Plinio Corrêa de Oliveira

 

O crepúsculo dos demônios

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Legionário, 9 de outubro de 1938, N. 317

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Normalmente, no “Legionário”, o artigo de fundo deve ocupar-se com questões nacionais. Entretanto, as transformações que sofreu o mundo em virtude do acordo de Munique, e sobretudo as ulteriores transformações porque ele passará, são tão importantes e tão profundas, que não podem deixar de absorver, no momento, toda a atenção de um público esclarecido. Por isto, o “Legionário” julga atender ao desejo de seus leitores, tratando, ainda neste número, no seu artigo de fundo, de questões internacionais.

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Em nosso último número, tivemos ocasião de acentuar a influência possível que exercerá na política interna da Inglaterra, França, Alemanha e Itália, a aliança quádrupla esboçada em seguida à histórica conferência de Munique. Com a imparcialidade que caracteriza esta folha, mostramos as perspectivas risonhas e as nuvens sombrias que cercam o panorama criado pela conferência de Munique. De propósito deixamos para outro artigo a verificação de um fato de capital importância, que terá enchido de gáudio os elementos anticomunistas e de apreensões os partidários das rubras “frentes populares”.

Realmente, a principal ou ao menos uma das principais consequências do acordo de Munique foi a expulsão da Rússia do cenário político europeu.

Este fato tem ao mesmo tempo dois significados. De um lado, significa o afastamento, dos negócios da Europa Central e Ocidental, de uma grande potência europeia e asiática. De outro lado, implica no ocaso da influência comunista no mundo inteiro. Vejamos como isto se demonstra.

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Pode-se afirmar que a Rússia só começou a exercer um papel de certo relevo na vida política da Europa nas guerras napoleônicas. Anteriormente a isto, o grande império moscovita levava uma vida inteiramente isolada, separado como estava da comunhão europeia, por sua situação geográfica, seus interesses materiais e sua posição religiosa.

Religiosamente, a Rússia cismática se isolou do resto da Cristandade pela formação de uma igreja nacional que a separou da comunhão romana na qual vivia toda a Europa medieval.

Geograficamente, a Rússia só tinha fronteiras europeias com povos de importância secundária, ou seja a longínqua Polônia, a Hungria ainda então envolta em mistério, e os Balcãs escravizados pelos muçulmanos. Nenhuma questão de importância a ligava a qualquer potência ocidental do continente.

Por outro lado, seus interesses não exigiam qualquer intercâmbio com a Europa. Dotada de imensas riquezas naturais com as quais bastava a suas próprias necessidades, a Rússia não se interessava em manter contato como o Ocidente. Pedro o Grande e a famosa Catarina procuraram ligar-se mais à Europa. Mas fizeram-no por um interesse meramente cultural, sem, com isto, envolver diretamente a Rússia na política europeia.

Com Napoleão, a situação se alterou. Ao lado da Inglaterra e da Áustria, a Rússia, que inundou a Europa com seus cossacos, apareceu como um fator primordial para o esmagamento do Corso. Daí lhe adveio uma influência colossal, tornada tanto mais notável quanto o eixo de gravidade do mundo germânico se ia deslocando de Viena para Berlim, colocando a Rússia na possibilidade de atingir diretamente a Prússia, e de, com isto, ser preciosíssima aliada da França. Quando a capital do mundo germânico era Viena, estava este ao abrigo das investidas russas. Quando Berlim se transformou em metrópole pangermânica, a Rússia passou a ter importância vital para a França, e daí por diante, até a guerra de 1914, sua atuação na política europeia foi constante e decisiva.

No fundo, todo o segredo da influência russa estava na ruptura entre a Alemanha e a França. O acordo de Munique, retirando a causa da influência, fez cessar implicitamente o poderio eslavo. E, como consequência, a Rússia se viu, já naquela conferência, excluída da política internacional europeia.

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Com o acordo de Munique, é a era do diabolismo ateu e anárquico que expira, é a um crepúsculo dos demônios que se assiste, análogo ao inexorável crepúsculo dos deuses da epopeia wagneriana.

Enquanto isto uma era nova parece raiar para a Europa. A era dos deuses wagnerianos ressuscitados do seu sono antigo. Veremos em outro artigo, como ao crepúsculo dos demônios parece suceder-se a aurora dos deuses.

Implica isto em afirmar que a III Internacional viu estourar na conferência de Munique, como uma inofensiva bolha de sabão, a formidável influência diplomática da Rússia, de que o comunismo se servia, evidentemente, como arma para a propaganda de suas doutrinas.

Em todos os discursos proferidos pelos políticos mais eminentes da Inglaterra, Alemanha, França, e Itália, fala-se em um reajustamento internacional para evitar a guerra. Esse reajustamento se faria sobretudo entre os quatro mencionados países, comportando a eliminação de todas as questões que os dividiam quanto ao Mediterrâneo, a Espanha, as colônias etc. No entanto, nenhuma palavra é pronunciada sobre a interferência da Rússia em tais acordos. O mapa político da Europa Central e Ocidental será remodelado como se a Rússia não existisse. Praticamente, o acordo de Munique expulsou a Rússia da Europa.

Evidentemente, o fato desagradou do modo mais vivo todos os políticos de colorido vermelho, da França e da Inglaterra. Por isto, as oposições parlamentares desses países investiram, de lança em riste, contra os Srs. Chamberlain e Daladier. No entanto, o Parlamento inglês e seu congênere francês resolveram rejeitar por maioria esmagadora os argumentos das esquerdas. E, com isto, a impotência política dos partidos comunistas da Inglaterra e da França se atestou com uma clareza iniludível.

Praticamente, se o acordo de Munique expulsou a Rússia da política europeia, a ratificação de tal acordo pelos parlamentos inglês e francês demonstra que muito antes dessa expulsão oficial e diplomática, o comunismo tinha sido repudiado da França e da Inglaterra pela opinião pública na qual já não encontrava raízes.

Há pouco tempo ainda não havia quem não considerasse com apreensão os progressos do “Front Populaire” na França e a fermentação comunista que lavrava nas fileiras do “Labour Party”, na Inglaterra. Hoje em dia, tal fermentação cessou inteiramente e, graças a Deus, o recuo comunista foi tão extenso que, praticamente, não conseguiram eles impressionar qualquer parcela da opinião pública em benefício da política fracassada de Stalin e de Litvinoff.

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Houve quem comparasse, com muita exatidão, a III Internacional como o quartel general dos poderes das trevas, no século XX. Se Joseph de Maistre disse com razão que a Revolução Francesa foi satânica, pode-se dizer com maior razão que a guerra de classes promovida pelo comunismo internacional é a explosão universal daquilo que, na Revolução havia de mais caracteristicamente diabólico.

A III Internacional é, pois, o foco pestilencial do qual emanam para o mundo inteiro as palavras de ordem do programa diabólico da destruição completa de toda a crença e de toda a sociedade, e da construção de um mundo novo, baseado no ateísmo e na anarquia. Foi da sede da III Internacional que partiram como anjos do mal os emissários que atearam o incêndio da revolução social no mundo inteiro. Foi lá que os morticínios criminosos, as profanações satânicas, os atentados pérfidos se planejaram, e de lá partiram as ordens para que eles se executassem. Os espíritos malignos que infestam a terra tinham na Moscou de pós-guerra seu “rendez-vous” [ponto de encontro] predileto.

Hoje, no entanto, um ambiente crepuscular cerca o quartel general de Satanás instalado no Kremlin. No mundo inteiro, os partidos comunistas decaem. Não se ouve mais falar em greves, nem em reivindicações proletárias, nem mesmo em propagandas comunistas. As fogueiras da Espanha e da China crepitam ainda. Mas são brasas de um incêndio em decadência. Mais cedo ou mais tarde, estarão reduzidas a cinzas frias e inofensivas.

O acordo de Munique assinalou, incontestavelmente, o crepúsculo dos demônios de Moscou. É a era do diabolismo ateu e anárquico que expira lentamente, como na epopeia wagneriana expirava em lento e inexorável crepúsculo a era das divindades germânicas.

Enquanto isto, uma era nova parece raiar para a Europa. É a era dos deuses wagnerianos ressuscitados de seu sono antigo. Veremos, em outro artigo, como, ao crepúsculo dos demônios, parece suceder-se hoje em dia a aurora dos deuses...


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