Um telegrama da agência Reuter,
publicado na semana passada, comunicou que a estação transmissora do Vaticano
verberou severamente as medidas anticatólicas tomadas
pelas autoridades nazistas na Alsácia e Lorena, bem como em outros lugares da França ocupada. O Ex.mo
Rev.mo Sr. Bispo de Strasburg foi expulso de sua
diocese. A famosa Catedral de Strasburg foi fechada devendo
ser transforma em museu. Nas escolas primárias já não se leciona Religião. As
escolas particulares já não podem ministrar ensino católico. E as escolas
pertencentes a Sacerdotes foram proibidas de funcionar, exceção feita das que
se destinam ao ensinamento de surdos e mudos. No curso secundário, só se
permite o ensino da Religião nas primeiras séries. A Faculdade e o Seminário de
Strasburg foram também
eliminados. As associações católicas só poderão funcionar sob a direção do
Estado. Toda a imprensa católica, inclusive os simples boletins paroquiais e
até os comunicados religiosos semanais, foi suspensa.
Assim, pois, ruínas sobre ruínas, se vão acumulando
na França ocupada.
* * *
Nossa época, entretanto, tem olhos para ver as
coisas materiais. Se as autoridades nazistas tivessem reduzido ao estado de surdo-mudez todas as crianças da Alsácia-Lorena,
um clamor geral teria certamente ecoado pelo mundo inteiro. Entretanto, muito
mais felizes são os pobres surdos-mudos a quem se vai ainda permitir o
ensinamento religioso, do que as crianças que forem obrigadas a crescer sem
conhecer suficientemente a Deus Nosso Senhor. Mas quem se lamenta por isto?
Quais são as almas com espírito de Fé capazes de compreender isto?
Os católicos que, sob pretexto nacionalista,
desejaram o triunfo do nazismo na França, e se regozijaram com a vitória, estão
contentes com estes resultados? Quantos deles choraram a Paixão do Senhor nas
Igrejas, e se alegram com um estado de coisas de que decorreu uma tal série de
ruínas para as almas?
Mas a este propósito cabe uma pergunta: ainda serão
eles realmente católicos?
* * *
Não podemos deixar de manifestar nosso profundo
sentimento de dor, vendo que nas vésperas da Semana Santa, [...] o europeu se
alastrou consideravelmente envolvendo na luta povos que ainda estavam em paz.
Que sangue de cristãos se derrame assim, exatamente quando a Igreja se dispõe a
celebrar a Paixão do Senhor, é fato dolorosissímo que
ninguém pode deixar de lamentar. Em geral, não se tem suficiente idéia do valor
do sangue de um cristão. O Santo Cura de Ars, certa vez, precisando fazer uma sangria porque seu
estado de saúde exigia, exigiu que o sangue que dele fosse tirado, fosse convenientemente
posto no cemitério “por ser sangue de cristão”. Que exemplo para tanta gente.
* * *
Porém, muito mais do que o sangue dos cristãos
valem as suas almas. Ora, quantas e quantas almas poderão perder-se se a
heresia triunfar nesses novos embates? Quem pode não tremer diante desta
perspectiva?
Quem pode não lamentar muito mais que se venham a
perder as almas do que a efusão do sangue?
Rezemos. É esse o nosso grande dever, porque a
oração é uma arma que as metralhadoras não inutilizam, os tanques não esmagam,
os aviões não bombardeiam, e os gases pestíferos não atingem.