Entre os inúmeros e eternamente infrutíferos
ataques dirigidos à Igreja Católica, os mais violentos, os mais arrebatados e mais
declaradamente contrários ao Cristianismo nem sempre são os mais maldosos, nem
os mais perniciosos.
Quanto mais o mundo desliza pela rampa terrível da
sensualidade e do desregramento total das paixões, quanto mais os homens se
libertam das leis santas da moral, para se escravizarem ao jugo pesadíssimo dos
vícios, tanto mais fascina o olhar humano, desiludido por tantas desgraças e
tantas esperanças desenganadas, o brilho inconfundível da imaculada pureza da
Igreja.
Em vão o jato lodoso dos sofismas se tem
arremessado contra Ela, em vão têm investido contra sua estrutura o furor cego
de todos os ódios criminosos, de todos os caprichos insensatos. Sempre altiva,
sempre invencível, a Igreja vai assistindo à morte de todos os adversários que
pretendiam matá-la, a Ela!
Os efeitos do insulto
que não se diz, mas que se insinua, da calúnia que [não] se arremessa ao
contendor, mas que se embebe silenciosamente no espírito público, de uma
tolerância aparente, que é a caricatura da justiça, são como a neblina que
vence imperceptível e brandamente onde os elementos revoltados, em luta
declarada, fracassaram deploravelmente.
Isto tudo nos veio ao espírito quando vimos,
publicado no “Estado de S. Paulo”, um artigo assinado por “Pierre Mille” e
intitulado Os Padres e o Casamento.
Tanto para nós quanto para o público em geral, o
Sr. Pierre Mille não é conhecido
senão através dos artigos que habitualmente publica no “Estado”.
Ao ler seu último artigo, veio-me ao espírito uma
questão: quem será o Sr. Mille? Algum moralista pundonoroso que, escandalizado
pelos desmandos de alguns sacerdotes, parece advogar a abolição do celibato
eclesiástico? Alguma vestal da literatura moderna, a
manter com suas mãos puríssimas sempre aceso o fogo sagrado da moralidade
pública?
Não, informa-nos cruelmente um pequeno dicionário
bibliográfico. Não, trata-se apenas de um autor de diversos romances reputados
imorais, sobre cujo valor literário, aliás, o dicionário mantém muitas
reservas...
Não quero entrar na discussão dos fatos citados
pelo Sr. Mille. Não disponho, para isto, dos elementos necessários, porquanto
não tenho fontes seguras junto às quais me informar com absoluta certeza.
Alguns sacerdotes franceses aqui residentes disseram-me que conheceram de nome
os padres Gratry e Pereyve. Do primeiro, disseram-me que, salvo engano, havia até um
processo de beatificação no Vaticano, o que faz supor, é claro, que os fatos
apontados pelo Sr. Mille são inexatos. Quanto ao segundo, trata-se de um
sacerdote de grande valor intelectual, sobre cuja moralidade os padres com que
me informei nada sabiam de mau.
São, no entanto, informações pouco seguras, porque
nenhum dos informantes deu-me certeza a respeito do que declarava.
Quanto aos outros dois padres mencionados pelo Sr.
Mille, nem de nome os conheceram meus informantes.
Repito, portanto, que não discuto os fatos, não
porque os tenha como provados e indiscutíveis, mas sim porque me faltam
elementos para uma discussão.
O que critico principalmente no artigo do Sr. Mille
é que: 1º) tratando de um assunto como “os
padres e o amor”, e reproduzindo um escritor que ele qualifica de
respeitoso, só trata dos delitos de amor dos padres, e não faz a menor
referência ao número imenso de padres que não cometem semelhante delito e antes,
pelo contrário, edificam o mundo com sua virtude; 2º) tratando dos delitos de
amor dos padres, fá-lo de tal modo que quase os justifica; 3º) cita a respeito
do celibato eclesiástico na América Latina fatos inverídicos, e a respeito do
Oriente fatos confusamente relatados que, por isto mesmo, podem originar
opiniões desfavoráveis à Igreja.
Nada de mais justo do que a primeira de minhas
queixas. Efetivamente, uma pessoa que, ao se referir a um dever de uma classe
numerosa como a classe sacerdotal, cita somente as infrações cometidas a esse
dever, sem fazer uma única ressalva em abono dos inúmeros indivíduos que o
desempenham magistralmente, pratica uma deslealdade.
Que diriam os leitores se, referindo-se alguém ao
segredo profissional que os médicos são obrigados a guardar, mencionasse
somente os lastimáveis e poucos casos que há de violação do segredo?
Dir-me-iam que era uma deslealdade iníqua.
Pois bem, o mesmo digo eu do Sr. Mille.
Não menos procedente é a segunda queixa.
Efetivamente, dos quatro sacerdotes, aquele a quem ele mais justifica foi
exatamente quem levou mais longe sua aberração. É o que se casou civilmente,
fazendo questão de que constasse do registro civil sua qualidade de sacerdote
católico. É o escândalo voluntário, depois do crime; é a prova da inexistência
de qualquer remorso, do inteiro naufrágio das virtudes sacerdotais. É o insulto
ao sacerdócio que abraçara, a ruptura brutal com o passado santo. É Satanás,
depois de Deus.
Os outros, apresentados apenas como vítimas do draconianismo da Igreja, não são colocados na qualidade de
infelizes renegados, dignos de compaixão e de desprezo, mas sim de homens de
bem que satisfizeram aspirações inocentes.
Vem, por fim, a última de minhas críticas. O Sr.
Mille afirma que, na América Latina, é permitido aos padres o casamento. Não
hesito em responder categoricamente: É FALSO. Desafio o Sr. Mille a citar com
exatidão o decreto de 1900 que autorizou tal situação para os sacerdotes na
América Latina, e em que termos está contida tal autorização.
Quanto ao Oriente, o que se deu foi o seguinte:
efetivamente, alguns padres de certos ritos orientais, que regressaram à
unidade católica reconhecendo todos os pontos da Fé e sujeitando-se à
autoridade papal, impuseram a condição de conservar
seus ritos, isto é, de celebrar suas cerimônias religiosas com solenidades e
ritual diferente, bem como o de se ordenarem depois de casados.
Note-se a restrição: o sacerdote solteiro, uma vez
ordenado, não pode mais contrair matrimônio. Mas uma pessoa casada pode
ordenar-se depois de ter fundado família. Como nota o próprio Sr. Mille, há aí
uma questão de disciplina, em que a Igreja transigiu com alguns orientais para
evitar uma ruptura, como transigem todos os bons pais nas questões onde a
tolerância justa e não contrária à moral lhes pode conservar o afeto dos
filhos. Mas esta autorização não é “para
os sacerdotes do Oriente”, em geral, mas só para os sacerdotes de alguns
ritos orientais, pouco numerosos, e dos quais só podem fazer parte os que já
nasceram na região onde o rito é permitido.
Finalmente, mais uma
circunstância: estranho que o “Estado de S. Paulo” - jornal que se mostra tão
curioso de assuntos religiosos (...), jornal portanto que não é indiferente ao
problema religioso, e que seria de se supor que tivesse pelo Catolicismo um
interesse ainda maior que pelo hebraísmo, ao qual tanto se dedica - permita
que, através de suas colunas, se procure atestar um fato tão notória e
escandalosamente [falso].
Não quero supor que o “Estado”
ignore que nossos sacerdotes católicos estão, na América Latina, proibidos de
se casar... (...).
Finalmente, uma observação: por que buscar na
calúnia e na maldade armas com que combater a Igreja?
É porque não podendo, apoiados na ciência, quebrar
este brilhante fulgurantíssimo, que é a Igreja
Católica, o bafo quente e destruidor da calúnia tenta, com perversidade, soprar
sobre Ela, para lhe empanar o brilho.
Nota - Depois de concluído
nosso artigo, soubemos que devem chegar em breve, da França, pedidos por um
sacerdote, esclarecimentos relativos aos quatro padres de que falou o Sr.
Mille. Segundo tudo indica, de dois deles, “ao menos”, só constam atos de
virtude, sendo que oportunamente daremos aos leitores as provas do que
afirmamos.