Esta semana presenciou um dos acontecimentos
políticos mais importantes de nossos tempos: a aprovação de uma lei autorizando
o governo inglês a impor ao operário o emprego em que deve trabalhar. Em outros
termos - é o que se deduz dos telegramas - o gabinete trabalhista pediu e
obteve do Parlamento autorização para dispor de toda a mão de obra, designando
a cada operário a fábrica em que deve exercer as funções para que está
habilitado. Tomado este princípio em seu sentido amplo e genérico, pode o
Estado deslocar um operário de Dover para Londres, ou de Londres para Birmingham, desde que os interesses da indústria - a juízo do
governo - o peçam. E o operário tem de se conformar.
Uma das diferenças características entre o escravo
e o homem livre acaba, assim, de desaparecer. O escravo podia ser mandado para
qualquer lugar por seu senhor, e sujeito a exercer as funções de sua habilidade
onde o senhor mandasse. O homem livre, pelo contrário, podia trabalhar onde bem
entendesse. O operário inglês se encontra, de agora em diante, em situação mais
parecida com a do escravo, que com a do homem livre.
* * *
"Mais parecida"? A expressão é
insuficiente. Deveríamos dizer "inteiramente igual". Entre os povos
pagãos das grandes civilizações asiáticas, ou no velho mundo greco-latino, o
senhor tinha sobre o escravo o direito de vida e de morte, e, portanto, o
direito de aplicar aos escravos castigos corporais que chegavam até a efusão de
sangue e aos ferimentos graves. Além disto, tinham o direito de obrigar o
escravo a aceitar trabalho em qualquer lugar. Com o advento do catolicismo, a
situação dos escravos se modificou. Ninguém podia tirar-lhes a vida.
Consequentemente, o direito aos castigos corporais ficou consideravelmente
limitado, sendo proibidos quaisquer castigos que implicassem em ferimento
grave. O essencial da escravidão acabou sendo o direito do senhor de dispor à
seu talante do trabalho escravo. Assim mesmo, este direito tinha limites. O
servo da gleba não podia ser vendido por seu senhor para trabalhar em outra
gleba. O homem ficava ligado ao solo em que tinha o lar, os afetos, as suas
raízes naturais. O operário inglês, em virtude da legislação trabalhista,
acabou ficando em situação inferior ao escravo da gleba. Se ainda não está
sujeito à punição corpórea, já não tem direito a escolher a cidade em que
resida!
* * *
Para se medir até que ponto estamos sendo
arrastados pela torrente da confusão, pondere-se que tudo isto se passa, não a
pedido de um governo reacionário, mas trabalhista. A liberdade privada do
operário é supressa pelo partido... dos operários, ou ao menos pelo partido que
apresenta como sua própria razão de ser a proteção dos direitos do operariado!
Esta imensa transformação que encerra no Ocidente a
era da liberdade (da satânica liberdade revolucionária à moda de 1789, mas
também da santa liberdade cristã e medieval dos filhos de Deus), se dá no país
da Magna Carta, do habeas corpus, e do
parlamentarismo. As aparências da democracia subsistem, mas sua realidade
expira. Pois se um governo tem o direito de mudar de residência a seu
bel-prazer, e de emprego, os operários de todo o país, que liberdade tem um
operário de pertencer à oposição? Quem não percebe que ele será removido para
lugar pior, desde que não bata palmas ao que faz o governo?
A Inglaterra se transforma, assim, em uma ditadura
feroz análoga à URSS, em que um governo de "descamisados" oprime todo
o país, e reduz a população a um rebanho vil, sem dignidade nem personalidade.
Este golpe, que fere a fundo os direitos das elites, sobrevém
na Inglaterra, o país clássico da tradição monárquica e aristocrática. A Câmara
dos Lords, acovardada, aprova sem discussão este
decreto ignominioso. E apenas aprovado, ele recebe a sanção real!
Melhor teria sido que o Rei usasse de sua
atribuição legal de dissolver a Câmara dos Comuns, consultando diretamente o
eleitorado sobre esta medida. Mas o Rei fraquejou, e isto é explicável: hoje em
dia, parece que todos os covardes, os pusilânimes, os míopes estão do lado do
bom Espírito; e os audaciosos, os inteligentes, os previdentes do lado do
Espírito mau.
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Mais uma contradição, que merece especial registro:
quando Hitler instituiu o trabalho
obrigatório, disse-se que os alemães estavam escravizados e que para os
libertar que as democracias do Ocidente haviam feito a guerra. Agora, vem a
Inglaterra e escraviza os
ingleses: o que foi então esta guerra? Uma formidável comédia?
Quando os trabalhistas subiram ao poder, Churchill previu tudo isto, e
vaticinou que eles estabeleceriam a ditadura. É o que fazem neste momento. Não
adiantou que a oposição conservadora capitaneada pelo grande leader de guerra
e por Eden protestasse. Attlee e seus
"descamisados" (pois que os há em Londres como em Buenos Aires e por
toda a parte, descendentes legítimos dos sanguinários sans culotte franceses) impuseram
despoticamente sua vontade. E hoje em dia a Inglaterra é um dos Estados mais
totalitários do mundo.
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Volvamos os olhos, agora, para o panorama
brasileiro. Possuímos aqui um bom número de demagogos que vivem a protestar
contra supostos abusos do poder, etc. Votam um tal ódio ao princípio de
autoridade, que bastou a restauração da monarquia na Grécia, para os fazer fremir de cólera: os reis, dizem, são
inimigos da liberdade. Vem agora um governo popular e suprime brutalmente a
liberdade na Inglaterra. Onde os protestos destes pigmeus? Não vêem, não ouvem,
não sentem. Estão dormindo. Nada percebem. Por que? No fundo, não é a
liberdade, que eles amam, é a elite que eles detestam. O poder lhes parece
odioso quando exercido por homens superiores. Ao cetro de um rei, preferem o
látego de um feitor, desde que este seja um autêntico "descamisado"
que jamais tomou chá em pequeno.
* * *
Aprovamos, assim, os esplêndidos discursos da
oposição conservadora contra esta lei de alcance mundial. São seus os
argumentos que acabamos de expender, e fazemos votos por que a grande nação
inglesa se liberte quanto antes da detestável tirania esquerdista que
atualmente a oprime.
* * *
Depois dos assuntos ingleses, um assunto semi-inglês. Nossos leitores têm seguido a campanha movida
pelo órgão oficioso da Santa Sé contra a
perseguição religiosa na Iugoslávia, e sabem, através do caso doloroso de Mons. Stepinac, quanto sofrem nossos irmãos na Fé, naquele país. O
cardeal Griffin, Arcebispo de Westminster, em recente declaração, afirmou solenemente que a
perseguição religiosa continuava a oprimir os iugoslavos. Contudo, suas
declarações - de que nenhum católico duvida - foram agora desmentidas por um
Dr. Guy Emery Shipler, porta-voz da delegação protestante que recentemente
esteve em Belgrado. Este fato prova claramente que a política de aproximação
entre protestantes e comunistas continua intensa.
Prova-o também uma notícia curiosa: em Edimburgo, realizou-se um congresso internacional da Associação
Cristã de Moços, que como todos sabem é protestante. A esse congresso
compareceram delegações de mais de cinqüenta nações, inclusive da URSS. De onde
se infere que a ACM tem direito de agir na URSS, direito este que, por certo,
as Congregações Marianas não tem.
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O Conde Emanuel de Bennigsen publicou, há dias,
um artigo no "Estado de São Paulo", em que mostra que a recente
decisão da ONU de fazer suspender as hostilidades entre
indonésios e holandeses evidência uma tendência profunda daquele organismo
internacional de favorecer a soberania dos países coloniais, até mesmo contra o
espírito e a letra dos tratados internacionais anteriores. Mostra o articulista
que este princípio pode levar longe, se aplicado uniformemente aos assuntos
análogos que vierem a ser submetidos à ONU, já que representará a destruição da
forma atual de preponderância política que a Europa, e notadamente a Inglaterra, exerce sobre
grandes regiões da África ou da Ásia.
* * *
Concordamos com estas considerações, e de nossa
parte temos que acentuar que qualquer afrouxamento dos laços que prendem a
África ou a Ásia às Potências européias significará forçosamente o triunfo das
correntes nativistas que levantam o Oriente contra o
Ocidente. Estas correntes não se apresentam senão como grandes movimentos
políticos, sem preocupação religiosa ostensiva. Mas será quase impossível
evitar que elas se voltem contra o Cristianismo mais cedo ou mais tarde, e
quando falamos em Cristianismo entendemos Catolicismo e as missões católicas
espalhadas um pouco por toda a parte.
Assim, pois, pressentimos com bastante ansiedade
acontecimentos graves que se podem dar de futuro, em relação às cristandades africanas e asiáticas ora florescentes. Cremos
que elas resistirão. Mas o sentido de unidade do Corpo Místico de Cristo
faz-nos sofrer na previsão das perseguições que terão de suportar.
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Tudo isto se apresenta em um futuro menos remoto do
que se pode imaginar. Assim é que, nesta semana, a ONU foi solicitada a se
pronunciar sobre outra questão colonial gravíssima: a presença de tropas
inglesas no Sudão, o que molesta o governo do Rei Faruk. De outro lado, a França concedeu autonomia
administrativa à Tunísia, está na iminência de a conceder à Argélia, e a Inglaterra outorgou uma
independência quase total ao Paquistão e ao Indostão. Ora, tudo isto vai acelerar o movimento nativista, e produzir questões que, dia mais dia menos,
irão transformar-se em casos internacionais sujeitos à ONU.
Por mais inimigas que sejam, a Rússia e a república
norte-americana apoiarão os nativistas como já os
apoiaram no caso da Indonésia: convém a uma e à outra destruir o poderio de
Londres, e obrigar todo o
mundo a se filiar a um dos dois grandes grupos internacionais, o de Washington e o de Moscou. E, assim, um futuro declínio do poderio colonial da
Inglaterra, da França, da Espanha, da Itália, de Portugal, parece quase inevitável.