Treze dias nos separam ainda do Carnaval, e já se nota por toda a parte uma extraordinária
preocupação em torno dos festejos organizados pela Prefeitura Municipal. Parece-nos,
no entanto, além de censurável, inútil o esforço empreendido pelo Sr. Fábio
Prado, no sentido de reanimar uma velha tradição que,
felizmente, está em franca decadência.
A realidade é que o carnaval é essencialmente
incompatível com a índole paulista, cujo natural sério, laborioso, discreto,
não pode tolerar a alegria desabrida e irreal aos festejos carnavalescos. E a
prova mais patente desta afirmação está na decadência do carnaval brasileiro
por excelência, que é o do corso da Av. Paulista, que vai gradualmente sendo
eclipsado pelo carnaval muito mais cosmopolita da Av. Rangel Pestana.
De um modo geral, já se pode afirmar que o carnaval
é muito mais um divertimento dos estrangeiros residentes em São Paulo do que
propriamente dos paulistas, que assistem de longe, ou apenas participam
timidamente das farândolas carnavalescas.
Se de alguns anos para cá o carnaval se
desnacionalizou por não ser mais feito senão em pequena escala por nacionais,
muito mais antiga é sua desnacionalização quanto ao modo por que costuma ser
levado a efeito.
Efetivamente, se alguém assistir a um baile
oficial, dos que exigem smoking ou
até casaca, e comportam uma exibição de fantasias muito mais feitas para
deslumbrar do que para fazer rir, poder-se-ia lembrar, por acaso, das
brincadeiras inocentes do entrudo, em que tanto se compraziam nossos avós?
Onde foi parar o velho carnaval
paulista, todo feito para fazer rir (com expedientes aliás quase selvagens,
como os baldes de água, os trança pés, as laranjinhas,
etc.)? Cedeu seu lugar a um carnaval à moda de Nice, exclusivamente sensual, em
que a alegria dos espíritos não é mais uma inocente hilaridade, como a de
nossos avós, mas a festa dos sentidos postos em estado de superexcitação.
O velho carnaval, portanto, morreu. E isto a que o
Sr. Fábio Prado, a golpes de decretos e a custo de infusões de dinheiro, quer
dar nova vida não é outra coisa senão um costume pagão e moderno. (...)
Uma ação das autoridades em benefício do carnaval é
duplamente absurda, pois que o é nos seus fins e nos seus meios.
A ação governamental se desenvolve em todos os 365
dias do ano, num sentido invariavelmente orientado para a proteção à pequena
economia, por meio de Caixas Econômicas, de proteção à saúde pública, por meio
de custosos serviços federais, estaduais e municipais organizados para este
efeito, de combate à criminalidade por meio de proteção a todas as instituições
pias ou educativas em geral.
Nos três dias de carnaval, porém, eis que as
autoridades se acumpliciam com seus inimigos do ano inteiro, contra os
interesses gerais da população!
Se fôssemos contar o número de pequenas economias
domésticas que se desequilibram definitivamente por ocasião do carnaval,
poderíamos ver até que ponto os festejos de Momo são uma bomba aspirante que
suga os tostões das classes pobres, conduzindo-os para os bolsos entumecidos dos exploradores do carnaval.
Se fôssemos fazer a conta das moléstias de que os
desmandos carnavalescos são, direta ou indiretamente, origem, veríamos que o
número de suas vitórias é, talvez, maior do que o número de pessoas curadas em
muito estabelecimento de caridade erguido com grande sacrifício público.
Se fôssemos tomar em conta o acréscimo de
criminalidade de todos os gêneros, de que o carnaval é agente, veríamos que
rouba à virtude muito mais ovelhas, do que a polícia consegue, por ação
preventiva, roubar ao crime.
E, no entanto, numa inexplicável incoerência, eis
as autoridades a darem mão forte ao carnaval.
Onde, porém, mais berrante se torna o absurdo desta
tentativa de rejuvenescimento do carnaval é no seu próprio artificialismo.
O que pode haver de sincero e espontâneo nesta
alegria estabelecida por decreto municipal, reclamada pelos afixos das ruas e
fomentada por um colossal derrame dos dinheiros públicos?
Não seria absurdo que a prefeitura pretendesse
decretar que, durante 3 dias no ano, todos os cidadãos devem ficar em casa e
chorar? Qual a causa para tal tristeza? O pranto não é coisa que se encomende.
Ri ou chora cada qual, segundo lhe correm as vicissitudes da vida particular.
Assim argumentaria, por certo, o mais irredutível amigo do carnaval.
Se reconhecemos que seria absurda esta tristeza por
decreto, por que não reconhecer também que é artificial esta alegria promulgada
por uma portaria da Prefeitura? Por que não reconhecer a insinceridade desta
alegria que estoura por toda a parte, muito mais como um rito artificial e
satânico de revolta contra as dificuldades da vida de cada dia, do que uma
expressão sincera da alegria sincera e despreocupada, que há muito tempo
desapareceu do coração dos homens, e que, certamente, os folguedos do carnaval
não podem proporcionar?
Fazendo rir o povo paulista num momento tão
carregado como este em que vive o mundo atualmente, não ocorre aos promotores
do carnaval a ópera de Puccini?
Falamos sem o menor partidarismo, e nem por sombra
temos a intenção de responsabilizar ou não nossas autoridades, pelas
dificuldades do atual momento. Mas exatamente quando a missão Souza Costa, tangida pelas necessidades, vai arrastar a soberania
brasileira aos pés dos magnatas americanos ou europeus, é oportuno coroar nesta
terra humilhada pela desgraça, uma estátua do Rei Momo? Se esta estátua pudesse
falar, que nos diria ela senão o triste: “ridi pagliacci” [Nota: “riam palhaços”, em alusão à ópera de Puccini].