Os acontecimentos internacionais desta semana são
verdadeiramente dramáticos, não só porque fazem recear a iminência de um novo
conflito, como porque, a continuarmos em paz, teremos uma paz perfeitamente
envenenada.
Com efeito, a ofensiva soviética em direção ao Ocidente
europeu é manifesta. Depois do golpe abominável desferido contra a Hungria, vem o destroçamento da
oposição búlgara. Por fim, um ultimatum velado à Áustria. Todos estes acontecimentos visam manifestamente reforçar
a influência soviética na Europa Central, tornando-a não só preponderante, mas
praticamente exclusiva, ao longo do Danúbio, e em toda a Península dos Balcãs.
Ao mesmo tempo, a Mongólia soviética invade a
China, com o intuito indisfarçável de ampliar a zona de influência comunista no
Extremo Oriente.
A simultaneidade destes movimentos, a ilegalidade
flagrante de que eles se revestem, o despudor com que são levados a cabo,
indicam bem que a URSS tem um plano de envergadura mundial, que quer
realizar absolutamente, e que está levando a cabo confiante em sua força... e
na fraqueza de seus adversários.
Em outros termos, estas conquistas são meros marcos
para atingir a dominação do mundo.
* * *
Se os Estados Unidos não reagirem agora,
teremos ainda a paz. Mas que paz? Assistiremos, de braços cruzados, à expansão
da onda bárbara. As garras soviéticas chegarão a Viena e tenderão
inevitavelmente a cobrir novos territórios. A agitação comunista na Itália, na França, na Alemanha (falamos das zonas
francesa, inglesa e americana, pois da zona soviética é supérfluo falar), é
manifesta. O trabalhismo inglês é uma incógnita. A
península ibérica, a Suíça, os Países Baixos e os Bálticos se manterão apenas
enquanto a França, Inglaterra e Itália se
mantiverem. Se os Estados Unidos permitirem que o perigo aumente, o que nos
custará esta paz! Poder-se-á chamar de paz a uma era de ativa preparação para
uma guerra dantesca?
* * *
Em nossa ultima edição, mostramos as graves
conseqüências da "evasão" de Abd-el-Krim, e o doloroso contraste que é impossível não notar, entre
o espírito de iniciativa e firmeza dos elementos pan-árabes
e a modorra das velhas nações da Cristandade, míopes e extenuadas.
Uma semana se escoou sobre o fato, sem que do lado
da Europa houvesse uma só atitude de reação eficaz. Do lado da África, o silêncio também está completo. A fuga de Abd-El-Krim tomou o aspecto do mais natural dos fatos.
Neste silêncio, só uma voz se levantou, propagando-se por toda a orla maometana
do Mediterrâneo, foi a de Abd-El-Krim, incitando toda
a África do Norte a sacudir o jugo europeu. Desde Suez até Gibraltar, este incitamento se fez ouvir, prestigiado pela
manifesta simpatia dos reis, sultões e emires de toda
espécie, pela ação ideológica das universidades muçulmanas e dos dignitários do
Al-Korão e pelo entusiasmo efervescente dos jovens.
Este foi, pois, um acontecimento fecundo em conseqüências: importa analisar-lhe
hoje alguns aspectos que, por falta de espaço, na edição anterior não pudemos
comentar.
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O modo por que o golpe de Abd-El-Krim
foi realizado é muito instrutivo. Abd-El-Krim, preso
na Ilha da Reunião, pediu autorização para residir na França, a fim de
matricular seus filhos em uma Universidade da metrópole. O governo francês
aquiesceu tão ingenuamente que Abd-El-Krim pode
viajar sem fiscalização e escolher livremente o navio e o itinerário. Ao passar
pelo Egito, não se sabe se por
iniciativa própria ou se por pressão do Rei Faruk, Abd-El-Krim desembarcou, e
resolveu ficar. Desde logo, foi dando entrevistas à imprensa, que são
verdadeiros incitamentos à independência da África Setentrional. Ao que parece,
hospedou-se principescamente em um grande hospital do
Cairo, onde lhe era
destinada toda uma ala do edifício, tendo ao seu alcance certos cuidados
médicos de que precisa. A Liga árabe já se manifestou
solidária com ele. Certa agitação se nota em todo o Norte da África. A França
ficou desapontada - e com razão!... - e a Espanha vem aguardando em
atitude de vigilância o desenrolar dos acontecimentos.
Em suma, o Ocidente tem agora um inimigo sério
pelas costas. Se bem que Stalin esteja mal com a
Liga Árabe, e proteja os judeus na Palestina, como lhe há de sorrir a formação deste novo fator de
decadência da Europa!
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A Itália festejou, há dias, o primeiro aniversário
da proclamação da República. Infelizmente, estes são dias de experiência
republicana [que] confirmaram nossas apreensões. Nada se lucrou com a
destruição de uma instituição secular como a dinastia de Saboia. A Itália parece ter estacionado a beira do abismo
comunista. O país continua agitado, depauperado e desorganizado. E a política
de contemporização com a esquerda vai produzindo os frutos nocivos que dela se
podia esperar.
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Não pode passar sem um comentário à nota dada pela
imprensa moscovita acerca do fechamento do Partido Comunista no Brasil. As injúrias
assacadas pelos jornais da capital russa contra o Tribunal Eleitoral são das
mais grosseiras, e manifestam claramente o prejuízo que a decisão daquele alto
órgão de justiça trouxe aos planos soviéticos.
Espanta-nos que a opinião pública não manifeste
mais claramente ao Superior Tribunal Eleitoral sua solidariedade contra os
ataques injustos que vem sofrendo dos comunistas do Brasil e do mundo inteiro.
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Cada dia que passa, vão se tornando mais manifestos
os inconvenientes da chamada economia dirigida. Se há um país em que o Estado
adquiriu um alto grau de eficácia administrativa é os Estados Unidos. Contudo
em nenhum lugar a opinião pública se mostra mais vigilante contra os abusos da
economia dirigida. E tem razão porque o próprio Estado americano não tem conseguido
evitar erros graves, e até chocantes, em suas intervenções econômicas.
Um telegrama procedente de Nova York
informa que no ano passado os Estados Unidos queimaram 22 milhões de toneladas
de batatas para manter os preços do mercado, enquanto no mundo inteiro morre
gente de fome. E isto se deve ao desacerto com que o Estado interveio no
mercado.
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Falamos há alguns números atrás, da legislação
injusta que nos governa em matéria de aluguéis. E acentuamos que os demagogos,
em lugar de se preocuparem seriamente com a debelação das causas da crise,
procuram agravá-la mediante a proibição de se derrubarem casas para construir
outras maiores.
Ha dias atrás, o jornal carioca
"Vanguarda" publicou uma reportagem interessante, em que mostra que
centenas de edifícios do Rio de Janeiro, em construção, estão paralisados
porque falta mão de obra, faltam materiais, etc.
Seria verdadeiramente útil estudar as causas desta
carência empregar os meios mais drásticos para a debelar. Afirma-se, p. ex.,
que a construção está paralisada porque as Caixas de Aposentadorias retraíram
os créditos necessários para tal.
Dependeria apenas de uma palavra da União uma
modificação de tal atitude, já que tais Caixas são, no fundo, verdadeiras
repartições públicas, dependentes do Estado em tudo e por tudo.
Por que motivo os crispins da Câmara não focalizam
este aspecto da questão?
O motivo é simples: os demagogos não desejam senão
a indefinida agravação de todos os problemas.
* * *
Demonstra-o à saciedade o projeto de lei aprovado
pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Este projeto
estabelece duas iniquidades autênticas: a proibição
dos despejos ainda que o proprietário precise do prédio para uso próprio, e a
proibição das demolições de prédios já construídos, para em lugar deles se
edificarem outros maiores.
Analisemos a segunda destas proibições.
Numa cidade como São Paulo ou Rio, na zona central
ou semi-central, não há quase terrenos baldios.
Assim, o número de edifícios que poderão ser construídos em tais terrenos será
insignificante. E, para minorar a crise de habitações, o único remédio seria
levantar edifícios novos nos arredores da cidade, isto é, nos últimos e mais
extremos confins da zona suburbana.
Mas qual o capitalista disposto a empatar dezenas
de milhares de contos em construir prédios novos, já não digo na Penha ou em Cascadura, mas no meio das hortaliças e legumes das
pequenas chácaras que circundam a Penha e Cascadura?
Este deslate não passa pela cabeça de ninguém. E,
assim, não haverá mais construções.
Teremos, pois, chegado a este absurdo: para
remediar a falta de prédios, fica proibido construir durante dois anos.
Daqui há dois anos, o mal se terá agravado pelo
natural aumento da população. Os crispins, então, proporão na Câmara medidas
novas, como, p. ex., o confisco dos prédios e, quiçá o fuzilamento dos
proprietários que tenham a desonestidade e a falta de "senso social"
de não aplaudir tal medida.
No fundo, esta providência seria talvez mais
inteligente do que a proibição de se construírem prédios novos. Porque, ao
menos, se diminuiria a população. Não faltam por este mundo crispins que pensem
assim.
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Quanto à proibição dos despejos ainda que o
proprietário queira ocupar o prédio para uso próprio, nada mais extravagante. O
resultado prático desta medida é o seguinte:
a) um proprietário mora em casa de aluguel, e sua
família aumenta com o nascimento sucessivo de alguns filhos;
b) ele tem um prédio próprio, de acomodações
suficientes para abrigar todos os seus, mas que está alugado;
c) como o aluguel é antigo, este prédio rende,
digamos, 600 ou 700 cruzeiros por mês, embora valha, digamos, 800 mil
cruzeiros;
d) o dono do prédio não poderá exigir para si a sua
propriedade, e terá de alugar a preços astronômicos um prédio novo, impondo com
isto à sua família os maiores sacrifícios;
e) o inquilino do prédio velho ficará residindo a
preço ínfimo em prédio alheio!
Se isto não eqüivale à abolição da propriedade
privada, dois mais dois não é mais igual a quatro.
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Outro absurdo da lei. Todos sabemos que os
comerciantes e industriais têm ganho fortunas ultimamente. Por que motivo a lei
protege contra o aumento de aluguel os edifícios em que funcionam
estabelecimentos industriais e comerciais? Por que, pelo menos, não aumenta o
aluguel na proporção da renda declarada para efeito de imposto, pelo locatário?