Escrevendo a história de Dom Quixote, Cervantes lhe
associou um personagem secundário, que nunca abandonou o herói da Mancha. Este
homem se chamava Sancho Pança.
Que surpresa sentiria Cervantes, se um telescópio
profético lhe pudesse desvendar os acontecimentos futuros, e lhe mostrasse que,
enquanto o valente Dom Quixote entraria definitivamente para a galeria dos
dementes inofensivos, com sua lança, sua couraça e seu esquelético Rossinante, Sancho Pança, o tímido Sancho Pança, o medíocre
Sancho Pança, o desprezível Sancho Pança, haveria de acometer dentro de alguns
séculos uma grande nação, e atirá-la, ele sozinho, às beiras do mais negro
precipício?
Foi, no entanto, o que se deu com o Brasil. Se
nosso País não estivesse sob uma proteção especial da Virgem Aparecida, não
duvidaríamos muito que, dentro de algum tempo, se lhe pudesse cavar sepultura
em sua terra fecunda. E, como justo epitáfio, poder-se-iam escrever no túmulo
estes tristes dizeres: Aqui jaz uma Nação fundada por heróis, civilizada por
Santos, e destruída pelo comodismo imprevidente de alguns de seus filhos.
Sancho Pança? perguntarão alguns leitores, mas
Sancho Pança não morreu? Que tem ele a ver, pois, com a crise brasileira?
Não, Sancho Pança não morreu. Sancho Pança revive
em espírito, e inspirando milhares de mentalidades, dita as atitudes de seus
filhos espirituais nos Parlamentos, nas Cátedras, nos Bancos, na alta
administração.
Sancho Pança revive no comodismo dos imprevidentes
que fecham os olhos às nuvens de hoje que serão tempestades amanhã. Ele fecha
os olhos, não por que confie na Providência, não porque tenha qualquer motivo
sério para negar o perigo, mas simplesmente para gozar em paz o momento que
passa. Não morando no Rio, em Pernambuco ou no Rio Grande do Norte, julga que o
perigo não existe simplesmente porque não lhe atacou o pêlo.
Sancho Pança revive no snobismo
míope dos jovens plutocratas inscritos na ANL [Aliança Nacional Libertadora]
que atiçam o incêndio que ameaça sua classe, esquecidos de que o destino de
Judas ou de Philippe Egalité será
o fruto de sua vaidosa mania de originalidade.
Sancho Pança revive no imediatismo mesquinho e
cúpido de certos políticos de oposição, ou de certos literatos vaidosos que não
se incomodam de proteger com um liberalismo de mau gosto, os petroleiros
[terroristas] que atacam as bases da Nação. Na imprevidência de sua ambição só
pensam em gozar de momentânea popularidade e... quem sabe, assenhorear-se, por
alguns minutos, do poder. Por alguns minutos, dizemos, porque a onda
imprudentemente levantada seguirá seu rumo. E ela tragará num futuro bem
próximo aqueles mesmos que lhe abriram caminho.
Sancho Pança revive na incúria comodista de muitos
cidadãos a quem o Brasil havia confiado a missão sagrada de defender a
Religião, a Família, a Propriedade, e que não se pejavam em designar para
cargos de máxima responsabilidade os mais encarniçados inimigos dos princípios
cuja custódia lhes incumbia como dever sagrado.
Sancho Pança revive no terror dos poltrões que,
assustados pelas primeiras chamas do incêndio já dominado, exageram as
proporções do perigo, alarmando a população laboriosa, e espalhando em torno de
si um terror que, longe de conduzir à reação, conduz ao abatimento e à inércia,
paralisando todas a iniciativas boas e inutilizando todas as resistências.
Ah! Sancho Pança! Tu que vestindo farda, beca,
toga, ou casaca, brincas com o fogo ou foges diante do adversário, tu que
simbolizas a imprevidência, a incúria, o comodismo, a cupidez imediatista, o medo, tu infeccionaste profundamente o
Brasil. As chagas que se abriram no Rio Grande do Norte, em Pernambuco, no Rio
de Janeiro, foi teu sangue morno e impuro que as rasgou. Tu brincas hoje, tu
chorarás amanhã. Mas ouve: aqueles mesmos revolucionários cujo caminho preparas
porque és imediatista ou porque és poltrão, eles
mesmos te dirão agora, pela boca de um grande anarquista, o futuro que te
aguarda se te não emendares. Tu não nos queres ouvir, dizes que cheiramos
sacristia, e que não entendemos de política. Quando apontamos o perigo, tu te
ris, dizendo que somos medrosos. E quando o perigo ruge, tu foges e taxas de
quimérico nosso esforço para organizar a reação. Mas se te não impressiona a
voz dos que lutam por Deus, ouve a voz de alguém que lutou pelo Mal, ouve Proudhon:
“Quando a
primeira colheita tiver sido pilhada, a primeira casa forçada, a primeira
Igreja profanada, a primeira tocha incendiada, a primeira mulher violada;
“Quando o
primeiro sangue tiver sido derramado;
“Quando a
primeira cabeça tiver caído;
“Quando a
abominação da desolação reinar em toda a França;
“Oh!,
então sabereis o que é uma revolução
social: uma multidão desencadeada, armada, ébria de vingança e de furor; espetos, machados, espadas nuas, martelos; a
polícia no seio dos lares, as opiniões suspeitas, as palavras delatadas, as
lágrimas observadas, os suspiros contados, o silêncio espionado, as denúncias,
as requisições inexoráveis, os empréstimos forçados e progressivos, o papel
moeda depreciado, a guerra civil e o estrangeiro nas fronteiras, os proconsulados implacáveis, um comitê de salut public, um comitê com o
coração de aço.
“Eis aí
os frutos da revolução dita democrática e social”.
Eis aí, Sancho Pança, o futuro que nos preparas.
Mas tu não vencerás o Brasil. Não é possível que uma coorte de míopes destroce
uma grande nação.
Não, Sancho Pança, não! Teus dias
estão contados. Não vês essas falanges de moços, que por toda a parte se
levantam, trazendo uma cruz na lapela e nos lábios o nome de Maria? Eles são a
alma do Brasil que luta, que crê, que espera. Eles são a bênção de Maria, na
Terra de Santa Cruz. Por intermédio deles, Maria te esmagará como esmagou a
cabeça da serpente!