Todos os compêndios de história, mesmo os mais
elementares, são acordes em afirmar que um dos grandes fatores da decadência
muçulmana foi a divisão intestina que lavrou entre as
várias seitas em que se dividiram os sequazes de Maomé. Enquanto essas contendas internas estagnaram o surto
maometano, os países ocidentais, levados pelo incomparável fermento de
progresso que só a civilização cristã católica pode dar, se desenvolveram imensamente.
Assim, quando a facilidade dos meios e vias de comunicação, obtida mediante as
invenções do século passado, puseram novamente frente a frente cristãos e
maometanos, a superioridade cultural, econômica e militar dos ocidentais era
manifesta. Agíamos para com os muçulmanos como adultos para com menores de
idade: com desenvoltura, autoridade... e não raras vezes condenável tirania.
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Mas as coisas mudaram muito de aspecto. Os recursos
materiais do Oriente começaram a ter um
papel cada vez mais importante na vida dos povos do Ocidente. E como a guerra
total veio dar caráter marcadamente político às competições econômicas - ou, se
preferirem, caráter marcadamente econômico às competições políticas - dai
decorreu que o papel político do Oriente na solução dos problemas que cindem o
Ocidente passou a ser de primeira grandeza. A intensa militarização do Japão acentuou
singularmente este fenômeno.
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Numa época em que os valores se medem pela força,
os problemas militares, sempre nobres e importantes, adquiriram uma importância
maior do que nunca. Mas a mecanização da guerra tornou todos os conflitos
estritamente técnicos! Vencem os melhores armamentos, admitida igualdade de
valor entre os combatentes. E, como armamentos significa dinheiro, em igualdade
de condições morais vence o mais rico, isto é, o mais bem municiado, o que
estiver dotado de melhores meios mecânicos para o combate.
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Não será difícil, pois, armar de futuro os
orientais com armas ocidentais para que intervenham em nossas lutas, não só com
recursos econômicos imensos, mas já então com armamento perfeito. Valentia não
lhes falta. E tudo isto importa em dizer que a menoridade dos povos orientais
está chegando ao seu termo.
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Do ponto de vista da Igreja, o fato não seria
grave, considerado em tese. A Igreja é Mãe do Oriente tanto quanto do
Ocidente, e nada deseja senão o progresso de todos os povos nas sendas da
civilização católica, com rumo à eternidade. O que lhe interessa é a salvação
das almas. De todas as almas. E isto sem distinção entre o Ocidente e o Oriente.
Mas o fato é que o Oriente ainda é em grande escala
pagão. O Ocidente ainda é em certa medida cristão. O entrechoque das duas
forças ocasionará inevitavelmente um risco para a Igreja.
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E não se sorria. Não nos consola a idéia de que,
imortal, a Santa Igreja jamais soçobrará. Graças a Deus estamos certos disto.
Mas não nos basta que a árvore não caia por terra. Não queremos ver a ventania
quebrar seus galhos majestosos, onde circula como seiva o próprio Sangue de
Cristo. Não queremos ver arrancadas pelo vendaval as folhas outonais, isto é,
as almas tíbias que a todo o custo e até o último instante de nossa vida, até
mesmo com os maiores sacrifícios, queremos salvar. Nosso Senhor, que veio ao
mundo para dar novo vigor ao arbusto partido, quer que reverdeçam as folhas
outonais na árvore da Santa Igreja. Uma só que se desprenda é uma catástrofe
maior do que se o sol se apagasse. O que significa de riscos, de ruínas morais,
de miséria de toda ordem uma hegemonia pagã sobre os escombros do mundo
cristão, só Deus o sabe.
* * *
E não se argumente com a queda do Império Romano e as invasões dos
povos bárbaros, em seguida ao que veio o esplendor da Idade Média. Ter-se-ia
quase a impressão de que a queda do Império do Ocidente foi um bem! Não, foi um
grande castigo, uma imensa e deplorabilíssima
desgraça, que ocasionou à Santa Igreja males sem conta. Ela não morreu, é
certo, mas cresceu de futuro. Nem por isto o que foi castigo deixou de ser
castigo. É este o fato.
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Tudo isto, dizemo-lo para afirmar que o
“Legionário”, pronto como sempre para atender a tudo quanto deseja a Santa
Igreja, vê entretanto com clareza maior do que nunca a importância da obra
missionária, que deve reconduzir à vida da graça os infiéis e pagãos. Não
identificamos a Igreja com o Ocidente. Desde que sejam todos católicos, tudo
estará bem. Mas é absolutamente indispensável que,
enquanto o Oriente não estiver convertido, não se fale nos comentários,
telegramas de jornal, e tratativas referentes à política internacional, na
constituição de grandes blocos pan-maometanos,
pan-hindus, pan-amarelos,
por mais belos e sedutores que sejam estes projetos do ponto de vista temporal.
Teremos consolidado contra nós os adversários de nossa civilização,
estruturando-os politicamente em grandes potências. Vender-lhes-emos armas:
isto é indubitabilíssimo. Introduzi-los-emos em
nossas brigas domésticas: até já o fizemos. Faremos de seus recursos materiais
grande parte da base de nossa vida econômica: nem é possível que procedamos de
outra forma. E quando, conscientes de sua força, eles quiserem estruturar um
mundo novo com o poder que lhes demos, e sem os princípios da civilização
católica, que não lhes demos ou que eles rejeitaram, então será talvez
tarde para abrir os olhos!