Em toda a tragédia, há um
"que" de cômico. É o que se dá com a queda do fascismo. Mussolini teve admiradores em todos os quadrantes
ideológicos e geográficos do mundo. Entretanto, a se fazer hoje o recenseamento
entre os não italianos dos que sempre viram que o fascismo daria no que deu,
ter-se-ia a impressão de que Mussolini só teve
adversários e detratores. Temos vontade de sorrir. Se fôssemos contar a
história dos inumeráveis tropeços que encontramos em nosso caminho quando
apontávamos claramente o grande bluff que foi a política religiosa do fascismo!
Enfim, o “Legionário” combateu o
fascismo não para se arrogar a gloriola de dizer em
dias como os de hoje que foi previdente. Não tivemos outro intuito senão servir
a Igreja. Os fatos estão a demonstrar que a servimos bem. Louvemos a Deus por
isto e continuemos a trilhar nosso caminho, dispostos hoje como ontem a
arrostar as incompreensões, as dificuldades, os ataques de toda ordem,
largamente recompensados desde que conservemos sem mancha o estandarte católico
que conduzimos em nossas mãos. Quando os arquivos do regime fascista vierem a
lume, e quando se disser com toda a clareza o que o fascismo foi,
compreender-se-á com uma evidência meridiana que a
opinião católica não poderia deixar de ter, em relação ao regime fascista, a
atitude discrepante sempre seguida e apontada pela clarividente sabedoria da
Santa Sé. E os jornais católicos que, como o “Legionário”, tiverem sabido
manter viva e nítida a linha demarcatória entre a
doutrina católica e o totalitarismo, constituirão o melhor argumento contra os
exploradores que já hoje se levantam, acusando a opinião católica de haver
pactuado com regimes de opressão e tirania sistemática.
* * *
Uma das acusações que com mais
freqüência se nos fazia era que faltávamos com a caridade em relação aos
regimes totalitários, mantendo contra seus princípios e contra seus dirigentes
uma campanha tão perseverante. E o “Legionário” sempre retrucou que nenhum
rancor, nenhuma malquerença pessoal, nenhum parti-pris contra qualquer país,
influenciava sua atitude. Como éramos enérgicos, taxaram-nos de violentos.
Chegou o momento de mostrarmos com atitudes e não simplesmente com palavras,
que a acusação era descabida.
Sempre distinguimos o regime
fascista ou nazista, da Itália ou da Alemanha. E, mesmo no mais forte de nossa
luta contra a ditadura dos camisas negras ou dos camisas pardas, sempre
timbramos em afirmar que os católicos italianos e alemães, membros como nós da
Santa Igreja Católica, nos mereciam o mais acendrado amor.
Recentemente, o Santo Padre Pio
XII publicou uma Encíclica sobre a doutrina do Corpo Místico de Nosso Senhor
Jesus Cristo.
Se bem que o Sumo Pontífice tenha
denunciado importantes erros que circulavam nesta matéria, é evidente que a
doutrina do Corpo Místico (como aliás também uma formação litúrgica
realmente escoimada dos erros que o Papa denuncia),
assenta em fundamentos de indiscutível solidez na Escritura e na Teologia, só
pode ser louvada e aprovada pelo Pontífice. E é muito oportuno que lembremos, a
este propósito, que os horrores da guerra atual não destroem
esta grande verdade: o Corpo Místico de Cristo é a Igreja Católica e, de um
como do outro lado das trincheiras, todos os fiéis de Jesus Cristo continuam
sendo membros de um mesmo corpo sobrenatural. Assim pois, para nós católicos,
não pode haver lugar para preconceitos contra este ou aquele país, ódios contra
este ou aquele povo. Os vínculos sobrenaturais que nos unem são mais fortes do
que as razões naturais que nos desunem. Não procuremos ver, no desmoronamento
do regime fascista, e no próximo desabamento do regime nazista, motivos para
malsinar este ou aquele povo. O Brasil está em guerra contra o eixo. A esta
guerra, ele foi forçado por uma agressão tão brutal quanto gratuita. Lutaremos,
pois, valorosamente até que a honra nacional seja desagravada. Não nos
esqueçamos, entretanto, de que fomos agredidos por duas cliques de políticos que oprimiam seus respectivos povos, e que
portanto ao marcharmos com as nações aliadas para os campos de batalha,
marchamos para a libertação dos povos oprimidos pelos ditadores do eixo. As
proclamações de Churchill e Roosevelt são
precisamente neste sentido. Nosso intuito não é humilhar, nem injuriar, nem
oprimir, mas libertar!
* * *
Sem prejuízo, pois, da energia de
nosso esforço bélico, não nos esqueçamos de que o espírito que deve presidir às
negociações de paz deve ser um de equidade e de benevolência, que repare as
injustiças e compense os prejuízos, mas que deixe a cada povo um lugar honroso
à luz do sol, e condições suportáveis de existência. E, para isto, é preciso
que o desarmamento psicológico preceda ao próprio desarmamento militar.
Estaremos à altura de nossas tradições de católicos e de brasileiros, imprimindo
à vitória à qual nos associaremos um caráter tão altamente benigno e cristão. E
o caminho para isto consiste em evitar a respeito dos acontecimentos qualquer
atitude capaz de despertar ressentimentos indeléveis e rancores sem fim. No
momento em que os louros da vitória se aproximam de nossa fronte, lembremo-nos
de que devemos continuar a combater com denodo para os merecer inteiramente,
mas que não os devemos desdourar com sentimentos menos nobres. Energia e
magnanimidade são as duas virtudes do momento.
* * *
Muito de indústria, mencionamos
também a energia. Com efeito, devemos evitar extremos. A guerra ainda não está
ganha. Ainda resta muito por fazer. No que resta, o Brasil tem uma parte
importante de sacrifícios e de esforços. Não devemos passar de um extremo a
outro, e relaxar nosso esforço bélico. Nem devemos, sob pretexto de
magnanimidade, deixar incompleta a vitória, permitindo que perdurem depois da
guerra resquícios de totalitarismo no mundo. Precisamos ter a lógica de nossas
atitudes. Se nos levantamos para destruir uma ordem de coisas, destruamo-la até
os fundamentos. O grande perigo da paz que se aproxima de nós é que poderá ser
como a de Viena. Como ninguém ignora, o grande congresso de soberanos reunidos
na capital austríaca para organizar a Europa depois da queda de Napoleão e dar
por encerrada a Revolução Francesa, de fato consagrou muitos dos frutos da
Revolução, e foi uma verdadeira consolidadora de
vários dos erros e desastres de 1789. Sob a capa da Santa Aliança, procurou-se
fazer uma impossível combinação de princípios de direito público
revolucionários e católicos. Joseph de Maistre, figura para sempre venerável no coração de todos
os ultramontanos, a que pertencemos, disse que a
Santa Aliança era obra do demônio. E tinha razão. Graças à atmosfera do
Congresso de Viena [1815], a Revolução não morreu. O totalitarismo precisa
morrer. Não caminhemos, pois, para a despreocupação, a frivolidade, a efêmera
alegria de um novo Congresso de Viena!