Com celebrações que se generalizarão em todo o
país, o Brasil católico festejará, no próximo dia 21, o
jubileu episcopal do eminente prelado que representa entre nós o Vigário de
Jesus Cristo. Vivemos em um mundo oprimido pelo erro, dilacerado pela luta. Bom
é que desviemos por alguns instantes os nossos olhos do quadro lancinante que
de todas as partes rodeia nosso país, para considerarmos a edificante e
harmoniosa concórdia de toda a imensa grei brasileira, festejando nos vínculos
da Caridade aquele que representa entre nós a Cátedra da Verdade. Arrancamo-nos
assim ao tumulto destes tristes dias, e nos preparamos para celebrar condignamente o Santo Natal que se aproxima.
A Fé pode ser chamada, segundo a bela expressão de Dante, luz intelectual cheia de amor, amor cheio de todo bem. O
verdadeiro amor nasce, na Igreja, da consideração atenta e inteligente da
Verdade, por meio do qual a vontade se orienta para o Bem, e nele se firma, e
não na exaltação artificial e desordenada da sensibilidade. As luzes da Fé são
cheias de amor. E esse amor é cheio de todo o bem.
Assim, pois, se queremos prestar nosso apagado
concurso ao maior esplender desses festejos, lembremos, de modo embora sucinto,
os múltiplos motivos que tornam o Sr. Núncio Apostólico credor das numerosas
manifestações de que será alvo.
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A Sagrada Escritura compara freqüentemente a Igreja
a um rebanho. Ora, o rebanho é o conjunto formado pelo Pastor e pelas ovelhas.
A grande lei constitutiva do rebanho é que o Pastor esteja unido às ovelhas, as
ovelhas ao Pastor. Do contrário, o rebanho se dissolveria. Na medula de todo
coração católico deve encontrar-se pois o sentimento fundamental de um
ardentíssimo e exatíssimo apego ao Vigário de Jesus Cristo, Pastor visível da
imensa grei cristã. Nossa perseverança na Fé resulta precisamente dessa vontade
eficaz de estarmos unidos àquele que é a coluna da Igreja, a âncora da
salvação. Ser católico é estar unido ao Papa. Quanto mais se está unido ao Papa tanto mais se é
católico. Deixar de ser católico é romper com o Papa. Onde está o Papa, aí está
a Igreja – “Ubi Petrus, ibi Eclesia”. Logo, só está
com a Igreja quem está com o Papa. Ora, só está com Cristo quem está com a
Igreja. Logo, só está com Cristo quem está com o Papa.
Essas verdades teológicas têm na História uma grave
confirmação. O LEGIONÁRIO publicou, há alguns anos atrás, o estudo de ilustre
teólogo europeu sobre a causa por que as cristandades
da África setentrional desapareceram tão
rápida e completamente, sob a opressão dos povos bárbaros. Sua resposta foi que
essas cristandades viviam unidas sem dúvida a Roma,
viviam entretanto de uma união pesarosa, superficial, cheia de reticências para
com os Sucessores de Pedro. E, disse aquele teólogo, a História nos mostra que
só resistem às grandes catástrofes os povos fortemente unidos ao Papa. Unidos
ao Papa de uma união jubilosa, profunda, meticulosa. De uma união dos filhos
com seu Pai, de uma união cheia de entusiasmo, de dedicação, cheia de santo
júbilo de viver na casa paterna. E não da união bruxoleante,
cheia de tédio e de malquerença, com que mal suportava o jugo paterno o filho
pródigo que se apressava a reclamar seu quinhão e desertar do lar em que
nascera.
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Compreende-se, pois, que a Santa Igreja tenha
multiplicado os meios de vincular à Cátedra de São Pedro todos os povos fiéis.
Em primeiro lugar, cercando a autoridade episcopal de toda a grandeza e força
que lhe pertence por divina instituição. São os Bispos, por excelência, os elos
de ouro que prendem todos os povos à Cátedra de São Pedro. E, em segundo lugar,
multiplicando sábia e suavemente os meios de contato da Santa Sé com todas as
nações. Por isto, a Santa Sé dissemina por toda a face da terra essas
magníficas milícias que são as Ordens Religiosas, direta e imediatamente
subordinadas ao Papa para proclamar por todo o mundo, na sua mais cristalina
pureza, a doutrina de Jesus Cristo e aos ensinamentos de seu Vigário. E, em
terceiro lugar, por meio dos representantes que a Santa Sé envia a todas as Cristandades do orbe, a fim de serem a emanação mais
próxima e mais direta do pensamento e do coração do Vigário de Cristo.
Esses são os Núncios, os mensageiros, os
representantes que a Santa Sé costuma delegar junto aos governos e povos, como
meio de tornar mais vivo, ágil, constante, normal, o contato do Papa como os
vários rebanhos que constituem sua imensa grei.
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À vista do que ficou dito, não é
difícil aquilatar a gravidade e nobreza das funções de um Núncio Apostólico. Se
a união com Roma é a condição de toda a fecundidade da vida espiritual de um
povo; se essa união, para ser plenamente fecunda, precisa ser diligente,
cordial, filial; se a perfeição da vida espiritual de um povo é não só a melhor
garantia de sua eterna salvação, como de sua grandeza temporal, compreende-se
tudo quanto significa de responsabilidades, de encargos, de preocupações, a
tarefa dos Núncios cujo ofício principal é proteger, estimular, incrementar de
todos os modos essa união.
E como, na Santa Igreja, o “ônus” e o “honor” andam sempre a “pari passu”, a
Santa Sé tem adornado da maior dignidade os seus Núncios Apostólicos.
Primeiramente, pelo caráter episcopal que lhes costuma conferir. Sucessores dos
Apóstolos, irmãos pela Ordem, de todos os Bispos do mundo, cercados de
privilégios canônicos relevantes, realçados pelas prerrogativas diplomáticas de
que gozam na quase totalidade dos povos civilizados, os Núncios Apostólicos são
verdadeiros dons de Deus, presentes da Igreja aos povos da terra, igualmente
dignos do amor de Deus e dos homens.
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Nada de mais terrível para esmagar um homem do que
a disparidade entre a eminência de suas funções e a insignificância de seus
predicados. O povo tem, por vezes, olhos de lince para discernir desde logo
essas desproporções. Na galeria dos soberanos que a
História qualifica de ineptos, muitos há que seriam homens de uma envergadura
acima da mediana se vivessem a vida de particulares. Não eram pequeninos.
Fê-los parecer tais a desproporção entre o que deveriam ser por suas funções, e
o que de fato foram. Desde 1927, o Exmo. Revmo. Sr.
D. Bento Aloisi Masella vem exercendo suas
altas funções no Brasil. Por muitas transformações tem passado nosso país
durante esse tempo. Mudaram-se homens e as instituições. O panorama político,
social, econômico, cultural de nossa pátria tem passado sucessivamente pelas
mais fundas e repentinas mutações. Nossa vida religiosa se tem desenvolvido de
modo superior a toda a expectativa. De todos os lados, multiplicam-se os
problemas. Entramos em franca adolescência nacional, numa terrível época da
História. Entretanto, a figura do Núncio Apostólico, sempre nobre, sempre
austera e veneranda, sempre discreta, pairou acima de tudo, mantendo intacto o
prestígio e a autoridade do Vigário de Cristo, na massa da população
brasileira, desenvolvendo com imensa amplitude os quadros do Brasil católico, e
representando junto ao nosso governo, com o coração de verdadeiro amigo do
Brasil, a Santa Sé Apostólica. É esta sua grande, sua esplêndida vitória de
diplomata consumado, de homem de Igreja à altura dos maiores “homens de Estado”
contemporâneos.
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Oriundo de
família nobre, o Exmo. Revmo Sr. Núncio Apostólico
tem, na fidalguia do porte, na nobreza das atitudes, na despretensiosa e
singela elevação de maneiras, todas as características de um gentil-homem de
genuína fidalguia. Nascido na Itália, pátria por excelência dos
diplomatas ágeis, observadores subtis, S. Excia. Revma.
se formou por um longo tirocínio, na diplomacia da Santa Sé, famosa em todo o
mundo, ao mesmo tempo pela impecável elevação de seus propósitos e pela alta
sabedoria de sua conduta. Inimigo de atitudes espetaculares, e de propaganda em
torno de sua pessoa. O Exmo. Revmo. Sr. Núncio
Apostólico tem, entretanto, desenvolvido em nosso país um trabalho intenso, de
que é índice muito significativo a multiplicação do número das Dioceses. Muito
ativo, não há aspecto de nossa vida religiosa que não o interesse, ou que
escape à sua ação. Na tranqüilidade veneranda dos amplos salões da Nunciatura,
um visitante de primeira vista poderia ver o quadro normal de uma vida
brilhante e despreocupada. Nada menos real. Aquela tranqüila dignidade que
convém a todas as coisas nobres e grandes, se alia a uma operosidade de todos
os instantes, estimulada pelo “zelo de todas as Igrejas”, que dia e noite não
dava sossego ao Apóstolo.
Certo Bispo comparou uma vez a Nunciatura a um ponto
de convergência para onde se dirigiam todos os problemas espirituais do Brasil.
O Exmo. Revmo. Sr. D. Bento Aloisi
Masella sente o peso desta dura cruz. Mas quem o
visita, por seu acolhimento bondoso e paternal, por sua ininterrupta
jovialidade, pela serenidade inabalável com que considera as mais difíceis
situações, pode medir bem a envergadura excepcional desses homens que carregam
essa Cruz com o espírito de conformidade com uma continuidade de energia, de
força e de desvelo, que só as personalidades muito e muito relevantes possuem
como especial dom de Deus.
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Por quanto tempo o teremos? Por que lançar a sombra
desta preocupação na alegria destes dias de festa? Por certo, a Santa Sé atrai
a si os valores que se destacam no serviço da Igreja. No ápice da carreira
diplomática – pois que o Brasil é considerado Nunciatura de primeira classe –
com tantos anos de imensos labores, personalidade brilhante sob tantos
aspectos, o Exmo. Revmo. Sr. Núncio Apostólico tem
certamente voltados para si, de modo muito direto, as vistas augustas do
Soberano Pontífice. Existe pois o perigo – “perigo”, sim, perdoado o que tem de
egoístico esta expressão filial – de que de um
momento para outro a Igreja o chame para tarefas ainda maiores. Mas não
pensemos nisto. Tudo quanto ele fez o leva para o alto, e desprende de nós...
mas nos prende a ele. É uma situação por demais complexa para ser vista por
olhos de filhos. Fechemos os olhos a este problema, e gozemos tranqüilamente
estas horas de júbilo do dia de hoje.