Nas investigações policiais, a qualité-maitresse, consiste em
certa subtileza especial, certo faro particularmente fino, para perceber,
analisar e combinar os indícios. Toda investigação tem esta marcha. Vai do
absolutamente misterioso para o lusco-fusco dos indícios, e, à força de finura
e perspicácia, dilacera os véus dos indícios para penetrar na plena claridade
das provas e das certezas. As histórias policiais regurgitam de episódios
novelescos, em que esta qualité-maitresse
dos detetives de fibra opera maravilhas em benefício da humanidade. Um pouco de
cinza de cigarro, de pó de arroz ou de batom, serve para que o investigador
arguto chegue a desvendar os mais intrincados e tenebrosos mistérios.
Isto que é muito conhecido, se funda no principio
filosófico irrepreensível da correlação entre a causa e o efeito. Todo o fato
tem sua causa. Assim, dado um fato, pode-se imaginar em geral um certo número
de causas de que possivelmente ele tenha resultado. Forma-se deste modo uma
série de hipóteses possíveis. Se, dentro destas hipóteses, uma há que sirva
para explicar simultaneamente vários indícios, ela deixa de ser possível para
ser provável. As diligências abandonam pois as hipóteses restantes, para se concentrarem
nela. Estudando-a, chega-se em geral a descobrir circunstâncias tais que dão à
hipótese o valor de prova. E assim fica feita a demonstração.
Este princípio que é básico nas investigações
policiais, também o é nas conjecturas políticas. Supondo na opinião pública,
nas correntes políticas, nos homens de Estado, na imprensa, nos círculos de
responsabilidade do mundo intelectual, social e financeiro, um mínimo de
lógica, não é difícil perceber qual a tendência fundamental que orienta a
generalidade de seus atos. Conhecida esta tendência, que resume as convicções
ideológicas, as aspirações e os interesses de cada pessoa ou grupo, não é
difícil conjeturar a posição de cada qual diante deste ou daquele problema.
Traçado com isto um grande quadro geral, é muito fácil perceber em cada gesto,
cada palavra, cada atitude deste ou daquele político, os móveis mais profundos.
E, assim, o observador atilado forma uma certa imagem de conjunto dos
acontecimentos, das situações e dos problemas, que poderá estar errado em um ou
outro pormenor, mas que dificilmente o estará em sua totalidade. Da riqueza,
objetividade e flexibilidade deste quadro depende quase todo o valor do
político.
Mas o funcionamento deste método de investigações
tem como pressuposto que os elementos que figuram em certo jogo político tenham
uma compreensão estável em seus princípios e interesses, que tenham com certa
perseverança para os realizar, e que, em linhas gerais, pelo menos, possuam
certa lógica de idéias e conduta. Se isto não se dá, se a substância humana
está tão degradada que a coerência desaparece do quadro político, se os homens
já não tem convicções nem compreendem seus interesses racionais e profundos, se
eles se guiam tão somente pelo ritmo incerto dos instintos, neste caso, qualquer
conjectura é impossível.
É precisamente neste caso que nos encontramos, quer
na política nacional, quer na política internacional. Onde estão os princípios?
Onde está a coerência? Onde está a continuidade? A confusão - uma confusão
compacta em que tudo muda mil vezes de forma, de cores sem deixar de ser a cada
instante mais confuso e perseverante na confusão - domina por toda a parte. E,
assim, o jornalista que pode, em épocas comuns, prever até certo ponto os
acontecimentos e orientar seus leitores, hoje em dia não o poderá fazer.
Um exemplo. Escrevo este artigo ao meio dia de
sexta-feira. Nos jornais da manhã li que a situação está novamente inquieta na
Itália, e que na França as greves aumentam.
Os reservistas há vários dias foram convocados. Correm boatos de greve na
polícia. Tropas marcham na zona francesa de ocupação para o centro do País. À
tarde, o que lerei? E o que saberão pelo noticiário internacional os leitores
do LEGIONÁRIO, quando este artigo chegar a lume? Mais uma vez, as notícias procedentes da
Itália e da França têm parecido alarmantes, e depois se desfazem como nuvens.
Ninguém pode dizer ao certo se se trata em certa
medida de exagero dos jornais, ou de movimentos políticos reais. Nesta segunda
hipótese, ninguém percebe também, se se trata de um ilogismo provocado pelas confusões espasmódicas de
pós-guerra, ou se há nisto alguma infernal tática de confusão, levada a cabo
com maestria por alguma força interessada. O fato concreto, absoluta e
terrivelmente concreto, é que ninguém sabe, ninguém pode saber o panorama que
teremos diante dos olhos amanhã. Abstenhamo-nos, pois, de predições. Vamos à
análise. Esta tem de jogar por força com as duas hipóteses únicas: ou estoura a
guerra civil na França, ou não.
Se a situação na França degenerar em guerra civil,
devemos notar antes de tudo que dificilmente ela não se alastrará pela Itália.
Os dois grandes países latinos vivem de uma mesma seiva histórica e cultural.
Os seus problemas políticos e ideológicos se interpenetram. Os líderes de suas
correntes políticas mantêm um ativo contato por sobre as fronteiras e os Alpes.
É quase impossível que a guerra civil na França não traga como conseqüência a
guerra civil na Itália, e vice-versa. Evidentemente, os guerrilheiros franceses
ou italianos filiados ao Partido Comunista só terão passado da luta política à
luta militar por injunção do governo de Moscou. Isto implica em dizer que Moscou terá desejado a guerra
e a alimentará com todos os seus recursos. Por si só, o governo francês ou o
italiano não terá, nesta quadra, forças suficientes para resistir à pressão
russa. Apelará para os americanos. E, assim, estaremos em plena guerra mundial.
Que espécie de guerra mundial?
Há uma guerra mundial do gênero da espanhola de
1935, em que o mundo inteiro combateu dentro de um país, escolhido para campo
de batalha, e o resto do globo continuou em paz. Há a guerra mundial do tipo da
de 1914 ou 1938, em que o mundo inteiro combateu, em todos os continentes.
Teremos uma fase de lutas circunscritas à França e Itália, que degenerarão em
seguida em guerra mundial? Ou teremos clara e diretamente a guerra mundial em
todos os continentes e todos os fronts? Mais uma vez, quem pode prever tudo isto, neste
inferno de confusão, desfaçatez e incoerência, que é o mundo de hoje?
* * *
Se não tivermos guerra mundial, é
porque na França alguém terá jugulado o surto comunista. Quem será o domador? Schumann? De Gaulle? Em outros termos, a
democracia representativa ficará com os louros da vitória? Ou ela dará provas
de insanável fraqueza e será substituída por outro regime? Que “outro regime” é
este, com que nos acena o general De Gaulle? O problema é imenso. A França
continua a ser o crisol em que se definem as tendências ideológicas do mundo
inteiro. Se ela fracassar na França, fracassará por toda a parte. Até as bases
da estátua da Liberdade nos EE.UU. estremecerão. E,
neste caso, qual o rumo que tomará o mundo anticomunista?
Ainda uma vez, quem pode prever tudo isto?
Admitamos uma outra hipótese. Schumann
continua no poder. O comunismo continua uma oposição forte e perigosa,
atravancando toda a vida civil do país. Neste caso, a crise se desatará por
força – todas as crises se desatam, ainda que seja para a morte – dentro de um
futuro remoto. A França que daí resultar será uma França esgotada, desgastada,
enervada, enlouquecida. Quanto tempo durará sua volta à normalidade? E voltará
ela à normalidade?
Mais uma vez, concluímos: quem o pode prever?