Mal acabaram de ecoar as edificantes e belas
palavras com que o Episcopado da Província Eclesiástica de São Paulo brindou os
fiéis em seguida sua reunião anual, e a impressão confortadora desta suave e
viril mensagem de paz foi brutalmente interrompida pelo estrondo dos
canhoneiros do Hawai e Honolulu.
No artigo de fundo deste número, comentamos
detidamente a Pastoral. Baste-nos, aqui, registrar essa curiosa coincidência,
acentuando que a voz de nossos Bispos, muito mais do que um simples clamor de
alguns Prelados de uma Província Eclesiástica, representou naquele momento a
própria consciência cristã do mundo inteiro, apreensiva e temerosa diante de
novas violações contínuas da moral internacional, fundando-se para tanto em
indícios que muito cedo se transformaram em evidência catastrófica e
desconcertante.
* * *
Não queremos deixar de acentuar qual a verdadeira
posição do católico perante estes fatos.
Agem sem verdadeiro espírito de Fé aqueles que se
deixam empolgar pela simples lamentação de dores físicas, de morte e de
prejuízos financeiros. A saúde, a riqueza, a própria vida terrena são bens
transitórios. Mais cedo ou mais tarde morreriam aqueles que hoje estão sendo
ceifados pela guerra, e quando morressem ficariam privados definitivamente de
suas efêmeras riquezas se, antes disto, o jogo caprichoso dos fenômenos
econômicos os não houvessem privado delas.
É lícito, e até digno de louvor, que se lamente a
perda destes bens que, usados conforme a lei de Deus, podem ser excelentes. Mas
há uma evidente falta de espírito de Fé em chorar excessiva ou principalmente
estas ruínas.
* * *
Não nos esqueçamos de que a alma vale mais do que o
corpo, a vida eterna mais que os bens transitórios e passageiros.
Diz textualmente a Escritura - e é portanto o
próprio Deus que fala - que não devemos temer tanto os que matam o corpo,
quanto aos que matam a alma.
Já se terá pensado na série enorme de pecados a que
uma guerra pode dar lugar? A vida de acampamento, com as inúmeras ocasiões que
oferece em países conquistados, se soma a mil outros fatores para pôr
seriamente em risco a salvação, mesmo dos combatentes realmente piedosos.
Elevemos a Deus nossas preces não somente para que a mortandade seja pequena,
mas ainda e sobretudo para que, de tanta e tantas mortes, as almas se salvem
depois da ruína dos corpos.
* * *
Finalmente, não nos esqueçamos de que o enorme
pecado que constitui uma guerra injusta, pecado verdadeiramente incomensurável,
é uma ofensa a Deus, Nosso Senhor. Com efeito, aqueles que tomam deliberadamente a iniciativa de uma agressão que talvez
mergulhe no sangue e na dor dos dois vastos continentes, são responsáveis
perante Deus por todas as vidas inocentes, por todas as lágrimas e por todos os
sofrimentos que tiverem ocasionado.
Qual será, então, a gravidade deste pecado?
Se antes de tudo e acima de tudo olhamos para a
maior Glória de Deus, pensemos ardentemente em reparar este enorme pecado, em
chorar esta gravíssima falta, em expiar esse incomensurável crime. Na ordem dos
valores é só depois disto que deverá haver em nossos corações lazer para
devotar aos que sofrem a perda dos bens deste mundo aquela piedade, aliás
esplendidamente generosa e sobrenaturalmente eficaz, que os corações
verdadeiramente católicos sabem tributar aos que sofrem.
* * *
Falamos em guerra injusta.
Mas a doutrina católica também nos ensina que há
uma paz injusta. E esta também pode constituir um enorme pecado, um pecado
talvez maior do que o de uma guerra injusta, em certos casos ao menos.
É esta, entre outras, por exemplo a situação em que
se encontra o velho Marechal Pétain. A situação está mostrando à evidência que é aos recuos,
às transigências, às inexplicáveis complacências do ex-”herói de Verdun” que se deve a conflagração no Pacífico, e quiçá no
Atlântico.
Se não, vejamos.
O noticiário telegráfico dos últimos dias mostra
que o Japão auferiu as mais preciosas vantagens com a
inexplicável autorização que o Sr. Pétain deu as tropas
nipônicas de ocuparem posições estratégicas ao longo das fronteiras das
colônias francesas do Extremo-Oriente. Com efeito, o
ataque naval nipônico estaria bem longe de ter revestido de gravidade que
alcançou, senão fosse o fato de tropas japonesas estacionadas na própria
península indo-chinesa terem estabelecido uma ameaça
permanente e direta contra Singapura e outros pontos de
capital importância. Quem conhece a grande inteligência com que costumam
proceder os nipônicos na direção de seus assuntos políticos não poderia ignorar
que eles mediram tudo isso antes de dar o golpe.
Te-lo-iam dado sem este decisivo
fator de sucesso? É muito pouco provável. Em outros termos, o Sr. Pétain é diretamente responsável pelo que ocorre no Extremo
Oriente.
* * *
Por que teria o Sr. Pétain
agido assim? Ignorância da situação na Ásia? Imprevidência? Quando o Sr. Pétain cedeu essa zona ao Japão, o “Legionário” fez
comentários aos quais não tem uma linha a acrescentar. Acentuamos, naquela
época, a ridícula incongruência entre a cordura do velho Marechal no Extremo
Oriente, e sua ferocidade para com a Inglaterra. Ao mesmo tempo que cedia posições vitais na Indochina, o Sr. Pétain ameaçava
desembainhar a espada na defesa das colônias do Mediterrâneo e de Dacar, isto é, de zonas cuja adesão a De Gaulle seria provavelmente
fatal à expansão nazi-fascista naquilo que os jornais
do “eixo” se empenham em chamar o “Mare Nostrum”
do totalitarismo.
E até hoje o
Sr. Pétain não se arrependeu do que fez na Indochina.
A prova disto está em que na sexta-feira p.p., os jornais publicaram a
celebração de uma acordo Vichy-Tóquio “a fim de defender
a Indochina”. Defender? Contra quem? Contra anglo-americanos? Quem poderá levar
a sério a suposição de que eles atacariam a Indochina se esta não tivesse
aberto seu bojo para receber tropas nipônicas?
* * *
Como se vê, a cordura do Sr. Pétain
na Indochina tem larga parceria de responsabilidade pelo derramamento de sangue
no Pacífico. Suas “bravuras” no Mediterrâneo e no
Atlântico não foram menos úteis ao “eixo” do que a capitulação no Pacífico. Com
efeito, o Sr. Pétain, mantendo o mundo mediterrâneo
francês apartado do movimento de De Gaulle, outra
coisa não fez senão reservar para o “eixo” as posições estratégicas que podem
ocasionar e facilitar um ataque a Gibraltar e daí uma ofensiva
no Atlântico, eventualmente baseado em Dacar. É
preciso ser ingênuo como uma criança ou pérfido como um sentenciado para negar
isto.
E daí resulta que o Sr. Pétain,
querendo preservar a paz nas colônias francesas - ao menos foi este seu
pretexto -, terá talvez franqueado a Marte o acesso para o Oceano Atlântico. É
patente.
* * *
Inépcia, ainda? Então uma inépcia clínica. Mas será
ainda por inépcia que o Sr. Pétain prometeu, segundo
certos telegramas, a esquadra francesa ao “eixo”? Aí as coisas atingem as raias
do inominável, e é melhor deixar falar os fatos. Se efetivamente a esquadra for
entregue ao “eixo”, melhor será que os jornais não qualifiquem o fato, ou ao
menos os jornais cuja linguagem se conserva em certo nível...