Piedade II
“O
Legionário”, N.º 123, 2 de julho de 1933
A graça na
vida espiritual
Em meu último artigo, criticava o erro de certos
católicos que vêem na vida piedosa uma série de atos de cortesia praticados em
honra de um Deus indiferente ou distante, ou uma mera expansão sentimental de
temperamentos exaltados.
Este erro funestíssimo
provém, em parte, da ignorância que se nota sobre o papel da graça na vida
espiritual.
É ensinamento católico, do qual não podemos dissentir,
que, sem o auxílio da graça, o homem não pode perseverar por muito tempo no
cumprimento integral dos Mandamentos, e que, sem ele, é-lhe impossível pronunciar
sequer, devotamente, o Santíssimo Nome de Jesus.
O homem toma todas as suas deliberações e forma todos
os seus propósitos, servindo-se exclusivamente de suas faculdades intelectuais
e volitivas. Assim, por exemplo, fazer uma viagem, resolver um negócio, comprar
um livro, etc., são atos que dependem somente da vontade e da inteligência do
homem. A esta regra, porém, não obedece a vida espiritual, em que intervém um
novo fator, que é a graça.
A graça sobrenatural é um auxílio que Deus dá
gratuitamente à alma, para a sua salvação. A graça pode ser, pois, uma luz
especial concedida por Deus à inteligência, que lhe faculta a penetração clara
das verdades necessárias para a salvação, ou um auxílio dado à vontade, para
que vença os obstáculos que a distanciam do bem percebido pela inteligência.
Sem esta iluminação, pois, ou este auxílio, é
impossível a prática completa e prolongada da virtude.
Este auxílio, Deus no-lo dá de forma tal que possamos
aceitá-lo ou rejeitá-lo livremente; a graça não destrói, portanto, o livre
arbítrio. Mas ela constitui um dom absolutamente gratuito de Deus, que a alma
recebe sem que nada tenha feito para o merecer. Daí decorre a necessidade
absoluta da prece humilde e confiante, em que o homem pede as graças
necessárias para seu aperfeiçoamento espiritual.
A oração nos aparece, pois, ao cabo destas
considerações, como elemento indispensável para o aperfeiçoamento moral do
indivíduo.
A graça não tem, no entanto, como único veículo a
oração particular. A Igreja também canaliza para seus filhos as graças
sobrenaturais de que necessitam, através dos seus Sacramentos e do valiosíssimo
recurso de sua oração oficial e do Santo Sacrifício da Missa, cujo valor
exporemos em outro artigo.
Temos, pois, demonstrado que o progresso espiritual
exige a oração. Por sua vez, demonstraremos agora que [a piedade] constitui uma
aberração monstruosa, e quase sacrílega, quando desacompanhada do desejo
sincero de um grande aperfeiçoamento espiritual.
Os favores se medem pelos benefícios que nos trazem.
Os dons de Deus que nos auxiliam a conquistar uma felicidade precária neste
mundo são, pois, imensamente menores do que os que Ele nos dá para
conquistarmos a felicidade eterna. A desproporção entre os dons perecíveis e os
imperecíveis é a que existe entre as almas, criadas para a eternidade, e os
objetos materiais que o tempo destruirá.
Nestas condições, o católico é devedor de graças
inapreciáveis, cuja rejeição constitui a alma ré de um delito que a torna
abominável aos olhos da Justiça Divina.
A alma pecadora, que rejeita a graça, não está, pois,
em estado de apresentar ao Criador atos de adoração, reparação, ação de graças
ou louvor que lhe sejam agradáveis. Enquanto do altar em que se queimava o
sacrifício de Abel subia um fumo que se elevava ao Trono de Deus, o fumo do
sacrifício de Caim não se elevava no ar. A única
oração feita pelo pecador, e que seja realmente agradável aos olhos de Deus, é
o pedido sincero de que lhe dê forças para empreender seriamente a reforma de
sua vida.
Um dilema, portanto, se nos impõe: ou a alma se serve
da piedade como meio de aperfeiçoamento espiritual, e nesse caso o progresso
espiritual deverá ser tão real quanto for intensa e séria a piedade, ou esta
será apenas uma pieguice sentimental, detestável aos olhos de Deus e dos
homens, ridícula aos olhos destes e quase sacrílega aos olhos daquele. Outro
dilema também se impõe: ou a alma pede as graças necessárias para seu
aperfeiçoamento espiritual, ou ela se verá reduzida às suas próprias forças, e
portanto derrotada pela primeira tentação que a assaltar.
Sem progresso espiritual, não há verdadeira piedade.
Sem piedade, não há verdadeiro progresso espiritual.