Publicamos hoje
o texto telegráfico do notável discurso
pronunciado pelo Santo Padre Pio XII ao
agradecer os cumprimentos que lhe foram apresentados pelo Sacro Colégio Cardinalício, por ocasião do dia de Santo Eugênio,
onomástico do Sumo Pontífice.
Como tal
discurso contém vários ensinamentos preciosos, registramo-los nestas notas.
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Antes de tudo,
note-se a objetividade e fortaleza da
atitude assumida pelo Sumo Pontífice. A descrição que ele nos faz do
panorama contemporâneo está longe de ser rósea, e constitui um desmentido frontal aos católicos que se
comprazem em ver no mundo de hoje um mar de rosas. Quando o LEGIONÁRIO diz
sobre a época em que vivemos algumas verdades amargas, há rostos que se fecham,
simpatias que se retraem, aplausos que murcham. Somos pessimistas, vemos tudo
através de óculos negros, etc., etc. Leia-se entretanto o balanço da situação
presente, feito com clareza no discurso de Pio XII. O resultado é precisamente
o déficit moral, político e espiritual
formidável, que costumamos denunciar.
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Ver as coisas
como elas são, e dizer que são péssimas quando de fato são péssimas, está longe
de ser pessimismo. É realismo.
Mas o verdadeiro católico, ainda quando vê
negro o quadro, não desanima, e precisamente nisto ele se diferencia dos
pessimistas. Por maiores que sejam as dificuldades, a Providência vela sobre nós. É desta virtude de confiança que, nos
dá um exemplo Pio XII, quando
concluída a lúgubre descrição dos dias em que vivemos, afirma que tudo ainda
pode ser salvo pela virtude da Igreja, e incita
os católicos à luta. Vistas as coisas sob esta luz, bem podemos dizer que não somos pessimistas porque, graças a
Deus, se há coisa que jamais faltou é o ânimo de lutar.
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Também é digna de nota a observação do
Sumo Pontífice sobre a identidade de métodos e de conduta entre o comunismo e o
nazismo. Diz ele: conhecemos quão extensa é a
gravidade dos horrores sem nome, pelos quais o regime vencido cobriu de
desolação a Europa e não queremos diminuir o vulto de suas faltas, nem tolerar
os métodos de ódio e violência em que esse regime viveu: por que empregar armas
cujo uso em outras mãos suscitou justa indignação? E que homem sensato quereria
procurar na ruína e na miséria de um vizinho a garantia para a sua própria
segurança e estabilidade?
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Há
hoje os medrosos que tem medo de tudo, e
até das sombras. Para eles, todo o gesto de coragem é temeridade, toda a
franqueza é loucura, toda a resistência ao mal é imprudência.
Estigmatiza-os
muito bem o Santo Padre: “se existe hoje alguma coisa que possa causar medo é o medo em si mesmo. Não existe pior conselheiro sobretudo
nas circunstâncias atuais. O medo apenas
causa cegueira e faz com que os homens se afastem do caminho reto da Verdade e
da Justiça”.
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Há pessoas para
quem as condenações fulminadas pela
Santa Sé contra o comunismo prescreveram. Dir-se-ia que entre católicos e
comunistas existe um grande equívoco, e nada mais.
Evidentemente,
as condenações pontifícias não prescrevem.
Por isto mesmo Pio XII reafirmou todos
os ensinamentos com que seu venerando antecessor estigmatizou a doutrina
comunista: “falsos profetas sem escrúpulos propagam pela força e pela
violência concepções contrárias à ordem natural e cristã, anti-cristãs
e ateístas, condenadas pela Igreja sobretudo na Encíclica Quadragesimo Anno de Nosso Predecessor Pio XI”.
Esta Encíclica não só condenou o comunismo mas o
socialismo, proibindo formalmente a expressão detestável “socialismo cristão” ou “socialismo católico”.
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Leiamos agora
mais este trecho de ouro, a respeito do medo e dos medrosos: “o medo receoso de si mesmo surge muitas
vezes disfarçado. Esconde-se sob as vestes mentirosas do falso amor cristão
para com os oprimidos, como se os povos sofredores pudessem ser
beneficiados pelos erros e injustiças da tática demagógica e das promessas que
jamais poderão ser cumpridas. Outras
vezes esconde-se sob as aparências da prudência cristã e, com esse
pretexto, faz com que os homens
permaneçam mudos, quando o seu dever seria proclamar que não é permitido, para satisfazer a paixão do lucro ou do
domínio, fugir a linha inflexível dos
princípios cristãos”.
Em suma, na
questão social há os que tem medo da massa, e os que tem medo do ouro. Erram
uns e outros: o verdadeiro católico
confia inteiramente em Deus e luta com desassombro, quer contra a multidão
infrene, quer contra a tirania do ouro.
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Mas a Igreja
pode tornar-se detestada por todos, alegam os medrosos. Pio XII os esmaga com
estas palavras: “... esta observação deveria bastar para fazer com que vós,
católicos, sentísseis orgulho, pois o
rancor alimentado contra a Igreja põe em evidência sua grandeza espiritual e moral e sua
atividade em prol do bem estar da humanidade”.
E mais adiante
acrescenta: “A tarefa que vos está
confiada pela Providência Divina nessa hora crucial não é a de concluir uma paz pusilânime com o mundo, mas a de
construir uma paz verdadeiramente digna
diante de Deus e dos homens”.
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Nesta semana
tão cheia de acontecimentos importantes, poucos têm a gravidade da evasão ou soltura de Abd-El-Krim,
episódio talvez não muito considerável em si mesmo, mas no qual se patenteia claramente o arrojo e energia
da Liga Árabe, a indolência e a fraqueza do mundo cristão.
Sabemos quem é Abd-El-Krim, caudilho maometano que pôs a ferro e fogo
a África Setentrional, e diante do qual tiveram de se coligar duas
potências ocidentais, a França e a Espanha, para conseguir resultados duráveis.
Hoje em dia, esse velho dissoluto, que mantém um harém com vinte “esposas”,
possivelmente já terá chegado a um estado próximo da decrepitude. Mas seu nome
é uma bandeira de insurreição. E essa bandeira foi desfraldada pelo Rei Faruk do Egito sobre todo o litoral maometano do
Mediterrâneo, com o “golpe” que acaba de dar ao oferecer asilo a Abd-El-Krim.
A França e a
Espanha de hoje sofrem os efeitos terríveis da guerra, e estão menos aptas a
lutar do que em 1921, ao menos do ponto de vista econômico, que na guerra
moderna é muito importante. Uma ação conjunta de ambas seria difícil de
estabelecer vista a profunda dissensão política que as separa. Tudo indica,
pois, que começaremos a presenciar um regime de exigências e ameaças veladas,
dirigidas primeiramente contra a França, e que a levarão a sucessivas
concessões. Depois, virá possivelmente a vez da Espanha. Poucos fatos poderiam
ter gravidade econômica e política maior. A
Europa perde com isto o domínio exclusivo do Mediterrâneo.