É preciso que não se repita na América o grande
erro político que caracterizou a diplomacia européia, nos cem anos que medeiam
entre a queda de Napoleão e a grande guerra.
Entre 1815 e 1914, a Europa ardia em pleno incêndio
revolucionário. As forças anti-monárquicas e anti-sociais se infiltravam em
todos os países europeus, abalavam todos os tronos, atacavam todas as
instituições religiosas, e desconjuntavam todas as peças do velho edifício da
Europa de Filipe II e de Luís XIV.
Contra esta marcha ascendente da onda
revolucionária, que providências tomaram as monarquias européias? Praticamente
nenhuma. Unidas, as chancelarias européias poderiam ter esmagado a hidra
revolucionária com um simples gesto. Desunidas, seriam devoradas por ela. E foi
esta segunda atitude, que prevaleceu.
Por que? Porque a união de todas as forças da
direita suporia necessariamente um largo entendimento internacional. E a miopia
dos estadistas europeus não percebia, no terreno da diplomacia, outra coisa a
tratar senão de estreitíssimos interesses econômicos
e de pequeninas gloriolas nacionais.
Enquanto se verteram rios de sangue pela posse de
algumas jardas de terra no Schleswig-Holstein, na Alsácia-Lorena, na Silésia ou nos Balcãs, nem uma só gota de sangue foi vertida para a defesa da
estrutura política e social da Europa. Excetua-se, apenas, nesta regra geral, o
sangue heroicamente derramado pelos mártires de Castelfidardo.
O resultado desta miopia não se fez esperar:
enquanto os monarcas europeus se consumiam em
lutas estéreis para estender seus impérios, a revolução, no interior de seus
países, cavava a sepultura em que seriam sepultados seu cetro e sua coroa. E a
Europa monárquica e cristã de 1815 se transformou na Europa laica e republicana
de 1918.
Se a América quer conservar-se insulada no grande
dilúvio que ameaça o Ocidente e quiçá o mundo inteiro, precisa não repetir o
mesmo erro. A diplomacia dos povos americanos não deverá tender simplesmente a
conclusão de acordos aduaneiros vantajosos. É preciso que as inteligências
alteiem mais os seus ideais. A meta de toda a verdadeira política inter-americana
é, atualmente, a defesa contra o comunismo.
* * *
Mas do que adianta esta defesa, se, em pleno
coração da América, há uma Nação governada por Moscou? Enquanto os agentes
comunistas continuarem a dirigir a política mexicana, dizimando as fileiras do
clero, oprimindo os fiéis, confiscando propriedades, socializando a Nação, do
que adianta a formação de uma frente única anticomunista contra a Rússia?
O primeiro pensamento dos estadistas que se vão
reunir na conferência pan-americana deve ser, portanto, a liberação do México.
O Cristo Eucarístico que é profanado nas Igrejas do
México é o mesmo Cristo Eucarístico que adoramos em nossos sacrários. A
civilização católica que se procura destruir no México é a mesma por que nós
nos batemos no Brasil. Os princípios que nossos irmãos, os católicos do México,
defendem com seu sangue, são exatamente os mesmos princípios que nós, católicos
brasileiros, estamos dispostos a sustentar com o sacrifício de nossa vida.
A união espiritual de todos os povos latino-americanos
em uma Igreja que é Una, Santa Católica e Apostólica, é uma realidade objetiva
e ativa; esta realidade nos impõe, no momento em que estiverem reunidos os
representantes da América, um gesto de solidariedade para com nossos irmãos.
Se o “Legionário” fosse o grande
jornal católico de que o Brasil precisa, não tenham nossos leitores a menor
dúvida sobre nossa atuação. Ouvidas respeitosamente nossas Autoridades
Eclesiásticas, teríamos telegrafado para os jornais ou periódicos católicos de
toda a América, pedindo-lhes que iniciassem uma forte campanha junto aos seus
leitores, no sentido de telegrafarem à Conferência Americana, pedindo uma
providência para aliviar a situação dos católicos mexicanos. De todos os países
americanos, inclusive da própria América do Norte, teriam chovido milhares e
milhares de telegramas sobre a Conferência. E esta veria, então, que para a
América, não é preciso apenas o ouro burguês que se pretende por ao abrigo da
sanhas comunista, mas também - e principalmente - o ouro inestimável da Fé, que
no México se está procurando roubar aos nossos irmãos.
* * *
Infelizmente, a imprensa católica ainda não tem, no
Brasil, o vigor que lhe seria necessário para levar a cabo esta grande
campanha, que contaria certamente com as bênçãos afetuosas do Santo Padre.
Mas entre os estadistas que se vão reunir sob a
presidência do Sr. Roosevelt, há muitos que se jactam de ser católicos.
Será possível que, da parte dos católicos que
integrarão a Conferência, não proceda uma única atitude de solidariedade
efetiva e enérgica aos nossos irmãos do México?
Será possível que eles se esqueçam do Cristo que é
hoje ultrajado e perseguido no México, em Tampico, em Guadalajara, como outrora na Palestina infiel?