De um amigo vindo dos Estados
Unidos, ouvi, certa vez, uma pormenorizada descrição de um passeio empreendido
em uma terrificante montanha russa de um Luna Park newyorquino qualquer. E seu coração
de provinciano paulista perdido na grande City ainda pulsava apressadamente,
com a simples narrativa dos perigos corridos na diabólica montanha russa. Ora o
carro se embrenhava por um túnel inquietante cheio de ecos infernais, ora era
vertiginosamente atirado para uma grande altura, de onde caía de cheio em
abismos devoradores, graças a um alçapão sorrateiro que o passageiro só notava
ao ser deglutido pelo vácuo.
Finalmente atingia-se um parque maravilhoso e,
quando o viajante já se julgava chegado ao termo, o carro que o conduzia sofria
um forte solavanco, caindo em novos precipícios e sendo arrastado para as novas
torturas em que se desdobrava o infindável suplício.
A leitura das últimas notícias dos jornais me tem
feito lembrar a descrição ingênua do meu amigo provinciano. Que significam
estas greves que eternizam, estes conflitos gênero Bauru ou Itajubá que se
multiplicam, estas conspirações que se derramam pelo país inteiro?
É tal o número de notícias alarmantes, tantas são
as oportunidades que temos de discernir, através e apesar da incoerência dos boatos,
realidades pouco promissoras, que quando se fala em revolução, nos vem logo aos
lábios a pergunta: qual delas? A do General Rabelo, a do General Goes, a do General Leite de Castro? Falam-nos em futuras
greves, e logo indagamos se é a da Central, se é a do Lloyd,
e assim por diante. E, na realidade, são tantas as revoluções anunciadas,
tantas as greves prometidas, que não se sabe por que não será desferido o
primeiro golpe, desde já ficamos a olhar com desconfiança para este 1935 que
nos seus primeiros dias já se mostra tão barulhento e tão carregado de ameaças.
Ainda seria tranqüilizadora a situação, se só
conspirassem... os conspiradores, mas parece que o próprio governo conspira
para fazer contraconspiração - é isto ao menos o que
se pode depreender dos conciliábulos de
Interventores, da misteriosa “démarche”
a que está procedendo o Sr. Getúlio Vargas e, principalmente,
a insistência com que amigos declarados de S. Ex.a,
como os irmãos Chateaubriand, aconselham a dissolução da atual Câmara dos Deputados, o
futuro conselho municipal do Rio e de outras “coisas miúdas”, que teriam por
resultado concreto o imediato restabelecimento da ditadura entre nós.
Para onde vamos, Senhor? Ainda perdurará para o
Brasil a dolorosa obrigação de recomeçar a trilhar a montanha russa de suas
sucessivas esperanças e desilusões políticas quando a 16 de julho já parecíamos
ter atingido o porto tranqüilo da legalidade?
* * *
Enquanto nas altas esferas da política, a incerteza
das conspiratas e dos conciliábulos
nos avizinha do abismo, nossa simples atitude de espectadores nos reduz à
impotência.
Esta impotência provém do fato de não se preocupar
ninguém em ouvir os católicos. E os maiores culpados por este exílio a que nos
atiram somos nós mesmos, soldados rasos da Igreja, que não soubemos cumprir
nosso dever.
Em um momento em que se jogam os destinos da Nação
em confabulações sucessivas e numerosas, os católicos são atirados à margem.
Por que? Por que os católicos são minoria? Por que os católicos nada têm a ver
com isto? Não. Ninguém se recusaria a ouvi-los, se eles estivessem organizados
e ninguém nega que eles sejam a grande maioria.
O mal vem de mais longe.
Por respeitáveis motivos, certamente inspirados nos
superiores interesses da Igreja, a Liga Eleitoral Católica entendeu de dar
liberdade a seus eleitores para votarem nas legendas peceistas,
perrepista e da Federação dos Voluntários.
Esta atitude, aconselhada pela extrema delicadeza
de nossa situação, não proibia os católicos de fazerem uma seleção entre bons e
maus elementos das três correntes.
Ela significava apenas que o católico PODIA
sufragar três legendas, sem trair suas crenças.
Mas, para aqueles que desejam um pouco mais do que
a modestíssima honra de não serem incluídos entre os traidores, outras questões
deveriam inevitavelmente surgir. Das três chapas autorizadas, qual a melhor?
Havia maus elementos a serem cancelados em uma ou outra chapa?
Em outros termos: para um católico que fosse
inteiramente de Nosso Senhor, a grande questão em matéria eleitoral era esta:
como votar de modo a acautelar o mais possível os interesses da Igreja? E nunca
esta outra: dentro de que medida posso satisfazer minha paixão política sem
trair a Igreja?
E, no entanto, o que foi que vimos? O frenesi da
paixão partidária invadir a seara católica, e a amizade pessoal pelos chefes
políticos reivindicar para si direitos “eleitorais” sobre o voto católico que
deveria ser, nas mãos dos nossos, uma arma ao exclusivo serviço da Igreja.
Qual o resultado deste olvido de
nossos deveres? Mostraremos claramente a dura realidade, que é esta: uma
legenda protestante organizou-se e obteve a vitória de quase todos os candidatos
anticatólicos, em um Estado essencialmente católico
como o nosso, dotado de um dos mais pujantes eleitorados católicos do País.
* * *
Convirá desanimar?
Nunca.
Seria esta a última das defecções e o pior dos
recuos.
Abandonar a Igreja porque Ela não foi devidamente
defendida por seus filhos, seria absolutamente igual a abandonar Nosso Senhor
no Calvário porque todos O haviam abandonado.
É preciso reagir, e reagir com a veemência de um
tufão. A palavra de ordem no momento é esta: não desanimar.