O "Diário da Noite" publicou, na semana
passada, uma reportagem intitulada
"Gil Robles, o católico", a respeito da qual não podemos deixar
de fazer alguns reparos.
É absolutamente certo tudo quanto ali se lê a
respeito da inteligência, cultura, destreza política do famoso "leader" de
uma das mais influentes correntes católicas da Espanha. Mas há dois pontos que o autor da reportagem deixa
obscuros, e a respeito dos quais há uma palavra a dizer.
* * *
Antes de tudo, não é certo que Gil
Robles seja o responsável pela situação atual da Espanha, por não haver
promovido a tempo contra o governo das esquerdas, a revolução necessária, que
por fim, com muito mais custo de sangue e de dinheiro, o general Franco acabou por fazer.
É cedo para que muita coisa se divulgue a respeito
deste ponto, um dos mais delicados e enigmáticos da história da Espanha
contemporânea. Temos entretanto, elementos para afirmar que, se Gil Robles não deflagrou a revolução foi porque muitos dos
elementos que anteriormente se levantaram ao lado do atual "caudillo" a
tal se recusaram. E... o mais curioso é que precisamente estes elementos
acusaram depois Gil Robles de pusilânime, de tímido,
e até de covarde.
É o que nos consta por via segura, e a bem da
verdade devemos afirmar.
* * *
Outra questão que precisa inteiramente ser
esclarecida é a posição de Gil Robles perante as
chamadas "direitas". Não houve, na política européia de antes desta
guerra, palavra de que mais se abusasse. Na terminologia parlamentar a
expressão "direita" servia para designar os deputados reacionários de
vários matizes legitimistas, orleanistas,
bonapartistas, republicanos conservadores, na França por exemplo, que,
em todos os Parlamentos europeus, costumavam sentar-se nas bancadas à direita
da mesa da presidência. Como se vê, o simples fato de haver direitas de vários
matizes indica a possibilidade de se distinguir entre extrema direita, centro-direita, direita-esquerda,
etc. E, em última análise, como o pensamento reacionário em sua genuína pureza
é um só, eqüivale isto a dizer que havia, ao lado da extrema-direita
(legitimistas franceses, carlistas espanhóis, miguelistas portugueses, etc.) partidários da monarquia
cristã do "ancien régime",
correntes que faziam às idéias revolucionárias concessões maiores ou menores,
procurando salvar um número maior ou menor de elementos da antiga estrutura
político-social.
Ao lado da direita 100 por cento, havia, pois, as semi-direitas, ligas mais ou menos ecléticas de espírito
conservador e de espírito liberal ou revolucionário.
* * *
De qualquer forma, sob algum ponto de vista, ou por
algum título, a vitória de qualquer das correntes da direita significaria um
retardamento no processo de corrupção das instituições que restam no mundo
anterior a 1789. Gil Robles chefiou, na Espanha, uma
coligação de todas estas direitas, inclusive uma forte organização católica
dentro do espírito da Rerum Novarum, coligação esta que
formava uma frente única contra os comunistas. E estava no seu papel. O
importante era precisamente abater o perigo imediato, que era a "poussé"
comunista.
* * *
Mas, na direita espanhola, como na alemã, ou na francesa,
insinuou-se um cavalo de Tróia. Foi o falangismo. O falangismo, as "Croix de Feux", o nazismo são, como todos
sabem, organizações que irradiam de um mesmo centro internacional, e que se
destinam a impor formas semi-comunistas de governo,
que veio a ser, na Alemanha, o III Reich. Nada de mais diferente de uma direita... às direitas, do
que este tipo de organização totalitária.
Os falangistas,
como os rexistas, mosleystas,
nazistas, etc., vociferaram, bramiam contra o comunismo. A este título, tiveram
o apoio das "direitas". Mas no fundo, o que eles fizeram, sempre que
tiveram o poder nas mãos, foi socialismo avançado e genuíno, ou seja comunismo
em estado de diluição cada vez mais concentrada.
* * *
Quase todas as direitas européias se iludiram, e
aceitavam a cavilosa cooperação. As direitas espanholas - excepção feita dos
valentes requetés de Navarra - também. E, a este
titulo, entre as várias correntes lideradas sob a direção do Gil Robles, havia também nazistas espanhóis. Mas eram
minoria insignificante e obscura. E Gil Robles, ou
sua corrente, pessoalmente nunca foram nazistas nem totalitários de qualquer
matiz.
É bom que isto se fixe com clareza. Porque Gil Robles não é e não deve ser um homem queimado.
* * *
(...) Ora, enquanto a cadência brutal dos passos
das legiões de Átila ecoa sobre as lages centenárias
da Cidade Eterna, enquanto por toda parte Átila nivela, destroe, aniquila a tradição - que fez Átila contra a
tradição, o passado, a hierarquia de valores na Alemanha! - ainda há em Roma um escombro de
nobreza, que vive de uns últimos alentos de seiva cristã. Esse escombro é um
escombro. Como lembra Leão XIII em uma das suas
Encíclicas, a nobreza em toda a Europa não cumpriu até o
fim seu dever e por isto sobreveio a Revolução Francesa. Mas, se não foi inteiramente fiel não foi inteiramente
infiel a nobreza. Por isso, reduzida a escombro embora, tem uma grande
respeitabilidade, tem uma vida resistente. Catilina,
que no século 20 se encontrou com Átila e a ele se aliou, caiu em Roma, e foi
para o substituir que Átila invadiu a cidade. Mas esses restos dos cruzados de
gentis-homens cristãos e patriarcas romanos que no seu infortúnio conservam a
Fé, a glória e a tradição de seus ancestrais ainda sobrevivem à irrupção de
Átila e à queda de Catilina. Catilina os detestou,
ocultamente os perseguiu quando viu que não obtinha para suas aventuras o apoio
da nobreza. Átila os odeia. Mas eles sobrevivem e ainda vão, incorporados,
pobres talvez e sofrendo necessidades e vexames que só Deus sabe, ainda vão
beijar o tronco venerando de onde brotaram todas as instituições Cristãs
inclusive a que representam. Pode-se imaginar com que carinho o Papa os terá recebido.
* * *
Os melhores dons de Deus são as cruzes e as
missões. São presentes que encerram a promessa de outros dons. Quando Deus
incumbe a um homem de uma grande tarefa, promete-lhe graças para ter uma grande
alma. E uma grande alma, uma alma santa é o melhor dom que Deus possa fazer ao
homem.
Pio XII julga que esses
velhos escombros ainda tem suficiente força para desempenhar uma missão. E
talvez, para eles um último apelo, a glória de uma última investidura, a
ocasião suprema de reintegração na plenitude de seu espírito de sua tradição,
que evite para eles a ruína definitiva. Pela boca de Pio XII foi Deus que
falou. E não falou apenas à nobreza romana, mas à do mundo inteiro. Não apenas à
nobreza mas a todas as classes sociais que, nos países de qualquer latitude e
de qualquer forma de governo, representam a continuidade do passado e o presente
e, depositárias da tradição, tem a custódia de valores culturais e espirituais
de 20 séculos de civilização cristã, de uma civilização feita e mantida pelos
méritos infinitos da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo. Há gotas do Precioso
Sangue de Cristo nessas tradições. Essas tradições cristãs valem bem o Santo Graal que empolgou a imaginação dos cavalheiros medievais.
Ouvi Cristo que fala pela boca de Pedro aos
aristocratas, aos homens de escol no terreno da distinção, da cultura ou da
instrução, no mundo inteiro: "Meus filhos,
tendes um papel a desempenhar. Qual é a tarefa que vos foi confiada? Certamente
a de facilitar o funcionamento normal da máquina humana. Sois os seus
reguladores, os aeróstatos. Em outros termos, representais a tradição".
Quanta antipatia essas palavras poderão suscitar, especialmente naqueles que
ignoram absolutamente o que seja uma tradição. O Santo Padre de antemão refuta
os sofismas destes últimos. "A palavra tradição pode ser
desagradável quando pronunciada por certos lábios. Muitos a interpretam
erradamente. Muitas almas, mesmo sinceras, tem a impressão de que a tradição é
apenas uma recordação e uma pálida imagem do passado, de um passado que não
pode voltar. Entretanto, a tradição é mais que uma ligação com o passado, é
sinônimo de progresso. A juventude guiada pela experiência de seus
predecessores poderá marchar mais firmemente para a frente. A tradição é um
presente que se transmite em gerações sucessivas. Sem ela o progresso se
efetuaria às cegas na escuridão".
* * *
Apagar a tradição seria, pois, deixar que o mundo
"caminhasse às cegas, na escuridão." Foi nas mãos das elites, que
Deus depositou esse tesouro de sabedoria e de luz. A função das elites sociais
consiste em preservar esse tesouro, em iluminar com ele corajosamente o
presente, em trabalhar por que essa lâmpada nem se apague ao vendaval das
idéias novas, nem brilhe inútil para os olhos de poucos, mas pelo contrário
como o lume evangélico seja colocada no candelabro para iluminar a sala
inteira. Conservar as tradições não é conserva-las como mero objeto de museu. É
conservá-las vivas, fortes, e, para isto é preciso vivê-las. Só as tradições
vividas na plenitude e autenticidade do espírito que as formou são capazes de
influenciar beneficamente o progresso, orientando-o, estimulando-o, aliando-se
a este sem com isto se deformarem.
* * *
O que precisamos é que o espírito dessas tradições,
a alma dessas tradições viva. E para que viva, é preciso que se alimente da
Vida. E a Vida é Nosso Senhor Jesus Cristo.
Átila é hoje Hitler. Hitler morrerá, seus dias estão contados como os de
Baltazar. Mas Átila não morrerá, porque Hitler é Átila. Átila não é Hitler.
Átila é a barbárie que desponta em muitos quadrantes
do mundo moderno. Átila não é um homem, nem um povo, mas uma idéia, ou antes
uma anti-idéia. Foi Átila que organizou na Alemanha
os campos de concentração, as Ordensburg, as SS, todo o infame aparelhamento
do partido nazista. Foi ele que tentou derrubar os altares de Cristo para
conglomerar os povos em adoração ao sol no recesso das florestas. Mas se Átila
sofreu um rude golpe com a queda de Hitler, todavia não morrerá com Hitler nem
com o nazismo. Átila continuará a viver nas escolas onde se fizer a apologia da
força, nos laboratórios onde se aconselhar a esterilização e se matarem os
nascituros, nas correntes em que se afirmar que o homem não é livre nem senhor
de seus atos, mas escravo da bestialidade insofreável
de seus instintos: isto é que é Átila. Átila mostrou no nazismo toda a sua face
bestial e abjeta. Morto o nazismo, Átila porém não morrerá. Átila é um estado
de espírito. Átila é, como dissemos, uma anti-idéia,
que não é huna, nem germânica nem latina, nem saxônica, nem negra, nem eslava, nem nipônica, mas que em
qualquer raça pode de um momento para outro dominar.
E o mesmo se diga de Catilina.
No século XX, Catilina baralhou um pouco a
História. Não tivemos nenhum Cícero. Catilina venceu por momentos,
e se fez de César. No fundo, foi sempre Catilina.
Catilina é sempre o melhor aliado de Átila. A
brutalidade vence pela cumplicidade dos despeitados a quem se promete um lugar
ao sol, dos vaidosos para quem ser um grande homem não é senão fazer o papel de
grande homem, ... que se orgulham
quando, muito alto carregados nas penas .... Houve Catilinas
na Alemanha. Um deles se chamou Von Papen. Houve Catilinas na Holanda, na Bélgica, na Áustria, na Noruega, em mil outros países: todos eles se chamaram Quisling. Poderiam por exemplo chamar-se Mosley
ou Tojo. No fundo, são sempre Catilina. Catilina não se reabilitou no mistério da morte de Ciano, nem morreu com ele, nem morrerá com o fascismo. Catilina também é universal. Ele continuará a viver em
todos os que pregarem para com o totalitarismo conivência, cordura,
cumplicidade para que os que procurarem intoxicar o mundo com os sonhos do
totalitarismo.
Entretanto, nem Átila nem Catilina
vencerão as elites que, para o bem do povo, souberem conservar-se genuinamente
cristãs, isto é católicas, apostólicas, romanas.