É curioso notar as diversas atitudes que têm tomado
a opinião pública a respeito da Revolução Espanhola. Há, em primeiro lugar, os
que acham que a Revolução é ilegítima porque investe contra um poder
legitimamente constituído, como seja o do Sr. Azaña. Mesmo sem discutir a legitimidade do governo espanhol,
que é discutibilíssima, essa opinião tem um cunho de
ingenuidade quase escandalosa.
Realmente, parece pasmoso
que se vá invocar o princípio de autoridade para apoiar um governo que chamou a
si a sinistra tarefa de desorganizar toda a vida política e social da Espanha.
Essa obra de geral anarquização tinha como escopo evidente facilitar a
infiltração comunista na Espanha. O governo do Sr. Azaña não era
um governo, pois que seu programa era o desgoverno. E, portanto, nenhuma
obediência lhe era legitimamente devida.
Mas há gente mais ingênua ainda. Não invoca o
princípio de autoridade. Mas invoca a caridade cristã. Há quem entenda que, uma
vez que Jesus Cristo perdoou seus
adversários e aconselhou que estendêssemos o outro lado do rosto a quem nos
desse uma bofetada, a vocação dos católicos consiste em morrer, ceifados como
carneirada inútil, pela metralhadora dos revolucionários comunistas.
Realmente, Jesus Cristo recomendou o perdão. Mas o
perdão para o pecador arrependido. Só depois do arrependimento da Madalena, Ele
lhe perdoou os pecados. Com os pecadores impenitentes, os que recusam a
obediência à voz de Deus que os chama à penitência, o Cristo tem outra conduta:
a que lemos na passagem evangélica dos vendilhões do Templo.
Quanto à legítima defesa, é um dever. Ninguém pode
permitir que a Cristandade seja dizimada por uma quadrilha de malfeitores.
Ninguém pode consentir em que as coisas sagradas, os lares, os monumentos,
sejam reduzidos a um montão de cinzas. Ninguém tem o direito de cruzar os
braços, quando a honra das virgens consagradas a Deus sofre horrendos atentados,
por causa da cupidez de alguns monstros.
Falar em sentimento cristão de tolerância, de
indulgência, de benignidade, em relação aos comunistas é, pura e simplesmente,
pregar a traição, a covardia, a deserção, em nome de Jesus.
Não menos blasfema é a atitude dos que se preocupam
tão somente com a paz. Há verdades duras de serem ouvidas, mas que purificam as
almas que as recebem. Uma delas é a seguinte: por mais preciosas que sejam
todas as vidas que se estão perdendo na Espanha, por mais deploráveis que sejam
todos os padecimentos que enlutam a Pátria de Santa Teresa, tudo isto é uma
insignificância em comparação com a grandeza da causa que está em jogo.
O que na Espanha se discute é se o mundo deve ser
governado por Jesus Cristo ou por Karl Marx. Toda a civilização católica, todos os princípios de
moral, todas as tradições, todas as instituições de que se orgulham os
ocidentais, desaparecerão irremediavelmente se vencer o comunismo. A luta da
Igreja contra os “sovietes” é a luta de Deus contra o
demônio, de tudo quanto há de nobre contra tudo quanto há de ignóbil, de tudo
quanto há de bom contra tudo quanto há de mau.
À vista disto pergunta-se: não é muito e muito bem
empregado o sangue que se está derramando na Espanha, se da efusão desse sangue
de mártires resultar a vitória da civilização contra a barbárie?
Pensar que a Igreja Católica se
ocupa ou deve ocupar-se tão somente com a pacificação do mundo, poupando a
efusão de sangue sem olhar para os resultados de uma Paz intempestiva, é dizer
que a Igreja deve renunciar à defesa dos interesses de Cristo, para salvar
algumas vidas que, se não forem destruídas hoje, serão dia mais, dia menos,
roubadas pela morte.
* * *
Mas, dirá muita gente, os telégrafos anunciam que o
Santo Padre cogita de intervir na Espanha, para obter um armistício entre as
tropas beligerantes.
Não sabemos até que ponto possa ser verdadeira esta
notícia. No entretanto é indispensável, para que se conserve intacto o senso
católico de nossos leitores, que eles compreendam que o Papa nunca interviria na
Espanha com o exclusivo escopo de evitar a efusão de
sangue, indiferente ao prejuízo que uma paz intempestiva acarretaria para a
Espanha e a civilização. Se o Santo Padre realmente vier a falar em paz, é
porque razões de ordem superior, todas elas hauridas no mais puro e
intransigente amor à Igreja e à Espanha o levarão a isto. Nunca, porém,
qualquer sentimento de humanitarismo mórbido seria capaz de ter influência em
sua mentalidade de escol, amparada pela graça do Espírito Santo.
Muita gente dirá que estamos errados, porque em
nossas igrejas têm sido feitas preces pela paz na Espanha, e não pelo triunfo
dos revolucionários.
Bela objeção. Ela revela uma completa ignorância do
“a-b-c” da doutrina católica.
Ninguém poderia, licitamente, dirigir a Deus a
seguinte súplica: “Dai a paz à Espanha, ainda que a paz redunde em benefício
para os comunistas, vossos mais rancorosos inimigos. Contanto que a paz reine
na Espanha, pouco importa que eles
persigam vossa Igreja, matem vossos ministros, destruam vossos templos. O que
queremos é a paz”. Tal súplica seria uma blasfêmia. E nunca encontraria guarida
no Coração infinitamente justo de Deus.
Quisemos chamar a atenção dos nossos leitores sobre
este assunto, porque muita gente tem incidido em dois erros funestos a este
respeito.
O primeiro erro consiste em supor que, porque nas
igrejas se reza pela paz, a Igreja quer qualquer paz. Não, a Igreja só quer a
paz que é, segundo diz S. Tomás, “a tranqüilidade da ordem”. E nunca a paz resultante de
uma semi-vitória do comunismo, o que seria, quando muito, a tranqüilidade da
desordem.
O segundo erro é mais funesto. Porque, se o
primeiro revela falta de senso católico, este segundo revela indisciplina
religiosa. A ninguém seria lícito censurar nosso Clero por rezar pela paz na
Espanha. À boca pequena, correm em certos círculos censuras desse gênero. Tais
censuras são filhas da ignorância. É preciso ver que sentido o Clero dá às suas
súplicas pela paz.
Mas ainda que o Clero não tivesse razão, deveriam
os católicos calar-se. Porque Jesus Cristo organizou sua Igreja de modo a que
os Sacerdotes tenham autoridade sobre os leigos. E nunca os leigos sobre os
Sacerdotes.