Como frutos do naturalismo e do teorismo
político que, um separando a ordem natural da sobrenatural e outro esquecendo
que o governo dos povos deve ser baseado em suas realidades próprias, temos
tido nestes dias acontecimentos perfeitamente característicos. Os casos do Espirito Santo e do Pará, onde os interventores foram
abandonados à última hora por aqueles que tinham sido eleitos mediante
campanhas eleitorais feitas em torno dos nomes desses representantes do poder
central; a atitude do interventor paraense fazendo-se eleger por meio de uma
manobra claramente ilegal; finalmente, a situação do Ceará, onde o interventor,
nomeado especialmente para dirigir as eleições com justiça e para acatar seus
resultados com a devida serenidade, vencido nas urnas o partido governamental
declara pela voz do jornal situacionista: “O caso cearense já está resolvido. A
Liga Eleitoral Católica tem 17 deputados. Que importa isso, se estamos
dispostos a vencer revolucionariamente?”.
E nas ruas aclama-se a Luiz Carlos Prestes, chefe do movimento comunista no Brasil e praticam-se
depredações contra jornais, entre os quais “O Nordeste”, diário católico
daquele estado. De um lado, portanto, homens cujos compromissos afirmados até à
mesa dos banquetes interventoriais são quebrados em
um momento como se não houvesse uma lei moral perante a qual eles fossem
responsáveis: dissociação da política e da moral. De outro, autoridades
pretendendo impor-se e impor ideologias repudiadas pelos governados: falta de
respeito às realidades sociais da nação.
Em oposição a esse naturalismo e a esse teorismo, não há senão a concepção cristã da política. Age
como ciência experimental reunindo o maior número de observações dos fatos
sociais, as quais formam a matéria com que vai trabalhar; todas elas devem ser
depois coordenadas, estabelecendo-se as relações entre os fatos, para ser
organizada a sociedade de uma maneira que determine o progresso integral e uniforme
do homem. Para esse trabalho, a política procura a orientação em uma ciência
geral e superior que é a Moral. Estão assim racionalizados os dados da
observação; mas a própria razão nos informa da existência de uma realidade
superior ao que é visível, e a revelação divina nos mostra o destino
sobrenatural do homem. Temos portanto, como diz Tristão de Ataíde, “a política, a moral e a teologia”, formando “uma cadeia
não interrompida”. E o grande erro moderno foi, e continua a ser, a quebra
dessa cadeia.
O Cristianismo, ordenado à
política à Moral Cristã, afasta o homem das falsas concepções morais, baseadas
umas no prazer, outras no servir, outras no dever, e em tantas outras atitudes
humanas, todas desconhecedoras, entretanto, da fonte e do fim da Moral que é
Deus, e todas podendo ser sintetizadas no utilitarismo. E não havendo Deus como
medida, esta é o próprio homem e ninguém quererá considerar-se inferior a
qualquer outro. E não havendo Deus como fim este é o próprio mundo, é o tempo
de vida mais ou menos longo de cada um; e quando o indivíduo for
suficientemente otimista para não cair no desespero, procurará não ser inferior
a qualquer outro, em prazeres e em proventos materiais. Explica-se, portanto,
muito bem a atitude dos nossos políticos que tendo perdido, pela laicização que o regime de 89 impôs ao Brasil, o sentido
tradicional de nossa formação cristã, viram-se apenas a si mesmos como
super-homens a quem tudo deveria ser concedido!...
Aos católicos, e só a eles, e só como católicos,
compete a retificação de nossa vida nacional, recolocando-a no sentido cristão há
pouco referido. E isso não se fará por uma atividade desordenada imediata, por
uma multiplicidade de esforços em sentidos contrários, por uma agitação improfícua. Far-se-á, em primeiro lugar, por uma
retificação individual, por uma catolização dos
católicos, pela sobrenaturalização de nossa vida
diária. Antes de qualquer outra coisa, portanto, grande vida interior, grande
espiritualidade. Na medida do aumento desta, virá a Ação Católica, que só é
eficaz quando se baseia naquela. É a hierarquia respeitada, é o realismo a que
se refere Tristão de Ataíde, na importância dada aos “primeiros princípios e às
finalidades últimas”, na subordinação do natural ao sobrenatural. Por essa sobrenaturalização das consciências, que deve ser “Objeto
primeiro dos esforços dos católicos, preparar-se-á a verdadeira e solidíssima
base para a restauração nacional, pois o dever espiritual supera e condiciona
todos os outros deveres”.