Escrevemos
no momento em que os vespertinos publicaram o discurso do Sr. Hitler no Reischtag.
Ignoramos ainda qual está sendo, pelo mundo inteiro, a repercussão que está
tendo. Mas desde já estamos habilitados a fazer algumas observações relativas
às palavras do Chefe do nazismo alemão.
A
primeira observação se refere às relações com a Rússia soviética. Ninguém se
pode esquecer das condenações retumbantes – e aliás fundamentadas – com que o
chanceler alemão e a imprensa nazista fulminavam as relações diplomáticas
mantidas pela França e pela Inglaterra com a Rússia soviética. Dessas relações
internacionais, nazistas e fascistas deduziam que existia no mundo um grande
bloco comunista, declaradamente na Rússia e veladamente bolchevista na França e
na Inglaterra. E que os totalitarismos da direita iriam iniciar uma guerra
santa contra essa conjuração monstruosa de (...) revolucionários rubros.
Entretanto,
os interesses da propaganda política sopram agora por outros quadrantes. E por
isto o Sr. Hitler ostenta escancaradamente suas ligações com Moscou.
E
o anticomunismo? Onde ficou ele?
* * *
A
este propósito, devemos lembrar que, da simpatia do Sr. Hitler, não adveio para
a Rússia tão somente oportunidades para calcar aos pés uma parte da Polônia
católica, submetida desde já a uma intensa sovietização.
Além disto, a Estônia, a Letônia e a Finlândia, uma depois da outra, estão
caindo sob o jugo comunista, e daqui a pouco o mar Báltico será um oceano
soviético, exceção feita - durante quanto tempo? - do litoral sueco.
Não
se incomoda o Sr. Hitler com este alastramento do comunismo?
* * *
Ainda
a este propósito, outra observação interessante. O nazismo não age apenas
através de elementos filiados à suas organizações, o mesmo se dando com outros
“ismos” congêneres. Há totalitaristas
encapotados, que fingem nada ter que ver com o nazismo, mas que morrem de
amores... mais ou menos desinteressados, por ele.
Ora,
é curioso notar como tal gente perdeu inteiramente seus pruridos
anticomunistas. Em certos círculos onde se apresentava, com razão, o comunismo
como um precursor do anti-Cristo, e, onde se
criticava de boa vontade os católicos do mundo inteiro por não trabalharem
suficientemente contra o comunismo, onde estão agora as belas declamações de
outrora? Não são mais anticomunistas? (...)
* * *
Quanto
à Polônia, temos também uma observação a fazer. Neutros, como católicos, e
neutros como brasileiros, quando se trata de questões políticas européias nada
temos a dizer.
Entretanto,
tudo quanto diz respeito à Santa Igreja não nos pode deixar indiferentes, e uma
neutralidade entre a Igreja e seus inimigos seria para nós um crime abominável.
Por isto mesmo, se bem que continuemos neutros sob o ponto de vista político e
militar, não podemos nos desinteressar dos destinos espirituais da Polônia que
arrancaram recentemente ao Santo Padre tão amargas lágrimas.
Por
isto, muito desejaríamos saber se a situação que se propõe à Polônia é
suficientemente segura para permitir, ao menos dentro do território
independente, uma altiva repulsa às ideologias heréticas e abomináveis do
nazismo e do comunismo. Em caso afirmativo, a paganização
da Polônia será limitada. Em caso contrário, sua independência será uma farsa.
Este ponto capital mereceria ser esclarecido.
* * *
Felizmente,
a opinião publica vai tomando uma atitude cada vez mais esclarecida, na
presente emergência, sem prejuízo da serenidade que nos convém como país
neutro.
Para
tanto não tem faltado declarações de valor de elementos de grande projeção na
vida nacional. E especialíssimo destaque merecem os
tópicos do discurso pronunciado pelo Arcebispo de São Paulo, referentes ao
assunto, e que hoje publicamos.
Também
o discurso do Sr. Diretor da Faculdade de Direito, cheio de preciosas
declarações a este respeito, merece a maior reflexão, por sua serenidade,
desassombro e lucidez.