Destinado a ser um dos órgãos do pensamento
católico, o “Legionário” tem procurado manter-se sempre acima das divergências
partidárias em suas apreciações sobre as questões políticas, em que uma simples
atitude de silêncio e desinteresse evidenciaria uma incompreensão
injustificável da própria ação da Igreja nesse terreno.
Nesses termos, não podemos deixar de protestar
contra uma publicação do Departamento de Publicidade da Ação Integralista Brasileira no “Diário
de São Paulo” do dia 9 do corrente,
intitulada “A Urgente definição”,
mesmo porque se em nossos trabalhos timbramos em ser só e sempre católicos,
sentimo-nos também visados com as injúrias contidas naquele documento.
Não o fazemos por qualquer prevenção de nossa parte
contra o integralismo, sobre o qual já nos temos referido muitas vezes com a
maior imparcialidade, reconhecendo suas qualidades e apontando suas
deficiências.
Queremos apenas fazer com que os integralistas de
boa vontade compreendam a nossa atitude e, ao mesmo tempo, chamar a atenção do
Departamento de Publicidade da Ação Integralista pelas expressões
desrespeitosas que usou para com a autoridade da Igreja. Se deixamos lavrado
nosso protesto contra tais afirmações não é em absoluto por qualquer sentimento
de amor próprio, nem apenas - o que já seria suficiente - em defesa da nossa
dignidade e da nossa honra, mas sobretudo porque foram ofendidas insólita e
arrogantemente a própria dignidade e a honra da Igreja, da qual nos confessamos
filhos amorosos e submissos.
* * *
Começa o escrito em questão perguntando porque não
se pronunciam os católicos definitivamente sobre o integralismo. Ora, os
católicos não têm obrigação alguma de se definir em relação ao integralismo. De mais a mais, o pensamento dos católicos só pode ser
definido pela autoridade da Igreja. Podem eles ter suas opiniões individuais
sobre várias questões de ordem temporal e política, dentro dos limites
permitidos pela doutrina católica, mas só a Igreja pode, pelo Papa e pelos
Bispos, “pronunciar-se definitivamente” sobre
tais questões, quando afetam a fé e os costumes e quando tal definição se impõe
por motivos que igualmente só à Igreja, divinamente assistida, cabe julgar.
Portanto, solicitando a definição dos católicos, em termos de um verdadeiro
desafio, as afirmações que rebatemos não se dirigem apenas aos católicos
individualmente mas chegam a atingir de um modo geral a própria Igreja.
O integralismo é
que precisa definir-se, de uma vez para sempre, em relação ao
catolicismo, por uma exposição minuciosa e tranqüilizadora de sua atitude
quanto às liberdades da Igreja e ao reconhecimento da preeminência da Igreja
Católica sobre qualquer
outra força espiritual do Brasil, por direito doutrinário e histórico.
Cumpre-lhe afirmar claramente se a sua “concepção
da vida” é a concepção católica, e no caso da resposta afirmativa, não mais
permitir referencias insultuosas do seu Departamento de Publicidade à Igreja.
Não contestamos que a Ação Integralista aceite um
número maior de princípios preconizados pelo catolicismo na reforma da
sociedade do que outros partidos, mas por isso mesmo não tem os motivos destes
para evitar uma definição categórica do seu pensamento. Acrescente-se a isso a
declaração do próprio integralismo de que não é um partido mas trabalha por uma
reforma até mesmo espiritual, a sua intransigência doutrinária e a sua
disciplina rígida (que não estamos censurando mas apenas constatando), para se
concluir que deve a Ação Integralista
ser mais explícita em relação à doutrina e aos direitos da Igreja.
* * *
Não lutamos pela violência, não nos organizamos “tão fortemente como o integralismo” porque
a Igreja não precisa dos homens mas os homens é que precisam da Igreja. Afirmar
o contrário é não ter fé, é não confiar nos meios sobrenaturais que constituem
a força própria da Igreja e não conhecer o que seja a Igreja.
A nossa confiança não está no integralismo nem em
qualquer outra organização humana, mas só na Igreja de Nosso Senhor Jesus
Cristo. Autênticos soldados da cruzada iniciada por Jackson de Figueiredo, ainda estamos em que o mundo de hoje está tão perdido
que só uma ação puramente católica o poderá evitar.
Sabemos que “Deus
quer que o homem diligencie”. Sabemos que é preciso “ter o expediente do bom Samaritano”. Mas diligenciaremos como
Deus o quer, seguindo, portanto, as ordens do Papa, pois o Papa é o intérprete
da Vontade de Deus, como Vigário de Jesus Cristo. Diligenciaremos, pois, organizando-nos na Ação Católica
e cumprindo as determinações que forem dadas pelos Bispos. Precisamente no
momento em que o Departamento de Publicidade da Ação Integralista injuriava
desabridamente os católicos, eram assinados pelos Bispos do Brasil os planos da
Ação Católica Brasileira. Esta é a única autoridade a quem cumpre organizar os
católicos para trabalhar também e não “apenas
rezar”. Ninguém mais tem direito a dar ordens aos católicos!
Concluindo estas considerações que a consciência
nos ditou, queremos tornar patentes os dois erros fundamentais que inspiraram o
“desafio” do Departamento de
Publicidade da Ação Integralista.
Não é exato que à Igreja Católica, no cumprimento
da missão que lhe atribuiu seu Fundador, faltem os meios necessários para a
reedificação em Cristo da sociedade contemporânea. Os obreiros que,
prescindindo da Igreja Católica, quisessem trabalhar fora do Corpo Místico de
Cristo para o mesmo fim, nada obterão. “Nisi DOMINUS aedificaverit domum in vanum laboraverunt qui aedificant eam”.
Também não é exato que a qualquer obreiro da
civilização Católica (e não apenas cristã) assista direito de dirigir críticas veladas ou
indiretas à autoridade eclesiástica, a quem incumbe de modo exclusivo a guarda
e direção do rebanho de Cristo. Prescindir das autoridades da Igreja que,
melhor do que ninguém, conhecem o lobo que se esgueira entre as ovelhas para
devorá-las, ou pretender dar-lhes lições quanto ao exercício de seus deveres
pastorais, é eliminar o próprio Cristo da direção do seu rebanho, tentando
substituí-lo por autoridades meramente humanas. Ora, é o próprio Espirito Santo quem nos diz que: “Nisi Dominus custodierit
civitatem, frusta vigilat qui custodit
eam”.