entre
nós.
Não se suponha, entretanto, que é
da índole e espírito da Santa Igreja de Deus, ao tomar atitudes como esta, de o fazer para servir causas outras que a de
Nosso Senhor Jesus Cristo, ou interesses outros que não os da salvação das
almas. Qualquer que seja o entrelaçamento que as questões espirituais possam
ter com as temporais, a opinião católica só vibra, só se move, só se levanta em
prol do que é espiritual, indiferente às repercussões temporais que possam ter
as atitudes por ela assumidas no cumprimento desse dever.
Por isto, precisamente, haveria
erro em se imaginar que só agora nosso episcopado tem seus olhos voltados para
o problema do jogo. Se sua atitude a este respeito foi agora particularmente
desassombrada e enérgica, ninguém ignora que o problema também assumiu agora
uma gravidade sem precedentes. Mas de há muito se vem fazendo sentir neste
particular a ação de nossos bispos.
A este respeito, um dos mais
ilustres membros do episcopado paulista, conhecedor exato e arguto de todas as
nossas atividades políticas e sociais, nos forneceu dados verdadeiramente
curiosos.
Em 1922, apresentou-se ao
Congresso Nacional um projeto de lei regulamentando o jogo. Naquele tempo, o
espírito público ainda estava menos contaminado pela corrupção dos costumes
modernos do que hoje, e o projeto encontrou a oposição franca e decidida de
múltiplos setores da população. Para se ter idéia de quanto eram distantes da
Igreja alguns dos elementos que entravam na liça contra o jogo, bastará lembrar
que a Liga Nacionalista, entidade cuja ação concreta tem sido objeto de tantas
controvérsias, e cujo espírito era a quintessência do laicismo
liberal-democrático, foi das que ergueram mais forte protesto.
Mas em tal coro de protesto nenhum
foi mais nobre, mais autorizado, mais digno que o de nosso episcopado, que fez
ouvir sua voz por meio de SS. Ex.as Rev.mas, os Srs. D. Duarte Leopoldo e Silva,
Arcebispo Metropolitano, D. Epaminondas Nunes de Ávila e Silva, Bispo de
Taubaté, e D. Otávio Chagas de Miranda, Bispo de Pouso Alegre.
Assim, a luta contra a jogatina
não é de hoje. Ela data de há muito tempo, e nem poderia deixar de ser esta a
realidade, já que a doutrina católica sempre condenou o jogo nos termos em que
a condena a recente Pastoral.
* * *
Sem dúvida alguma, o tema que
ocupa na recente pastoral Coletiva o lugar de destaque, quer por ter tratado em
primeiro lugar, quer porque sua leitura mostra a evidência que foi tratado com
calor particularmente ardente, é o jogo. Por este motivo, também nós preferimos
tratar primeiramente do problema do jogo, nos artigos que consagraremos ao
estudo da Pastoral. Com o artigo de hoje damos por encerrados nossos
comentários sobre a matéria.
Entretanto, não quereríamos deixar
este assunto sem acentuar que a linguagem vibrante e, porque não dize-lo, o
látego forte e piedosamente implacável da palavra de nossos Bispos constitui
para os católicos um exemplo cheio de ensinamentos.
Alastra-se e toma foros de opinião
irretorquível a idéia de que a linguagem dos católicos há de ser sempre
almiscarada e adocicada, diluída. Pelo contrário, mostram-nos com seus exemplos
os nossos Bispos que é de outro modo que se deve proceder. Os bons médicos
guardam os melhores remédios para os males mais graves. O mal que mais
preocupou o nosso Episcopado foi indiscutivelmente o jogo. E, para o combate a
este mal, reservou ele os remédios os mais eficazes. Quais? Os da palavras
doces? Os do meios termos medrosos? Não, o da apóstrofe apostolicamente
desassombrada, que se inspira por sua vez no desassombro evangélico de S. João
Batista cujo exemplo a Pastoral lembra tão a propósito.
Diante dos erros e desmandos dos
tempos modernos, não pode ser outra nossa atitude.