Publicou-se na semana pp., em Londres, um documento
de origem governamental, intitulado "Carta da Vitória", que contém um projeto de legislação social para a
Inglaterra de pós-guerra. Não
propriamente para que a Inglaterra enfrente as dificuldades anormais que,
durante os próximos anos, ainda se farão sentir em conseqüência da guerra. Mas
para que ela se organize segundo moldes reputados mais humanos.
Este projeto se inspira na preocupação de evitar
que, daqui por diante, qualquer cidadão inglês se veja vítima de infortúnios
materiais: mediante o pagamento de certa quantia mensal, todos os ingleses
terão direito à nutrição, agasalho, assistência médica, ainda em caso de
moléstia, acidente ou desemprego. Assim, o ideal do plano consiste em que não
haja mais indigentes na Inglaterra.
Considerada deste ângulo, a "Carta da
Vitória" não poderia ser mais simpática, máxime
para católicos. O católico, por essência, por natureza, quase diríamos "a priori",
é favorável caridade. É o que está nos primeiros impulsos de seu coração
plasmado segundo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, no mais profundo de
sua personalidade enobrecida e resgatada pelo Sangue do próprio Cristo.
Mas a Igreja, mestra suprema da caridade, é ao
mesmo tempo infalível mestra da sabedoria. A própria caridade exige que sejamos
realistas, que não apoiemos sobre quimeras planos sociais de que depende o bem
estar de inumeráveis multidões, que não prejudiquemos, com ilusões generosas
mas temerárias, esforços dignos da melhor sorte. Vejamos, pois, o que de modo
muito geral se deve dizer da "Carta da Vitória".
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Em primeiro lugar, que no ardor de
sua generosidade, ela visa um fim inatingível. É certamente possível melhorar a
situação do operariado contemporâneo, e ninguém o deseja tão ardentemente
quanto a Igreja. Mas é preciso não alimentar a ilusão de que com isto se
evitará a existência de pobres. "Pauperes semper habetis vobiscum", diz a Escritura. Tê-lo-emos sempre
conosco, por uma iniludível contingência de nossa natureza decaída, tê-lo-emos,
não como espantalhos sinistros, nem como inimigos, mas como irmãos sofredores a
quem franquearemos os tesouros de nossa bolsa e de nosso afeto. Mas, enfim,
tê-los-emos sempre.
* * *
E o plano não consegue evitar isto. Se um
trabalhador - um copeiro de hotel, digamos - for preguiçoso, ele terá meios de
viver desempregado, e de auferir durante essas "férias" os proveitos
do plano, que lhe advirão do trabalho honrado de seu colega. Um copeiro
relaxado é muito pior do que um elemento simplesmente inútil: ele é nocivo,
pode produzir sérios prejuízos, em um "restaurant"
pequeno ocasionar a ruína do estabelecimento. Ora, pergunta-se, que medida vai
tomar o Estado para impedir que as comodidades do desemprego sejam estímulo
para que os operários de toda espécie trabalhem mal? Evidentemente, se não
quiser que o plano fracasse, ele deverá impor punições. Que punições? Em
conseqüência de que papelada, de que despesas, de que inquéritos, de quanta
perda de tempo para o empregado e o patrão? Só de o calcular, sentimos dor de
cabeça...
* * *
Mas prossigamos. Provavelmente, os impenitentes, os
incorrigíveis, serão obrigados pelo Estado a trabalhar em obras públicas,
compulsoriamente. Não há outro remédio. Passemos agora da classe dos copeiros
para outra, digamos a dos artistas de toda espécie, desde os músicos, até as
"brodeuses",
os técnicos da confecção de mostruários ornamentais, decoração doméstica, etc.,
etc. Muita e muita vez, esses profissionais perderão o emprego, não porque lhes
falte aptidão, mas por serem verdadeiros inovadores, que rompem com rotinas,
estraçalham realizações de mau gosto, investem contra tabus intangíveis. Por
isto, perseverante em sua arte, rolando como aparentes vagabundos de lugar em
lugar, de estabelecimento em estabelecimento, irão desenvolvendo na prática do
"métier"
suas habilidades, irão dissolvendo preconceitos, amolecendo resistências, até
chegar ao termo vitorioso de sua carreira. A regulamentação legal da
"Carta da Vitória" terá de acabar com tudo isto. Será necessário
impor penalidades a quem for despedido por incompetência. E
"incompetência", neste assunto, significaria apenas incompatibilidade
com os conceitos artísticos dos veneráveis bonzos dos órgãos oficiais. Exemplos
como estes se multiplicariam às dezenas.
* * *
O que se deduz daí? Que a "Carta da
Vitória" será excelente, se o povo inglês, cujo bom senso é de uma solidez
férrea, souber aceitar-lhe alguns dos dispositivos, sem contudo a aceitar
"in totum".
Na sua extensão total, a "Carta da Vitória" não seria senão
socialismo avançado. E o socialismo, contrário ao direito natural, é por isto mesmo
incompatível com os verdadeiros interesses dos povos e produz conseqüências
sociais funestas. É a Igreja que o diz - pela voz de Leão XIII e de Pio XI.
É preciso evitar que pela preocupação de evitar
qualquer desgraça, se caia no extremo oposto, de constituir uma classe de
parias, os operários cujo mérito os organismos oficiais, rígidos, hirtos por
natureza, não saberão nem compreender nem aproveitar.
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Insistindo fortemente sobre a importância da
"questão árabe", para o mundo de amanhã, o LEGIONÁRIO, órgão católico
- isto é universal - e por isto mesmo simpático a todos os povos que Deus
criou, não é movido senão pelo zelo da fé. Não temos a menor hostilidade para
com os árabes, como tais. Receamos, entretanto, que sua crescente influência
eleve consequentemente a influência do Islã.
* * *
Isto posto registramos mais um passo dado pelo
ideal Pan-árabe. O Sr. Nahas
Pachá, primeiro ministro do Egito, falando ao rádio por motivo da inauguração da
Conferência Pan-árabe em Alexandria, declarou que "o projeto da união árabe passou o seu
primeiro estágio consultivo. Chegamos agora ao segundo estágio: ao da comissão
preparatória. O terceiro estágio será o da reunião do Congresso árabe. Neste
dia, reformar-se-á às portas da Europa, debilitada e semi-descristianizada,
um "perigo árabe" igual ou maior do que o dos tempos de S. Pio V e da batalha de
Lepanto.