Afirmam repetidamente socialistas e comunistas que
não são inimigos da Religião, e que a prática desta não encontrará dificuldades
no regime socialista. Somente o sacerdócio não poderá persistir por ser, dizem
eles, a exploração organizada do povo. Essa a afirmação que ainda há pouco
expunha em sua primeira página um jornal desta capital, simpatizante de Moscou.
Há nela algumas considerações a fazer no que se refere à sua primeira parte, pois
a segunda está tão clara, que as dispensa perfeitamente.
Argumento feito para convencer os operários
cristãos a aderirem ao internacionalismo marxista, mostra de início a fraqueza
deste, que assim aparenta renegar os seus ideais de materialismo e de ateísmo
para permitir que ingressem em suas fileiras os que crêem em Deus. Estes,
porém, têm o direito de repelir o sofisma com que lhes apontam os pregadores
soviéticos. Como admitir que a prática da Religião seja livre se não se permite
que ela tenha seus ministros? Então a Religião é algo de puramente individual,
de interno, que cada um pratica como entende, sem ritos, sem cerimônias e sem
doutrina? A quem vai ser entregue a guarda de sua pureza doutrinária? Ao ensino
de homem a homem, ensino esse de verdades tão grandes por inteligência tão
pequena como é a humana?
Todas essas interrogações são insolúveis sem a
existência do sacerdócio. Não há religião sem ministros, como não há, uma vez
que argumentamos com socialistas, socialismo sem doutrinadores e chefes. Todo o
corpo de doutrina do socialismo se mantém graças aos intelectuais, aos
sociólogos, aos doutrinadores, que resolvem as questões duvidosas, que traçam
normas de conduta, que o anunciam, que o propagam. Na Religião, do mesmo modo:
os sacerdotes são os mestres da doutrina, são os diretores espirituais, são os
pregadores; sem eles, não há Religião, porque aos poucos, suas grandes verdades
se deformam nessa transmissão puramente oral, e da tradição, a que não auxilia
o magistério vivo do sacerdócio.
Admitimos também que o socialismo queira a
felicidade do homem, e que o regime não pretenda governar povo de escravos.
Portanto, se os homens podendo praticar livremente sua Religião reclamarem,
para satisfação de suas consciências, a existência do clero, até que ponto os
governantes socialistas ou comunistas atenderão a essa solicitação? A lógica
mandaria que ela fosse atendida integralmente, pois está demonstrado que sem
sacerdotes não há Religião. Pensarão assim os socialistas, e estarão dispostos
a renegar na prática à proibição do sacerdócio? Ou o homem é livre de praticar
sua Religião e então o sacerdócio também é livre, ou o homem não é livre, pois
não se lhe permite o sacerdócio que é necessário, e o regime é portanto
mentiroso.
E que nos mostram até agora os fatos? Onde o regime
socialista se tem instaurado, tem havido essa liberdade de praticar a Religião?
Podemos dizer que o regime tem cumprido socialisticamente a palavra! Campanha
contra toda a Religião, morte aos cristãos, Igrejas destruídas ou transformadas
em clubes, em sedes de sociedades anti-religiosas, campanha dos “Sem Deus” e
muito mais, na Rússia. No México, onde existe o mal terrível de um exército socialista que
também ameaça nossa Pátria, o panorama não é menos desolador que no Antigo
Império Russo; é de todos os dias, o martírio lento, suportado entretanto com a
fortaleza cristã, daquele povo secularmente religioso. E a Espanha, a quem a república
socialista de Abril de 1931 trouxe a expulsão das ordens religiosas, o incêndio
e o saque das igrejas, culminando na revolução comunista de Outubro de 1934. E
se esses são os fatos de agora, quantos do passado em todos os países da
Europa, mostrando a mentira da liberdade religiosa sempre prometida e nunca
concedida pelo socialismo, que na realização prática se encontra sempre em
oposição às suas promessas.