A Ação Católica e as missões
foram, indiscutivelmente, as duas grandes preocupações do pontificado de Pio
XI. A respeito destes dois temas de tão grande importância para os católicos do
mundo inteiro, o “Legionário” tem hoje mais uma palavra que dizer. Alvissareira
quanto à Ação Católica – comentamos o assunto na seção 7 Dias em Revista – ela
é de apreensão para as missões. Não somos festeiros, e, por isto, daremos
sempre aos assuntos que inspiram cuidado maior lugar do que aos que causam
júbilo. A Igreja é militante: por isto a redação dos bonitos boletins de
vitória deve causar aos católicos muito menos preocupação do que a análise dos
movimentos e manobras do inimigo. Em matéria de boletins de vitória, contentar-nos-emos com o do dia do Juízo Final. Por ora,
tratemos mais de vencer do que de comentar as vitórias obtidas. E, por isto,
consagramos nosso artigo de fundo, não a um belo triunfo da Ação Católica, mas
a uma nova investida do neo-paganismo contemporâneo
contra as missões.
* * *
Já temos acentuado em vários
artigos que a gentilidade pagã que vive fora da luz
do Evangelho e da civilização católica, no Oriente e sobretudo no Extremo-Oriente, está cada vez mais pronunciadamente
mudando de atitude perante os povos ocidentais de civilização cristã. Há vinte
anos atrás, os cultos pagãos do Oriente pareciam afetados por uma irremediável
ancianidade. Viviam, apenas da tradição, ou melhor da rotina. A ignorância
popular mantinha em torno deles vastas massas de fiéis. Mas todos os dias a
intelectualidade mais se distanciava de tais cultos, e a própria atitude das
massas fazia prenunciar com toda a clareza o dia em que, elas também, se
destacariam de seus velhos ídolos para abraçar definitivamente a Cruz do Redentor.
Os cultos pagãos eram envergonhados. Os que os professavam sentiam aquela vaga
confusão que experimentam os adolescentes surpreendidos quando ainda brincam às
escondidas com seus soldadinhos de chumbo. Eles mesmos sentem declinar dentro
de si o atrativo de tais folguedos. Sabem que a idade destas coisas já passou.
É para atender apenas a inclinações bruxuleantes de
um estado de coisas que já passou que às vezes brincam um pouco. Com isto,
sabem que voltam para um passado morto. Eles mesmos sabem que amanhã nada mais
disto restará em seus corações. É assim que há vinte anos atrás o Oriente
tratava seus velhos ídolos. Pode-se imaginar com que facilidade este estado de
coisas favorecia a expansão missionária. Hoje, este estado de espírito passou.
E as missões estão contando com dificuldades crescentes.
Com efeito, o vento gélido de
nacionalismo pagão que soprou sobre a Europa totalitária estendeu-se até o
Oriente. Se a adoração do solstício, ou de velhos
deuses germânicos de eras passadas podia reviver na Alemanha, por que se
envergonhariam os japoneses, os chineses, os hindus, os árabes, de suas antigas
crenças? Daí uma revivescência do paganismo em todo o Oriente, um paganismo
insolente, agressivo, xenófobo e com ares racistas, que determinou para as missões
na Índia, na China e no Japão insuperáveis dificuldades, de que em artigos
anteriores já temos falado. [...] A desunião do Islã foi uma das grandes causas
de sua decadência. A reunião dos Estados Árabes será evidentemente a
constituição de um outro vasto bloco político e ideológico oriental anti-católico, que cobrirá desde Tânger até as Índias uma
enorme faixa de terra, novamente agrupada em torno do Islã. Neste sentido, uma
notícia da Reuters chega a informar que “a futura
Federação dos Estados Árabes no Oriente Próximo constitui matéria de
entendimentos privados em Alexandria entre o ministro egípcio Nahas Pachá e o general Nusisaid, do Iraque. Diz-se que, se as conversações tiverem
êxito, uma conferência árabe poderá realizar-se no Cairo no próximo inverno. Os
países que podem eventualmente participar da federação são o Egito, a Síria,
Iraque, Líbano, Transjordânia e Arábia”.
Evidentemente, por prudência, não se mencionam as imensas populações muçulmanas
da Índia, que, entretanto, tenderão para esta confederação. É este mais um
bloco poderoso que se cria, impermeável, ou quase tal, à penetração católica no
Oriente.
* * *
No
momento em que tantos problemas assediam o Santo Padre, é certo que sua
vigilância pastoral não perderá de vista mais este grave perigo. Nossa
obrigação não consiste em desanimar, mas em lutar e rezar. Lutar com o Papa e
rezar pelo Papa. Neste mês do Coração Imaculado de Maria, que é o modelo
perfeito de todos os corações católicos, e o canal de todas as nossas preces,
supliquemos ardentemente à Mãe do Céu que tenha pena da humanidade, e, para a
glória e exaltação da Santa Igreja, assista continuamente o Sumo Pontífice,
auxiliando-o a vencer as dificuldades tão críticas e tão numerosas que a cada
momento toldam seus horizontes.