Recentes polêmicas, ocorridas nos círculos
políticos da Inglaterra e da França, deram nova atualidade a um problema gravíssimo, sobre o
qual o mundo parece dormir. É a questão do futuro da Alemanha.
Vista a questão segundo o ponto de
vista de uns, o povo alemão desencadeará tão logo quanto possível uma nova
guerra, razão pela qual é preciso eternizar a ocupação, e debilitar de todos os
modos a Alemanha. Esta opinião é inepta. A um problema grave e permanente, ela
responde com uma solução superficial e provisória. A ocupação da Alemanha não
é, não pode deixar de ser limitada a certo tempo. No dia em que este tempo
escoar, o problema estará tão intacto e tão ameaçador quanto hoje. Muito anos
de opressão o terão, mesmo, agravado ao extremo. Custa crer que diplomatas
sérios cheguem a alvitrar uma norma de conduta tão manifestamente errada.
Errada, e, além disto, desumana: é o que se deve
dizer desta orientação. Não se pode tomar um grande povo, e submetê-lo
intencionalmente ao regime do depauperamento de todas as suas forças. Proceder
assim eqüivaleria a violar frontalmente todos os
preceitos do Direito Internacional.
Por isto mesmo, outros estadistas advogam uma
política de franca cooperação com a Alemanha: deve-se reconstruir quanto antes
a unidade do Reich, reconstruir Berlim, restaurar a industria alemã, restituir aos alemães a
direção de si mesmos, e tentar captar a confiança e simpatia do povo alemão mediante
a cooperação e generosidade dos vencedores.
Também esta solução - por certo muito menos
antipática - não deixa o espírito inteiramente a salvo de preocupação. Geograficamente situada entre a
URSS e o Ocidente, a Alemanha poderá desenvolver uma política de pêndulo entre
as democracias e o comunismo, e, como seu apoio seria decisivo em tal hipótese,
não levaria muito tempo que a Alemanha estaria recolocada em sua primitiva
situação de grandeza.
Ora, sucede que ninguém sabe quais as tendências
psicológicas do povo alemão depois da tremenda prova por que acaba de passar.
Não há elementos para se poder garantir categoricamente que a Alemanha não
volte ao nazismo. E, se voltar, teremos para o mundo inteiro o retorno à
tragédia da qual acabamos apenas de sair.
* * *
Em linhas gerais, é em torno destas considerações
que estão discutindo os estadistas ingleses e franceses, na sua maioria hostis
a uma política de tolerância para com a Alemanha, e por isto alarmados com os
projetos atuais do Estados Unidos.
De nossa parte, temos a lamentar que as previsões
enunciadas pelo Legionário logo
depois da capitulação da Alemanha se vão realizando ponto por ponto. Os aliados
não souberam discernir entre os alemães nazistas e os alemães verdadeiramente
católicos, não souberam dar à Igreja o grande papel de reeducadora do povo
germânico que lhe cabia, não souberam organizar a Alemanha de maneira a
sujeitar o Norte protestante ao Sul católico, conservaram fora da comunidade
germânica Viena e o povo austríaco, não souberam fazer da
dinastia dos Habsburg o ponto fundamental
de toda a sua política na Europa central. Os resultados estão à vista de todos.
Uma ocupação longa, odiosa, inábil, está preparando os ânimos para a revanche e a
restauração do nazismo. As forças germânicas anti-nazistas
estão paralisadas à força. A Alemanha continua um problema, e a Áustria, sem
razão de ser própria, começa a ser cobiçada por Stalin, como em 1940 era cobiçada por Hitler.
Em uma palavra, não houve erro que os aliados
omitissem, nem medida acertada que pusessem em prática.
Quando os turcos penetraram em Constantinopla, ali se encontrava um Legado papal que assistiu a todos
os horrores da capitulação. Entretanto, escreveu ele, se um Anjo aparecesse aos
bizantinos cismáticos e lhes dissesse que podiam evitar tudo isto fazendo-se
novamente católicos, prefeririam deixar-se decapitar pelos maometanos.
Assim estão os aliados. Se se
lhes dissesse pela boca de um Anjo que só a restauração do Sacro Império sob a hegemonia habsburgueana podia resolver o problema da Europa Central,
e evitar nova guerra, prefeririam a guerra!
* * *
Continua, na Inglaterra, a política insensata de socialização, desenvolvida pelo
gabinete Attlee. Cada vez mais, as estatísticas acusam o insucesso do
Governo na direção das empresas outrora particulares. Cada vez mais, os
socialistas querem confiscar iniciativas particulares e sujeitá-las às mãos
hesitantes, débeis, irremediavelmente incompetentes do Estado.
Lembra isto a atitude por que vai enveredando
também o Brasil. Com a Central à nossa
vista, ainda pensamos seriamente em sujeitar ao governo a antiga S. Paulo Railway.
E, para cúmulo do desatino, anarquizamos o tráfego, entregando-o à Prefeitura.
Mas para muitos brasileiros as experiências não interessam. O importante é
imitar o que se faz fora do Brasil.
* * *
Chamamos a atenção de nossos leitores para a cisão
cada vez mais aguda, que se vai manifestando no trabalhismo
inglês. Uma ala "conservadora" quer ainda bolchevizar a Inglaterra
aos poucos e mansamente. Mas outra ala mais ardida, quer fazer tudo já e se
necessário a ferro e fogo. Não é impossível que a ala ardida vença. E, neste
caso, será a herdeira do dinamismo e da influencia do Partido Trabalhista, que
aos poucos desaparecerá. Prova isto o que dizíamos em outro número o que o P.
T. inglês tem de vivo, ativo, influente, ruma para o comunismo com todas as
forças.