Mais de uma vez tem chegado ao “Legionário” o eco
da incompreensão que alguns de seus artigos tem encontrado, em certas colônias
estrangeiras estabelecidas em São Paulo. Ainda recentemente, soubemos que uma
alta autoridade de uma influente colônia manifestou a impressão de que o
“Legionário” é hostil ao seu País. E acontece
precisamente que esse País é, depois do Brasil, aquele a quem mais ama o
Diretor do “Legionário”. Ama-o pela firmeza inabalável de sua Fé, que abraçou
antes de todas as Nações européias, o que lhe valeu uma primogenitura gloriosa.
Ama-o pelo esplendor incomparável de sua civilização. Ama-o pela beleza
extraordinária de sua História, a cujo estudo carinhoso tem dedicado longas
vigílias. Ama-o pela missão que a Providência ainda lhe reserva no futuro. E
ama-o ainda pelo ódio especial com que tem sido atacado por todas as forças
destruidoras de nossa época que elegeram nele seu alvo predileto. No entanto, é
em relação a este país, que, segundo uma opinião muito respeitável, votamos uma
“fobia” especial!
Não é esta a única queixa que o
“Legionário” recebeu. Também de leitores de outros países, temos notado uma
certa reserva, quanto a nossos comentários internacionais. E, por esta razão,
achamos oportuno esclarecer, de uma vez por todas, nossa orientação a este
respeito.
* * *
Qualquer europeu, seja ele inglês, alemão, francês
ou italiano, sentirá uma natural ufania ao ouvir dizer pelos americanos que a
Europa é, ainda hoje, a grande mestra das Nações
contemporâneas. A incomparável glória de seu passado, a magnificência das
civilizações que se tem sucedido em seu vasto e fértil território, o prestígio
que alcançaram seus intelectuais, seus estadistas e seus artistas tornam-na
detentora da bússola pela qual a humanidade se guia. O que se faz na Europa
repercute, com grande eco, no mundo inteiro. Uma perturbação política ou social
ocorrida no Brasil, na Argentina, na Austrália, nos Estados Unidos ou na China,
pode ser um fato de importância meramente local. Mas, desde que ocorra na
Europa, é um fato de gravidade mundial.
Cingindo o diadema dessa realeza mundial que
exerce, não pelo prestígio das armas, mas pelo valor da inteligência e pelo
brilho das artes, a Europa assumiu um papel imensamente glorioso. Mas “noblesse oblige”. Se ela é o espelho no qual devem mirar-se
todas as Nações que se queiram tornar grandes e ilustres, ela deve arcar com as
conseqüências da sua hegemonia intelectual.
Ora uma das mais inelutáveis conseqüências dessa
hegemonia é o direito que adquirem todos os povos de examinar detida e
imparcialmente o que ocorre na Europa. Quem quer desempenhar um papel mundial
atrai sobre si a atenção do mundo inteiro. E dá, implicitamente, ao mundo
inteiro a liberdade de apreciar livremente o que se passa no campo da política
européia.
Mais ainda: quem se coloca sobre o altíssimo
pedestal em que se encontra a Europa tem a obrigação de dar ao mundo exemplos
que o edifiquem e orientem para o bem.
Quando não são estes os exemplos que o mundo
recebe, o que há a fazer? Pactuar com o mal? Calar-se? Dobrar-se?
Respondam por nós os nossos leitores.
* * *
Nenhum católico, no mundo inteiro, pode achar que é
edificante o exemplo que dão o camarada Stalin, o Füehrer
Adolf Hitler, (...) o Sr. Blum, o pérfido Sr. Azaña. No entanto, não falta, no mundo inteiro, gente que
se guie pela cabeça de Stalin, de Hitler, ou de Blum.
Pela cabeça de Azaña , ninguém se guia, porque a
cabeça de Azaña não é senão a III Internacional.
Agora, pergunta-se: devem os católicos cruzar os
braços ante essa influência internacional dos Chefes dos grandes Estados
Europeus? Devem permitir que essa influência se irradie indefinidamente, com
detrimento dos sagrados interesses da Igreja?
Mas por que? Só para não dizer algo que possa
desagradar a alguém?
Quem, nas fileiras católicas, ousaria justificar
atitude tão monstruosa? Quem ousaria, por um momento sequer, aprovar tão
vergonhosa passividade?
Conscientemente, ninguém. No entanto, é a esta
passividade que nos conduziria necessariamente a opinião de alguns leitores que
acham que o “Legionário” deve imiscuir-se exclusivamente na política
brasileira, deixando que os católicos dos outros países “lavem em casa a sua roupa suja”, como diz um prosaico e popular ditado.
* * *
Demonstramos que é, para nós, um direito inviolável
o de comentar o que se passa na Europa.
Mais do que um direito, porém, é um dever. Não
apenas um dever para com a Igreja. Mas também um dever sagrado e inviolável
para com as próprias nações européias.
Um católico autêntico deve ter bem viva no coração
a chama do amor fraternal que o liga aos seus irmãos na Fé, sejam eles
chineses, hottentões, tártaros, espanhóis, franceses
ou alemães.
Não se trata apenas de um amor platônico. O amor
sincero é ativo, é zeloso, é diligente. Se amamos nossos irmãos, devemos
interessar-nos por eles. E, por isto, se vemos os católicos alemães e russos
sofrerem uma perseguição aberta, se vemos os católicos franceses em vésperas de
sofrerem o que sofreram seus irmãos russos, se vemos os católicos espanhóis
entregues à amargura imensa de uma luta civil que está consumindo todas as
forças da gloriosa Ibéria, não podemos ficar indiferentes.
Pelo contrário, temos o dever grave, imperioso,
inadiável, dever de honra entre os que mais o sejam, de unir nosso protesto aos
protestos dos católicos alemães; de unir nossas lágrimas às de nossos irmãos
russos; de unir nossas preces a de nossos irmãos franceses; de unir nossas
lágrimas, nossos protestos, nossas preces e nossos esforços, aos nossos irmãos
espanhóis e mexicanos.
Quando atacamos Stalin, fazemos ato de russofilia. Quando apontamos os erros de Hitler, procedemos
como autênticos germanófilos. Quando desmascaramos o
Sr. Blum, cumprimos nosso dever de francófilos entusiastas. Quando vituperamos Azaña e Cardenas mostramo-nos
fraternais amigos da Espanha e do México. E quando apontamos algumas nuvens que
toldam os horizontes italianos, damos provas de uma italofilia
incontestável.
* * *
Reflitam sobre isto aqueles de nossos leitores
católicos e estrangeiros, cujo nacionalismo se tenha sentido, talvez, “froissé” com
a vivacidade de nossa crítica.
Examinem calmamente os argumentos que aqui ficam. E
digam-nos, depois, se não temos razão.