Ao escrevermos o título desta
nota, a própria expressão de que nos servimos nos causa pasmo. Um “caso” com o
Rei da Inglaterra! A autoridade temporal mais firme, mais antiga, mais respeitável
que o mundo contemporâneo conhece!! E é com esta autoridade que surge um
“caso”, “caso” íntimo, de natureza rigorosamente moral, que está ameaçando de
se envenenar ao contato com interesses políticos e, quem sabe, abalar
irremediavelmente a secular monarquia inglesa!
No momento em que os vagalhões da revolução
comunista ameaçam o mundo inteiro, em que uma onda de revolta contra todos os
poderes constituídos põe em cheque a autoridade de todos os monarcas e chefes
de Estado, com que olhos a Igreja Católica, essencialmente tradicionalista, vê
o Trono da Inglaterra?
Não é fácil responder.
Antes de Henrique VIII, a Inglaterra era um dos mais
sólidos baluartes da Igreja Católica. Em toda a vida intelectual, artística,
política e social, a influência dos princípios católicos era profunda. O número
de Santos nascidos em território inglês foi tão grande que a Inglaterra chegou
a chamar-se a “Ilha dos Santos”.
Características
particularmente salientes desse vigoroso espírito católico eram exatamente o
apego profundamente sincero do povo à autoridade do Rei e, ao mesmo tempo, a
altivez com que o mesmo povo se insurgia contra todas as tentativas da Coroa
tendentes a transformar a monarquia em tirania.
A luta dos ingleses por suas liberdades, luta que
foi tão desfigurada pelos historiadores acatólicos, traz o estigma
característico do espírito católico: um grande respeito à autoridade e um
grande amor à justiça. Amantes da autoridade, os ingleses, antes de Henrique
VIII, nunca chegaram a tentar a destruição da monarquia, mesmo quando lutavam
pela sua liberdade. Amigos da justiça, sempre reivindicaram seus direitos sem
que seu respeito à autoridade lhes tolhesse a liberdade de ação.
A História medieval
inglesa não conhece a maior parte das abominações que conheceu a História da
França, da Alemanha ou da Itália no mesmo período (abominações que, seja dito
de passagem, são insignificantes perto das que assiste o mundo contemporâneo).
As “jaqueries”, em que os camponeses queriam exterminar os
senhores feudais, as revoluções em que os nobres queriam exterminar a realeza,
e as lutas em que a realeza procurava aniquilar os direitos do povo e da
nobreza, tiveram na Inglaterra um aspecto imensamente mais benigno e mais razoável.
O feudalismo inglês, modelo admirável de inteligência administrativa, foi o
mais perfeito regime político da Europa medieval. É nele que se deveria estudar
a verdadeira história do feudalismo.
Nas lutas dos barões e do povo com os reis, as
desinteligências existentes a respeito do governo da Inglaterra acabaram por se
resolver definitivamente. E surgiu, com o bafejo da Igreja, a estrutura política mais firme que a Europa tenha
conhecido até hoje.
Uma crise de caráter íntimo e passional veio por em
jogo a estabilidade desse admirável edifício, todo ele alicerçado e cimentado
pelos princípios católicos.
O Rei Henrique VIII, fazendo-se intérprete do sentimento do povo inglês,
escreveu uma obra de refutação do protestantismo, que começava a por em fogo a
Alemanha. O Papa, reconhecido pela intervenção do Rei, outorgou-lhe o honroso
título de “Defensor da Fé”. E Lutero, indignado com Henrique VIII, o chamava “o mais sujo de
todos os porcos”.
Mas acontece que Henrique VIII sentiu em si a mesma
fraqueza que arrastou David ao pecado e Salomão à perdição.
Um romance - digamos assim, para não dizer coisa
pior - se havia formado na vida do Rei. Desejava ele anular seu casamento com a
Rainha, sua esposa, para contrair núpcias com outra dama de sua corte. Não
conseguindo do Papa a anulação do casamento, ficou colocado em um cruel dilema:
ou renunciar à Fé ou renunciar ao “romance”.
Renunciou à Fé. Fez-se protestante o “Defensor da Fé”. E o protestantismo abençoou a união ilícita daquele que recebera
a alcunha de “mais sujo de todos os
porcos”, simplesmente por ter atacado a pseudo-reforma.
No que precede, nossos leitores já terão encontrado
alguma analogia com a última crise inglesa. É curioso notar que Henrique VIII
também encontrou em Tomas Morus, seu primeiro
Ministro, um adversário irreconciliável de seu casamento. Profundamente
católico, Tomas Morus recusou-se a
abjurar a Fé. Foi condenado à morte. Sofreu o martírio. E hoje brilha nos
altares da Igreja Universal, com a auréola da Santidade.
Sem querer atribuir à analogia outro alcance do que
o de uma simples coincidência, julgamos interessante mostrá-la a nossos
leitores.
Rompendo com o Catolicismo, Henrique VIII teve a
preocupação de conservar na igreja anglicana o máximo de verdades religiosas
professadas pela Igreja Católica. Repudiou tão somente o que lhe pareceu
indispensável para negar a supremacia do Pontífice Romano e justificar o
divórcio.
Este fato explica como, diante da verdadeira
decomposição do protestantismo, que hoje em dia confina com o racionalismo e
com o ateísmo, e que até tem seitas comunistas que se afirmam cristãs (!), o
anglicanismo permanece aparentemente coeso e disciplinado.
Ao mesmo
tempo, é isto que explica como, tendo a monarquia rompido com a Igreja
Católica, ela ainda conservasse uma pujança realmente contraditória com a
semente de anarquismo que está no fundo da doutrina protestante.
A relativa fidelidade
do anglicanismo ao Catolicismo produziu, com o tempo, todos os seus frutos
lógicos.
As sementes de
Catolicismo que o anglicanismo conservou foram a seiva que até agora circulou
na estrutura do Estado britânico, e que manteve coesa a igreja anglicana.
As sementes de
protestantismo que o anglicanismo adotou produziram os frutos de anarquia que lhe são
próprios. A Revolução que destituiu Calos I foi um prelúdio. De
lá para cá, lentamente, a desagregação das instituições monárquicas se tem
acentuado mais e mais. A luta entre o fator “ordem católica” e o fator
“anarquia protestante” na doutrina anglicana, se projetou no terreno político,
com a luta entre o fator “amor à liberdade” (que o protestantismo transformou
em amor à anarquia) e amor à autoridade (que é o apego à monarquia). As duas
tendências se tem combatido em uma luta de todos os momentos. E é por elas que
se explica a
Grandeza, porque nenhum poder temporal está, hoje
em dia, colocado mais alto. Firmado em um princípio, e não em uma situação de
fato como o nazismo, o poder do monarca inglês não se alicerça sobre um
entusiasmo de momento, mas sobre um profundo amor da multidão a uma dinastia
ligada à História do País.
Decadência, porque este poder, de aparência tão
magnífico, é apenas um vestígio do que foi outrora, uma reminiscência histórica
nos quadros constitucionais ingleses.
Poucos são, hoje em dia, os homens que recebem
reverências e tantas manifestações de respeito quanto o Rei da Inglaterra. E,
no entanto, poucos são os chefes de Estado mais privados de reais atribuições
na vida política do País.
O clero anglicano se encontra em situação análoga à
da realeza. De todas as seitas protestantes, é a mais organizada. E, no entanto,
é simplesmente tremenda a anarquia que lavra nas suas fileiras. Conservando as
exterioridades litúrgicas tradicionais, tão parecidas com o catolicismo, o
anglicanismo a deixou invadir por um modernismo tremendo que repugna a alguns dignitários da igreja anglicana, mas contra os quais estes
sentem que não podem reagir, pois que os princípios protestantes não lhe
autorizam qualquer reação eficaz.
Há pastores anglicanos – o fato é relatado por um
deles – que são ateus! Há bispos que são maçons. Ainda há pouco, a igreja
anglicana pactuou com uma das “conquistas” mais censuráveis do modernismo que é
a limitação da natalidade, que, depois de longa resistência, ela acabou por
admitir.
A visto disto, a igreja anglicana está visivelmente
cindida em duas correntes, uma que caminha para a volta à Igreja e outra que
caminha para o racionalismo.
No início de todo este processo de decadência, o
“caso” de um rei. Na véspera da crise final de nossa civilização, nessa hora
que Maquiavel chamaria a “hora 23” de nossa civilização, o “caso” de outro rei
a dar-lhe talvez o golpe fatal. Foram numerosas e fundamentais as questões que
a crise real pôs na ordem do dia.
Em primeiro lugar, a atitude dos bispos que
protestaram contra o casamento do rei com uma divorciada significa uma posição
de reação do anglicanismo contra o divórcio, por cuja aceitação Henrique VIII
rompeu com Roma. Fato enorme na vida religiosa da Inglaterra. Fato de uma
incoerência quase monstruosa, se ele não significasse o anseio sincero para uma
perfeição que ficou irremediavelmente perdida com a separação de Roma.
Em segundo lugar, ela vem suscitar a questão da
separação da igreja e do Estado, questão delicadíssima que põe em cheque a
própria coroa, pois que o Rei da Inglaterra é o chefe espiritual e temporal de
seus súditos. Separadas as suas atribuições espirituais das temporais, em que
situação ficaria ele?
Em terceiro lugar vem a crise constitucional.
Muitos extremistas da direita quereriam que o Rei aproveitasse a oportunidade
para se transformar em um Hitler ou um Mussolini coroado, que fechasse o
Parlamento, extinguisse o regime liberal-democrático e fosse um novo Luiz XIV,
ao qual não faltaria, na pessoa de Miss Simpson, a respectiva Montespan.
Outros, desgostosos com a atitude real, que põe em
risco as próprias tradições morais e nobiliárquicas que são o fundamento da
monarquia, chegaram em sonhar em revolução.
Enquanto isto, não dormem os comunistas.
A Igreja Católica vê com simpatia a monarquia
inglesa.
Ao contrário do que se poderia supor, a Igreja tem
mais de uma vez trabalhado para a consolidação do trono inglês quando jugulou
as tendências republicanas do povo irlandês. É que na Inglaterra a monarquia é
filha da Igreja. Filha rebelde, está sofrendo o necessário castigo. Mas, como
Deus que A ilumina, a Igreja “não quer a morte do pecador, mas que ele se
converta e viva”. Por esta razão procura manter a monarquia e tudo aquilo que
há de são no regime inglês.
É, pois, com profundo pesar que a Igreja assiste ao
rumoroso caso motivado pelas relações de Eduardo VIII com Miss Simpson. E foi
grande seu contentamento pela feliz solução encontrada.
Pesar, porque a Igreja censura, senão
explicitamente ao menos tacitamente, o rei da Inglaterra. Ela que é o único
baluarte da indissolubilidade do casamento no mundo, Ela que perdeu a
Inglaterra para manter essa indissolubilidade, não pode, não quer e não deve
aprovar o gesto do rei.
Mas essa reprovação não importa em um gesto de
desrespeito à majestade da autoridade real.
Poderia a Igreja aproveitar-se da oportunidade para
perguntar aos anglicanos se Eduardo VIII é muito melhor do que alguns Papas de
que tantos protestantes gostam de falar. Chefe de igreja, sua responsabilidade
é também religiosa. E Eduardo VIII não pode ignorá-lo.
Mas a Igreja silencia a esse respeito. É que, numa
situação de tanta dor para a Inglaterra, a Igreja não impunha o látego do
verdugo para ferir a heresia e a majestade do poder constituído.
Como pai da parábola, Ela só tem, para a antiga
Ilha dos Santos, um gesto: o de abrir os braços ao filho pródigo.
É, pois, com verdadeiro júbilo que Ela vê subir ao
Trono um casal principesco já popular, em todo o império, pela autoridade de
suas virtudes domésticas.
Recusando Miss Simpson como rainha, a Inglaterra
deu um passo para trás no caminho do divórcio.
Seja este passo seguido, em breve, por outros que a
reconduzam quanto antes à Casa Paterna.