A semana passada foi talvez a mais importante de post-guerra. Ela consumou a separação do mundo
contemporâneo em dois grandes blocos ou sistemas, separados entre si pelos
interesses econômicos, pela rivalidade política, e pelo abismo das divergências
ideológicas. Não há mais um mundo, mas dois mundos. As nações que vivem sob a
influência do plano Marshall constituem uma
humanidade. As nações que vivem à sombra da ditadura comunista são outra
humanidade. Nada as une, tudo as separa.
Quem lucra com isto? E quem perde? Não se trata de
saber aqui qual dos dois blocos é mais forte. Trata-se de saber se alguém
lucrou com esta imensa cisão.
Certamente, duas potências monarcas não podem
governar uma. Com efeito, cada uma destas potências passou a ser o centro de
uma verdadeira constelação de povos. Politicamente falando, o mundo tem hoje
dois pólos, um em Moscou e outro em
Washington. De um certo modo, Washington e Moscou dividem entre si o
governo do mundo. Claro está que isto representa (considerado só o dia de hoje,
e feita qualquer abstração do dia de amanhã, com suas consideráveis incertezas)
uma vantagem tanto para Washington quanto para Moscou.
Dois grandes impérios não podem coexistir no mundo,
pelo mesmo motivo por que dois monarcas não podem governar uma mesma monarquia.
Assim dividido o mundo de hoje os próximos anos serão de ativa preparação da
guerra que forçosamente ensangüentará o mundo de amanhã.
O perigo russo tem tudo para ser reconhecido como
um genuíno "perigo": a) traz consigo a perspectiva de males sem
conta; b) esta perspectiva é grave, próxima, concreta, acessível ao espírito de
todos os homens sensatos e não apenas de lunáticos e sonhadores.
Para fazer face a este perigo os EE.UU. estarão na
necessidade, muito justificada, de coordenar cada vez mais a ação do povos no
sistema Marshall. Quem diz "coordenação" diz necessariamente
sacrifício de autonomia. E quem diz sacrifício de autonomia para uns, diz
necessariamente extensão de hegemonia em benefício de outro ou de outros.
Assim, o perigo vermelho tornará inevitável que se
consubstancie, se solidifique, se corporifique.
Em sentido contrário, quanto mais se corporificar a hegemonia yankee, tanto mais os soviéticos terão pretextos para dominar,
espezinhar e aniquilar os povos que giram em sua constelação. Muito
intencionalmente falamos de hegemonia americana e de escravidão soviética. A
influência comunista está longe de constituir uma grande hegemonia firmada em
interesses comuns; é uma escravidão no sentido mais estrito e sombrio do termo.
A iminência do perigo americano servirá aos soviéticos de pretexto para
justificar uma ditadura férrea, que aliás, com ou sem pretexto, fatalmente
instituiriam nos países por eles ocupados.
A conseqüência de tudo isto consiste em que,
possivelmente, o mundo assistirá a formação de dois super-Estados
como pródromo de uma guerra da qual sairá um só e
único super-Estado. A não se modificar de maneira imprevista
o curso das coisas - eventualidade com que sempre se deve contar nestes dias
que correm - é este um dos aspectos mais claros e mais profundos dos
acontecimentos gigantescos a que estamos presenciando.
* * *
Evidentemente salta aos olhos uma questão: os povos
anticomunistas não poderiam constituir uma grande liga de nações irmãs em
prejuízo de sua própria autonomia?
A questão é cheia de dificuldades. De um lado, o
anseio pela autonomia é uma das paixões mais justas e nobres do espírito
humano. Do outro lado ninguém pode negar que a autonomia, na situação em que
estamos, pode prestar-se a abusos, e que qualquer abuso pode determinar a vitória
do comunismo no grande embate a que daqui a alguns anos assistiremos. Como sair
desta cruel alternativa?
Esta questão interessa aos ingleses. A Inglaterra tem velhos hábitos
de domínio, e desliza agora, de maneira mais ou menos gradual, para uma
condição secundária. Contudo, ainda lhe resta muita riqueza, muita influência,
muita consciência de sua própria grandeza, e muita esperança de uma recuperação
futura. Para fazer face ao comunismo, é possível que ela aceite uma diminuição
de seu poder mundial e até de sua autonomia econômica e política.
Provavelmente, ela não a aceitará, porém, sem algum peso de coração, e sem uma
ou outra tentativa de estabelecer a linha comum anticomunista numa base menos
onerosa para si.
O mesmo poderia ser dito do grande bloco latino. No
conjunto das nações anti- soviéticas, o elemento anglo-saxônico e protestante está tendo sobre o elemento
católico e latino uma supremacia evidente. A França tem recuperado
muito de seu poder, mas sua situação não pode ser igualada por oras aos Estados
Unidos e nem mesmo à
Inglaterra. A fortiori,
o mesmo se pode dizer da Itália. A Espanha e Portugal vivem oficialmente
isolados do resto do mundo. Entre si, França, Itália e Espanha tem relações pouco cordiais. Tudo isto
não obstante, a própria inferioridade de posição em que elas se encontram cria
entre elas uma linha de interesses comuns. Se elas se unirem, terão por força a
simpatia da América Latina e católica. Tudo
isto, que agora representa influências dispersas e fragmentadas, pode ainda
significar muito.
* * *
É o que Peron parece ter
percebido. E, por isto mesmo acaba ele de proclamar espetacularmente a
independência econômica da Argentina no próprio prédio
histórico onde se lavrou a ata da independência política daquela República.
Independência em relação a quem? Evidentemente em relação aos Estados Unidos.
Em seu sensacional discurso, Peron, de modo embora velado, se põe como o reivindicador
da autonomia das nações latino-americanas e, mais ainda, de todo o mundo
latino.
Que repercussão terão suas palavras, não no
noticiário dos jornais, mas no curso profundo dos acontecimentos políticos? É
difícil dizê-lo.
De todos os pontos de vista, a atitude de Peron é um enigma. A quem aproveita ela? Todos sabemos que
a Inglaterra teve sempre grande
influência na Argentina. É certo que Peron teve seus
desaguisados com Londres e já não passa por
ser um grande amigo em Dowing Street. Digamos, porém, a título de hipótese que esses
desaguisados sejam mais aparentes do que reais e desejados pelo próprio
gabinete de St. James para certos fins políticos.
Digamos, ainda, que estes fins consistam em que, desligada a Argentina
aparentemente de Londres, ela tome uma atitude anti-yankee
que não pareça de modo nenhum influenciada pela Inglaterra, mas de que a
Inglaterra seja a inspiradora real. O que sucederá? Os Estados Unidos ficarão
desfalcados de um potencial econômico considerável, e seu sistema político-planetário funcionará com a irregularidade e
intermitência de um relógio quebrado. Londres lucrará até certo ponto com isto.
E contudo sua atitude continuará sendo tão cordata na aparência, que nada
impedirá a Inglaterra de receber as vantagens do plano Marshall.
A política tem destas...
* * *
Nada disto, porém, é indiscutível. Pode-se, por
exemplo, alegar que Peron é um totalitário evidente;
que ele proteja na Argentina importantes remanescentes do nazi- fascismo; que
ele mantém com Franco relações de uma
cordialidade evidente; que ele aspira a fazer, não o jogo da Inglaterra, mas do
que se convencionou chamar o "cripto-fascismo".
Este último está longe de ter perdido toda a sua importância política. Na
Itália, ele sacode as massas. Na França, trama revoluções. Na Espanha, veste
manto real para sobreviver. Peron não será, na
realidade, um candidato a leader mundial de todas estas forças?
* * *
Mas em última análise, será
conveniente que esmiucemos todas estas questões? Será útil, oportuno, razoável,
diante de um inimigo comum tão execrável e tão ativo quanto a URSS, lembrar
todas estas causas de divisão, e consequentemente de enfraquecimento do bloco anti-soviético?
É o que nos perguntamos nós mesmos. Esta pergunta
serve para apreciarmos outra face do "problema Peron".
Se tudo isto traz consigo o risco de dividir os anticomunistas e de favorecer
implicitamente a URSS, é o caso de se perguntar se Peron
não obedece a sugestões soviéticas.
O problema é por demais profundo e complexo para
formarmos juízo sobre ele desde já. Uma coisa, porém, é certa. A "Questão Peron" é uma das mais nebulosas e difíceis do mundo
contemporâneo.
* * *
Notemos, por fim, que a URSS e os EE.UU. irão fazer
uma verdadeira "corrida" para englobar às suas respectivas esferas de
influência a Ásia e a África. A URSS procurará desagregar o Império britânico e
francês. França e Inglaterra reagirão. Os EE.UU. tenderão a absorver dentro de
sua orbita certas nações semi-independentes como a
Pérsia.
No meio desta confusão, o imenso potencial pan-árabe poderá servir de fiel da balança. Mas, de outro
lado, [problema tipográfico] (...)