Mais do que nunca, devemos rezar com ardor pelo
Santo Padre. A abertura da segunda frente, tão ansiosamente esperada por todos
os que amam verdadeiramente a civilização cristã, apressará a vitória dos
aliados, pondo termo, a um tempo, aos avanços russos e ao poderio nazista.
Assim, será com um só golpe derrubado nosso “inimigo no 1” e oposto
um dique ao "inimigo no 2". Os progressos aliados na península itálica, com
a cooperação do governo Badoglio, tendem a precipitar esse auspicioso desfecho. Mas ao
mesmo tempo a confusão se vai tornando mais densa sobre a situação do Sumo
Pontífice. E esta situação tende a tornar-se ainda mais crítica com o
desenrolar das operações militares. Assim, não foi sem viva angústia que
tomamos conhecimento do seguinte telegrama publicado na semana passada:
"LONDRES, 13 (UPI) ‑ Foi iniciada a
evacuação em massa da capital italiana. Uma notícia transmitida de Berlim pela
"Transoceam" indica que uma fila imensa de
pessoas que procuram refúgio no norte da Itália está abandonando a
capital italiana. Nas estradas que saem da Cidade Eterna para o norte vêm-se
caminhões abarrotados de homens, mulheres e crianças".
* * *
Na semana passada, tivemos duas notícias
extremamente gratas, a assinalar a respeito da França. Em primeiro lugar, a mudança de denominação do antigo
"Comitê de Libertação"
chefiado por De Gaulle, que passou a se denominar "Governo Provisório da
República Francesa". E, em segundo lugar, o fervor todo especial com que
se comemorou nesta cidade a festa de Santa Joana D’Arc. Cada uma dessas notícias merece especial comentário.
* * *
O novo título assumido pelo governo do Sr. De
Gaulle representa a derrocada final de toda uma política, de todo um estado de
espírito que se concentra na expressão "colaboracionismo",
de que tanto se usou e abusou não há muito tempo atrás. Uma "clique" de políticos sem
escrúpulos, apóstatas de todos os partidos e de todas as ideologias, apóstatas
sobretudo do patriotismo, resolveu enfeudar a França ao nazismo e implantar em
sua pátria o regime totalitário. Para isto, não poupou antes da luta os manejos
escusos, durante a luta as capitulações vergonhosas, depois da luta as adesões
descaradas.
Resultou daí, que a França se tornou uma nova
Polônia sob o tacão da bota nazista, e desapareceu como povo livre e
independente do mapa político.
Mas, graças a Deus, o espírito de resistência
francesa não desapareceu. Pequena chama indecisa de início, farol firme mas
perdido na vastidão da desordem geral em seguida, luz vigorosa e triunfante
hoje, esse "espírito de resistência", que é o espírito de dignidade,
de altivez, de patriotismo, a consciência da missão cultural e cristã da França
sobretudo, acaba de arrasar as últimas posições do colaboracionismo.
Hoje, há de novo um governo francês. Há, pois, uma França livre que combate
como nação independente, de igual a igual, ombro a ombro, com todos os povos
aliados, contra a opressão parda. Este renascimento significa para a
Cristandade uma verdadeira aurora. Porque a França faz parte, e parte capitalíssima, do que se poderia chamar o coração da
Cristandade, daquela Cristandade cuja alma é a
Igreja de Deus.
* * *
Uma França que renasce genuína, pujante, em um
termo francesa, é um sol que se levanta nos horizontes culturais do mundo
cristão. A cultura, o espírito, a formação francesa são para o Ocidente cristão
o que a Grécia foi para a gentilidade
antiga. O espírito da Santa Igreja Católica teve na cultura francesa
expressões, transparências, matizes a cuja luz lucraram as culturas regionais
de todos os povos cristãos. Há na cultura francesa algo de definitivo e de
insubstituível para a cultura cristã. E, reciprocamente, o espírito francês
recebeu da graça sobrenatural, de que a Igreja é a única fonte, do magistério
infalível que só à Igreja pertence, uma elevação, uma nobreza, um esplendor que
supera de muito e de longe as simples possibilidades de um povo entregue,
depois do pecado original, às forças da natureza humana degradada - por mais
inteligente e capaz que seja esse povo.
Nesse dia de alegria para o povo francês, nossos
votos de latinos, e sobretudo de católicos, consistem em que essa gloriosa
aliança da França e da Igreja, da graça e da natureza no povo francês, perdure
para sempre, para glória do nome cristão e exaltação da Igreja de Deus.
* * *
E, para nós, brasileiros, esse fato tem uma imensa
importância. Os laços culturais que prendem o Brasil à França são fortíssimos.
O povo brasileiro, desde os seus primórdios, manifestou o bom gosto de amar com
entusiasmo a cultura francesa. Nunca existiu entre nós um conflito entre a
influência histórica e cultural tão benemérita dos nossos antepassados lusos, a
de nossos próprios valores intelectuais, e a dos franceses. O Brasil tem, como a Áustria, como outrora Roma, a vocação pronunciada para uma grande cultura de
síntese, que deverá entretanto conservar-se sempre eminentemente latina e -
acima de tudo, sobretudo, antes de tudo, - essencialmente católica. O espírito
francês, nessa síntese que vamos marcando gradualmente com as inconfundíveis
características nacionais, representa um elemento de influência insuperada. O reerguimento da
França, da cultura francesa, do espírito francês é um acontecimento para vida
espiritual desse filho morgado da latinidade que é o
Brasil.
* * *
Por isto, vemos que o benemérito trabalho do Revmo. Pe. Marcello Gaydon de agrupar os
franceses, de os reunir em torno de um ambiente impregnado de Fé, de os
harmonizar cada vez mais com os brasileiros tem surtido grande resultado, de
tal forma que a festa de Santa Joana D’Arc foi neste ano, ao
mesmo tempo que uma festa em que brasileiros e franceses se reafirmaram irmãos
na Fé católica, uma festa em que todos os vínculos criados pela união religiosa
e cultural se reavivaram, com a participação de importantes elementos da
colônia francesa e da sociedade paulista.
O LEGIONÁRIO tem bem o direito de dar graças a Deus
por esse dia de júbilo, ele que com o risco de perder preciosas simpatias na
própria colônia francesa, foi dos primeiros a denunciar o abominável colaboracionismo que “acaba de acabar” agora. Ninguém pode
ser mais amigo do que dando a vida por seu amigo, diz o Evangelho. E nós
acrescentaríamos que depois desta prova de amizade nenhuma é maior do que
perder a amizade de seus amigos conscientemente, deliberadamente, para melhor os servir... Se nossos
arquivos falassem!
Mas isto tudo são nuvens. O que vale são as
alegrias do dia de hoje...
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Continua sendo divulgada a notícia de um possível
acordo entre a Santa Sé e a Rússia. A este respeito, o LEGIONÁRIO já teve ocasião de
esclarecer que não é impossível que a Santa Sé regulamente a liberdade de culto
com a Rússia. Isto não quer dizer, entretanto, e nem de longe, que a posição da
Igreja perante a doutrina social e econômica do comunismo estaria mudada em
nada. Entre o Catolicismo e o comunismo só há uma paz
possível: a morte de um dos dois. E como a Santa Igreja é imortal, o comunismo
caminha para a sepultura, para a grande fossa comum em que jazem sem glória
todos os inimigos da Igreja.
* * *
E, para falar em morte inglória, em comunismo, em colaboracionismo, merece um registro seco, sem saudades,
sem respeito, o falecimento do Patriarca Sérgio, colaboracionista cismático que aderiu ao comunismo. A
respeito dele, temos duas preces a fazer: uma, que Deus tenha pena de sua alma;
outra que os homens detestem para todo o sempre os péssimos exemplos que lhes
deu.
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Do Estado de S. Paulo de 11-4-44, destacamos a
seguinte notícia:
RIO, 10 (“Estado”) – (Pelo telefone) - Realizou-se
hoje no gabinete do Ministro Osvaldo Aranha a entrega ao
Reverendo Dr. Hugh Clarence
Tucker do diploma e
insígnias de Oficial da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, com que foi
agraciado pelo Presidente da República. A cerimônia foi assistida pelo
embaixador Leão Veloso, Secretário Geral do Itamarati,
outros altos funcionários, membros da Embaixada norte-americana, da colônia
americana e jornalistas.
O Ministro Osvaldo Aranha referiu-se à obra que o
Sr. Tucker havia realizado em meio século de vida no
Brasil, acrescentando que aquela distinção não era mais do que o índice desse
agradecimento pelo muito que fizera sempre pelo Brasil e pelos brasileiros.
Em resposta, o Reverendo Tucker
disse que agradecia ao Presidente da República a alta distinção que muito o sensibilizava, ajuntando que era
motivo para aumentar a sua emoção recebê-la das mãos do eminente chanceler do
Brasil, seu amigo de longos anos. Citou vários episódios de sua vida em nosso
país dizendo que hoje, antes de ir ter ao Itamarati,
recordara alguns deles. Referiu-se também à sua esposa que chegara ao Brasil
com passagem de ida e volta e nunca a usou, pois passou a lecionar em uma
escola de Piracicaba, pela qual muito se interessava outro brasileiro
eminente, o Presidente Prudente de Morais.
Depois de se referir ainda a outros episódios de
sua vida no Brasil reiterou seus agradecimentos ao Presidente da República e ao
Ministro do Exterior extensivos a todos os brasileiros.