Raras vezes pode ter um observador político, de
mediana sagacidade, uma ocasião melhor do que agora para constatar a
terrificante inconsistência das fórmulas de 1789 no Brasil.
Antes de 1930, afirmavam nossas leis a soberania do
povo, enquanto nossos costumes políticos a negavam categoricamente.
Contrariados por tal fato, resolveram os fundadores da Aliança liberal:
1) a deposição das oligarquias estaduais, acusadas
de fraudadores do regime republicano;
2) a manutenção da Constituição de 91, reputada
excelente em si mesma, e capaz de conduzir o país à idade de ouro, caso fosse
aplicada pelas mãos imaculadas dos “leaders” do movimento libertador.
Vitoriosa a Revolução é, no entanto, exatamente o
contrário que se dá. Enquanto se implanta a ditadura e se estraçalha a
Constituição de 1891, a mais poderosa das oligarquias políticas derrubadas pela
Revolução - o Partido Republicano Paulista - reconquista
habilmente o poder, à sombra do Cap. João Alberto Lins de Barros. Por toda parte começaram a reaparecer em cargos de
destaque os pró-homens do “regime decaído”,
desde o ex-ministro das Finanças do Sr. Washington Luiz, colocado à testa do governo, até os Calmons
da Bahia. E, ao mesmo tempo, vão sendo deglutidos habilmente, um por um, os “leaders” da
Aliança Liberal, vítimas da glutonice
silenciosa do então Chefe do Governo Provisório.
Finalmente, reconquista-se o regime legal, e mais
uma vez o Brasil reafirma seu desejo de viver no regime democrático.
Logo, porém, que começa a funcionar o novo
maquinário político montado a 16 de julho de 1934, verificou-se que as coisas
não haviam mudado, e que o Brasil, em lugar de ser governado pelo povo,
continua nas mãos dos “meneurs” ágeis, que o conduzem a seu talante,
para rumos que todos ignoram.
Insuficiência da democracia em si quando aplicada a
uma grande nação moderna, e não apenas a republiquetas
gregas como Atenas? Ou inexeqüibilidade do regime
dentro do cenário brasileiro?
Quer nos parecer que ambas as circunstâncias
convergem para tornar inviável a prática da democracia. Mas o caso não nos
preocupa neste artigo. Desejamos apenas focar alguns aspectos da dolorosa
realidade que atravessamos.
Comecemos por São Paulo. Todo o mundo já ouviu
falar dos boatos de cisão em certa corrente. Tudo indica que tais boatos foram
muito mais do que um simples rumor público destituído de fundamento. Quais as
causas do estremecimento partidário? Quais os motivos que fizeram declarar-se a
crise? Quais as razões para que ela fosse dada por resolvida?
Fala-se em um reajuste partidário entre as nossas
mais fortes correntes eleitorais. Será realidade? Mero boato? Como explicar
então a inatividade da Constituinte, cujos componentes vivem entre si num
regime de trégua partidária muito diferente do ambiente belicoso em que se
travaram as eleições?
O que é feito do projeto de Constituição do Estado,
elaborado pelo Governo? Por que razão não se procede imediatamente à sua
discussão, uma vez que já foi votado o regimento?
Em uma ocasião em que tantas interrogações
candentes pairam no espírito público, os homens do momento se calam, de um e outro
lado da barricada. Por que? Não é o destino de São Paulo que está em jogo?
Mas passemos à esfera política nacional.
Fala-se em reajustamento político, em um
congraçamento de larga envergadura que permita à oposição colaborar no governo
(e não com o governo, que é coisa muito menos interessante). Alguns chefes
oposicionistas desmentiram. Os da situação também não se pronunciaram. Mas,
evidentemente, “il y a quelque chose au fond”
[no fundo, há alguma coisa]. Diz-se, mesmo, que o astuto Andrada não tem outra
missão no Catete de que tecer a finíssima urdidura política deste congraçamento
para entregar bem macio ao Sr. Getúlio Vargas, quando de seu regresso, o leito de rosas da presidência
da República. Mas aí, como sempre, reina o silêncio. Tudo se faz nos
bastidores. Por que?
E os resultados concretos da missão Souza Costa?
Falou-se em empréstimo com o Japão e o boato foi desmentido. Surge,
bruscamente, em plagas brasileiras a missão econômica japonesa, que está sendo
cumulada de gentilezas pelas autoridades. Ora, nem costumam os japoneses perder
seu tempo, nem o Sr. Getúlio Vargas o seu latim. Mais uma vez, portanto, acerca
da missão perguntamos: a que veio? Parecem agora viáveis os planos de
empréstimo nipônico? O silêncio envolve todas estas interrogações. Por que?
E o câmbio que cai de dia para dia.
Incontestavelmente, já não há grande margem para novas quedas. E, no entanto, o
silêncio dos situacionistas e dos oposicionistas cerca o inquietante assunto.
Por que?
Enquanto todas estas interrogantes enchem de trevas
os quadros estreitos da liberal-democracia, a Ação Integralista e a Aliança
Libertadora se preparam a devorá-la, e a se entre-devorar
depois. Uma como a outra destas correntes, no entanto, se cerca também de
enigmático silêncio quanto a mil aspectos importantes de sua atividade.
Quanto à Aliança Libertadora, o caso não nos
interessa. É comunista, e as sombras ou os “despistamentos”
que possa empreender não nos interessam. É um caso policial. Resolva-o o Sr.
Delegado de Ordem Social, munido dos amplos poderes da Lei de Segurança.
Mas a Ação Integralista? Por que continua seu
pesado silêncio em torno da exata posição da Igreja no seu programa? Por que
manter em assunto tão fundamental para todos os católicos - o que vale dizer
para todos os brasileiros - tão enigmático silêncio? Se é de afirmações que o
Brasil precisa - e o integralismo proclama esta verdade em todos os tons - por
que não começam os milicianos do Sr. Plinio Salgado por definir com
maior clareza os direitos do espírito, que eles têm afirmado de forma
imprecisa?
Ninguém ignora o papel decisivo do “chefe” nos
movimentos de tipo fascista do mundo inteiro. A ninguém, pois, pode
desinteressar a opinião individualmente professada pelo Chefe, em matéria
religiosa. Tem chegado a nossos ouvidos uma ou outra notícia tranqüilizadora a
este respeito. Mas que valor dar a tais notícias enquanto a sua profissão de fé
não se fizer clara, explícita, desassombrada? E por que não a faz ele?
E, no entanto, “così va il mondo”
[assim vai o mundo], ou melhor “così va il Brasile”.
Enquanto o país inteiro se sente perturbado pela agitação ambiente, seu destino
é resolvido em confabulações esotéricas mantidas por elementos freqüentemente
desconhecidos, e que jogam cartadas decisivas, sem que possam ser controlados
pelo grande paciente, que é o nosso Brasil.
* * *
Ao terminar este artigo, que já se vai alongando desmesuradamente, um certo desânimo nos invade, pela
certeza que temos de ter descontentado a muitos leitores, e agradado a um
número possivelmente reduzidíssimo.
No entanto, “clama,
ne cesses, quasi tuba
exalta vocem tuam” -
clama, não cesses, como uma trombeta eleva tua voz - aconselha o Espírito Santo
aos que defendem a verdade. Foi a este ensinamento que obedecemos, ao traçar
estas linhas, sem que nos movesse a menor paixão política ou partidária, que
não temos.
E, realmente, se se
calarem os católicos, quem, no Brasil, pode ter a independência necessária para
pôr os pingos nos “is”? Pois não temos nós a promessa da assistência
providencial nesta vida e a da Bem-Aventurança eterna na outra, desde que
tenhamos cumprido singelamente nosso dever, ferindo embora paixões ardentes ou
magoando susceptibilidades mais vivas do que
legítimas?
Se nós não cumprimos exatamente nosso dever, quem o
fará por nós?
Se alguém tem que sofrer por amor à verdade, este
alguém devem ser os católicos.
Aqui, fica, pois, devidamente cumprido, o nosso
dever.
Se agradamos, muito bem. Se não, nem por isto nos
molestaremos. Não apagam o fulgor da verdade os que não a querem ver. “Insultez le soleil, il brillera
quand même”.