O Sr. Oliveira Salazar, chefe do governo português, fez recentemente algumas
declarações que não podem passar sem algumas observações. Disse o estadista
luso que Portugal, mantendo-se, embora inteiramente neutro na presente
conflagração, não queria aderir sem mais exame a qualquer das várias formas de
organização internacional que, segundo os comentários de certos jornais, e
declarações de alguns estadistas, se esboçam para depois da guerra. Com efeito,
disse o Sr. Salazar, é preciso que o desejo de
inaugurar uma cooperação internacional regular e fixa não nos leve ao extremo
de diluir todas as pátrias nas grandes federações européias, asiática, etc.,
planejadas para o futuro.
Nestas declarações do governante português, nem
tudo pode ser aprovado sem reservas. Assim, gostaríamos que o Sr. Salazar quando falou da eminência do perigo comunista,
também tivesse feito as necessárias referências ao perigo nazista. S. Ex.a, foi
ao menos imprudente. A própria estrutura das instituições a que preside
presta-se facilmente a idéia de que ele simpatize com o "eixo".
Ficar-lhe-ia bem, portanto, uma declaração tão incisiva, tão categórica, tão
iniludível, sobre o totalitarismo estatal da direita, que excluísse qualquer
interpretação desfavorável de suas palavras. Estas declarações S. Ex.a não a
fez. Não obstante o “Legionário” considera suas observações a respeito da
futura estruturação do mundo digna de aplauso e estes aplausos ele os dá com
alegria tanto maior quanto é evidente que tudo quanto nos vem de Portugal
encontra em nosso coração de católicos e de brasileiros um eco particularmente
grato.
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As declarações da imprensa sobre o mundo de post-guerra tem sido algum tanto confusas. É possível,
pois, que muitos leitores não as tenham lido com cuidado, e que, assim, não
tenham em mente o plano geral que em certos setores da opinião se esboça.
Digamos, pois, a este respeito, algumas palavras.
O pensamento dominante de todos estes planos
consiste em criar vastas federações de Estados, formadas por povos de tradições
raciais ou culturais, de interesses econômicos e geográficos afins. Cada uma
destas federações formaria uma só entidade diplomática, ou seja, um só organismo
comum dirigiria todas as relações do grupo com as demais. Teria também uma só
moeda. Teria ainda forças militares federais e coletivas. Em suma, seria um
grande super-governo, a enfeixar, conter e canalizar
a soberania e as atividades dos governos federados.
Por sua vez, essas vastas federações - três ou
quatro para o mundo inteiro - teriam um órgão federal que a todas uniria, e que
seria uma nova "Liga das Nações". Mas uma Liga muito diversa da anterior, pois que
enquanto esta se compunha das inúmeras delegações de todos os povos, pelo
contrário, a Liga futura só constará dos representantes das federações.
Evidentemente, o plano pode despertar simpatia
debaixo de certos pontos de vista. Em primeiro lugar, em uma época em que tudo
se "tecnifica", e há organismos
especializados para evitar todos os flagelos desde as epidemias até o
desemprego, pareceria ilógico que não se constituísse um órgão técnico
especializado para evitar o maior e mais monstruoso de todos, que é a guerra.
Em segundo lugar, um fortalecimento dos laços que
vinculam entre si todos os povos poderia tornar mais numerosos e ricos os
benefícios da paz. Cessada a mutua desconfiança, a cooperação seria mais ampla
e mais fecunda. E, como é dela que em ultima análise nasce a felicidade
internacional, parece fora de dúvida que ela trará grandes vantagens à
humanidade.
Entretanto, este é apenas o aspecto brilhante e
atraente do plano. E, digamos assim, seu lado poético. A técnica tem exigências
mais precisas do que a poesia. Tecnicamente considerada as coisas, os
horizontes estão muito menos luminosos do que à primeira vista poderia parecer.
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O primeiro problema salta aos olhos. Para o
progresso da humanidade, para a grandeza espiritual e material do gênero
humano, é preciso que os homens vivam unidos na variedade. Cada povo tem a sua índole
nacional, sua psicologia coletiva, suas tradições próprias. Este fato, que é de
comezinha observação, não existe sem um sábio e amoroso desígnio da Providência
Divina. Mostrá-lo-emos em duas palavras. Consideremos por instantes o mapa da
Europa. Houve tempo em que
cada um dos seus países tinha uma cultura própria, nitidamente individualizada
e distinta dos demais. Cada uma destas culturas, expressão florescente dos feitios
diversos de cada povo, constitui um tesouro. Como teria sido mais pobre a
civilização ocidental e cristã, se todos os povos europeus tivessem tido a
mesma arte, a mesma cultura, a mesma mentalidade! Coordenadas e harmonizadas
essas tendências variegadas, dentro da grande, augusta e substancial unidade de
espírito da Cristandade, ela era, não germe de luta nem fonte de atritos, mas
exclusivamente expressão de pujança, de riqueza, de capacidade criadora.
As condições técnicas do mundo moderno vieram, infelizmente,
criar sérios embaraços à continuidade desta situação. Com efeito, a mentalidade
revolucionária arrastou o mundo inteiro num mesmo turbilhão, e insuflando a
todas as massas a mesma tendência niveladora e destruidora, a mesma monomania
igualitária e iconoclástica, teve como lamentável
conseqüência um desejo desregrado de impor os mesmos hábitos, os mesmos
costumes, os mesmos trajes, a mesma arte, a mesma filosofia, e até a mesma
culinária ao mundo inteiro. O progresso técnico do século XIX, excelente para
dar a todas as verdades como a todos os erros um desenvolvimento célere,
facilitou enormemente o curso desta evolução. E, hoje, nos hotéis de Changai, Lausane, Capetown ou Quebec come-se mais ou
menos as mesmas coisas, dorme-se em quartos arranjados mais ou menos do mesmo
modo, e recebe-se as visitas em salões mais ou menos iguais. Esta uniformidade
não é só nos hotéis: é nos filmes que os cinemas exibem, é na popularidade dos
mesmos atores, na voga das mesmas peças teatrais, na uniformidade do noticiário
telegráfico dos jornais, na freqüência com que os mesmos livros, traduzidos
para todas as línguas, ocupam lugar vistoso nos mostruários das livrarias, na
insistência com que as mesmas modas, elaboradas nos estabelecimentos
ditatoriais das modistas dos grandes centros, imediatamente, encontram
admiradoras dóceis nos quatro quadrantes da terra.
O homem não é tal que um estado de coisas assim
possa subsistir para ele sem grave inconveniente. Quem não perceberá, por
exemplo, que um adolescente que forme seu espírito em pleno sertão goiano ou
paranaense, em contato com a paisagem e o ambiente de nossa terra, mas que ao
mesmo tempo assobia a ultima cançoneta
"yankee", ouvida pelo rádio, comenta com seus amigos o filme chinês
que assistiu, procura realizar em suas maneiras o possível de cortesia
francesa, e lê com entusiasmo as traduções dos autores russos ou alemães, há de
ter necessariamente em sua alma uma multidão de tendências que não chegaram a
se definir, de sentimentos que vagueiam indecisos pelo seu cérebro nos raros
momentos de melancolia e solidão, como sombras fantásticas de uma vida e de um
ambiente que ele não viveu, esta gestação violentamente interrompida de idéias
que morrem asfixiadas no nascedouro por falta de expressão adequada, reprimida
pela moda literária artística ou filosófica do dia? E quem não vê que o homem
que vive assim em um ambiente que não é feito para ele e por ele, mas é
estandardizado para um homem internacional abstrato, que não existe realmente e
concretamente em parte alguma, quem não vê, dizíamos, que esse homem há de
sofrer de um mal estar interior imenso? Quem não vê que se cava assim um abismo
profundo entre as produções artísticas, literárias, cientificas e até as
instituições políticas e sociais formadas nesse ambiente cosmopolítico
e o mundo interior de cada homem que nada tem de ver com isto, que no fundo
detesta isto, e que entretanto, vive sob o jugo disto?
Qual a conseqüência? Na cultura, o artificialismo,
a esterilidade, o menosprezo por todos os frutos da inteligência e o exclusivo
endeusamento dos valores materiais, únicos que realmente ainda afinam com o
homem. Um exemplo: um homem que não encontra na literatura, nem na música, nem
nas belas artes, uma consonância com seu temperamento, aborrece-se de tudo
isto.
Mas ele é homem, e por isto não se aborrecerá dos
prazeres materiais. Resultado: o material dominará inteiramente nele o gosto
pelo intelectual. Na vida social, o agastamento, o nervosismo, a explosão
violenta de desequilíbrios de toda ordem. Na vida política, o desinteresse, a
displicência, o desprezo pelo Estado, considerado não mais a chave de cúpula da
nacionalidade, sua expressão social mais nobre e mais genuína, mas uma
inevitável instituição de utilidade geral, que tem o direito de ser tirânica
como por exemplo as repartições de limpeza pública, mas que não desperta, nem
amor, nem respeito, nem entusiasmo, nem dedicação. Um mal necessário. Um mal
insípido. Um mal desinteressante. Uma máquina tão prosaica quanto um tramway, tão
desagradável quanto uma camisa de força e tão inevitável quanto uma cadeira
elétrica. Em suma, uma acabrunhadora e gigantesca pirâmide de leis,
regulamentos, portarias, editais, decretos, instruções, sentenças, acórdãos,
repartições públicas, organismos para estatais, etc., etc., tudo mecânico,
anônimo, automático, em uma palavra, inumano.
Que produções intelectuais e culturais terá um
homem assim prisioneiro de um mundo que parece mais feito contra ele do que
para ele? Provavelmente a mesma que teria uma sardinha enlatada viva.
Não é preciso ser observador muito arguto para
compreender até que ponto estas vastas federações estatais acentuariam este
fenômeno absorvendo todos os regionalismos sadios e
deformando o mundo. Porque a cultura e a civilização são obra do homem. E
quando o homem vive oprimido, contrafeito, subjugado pela ditadura cultural do
cosmopolitismo, ele mingua, definha, se deforma e finalmente decai.
Não podemos, católicos que somos pactuar, com esse
mal. Ou as federações futuras tomarão isto em conta, e terão um espírito e uma
estrutura radicalmente diversa da que ora se delineia, ou assimilarão a ruína
da humanidade.
Veremos em outro artigo os demais aspectos da
questão.