A unidade nacional é coisa por demais preciosa e
por demais complexa, para que dela possamos traçar uma apologia completa,
dentro do estreito quadro de um artigo de fundo. Mas a viagem de alguns paulistas
eminentes ao norte do País veio por em foco as relações de São Paulo com a
Federação. E nós não quereríamos perder a oportunidade de, ao menos a “vol d'oiseau”,
examinar a questão do separatismo.
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Se somos católicos,
estamos na obrigação de raciocinar, em tudo e por tudo, como filhos da Igreja.
Quer isto dizer que devemos tirar de nossa doutrina religiosa todas as
conseqüências que ela comporta, ainda que uma ou outra destas conseqüências se
choque com velhas prevenções ou enrraigadas
preferências políticas.
Isto posto, vamos
examinar os dados que nossas convicções religiosas nos oferecem, para
solucionar a questão da unidade nacional.
A todos os homens,
indistintamente, obriga o preceito de amar a Deus sobre todas as coisas. Mas
este amor não se deve traduzir apenas em orações inflamadas. Pede o Criador que
o amemos, não apenas com palavras, mas também com ações. Cumpre que o amor que
manifestamos a Deus, no recesso dos
templos, seja traduzido, na vida concreta de todos os dias, em atos de efetivo
zelo pelos interesses de Deus. Nenhum de nós tomaria a sério um amigo que nos
prodigalizasse abundantes palavras de afeto, mas que manifestasse, na vida
prática, o mais absoluto descaso por nossos interesses pessoais. Assiste a Deus
o mesmo direito.
Se amamos a Deus sobre todas as
coisas, devemos, pois, sobrepor a todos os nossos interesses individuais,
domésticos e até nacionais, os interesses de Deus. Pode parecer dura esta
afirmação. No entanto, o mandamento reza: “amar a Deus sobre TODAS as coisas”.
E, em seguida a ele, o Supremo Legislador não colocou nenhuma cláusula que
excetue o amor da Pátria ou o amor do lar.
Quais são, no mundo, os
interesses de Deus? A resposta é óbvia. Para conseguir a salvação das almas,
Ele não duvidou em enviar ao mundo a segunda pessoa da Santíssima Trindade e em
permitir Sua Paixão e Morte, para abrir aos homens o caminho do Céu.
Deus manifestou, pois,
de modo exuberante, o seu interesse pela salvação das almas. E essa salvação,
que valeu perante a Justiça Divina o preço infinitamente precioso do Sangue de
Cristo, merece dos homens todos os esforços e todos os sacrifícios.
Duvidaríamos nós em
fazer qualquer sacrifício para obter aquilo que arrancou à bondade divina o
próprio sacrifício do Calvário?
Haverá, para nós, neste
mundo, coisa mais nobre, a que nos incite com maior veemência a sinceridade de
nossos sentimentos católicos, do que a salvação das almas?
Evidentemente, não.
* * *
Mas, dir-se-á, isto
tudo está muito bem para os indivíduos, mas é inaplicável às nações. O fim da
Igreja é de salvar as almas. Foi para isto que o Salvador A instituiu. Quanto
ao Estado, seu fim é meramente terreno. Erigir o Estado em instrumento de
apostolado seria arrancá-lo à esfera natural de sua atividade. Mais ainda:
seria invadir com a mão perigosa e prepotente de César, a seara espiritual da
Igreja.
O sofisma é grosseiro e, hoje mais
do que nunca, ele pode facilmente ser refutado.
Um exemplo entre mil:
aliando-se à Rússia, infere a França do Sr. Blum (a
França do Sr. Blum, bem entendido, não deve ser
confundida com uma outra França, que é a França católica, de Sta. Teresinha, de
Bernadette, de São Luiz e de Joana D'Arc) um profundo golpe na civilização ocidental. E,
através desta, o golpe atinge os próprios interesses da Igreja.
Por maiores que fossem
os proventos comerciais, ou diplomáticos, auferidos pela França com a aliança
soviética, não lhe assistiria o direito de estender a mão aos mais irredutíveis
inimigos da catolicidade. Sacrificando os seus
interesses comerciais aos interesses supremos da Igreja e da civilização, a
França teria praticado um ato meritório de eminente amor de Deus. Ela não o
praticou. E, exatamente por isto, o mundo inteiro e seus próprios filhos - os
homens de bem, os chefes de família, os militares, os sacerdotes - condenam seu
procedimento. A França faltou ao seu dever.
Acima de sua função
econômica e de sua função política, o Estado Francês tinha como todos os outros
Estados, uma missão a cumprir, em prol da causa de Deus e da civilização. Mas o
Estado Francês apostatou.
Nós, católicos
brasileiros, tudo faremos, porém, para que o Estado Brasileiro não apostate.
* * *
O Estado Brasileiro,
como o Estado Francês, o Estado Italiano ou o Estado Finlandês, tem, pois, uma
missão: a de lutar pela Fé e pela civilização.
Concretamente, como se
apresenta para o Brasil esta missão?
Ainda aí, não vemos
dificuldade em responder.
A Europa e os Estados
Norte-Americanos estão a braços com problemas tremendos. Dentro em pouco - e só
os cegos podem contestá-lo - virá um dilúvio internacional: a guerra mundial
está a bater às portas da civilização do Ocidente. Depois deste dilúvio, o que
ficará da velhíssima Ásia, da Europa agonizante, da América do Norte
precocemente arrastada a uma crise mortal? Ninguém poderá dize-lo.
Mas o que é certo é que, à margem deste mundo corrompido e destruído, ficará,
virginalmente intacta, a América Latina. E é de suas entranhas, que terá de brotar a nova
civilização.
Se esta civilização for
católica, apostólica e romana, estará firmada a humanidade, por muitos séculos,
nos caminhos de Deus. Se ela não for católica, quem poderá prever em que erros
despenhará a humanidade?
* * *
Para que a América
Latina esteja à altura de sua excelsa missão, é preciso, antes de tudo, que ela
esteja unida e coesa. Seria, pois, um erro imperdoável, ou uma traição
criminosa, que neste corpo de nações irmãs, suscitadas por Deus para a mesma
luta e a mesma vitória, se insinuasse o germe da discórdia intestina. Todo o
reino dividido interiormente perecerá. Di-lo o Espírito Santo. Se a raça
latino-americana se dividir, ela será destruída pelos inimigos comuns. Mais do
que nunca, é necessária a união sagrada. E a tal ponto é verdadeiro o que
dizemos, que um sopro de amor fraterno percorre hoje toda a América do Sul, a
irmanar todos os Países que nasceram da Igreja e da Ibéria.
Neste formidável maciço
religioso, social, político e econômico, que é a América católica, cabe ao
Brasil a liderança. Será ele, dentro desta unidade continental, o grande bloco
político que centralizará a direção da política sul-americana e -
arriscando-nos a parecer visionários - da política mundial.
Que juízo fazer-se, portanto, desses políticos
pigmeus de pequeno vôo intelectual e de vistas curtas, que, com orçamentos em
punho, querem demonstrar que São Paulo deve atirar à beira da estrada, como
fardo pesado e inútil, os seus 20 irmãos brasileiros? São Paulo será dentro do
Brasil o que o Brasil será dentro da América Latina. Fora do Brasil, São Paulo quebrará a coesão
continental. E, com isto, terá estragado a obra a que a Providência chama a
terra de Santa Cruz. Para a terra heróica das bandeiras e do café, só há dois
destinos: o de rei ou o de desertor.