Continuando
em nossos comentários a respeito da recente alocução do Santo Padre Pio XII,
cujo texto integral temos a satisfação de dar hoje a nossos leitores, queremos
analisar a oportuna afirmação do Pontífice de que no mundo contemporâneo os
próprios fundamentos se encontram abalados. São as seguintes as palavras do
Vigário de Cristo: “toda a sociedade, em sua estrutura complexa, precisa ser
reparada e melhorada, porque estão trincados os seus próprios alicerces”. Esse
conceito merece meditação.
* * *
O
Santo Padre fala em alicerces. Logo, a sociedade é comparada por ele a um
edifício. O que de mais grave pode ocorrer a um edifício do que ter abalados os
seus próprios alicerces? Que uma parede esteja trincada, que toda uma parte do
prédio rua por terra, tudo isto é lamentável, mas muito menos do que uma trinca
no alicerce. Porque enquanto os danos parciais, por mais extensos que sejam,
continuam sempre parciais, a fratura dos alicerces representa dano completo. É
o mal supremo. Significa a iminência das mais terríveis catástrofes.
Em
outros termos, pois, o Santo Padre Pio XII afirma que a sociedade contemporânea
está afetada de um mal de suprema gravidade, e que, a despeito do brilho de sua
civilização material, ela está exposta à ameaça da mais completa ruína.
Pio
XI já teve idênticos conceitos sobre o mundo moderno. Referindo-se ao perigo
comunista, o Santo Padre declarou que ele ameaçava precipitar a humanidade em
um estado pior do que tinha antes da Redenção. E em outro documento o Santo
Padre, assombrado pela contemplação das desgraças presentes, declarava que já
tinha chegado o tempo de se indagar se não estávamos na época tremenda em que o
aparecimento do filho da iniquidade haveria de subverter inteiramente a
civilização cristã, e arrastar o mundo para as angústias e as catástrofes que
precederão o fim do mundo. As palavras de Pio XII não são senão um eco das que
teve seu imortal antecessor. Umas e outras demonstram o quanto a sociedade contemporânea
está afastada da lei de Nosso Senhor Jesus Cristo.
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Não é estéril esta reflexão.
Quanto maior o mal, tanto mais heróico o remédio. Na eminência de catástrofes
tais, e diante de um panorama de tal maneira sombrio e carregado, os
verdadeiros filhos da Igreja devem redobrar de zelo e ardor apostólico. Com
efeito, se tivéssemos um conceito otimista do mundo contemporâneo, poderíamos
talvez dedicar-nos menos ao apostolado. Mas, desde que chegamos a tais
extremos, é absolutamente patente que todos aqueles que querem ser verdadeiros
filhos da Igreja Católica devem multiplicar seus esforços e sacrifícios, a fim
de que, pela dilatação do Reino de Cristo e exaltação da Santa Igreja, Deus
seja glorificado e o mundo contemporâneo ainda possa ser salvo dos desastres
que o espreitam. Não achamos que o lúgubre do espetáculo que temos diante de
nós nos deva apavorar. Pelo contrário, deve exaltar-nos. E chamar a atenção
para a situação tristíssima em que o mundo presente se encontra, não é fazer
obra de desânimo e dispersão, mas, pelo contrário, estimular os incautos e
arregimentar os retardatários. A sentinela, quando toca o clarim, não tem por
fim fazer fugir, mas dar o toque de reunir para a luta. É o que devemos fazer.
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Mas ainda existe a este propósito
um outro problema muito importante. Se o mundo contemporâneo está de tal
maneira em perigo, não quer isto dizer de modo algum, que tudo quanto nele há
seja mau. Sem falar no progresso material, que pode ser utilizado de modo
censurável, mas que em si mesmo é um bem, também do ponto de vista intelectual,
e até do ponto de vista moral, nem tudo no mundo contemporâneo é mau. E a
Igreja, sumamente justa e cautelosa, jamais poderia tomar partido por um certo
pessimismo sombrio e incondicional, que indistinta e colericamente atirasse o
anátema em tudo quanto hoje existe.
Está precisamente aí um dos
aspectos mais curiosos da questão. Como vimos, nem tudo, portanto, é mau no
mundo atual. E, não obstante, podemos ver com nossos próprios olhos, e aceitar
com base nas afirmações solenes dos Pontífices que este mundo, que não é
inteiramente mau, está desabando. Desabando porque os próprios alicerces estão
trincados neste edifício onde mais de uma parede é bela e sólida. Ou seja que,
em lugar de nos extasiarmos incondicionalmente com o que o mundo atual tem de
bom, devemos admitir pelo contrário que este bem, louvável em si aliás, é
apenas um bem acessório, secundário, acidental. E que defeitos profundos e
irremediáveis trincam todo o edifício da sociedade atual.
É isto muito importante. Com
efeito, isto nos ensina que os católicos não podem aplaudir sem reservas nem
sequer aquilo que no mundo atual é bom. Aplaudindo-o, devem ter sempre presente
ao espírito a convicção de que aplaudem coisas insuficientes por si mesmas para
fazer do mundo atual um mundo bem organizado e cristão. Ou, em outros termos,
que tudo quanto aplaudem é, no fim, uma bagatela em comparação com o que
deveriam censurar.
E esta consideração tem, por sua
vez, muita importância. Com efeito, mostra ela que os católicos, para sua
própria formação interior, precisam ter o máximo cuidado de não aceitar
desprevenidamente as idéias e preconceitos correntes [...]. Ao lado de muita
coisa boa, entra muita coisa má.
De tal maneira o mal supera,
submerge e abafa hoje o bem.