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Catolicismo
e civilização
Por toda a parte onde ela se faz sentir, a ação da
Igreja é eminentemente civilizadora, em suas diversas manifestações. Ao mesmo
tempo que o Cristianismo invadia a Alemanha com São Bonifácio,
também entrava com ele, nos matagais selvagens da Teutônia,
a civilização greco-romana. E o mesmo sopro de Cristianismo que varreu da
Germânia agreste os fantasmas inconsistentes de sua antiga mitologia, varreu
também para longe a selvageria e a crueldade que caracterizavam as implacáveis
hordas de bárbaros que assolavam constantemente as divisas do Império Romano.
E esta verdade não é apenas européia, desdobra-se por
todo o universo. Nenhum transatlântico altivo pode singrar em demanda do
Oriente, ou da América, sem que a sombra dos antigos missionários católicos lhe
relembre que, antes da ganância do mercador, o ardor do apóstolo percorrera os
mesmos caminhos, enfrentando as mesmas dificuldades, removendo os mesmos
obstáculos e vencendo pela doçura e pela pregação as mesmas gentes que os
mercadores iriam vencer pelas armas e pelo sangue. Nossa Rua XV de Novembro, em que vibra toda a
civilização americana, na vida agitada dos bancos ou na futilidade das vaidades
femininas, é com razão o orgulho dos paulistas.
É preciso, porém, que, a todo o custo, esta injustiça
cesse. Nossa época deve ser sobretudo uma época de reparações, em que
procuremos ligar novamente as coisas às suas raízes verdadeiras. E a maior das
reparações, a mais urgente - a única, em última análise - é a reparação [para]
com a Igreja. Muito se fala de nosso progresso. O século XX, que foi
na sua primeira década uma comédia, transformou-se bruscamente em tragédia
longa e sangrenta, que está longe de ter chegado a seu fim. Ainda uma longa série de lances dolorosos nos separa
do desenlace fatal da luta de tantos elementos que se chocam hoje em dia. E,
como em todo o ambiente verdadeiramente propício às tragédias, podemos
distinguir em nossa época grandes vícios.
Nossa civilização material é soberba. O homem
conquistou os ares, e pôde perscrutar os segredos do fundo do mar. Suprimiu as
distâncias. Voou... Nossas fábricas têm aparelhos que podem fazer vergar como
alfinetes as mais possantes barras metálicas. No entanto, nossa mentalidade padece precisamente do
mal contrário. Em vez de vergar as barras de metal, como se fossem alfinetes,
sente-se a alma do homem hodierno fraca em relação aos alfinetes dos menores
sacrifícios morais, como se fossem barras de metal. Nossas aspirações são desencontradas. Como crianças
que brincassem em uma sala de visitas, os homens quebram hoje, inconsciente e
estupidamente, os últimos bibelots e jóias que nos
restam da nossa verdadeira civilização. A mecânica é utilizada para a destruição e para a
guerra. A química não interessa somente aos hospitais, mas às fábricas de gases
asfixiantes. Os tóxicos não têm apenas uso de laboratório; alimentam também os
vícios de uma geração inepta para a vida, que procura evadir-se da realidade
nas regiões sempre novas do sonho e da fantasia. A máquina, depois de ter devorado
as tradições do passado, devora atualmente as esperanças do futuro. A produção
já não condiz com o consumo. Tudo se desajusta, tudo se desagrega. E o homem de
nossos dias começa apenas a perceber que, ao lado dos frutos amenos de uma
civilização material rica em confortos requintados, também brotam os frutos
amargos de um sibaritismo levado ao auge pelas
próprias armas que a civilização forjou. Desiludido de tudo, o homem de hoje (ao contrário do
que sucedia em princípio do século XX) já não pinta mais o progresso, em seus
quadros alegóricos, como uma mulher envolta em uma túnica grega com um facho
luminoso nas mãos, a quebrar os grilhões do passado, dirigindo-se, com o olhar
radioso de esperanças, para o futuro cheio de promessas. Só nas folhinhas e nas estampas de nosso princípio de
século tal ingenuidade conseguiu encontrar lugar. Hoje, estas alegorias
aparatosas foram relegadas ao olvido. E se alguém quisesse representar
exatamente nossa época, deveria antes pintá-la como uma criança a chorar espavorida
ante os pedaços de um vaso de porcelana que quebrou, e que não sabe mais
consertar. Chegou o momento de indagarmos [a respeito] das
verdadeiras causas de tal desastre. É chegada a ocasião de esquadrinharmos
novamente a História, não como um pasto para fantasias e utopias liberais, mas
como laboratório em cujos fatos e acidentes, como em retortas e alambiques, se
elaborou o presente. E chegou o momento em que nós, católicos, devemos
proclamar e demonstrar a grande verdade da qual nos provém, como de fonte
única, a salvação: o progresso, na sua acepção moral mais elevada, e nas suas
manifestações materiais legítimas, provém diretamente da Igreja. O cortejo de
vícios, de erros, de torpezas que ele arrastou atrás de si, proveio de um
verdadeiro retrocesso à barbárie, que se processou na Renascença. E isto porque
a Renascença foi bárbara, como é bárbara a condição primitiva de vida dos hotentotes. Efetivamente, é uma tendência essencial à
civilização tornar cada vez mais perfeita a vida das coletividades humanas. Bárbaro, portanto, e incivilizado, é o homem que não
governa seus instintos e que se torna, assim, inapto para a vida social. Que
esse desgoverno de instintos se cubra com as rendas e sedas dos sibaritas, ou que ostente somente a tanga dos polinésios ou
dos havaianos, há nisto apenas uma questão de cenário. Mais civilizada seria
uma nação sem rendas nem sedas, sem bondes nem telégrafos, mas na qual a
moralidade reinasse, do que uma Sodoma eletrizada em todas as suas
manifestações vitais, mas apodrecida em todo o vigamento de sua estrutura
moral. O alicerce de toda civilização é a moralidade. E
quando uma civilização se edifica sobre os alicerces de uma moralidade frágil,
quanto mais ela cresce, tanto mais se aproxima da ruína. É como uma torre que,
assentando-se sobre alicerces insuficientes, ruirá desde que chegue a certa
altura. Quanto mais se sobrepõem uns andares a outros, tanto mais está próxima
sua ruína. E quando os escombros que entulharem a terra tiverem demonstrado a
fraqueza do edifício, certamente os arquitetos de torres de Babel invejarão a
casa de largos alicerces e de número limitado de sobrados, que desafia as
intempéries e zomba do tempo. O trabalho que a humanidade tem efetuado desde o
século XIV consistiu em enfraquecer os alicerces e aumentar o número de
andares. A Igreja, que pôde atuar livremente até o século XIV,
trabalhou em sentido contrário: alargar os alicerces para, mais tarde, edificar
sobre eles, não o monumento vão de um orgulho temerário, mas o fruto possante e
admirável da prudência e da sabedoria. Os alicerces que ainda hoje suportam o peso imenso de
um mundo que desmorona são obra da Igreja. Nada é realmente útil sem ser
estável. E o que ainda hoje nos resta de estável e de útil - de CIVILIZAÇÃO em
suma - edificou-o a Igreja. Pelo contrário, os germens que ameaçam nossa
existência nasceram precisamente da inobservância das leis da Igreja. Este é o
diagnóstico irrefutável da sociologia católica, que devemos denodadamente
defender. Um dos fatores característicos de nossa desordem
ambiente (e, portanto, de nosso anticatolicismo, pois
que o Catolicismo e a ordem se identificam) é a existência de males opostos e
antagônicos que, infelizmente, em vez de se destruírem reciprocamente,
mutuamente se agravam. Assim, por um lado, o excesso de preocupações
científicas gerou em nossos dias um cientificismo abusivo. Por outro lado, a
incapacidade intelectual cada vez mais acentuada do homem hodierno produziu uma
decadência da espiritualidade geral, verdadeiramente funesta em todas as suas conseqüências. E entre estes dois extremos, nascidos do paganismo, o
Catolicismo quer introduzir a solução equilibrada, e portanto Católica, de uma
cultura racional sem ser racionalista, e suficientemente generalizada para
impedir a bestialização progressiva das massas. Para a Igreja, a ciência não é um fim em si. Como tal,
perde [a ciência] a soberania que lhe quis atribuir o racionalismo, para se
dobrar às suas finalidades naturais e lógicas, isto é, ao conhecimento, por via
da razão, de todo aquele conjunto de problemas que interessam à vida do homem. É a restrição que a Igreja impõe ao cientificismo
desabrido. Desaparece, assim, o direito que o liberalismo confere aos
pseudo-cientistas, de se emboscarem atrás de falsos princípios científicos para
fazerem do saber um privilégio de desordeiros, e da intelectualidade uma
alavanca de destruições e anarquia. Mas, por outro lado, uma certa dose de cultura e
instrução, que atualmente anarquiza o mundo, é requerida como condição
essencial para a conveniente formação espiritual e moral do homem. E nesta tarefa nos cabe, a nós, católicos, o dever de
pugnar nas Congregações [Marianas] pela elevação do nível moral e intelectual
da mocidade, exposta hoje a tantos perigos, contra o cientificismo, que
pretende separar a razão da Fé.
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