“Atrair todos os elementos supra citados (do clero
e da A.C.) para a obra social e multivaria da
caridade cristã, em socorro de todas as necessidades físicas ou morais do nosso
próximo, sem distinção de cor, de raça, de nacionalidade ou de classe”. É este
um dos itens mais importantes do plano de ação do novo Arcebispo de São Paulo.
“Socorro das necessidades físicas ou espirituais”:
é bem este o conceito das obras de misericórdia que Nosso Senhor ensinou ao
mundo, e que a Santa Igreja vem realizando ininterruptamente através dos
séculos. Todo o espírito da Igreja é feito de contrastes fecundos, que se desenvolvem
em uma divina harmonia. Durante a Idade Média, viajava pela Europa um potentado
muçulmano, feito prisioneiro pelos guerreiros feudais, defensores da Fé. Encontraram-no um dia muito pensativo, e aos
que lhe indagaram o motivo respondeu: “não posso compreender como constróem
monumentos tão altivos esses homens tão humildes”. Almas humildes, construtoras
de obras divinamente altivas, eis bem genuinamente representadas nesse traço as
almas resgatadas pelo precioso Sangue de
Nosso Senhor Jesus Cristo. Aparentemente entre a humildade e a altivez há uma
contradição. O mundo pagão não compreendia essa contradição, e uma das
acusações que os romanos faziam aos mártires era precisamente que sua Religião
glorificava a baixeza. Eles não sabiam que admirável sementeira de almas
altivas eram aquelas escuras e misteriosas catacumbas, em que patrícios e
escravos, grandes e pequenos, se confundiam em torno dos altares, aprendendo de
Jesus Cristo o segredo da humildade e da altivez que Ele nos deu em sua vida
terrena tão adoráveis exemplos. “Christianus alter Christus”, e a
humildade do cristão, ou a altivez do cristão, não é senão um reflexo da
altivez e da humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Outro contraste que o mundo não compreende, e que
entretanto é tão harmônico e fecundo quanto o da altivez e da humildade do
verdadeiro cristão, é o da doçura e da combatividade. Se o árabe de que falamos
observasse a vida dos Santos, esbarraria por certo neste mistério, e diria
deles: “não posso compreender como almas tão pacíficas são tão belicosas, como
almas tão belicosas podem ser tão pacíficas”. É que no Catolicismo tudo é amor,
e mesmo quando, por necessidade, e imitando a Nosso Senhor, alguém empunha o látego que há de fustigar os erros
do século, fá-lo por amor. Fá-lo por amor, e fá-lo com amor. A combatividade
cristã tem o sentido exclusivo de legítima defesa. Não há para ela outra
possibilidade de ser legítima. É sempre o amor de alguma coisa ofendida que
move o cristão ao combate. Todo combate é tanto mais vigoroso quanto mais alto
for o amor com que se combate. E, por isso mesmo, não há, no católico,
combatividade maior do que aquela com que ele luta pela defesa da Igreja
ultrajada, negada, calcada aos pés. Por que combate ele? Para defender os
direitos das almas que se quer arrancar à Igreja. Para manter livres e
desobstruídas as portas de acesso que devem permitir aos eleitos de Deus a
aproximação de Sua Igreja. Para abater a insolência da impiedade, e para
exaltar a Santa Madre Igreja. Para estas coisas é que se deve bater o católico.
E, quando, esgotados um a um, pacientemente, irremediavelmente, todos os meios
pacíficos, o católico se ergue com o valor de um novo Macabeu,
incendido em zelo pela Esposa de Cristo, ele bem pode dizer que em toda a sua
combatividade só há uma coisa: amor.
Abandonemos este quadro, e, em vez de olharmos para
o guerreiro cristão, olhemos para a irmã de caridade. Ela que, docemente, se
aproxima do leito em que agoniza um doente repugnante. É para ela um
desconhecido, em que ela vê entretanto um membro do Corpo Místico de Cristo,
que é a Santa Igreja Católica. E, por isto, aproxima-se dele cheia de
sobrenatural ternura, desata os panos que ocultam a hediondez de suas chagas, e
recebe em pleno rosto, mais forte do que nunca o odor terrível das carnes em
putrefação. No rosto da irmã de caridade, a impassibilidade é completa. Ela
olha para as chagas como se fossem pérolas, respira o odor da podridão como se
fosse perfume. Sabe Deus que terríveis repugnâncias
ela está esmagando no seu interior, e que luta tenaz, violenta, titânica ela
tem de desenvolver para não abandonar o lugar de sacrifício em que Nosso Senhor
Jesus Cristo a quer! Quanto amor, dirão os que atentarem apenas para a placidez
de seu semblante e de seus gestos.
Quanta combatividade, dirão os que forem mais
penetrantes, e desvendarem o tumulto da luta interior diante da qual a Religião
não cede! Quanto amor naquela combatividade! Quanto combatividade neste amor!
Combatividade e amor, se o mundo contemporâneo
pudesse compreender como se harmonizam essas virtudes, como se precisa amar até
o que se combate... e combater com as duas mãos até o que por vezes se ama ternamente por mais de um título justo, como estaria
diversa a face da terra!
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É para as santas pugnas da caridade cristã, pugnas
interiores que aumentam em nós os mananciais de amor, pugnas exteriores,
vitórias tanto mais jubilosas quanto mais pacíficas, porque Cristo é o Rei da
Paz, mas em todo caso vitórias que não se desdouram com a energia e não perdem
seu lustre se a luta aberta tiver sido o único meio para as conseguir – é para
as santas pugnas da caridade cristã que nosso Arcebispo nos conclama.
Olhando de longe para seu rebanho espiritual, Dom
Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota tem palavras de
ternura e compaixão que são um eco da exclamação divina: “misereor super turbam - tenho pena desta multidão”. E como tem razão! Pio XII, na alocução magistral que recentemente publicamos, diz
que é preciso ter um heroísmo comparável ao dos mártires para praticar com
fidelidade e esmero a Religião em nossos dias. Assim, pois, as grandes cidades
modernas são verdadeiros lugares de luta e tormento para os “christi-fideles”
de nossos dias. No luxo dos salões aristocráticos, no conforto dos ambientes burguêses, na calma das classes pequeno-burguesas,
na simplicidade das camadas operárias, na crua indigência das classes pobres,
em tudo isso se ocultam hoje terríveis tentações, cuja vitória custa e custa
muito, custa sofrimento espiritual que é o sangue da alma. É preciso correr,
voar em auxílio destas almas que sofrem para se manterem fiéis a Nosso Senhor
ou para se aproximarem dEle. Toda a demora é uma derrota, nesta tarefa, e toda
negligência um crime. Por isto, Dom Carlos Carmelo de
Vasconcelos Mota conclama uma verdadeira cruzada para a salvação de tantas
almas aflitas, em nossos dias.
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Mas isto não basta. Não basta fazer aceitar às
almas o jugo duro e suave da moral cristã. É preciso ainda consolar os que
sofrem misérias físicas de toda ordem. Para que relembrar o quadro doloroso que
temos sempre diante dos olhos, os hospitais repletos que rejeitam doentes por
falta de espaço, as pessoas doentes que definham por falta de dinheiro para
aquisição de remédios caríssimos, as pessoas sãs que vão imergindo lentamente
no estado de doença por excesso de trabalho necessário para a manutenção da
família, ou por falta de alimentação? Por que relembrar com terror as inúmeras
pessoas que, sem Fé nem horizontes espirituais, arrastam na sombra de suas
casas ou premidas nas paredes dos hospitais uma vida de desespero e de revolta?
Tudo isto corta por demais o coração, e tudo isto ainda não é tudo. Existe o
problema da infância, da infância inocente, da infância promissora, da infância
que o ambiente deletério das grandes cidades torna tão cedo miserável e
pecadora. Como bem acentua nosso novo Arcebispo, muito já se tem feito entre
nós neste sentido. A Cidade dos Menores da Liga das Senhoras Católicas é simplesmente uma maravilha. Mas.... quanto
ainda há por fazer! E se de todos temos pena, que especialíssimo
lugar ocupa em nosso coração a infância que Jesus Cristo tão entranhadamente amou!
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É preciso muita caridade. Mas as palavras de nosso
Arcebispo são muito nítidas: do que precisamos é de caridade cristã, e não
simplesmente de uma filantropia qualquer.
Por que? Simplesmente porque sem a Igreja de Jesus
Cristo não há caridade verdadeira. Não negamos que possa haver almas que vivem
fora da Igreja, em nossa civilização atual, e que fazem bem ao próximo. Elas
possuíram a Fé, e essa Fé que perderam deixou nelas um vago perfume, como o que
fica no vaso de que retiramos as rosas. São essas as palavras do grande Pio X. Mas, de fato, a caridade ou é cristã ou não existe, e o
cristianismo, ou é católico, ou é uma falsificação.
E, no catolicismo, qual o maior foco da caridade? A
contemplação da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. É na meditação minuciosa
do que sofreu o “Homem das Dores”, é na rememoração afetuosa e constante
daquele em que “do alto da cabeça até a planta dos pés não havia um só lugar
que fosse são”, é tendo diante dos nossos olhos dia e noite aquele que sob a
mão violenta de seus adversários foi desfigurado a ponto de ser “um verme e não
um homem, o opróbrio dos homens e escárnio do povo”, que nosso coração se
dilata para a comiseração para com os próximos. Revendo em todo o sofrimento um
sofrimento do próprio Cristo, em toda a chaga uma chaga de Cristo, remediando todo sofrimento, curando toda
chaga, como se debruçássemos nossa alma amorosa sobre tanta dor, como se
aplicássemos com nossos próprios dedos à chaga de Cristo o bálsamo confortador,
é com este meio, que verdadeiramente teremos a virtude da caridade. Narra a
História que antes de Cristo não havia hospitais nem instituições de caridade.
Foi uma católica, Fabíola, quem fundou o primeiro hospital. De lá para cá, quantas
obras de caridade se tem fundado! De onde nasceram? Das Chagas santíssimas de
Nosso Senhor Jesus Cristo pregado na Cruz. É da Paixão de Cristo que nasceu o
reconforto de tantas criaturas sofredoras.
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Mas não é só. O melhor bálsamo
para as dores humanas não é o remédio, é a compaixão. Compaixão, “com-paixão”, é o sofrimento em união com o próximo, só
porque o próximo sofre. É o reflexo dos sofrimentos alheios em nossa própria
alma. Como fazer brotar do coração humano, tão frio, tão duro, tão egoístico, a flor da compaixão? Pela meditação da Paixão de
Cristo. As almas saturadas dessa meditação sabem verdadeiramente condoer-se do
próximo. Só elas têm em seus gestos bastante ternura, em sua voz bastante
sinceridade, em seu procedimento bastante discreção,
para destilar na alma sofredora do próximo o remédio inigualável da compaixão.
Se da Paixão de Cristo brota a misericórdia, brotam
as obras de misericórdia, brota a consolação, que jaculatória mais adequada
para todos os que se aprestam a atender à grande mobilização da misericórdia
cristã, que Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota
promoverá, senão esta: “passio Christi, conforta me”?