Como um casal em vésperas de divórcio, o Exército e
a Nação estão em plena liquidação de contas, atirando-se reciprocamente à face
todas as queixas velhas ou novas, justas ou injustas, que fervem no coração de
cada um.
“Exército e Nação”, dissemos. Puro
eufemismo. Na realidade, o Exército não é o grupo de politiqueiros de farda, de
caudilhos insolentes, que o noticiário da imprensa cotidiana costuma reconhecer
absurdamente como representantes autênticos das classes armadas do Brasil. Como
também a Nação está muito longe de ser a camarilha de sanguessugas
parlamentares ou ministeriais que, em seus discursos pomposos, costumam
intitular-se a Nação.
A verdade a respeito deste assunto
- e se trata aí de uma destas rudes verdades fundamentais, difíceis de dizer e
desagradáveis de ouvir - é que toda a Nação está em mãos de camarilhas, de
grupinhos, de “clãs” que se apoderaram da direção das forças vivas do Brasil,
com exceção da Igreja.
O País foi inteiramente dominado -
e já lá vão ao menos quarenta anos deste domínio - pelos políticos
profissionais, que conquistaram todos os laboratórios onde se prepara a opinião
pública, desde as Escolas Superiores, até a imprensa e o aparelhamento
bancário.
O Exército não fugiu à regra geral, e também foi
monopolizado por um grupo mais ou menos numeroso de pseudo-chefes, que o dirige
a seu talante. E o mesmo sucedeu com a Marinha.
A Revolução de 1930 substituiu alguns destes
chefes. Mas a substituição de chefes não significou, de forma nenhuma, a
substituição dos verdadeiros valores aos bonzos. E
tudo continuou como antes...
Longe das camarilhas, continua a grande massa da
Nação. Esta massa que, do ponto de vista psicológico, ainda é absolutamente
amorfa, apresentando apenas como traço saliente uma catolicidade
que, mercê de Deus, se vai tornando mais coerente e mais acentuada.
Um exemplo, que já hoje se pode chamar histórico,
elucidará perfeitamente o assunto.
Depois de 30, fundou-se o Clube 3 de Outubro, constituído unicamente por militares da “ala ardida” do
Exército. Estes militares deliberavam, provocavam, ameaçavam, perturbavam,
atrapalhavam, como se fosse todo o Exército. E, no entanto, feito o
recenseamento de suas forças, encontrávamos neles apenas um reduzido número de
oficiais de um prestígio inteiramente fictício. E tão fictício era tal
prestígio, que, um a um, o Sr. Getúlio Vargas foi derrubando os
ídolos do pequeno “Walhalla”
do “3 de Outubro”, a começar pelos mais humildes, e a terminar pelo Sr. João
Alberto. Isto quanto ao Exército.
Quanto ao elemento civil, não era outra a situação.
Políticos que se diziam autênticos representantes da opinião foram,
bruscamente, afastados. E, no entanto, a comoção da opinião por tal afastamento
foi bem pequena. O que resta do Sr. Borges de Medeiros? Do Sr. Afranio de Mello Franco? Do Sr. Oswaldo Aranha? Do Sr. José Américo? Onde está a popularidade destes campeões da política que
foram, em tempos, apontados pela opinião como “ditadores do ditador”? Do
próprio Sr. Getúlio Vargas, o que restaria se lhe fechasse a carranca, em dado
momento, a fortuna que lhe tem sido tão propícia? Que lágrimas acompanharam ou
acompanhariam o enterro político destes “soi disant” reis da popularidade?
Vemos, pela própria experiência, o que há de
artificial em tudo isto.
Pois bem. Brigam exército e políticos. Pode-se dizer,
por isto, que haja propriamente uma “questão militar”? Não. Há uma questão de
rivalidade entre camarilhas. Há uma questão de incompatibilidade entre
ex-consócios. Com isto, com esta liquidação de contas de sociedade financeira,
nem nós e nem ninguém tem nada que ver, senão do ponto de vista patriótico, o
triste consolo de chorar sobre as ruínas de Jerusalém.
Quer isto dizer que devemos desanimar?
Nunca!
Ainda que o mundo inteiro desanimasse, a nossa
Pátria ainda que, obedecendo ao convite trágico de João Neves, o mar tragasse o Brasil, os católicos não teriam o
direito de desanimar dele.
Aliás, quer nos parecer, infelizmente (ou
felizmente, talvez) que este dia virá. Quer nos parecer que não está longe o
momento em que os fabricantes de panacéias de todo o gênero, novas e velhas,
hão de se voltar para a Igreja, para que ela aplique ao Brasil os remédios que
só ela tem.
Porque - e é com esta afirmação que quero finalizar
o artigo de hoje - digo-o bem francamente: de todas as iniciativas que vejo em
torno de mim tendentes a salvar o Brasil, nem uma única me parece apta a
conseguir esta finalidade.
Como Jackson de Figueiredo, continuo a pensar que nossos problemas são graves “que
só uma ação puramente católica poderá salvá-lo”.