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A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo

no pensamento de

PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA

© 2008 - Todos os direitos desta edição pertencem ao

INSTITUTO PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA

Dezembro de 2008

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Parte II

Capítulo 1

 

A contemplação sacral,

antídoto contra o laicismo

 

( Para Textos Ilustrativos deste capítulo clicar aqui )

 

1. Cabe falar, para um leigo, de «contemplação sacral»?

Quando se fala em contemplação, uma imagem que pode vir à mente é a de um monge com capuz, olhando enlevado para o sacrário de uma capela ou de uma igreja; ou a de uma freira absorta na consideração do Sagrado Coração de Jesus, do Imaculado Coração de Maria, de anjos ou santos. Ou a de um anacoreta no deserto, vivendo no silêncio, na pobreza e no isolamento, fazendo mortificações, rejeitando o mundo. — Um simples leigo, que viva intensamente sua vida de leigo, pode se dedicar a algum desses tipos de contemplação? Cabe falar, para um leigo, de contemplação sacral?

A terminologia é elemento relevante, em qualquer estudo. Assim, para se compreender o alcance dos assuntos que serão tratados, convém esclarecer em primeiro lugar o que se quer indicar precisamente com a palavra contemplação e, depois, em que sentido será tomado o adjetivo sacral.

 

2. Sentido especial da palavra contemplação

Na frase do teólogo Adolfo Tanquerey, «contemplar, em geral, é olhar um objeto com admiração».*

* Compêndio de Teologia Ascética e Mística, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 6ª ed., p. 145.

Aqui se encontra parte da resposta para as perguntas formuladas. Pois essa definição coloca em realce que é possível olhar para os objetos da vida temporal com admiração. Ademais, cabe considerar também a possibilidade de a graça auxiliar — e levar ao auge — tal ação, desde que seja adequado o objeto da contemplação.

A admiração é, pois, a chave da resposta à pergunta sobre a legitimidade de falar em contemplação a propósito da esfera temporal.

A vocação dos chamados «monges contemplativos» é enormemente elevada, e a eles nos devemos referir com todo o enlevo e veneração. Quem segue essa vocação deve ter todo o nosso estímulo.

‘Certa vez, em 1952, viajando pela França passei* diante do célebre mosteiro trapista de Sept Fons, do qual foi abade Dom Chautard.** Tive vontade de descer do automóvel e oscular a porta. O que só não fiz por motivos circunstanciais da viagem’.[1] Tal a alta conta em que deve ser tida a contemplação monacal.

* Tenha-se presente que é o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que está falando.

** Dom João Batista Chautard (1858-1935) fez-se religioso na Abadia de Aiguebelle, da Ordem de Cister. Foi incumbido por seus superiores de cuidar da manutenção e restauração de vários mosteiros cistercienses. Tornou-se abade do Mosteiro de Nossa Senhora de Sept Fons, aqui referido. O nome trapista resulta de uma reforma da ordem cisterciense empreendida no século XVII.

Mas há outro gênero de contemplação que não corresponde à espiritualidade própria de um contemplativo recluso, ou mesmo de um religioso não recluso.

O que aqui se designa por contemplação sacral corresponde a algo de certo modo mais geral, e ao mesmo tempo mais específico do que o sentido correntemente atribuído à palavra contemplação.

Algo mais geral: pois seu âmbito abarca o universo inteiro.

Algo mais específico: pois para ela há vias bem definidas, das quais a seguir serão apresentadas algumas; outras poderiam ser depois indicadas.

 

3. A sociedade temporal, obra-prima da criação visível

‘A sociedade temporal é a obra-prima da criação visível. Não se considere aqui a Igreja, que deve ser vista numa perspectiva distinta. Quando Deus criou a ordem natural, dentro desta a obra-prima foi a sociedade temporal. A sociedade temporal é, portanto, uma criatura excelente.

‘— De onde vem o fato de a sociedade temporal ser assim uma obra-prima de Deus?

‘Vem antes de tudo da nobreza do homem. O homem é o rei da criação. A sociedade temporal, que se compõe desses «reis», é mais excelente do que cada «rei» individualmente considerado.

‘Cada homem possui a excelência de sua natureza, ainda que com os efeitos do pecado original. Mas, o conjunto dos homens — que vem a ser a sociedade — é mais excelente do que cada homem individualmente’.[2]

 

4. A reta contemplação da ordem temporal

Em todos os seres criados há um vestígio da Santíssima Trindade

Da Suma Teológica, I, q.45, a.7, c.:

Todo efeito representa algo de sua causa, mas de modos diversos. Há efeitos que representam só a causalidade, não a forma da causa; assim, o fumo representa o fogo. E tal representação é chamada de vestígio; pois a pegada que o homem deixa no solo indica o passar de alguém, não porém quem este seja. Mas tal outro efeito representa a causa por ter uma semelhança com a forma dela: assim o fogo gerado representa o fogo gerador, e uma estátua de Mercúrio representa a este. Este tipo de representação é uma imagem.

Ora, as processões das Pessoas divinas se dão segundo os atos da inteligência e da vontade, como se viu anteriormente; por que o Filho procede da inteligência como Verbo, e o Espírito Santo procede da vontade como Amor.

Portanto, nas criaturas racionais, dotadas de inteligência e vontade, encontra-se a representação da Trindade a modo de imagem, porquanto nelas se encontram um verbo que é concebido e um amor que procede.

Mas em todas as criaturas se encontra a representação da Trindade a modo de vestígio, neste sentido que se encontra nelas algo que é necessário absolutamente referir às Pessoas divinas como à sua causa. Com efeito, toda criatura subsiste no seu ser, possui uma forma que determina sua espécie e tem uma ordem em relação aos outros seres. Portanto, enquanto substância criada, representa sua causa e seu princípio, e assim manifesta a pessoa do Pai, que é um princípio que não tem princípio. Enquanto tem uma certa forma e espécie, representa o Verbo, porque a obra de arte provém da concepção do artista. E enquanto é ordenado a outros seres, representa o Espírito Santo, que é Amor, porque a ordem de um efeito em relação a outra coisa provém da vontade do Criador.

Por isto diz Santo Agostinho que o vestígio da Trindade se encontra em toda criatura.

Santo Tomás de Aquino

‘A reta contemplação da ordem temporal deve, pois, ser adequadamente valorizada, posto que foi instituída pelo Criador principalmente para que os homens, também mediante ela, conheçam, amem e sirvam a Deus’.

Através da contemplação da ordem temporal, a pessoa ‘se situa na elevação de alma, nos píncaros da doutrina, onde os acontecimentos tomam um aspecto todo especial’. Para isto é preciso ‘ter o hábito de considerar dessa altitude, não só os fatos da vida pública, como os fatos da vida privada. O homem deve ter um olhar habitualmente contemplativo e meditativo a respeito das coisas que vê, para ser um contemplativo da vida terrena. Quer dizer, uma pessoa que olha a vida terrena e é capaz de contemplá-la’.[3]

Essa contemplação da vida terrena é especialmente indicada para os leigos, imersos como estão na vida temporal.

À primeira vista, nada há para ser contemplado na vida terrena. É o quotidiano, com todo o seu prosaísmo; a vida profissional, com toda a sua rotina; o lazer, com toda a sua dispersão, etc.

Entretanto, a Sagrada Escritura e, em seu seguimento, Santo Tomás de Aquino e São Boaventura nos dizem que em todas as criaturas do universo há a imagem, a semelhança, ou vestígios de Deus. Na Suma Teológica, Santo Tomás chega a dizer que em qualquer criatura se podem encontrar vestígios da Santíssima Trindade.

* Ver Excerto ao lado.

A contemplação sacral é, pois, a contemplação da imagem, da semelhança, ou dos vestígios de Deus no Universo — ou seja, no mundo que nos cerca, nas cidades, nas famílias, nas instituições, na arte, nos animais, nas plantas, nos pormenores de cada objeto.

Mesmo quando estamos com alguma ocupação absorvente, essa contemplação deve ser o objeto segundo de nossa atenção, continuamente à procura de entender o significado superior de cada coisa.

 

5. Uma sociedade temporal inteiramente cristã

Nossa admiração sacral deve abarcar praticamente tudo: desde a natureza até as pessoas, os povos, a História, passando por todas as atividades humanas. Tudo que há de belo, bom e verdadeiro é objeto de um espírito contemplativo.

A contemplação sacral pressupõe um grande senso de ordenação, com atenção especial para os conjuntos, de acordo com a célebre passagem do Gênesis, que exprime a apreciação de Deus sobre o universo que acabava de criar: «todas as coisas criadas são boas, mas o conjunto é ótimo» (Gen 1, 31).

Pressupõe também uma alta sensibilidade para os contrastes, o que leva a analisar inclusive o que não é bom.

A contemplação sacral conduz, no fim do caminho, ao desejo de uma civilização cristã completa: cristã no religioso e cristã no temporal. Mas autenticamente cristã, em que o adjetivo cristã não constitui, como tantas vezes se vê hoje, um sonoro chavão, vazio de sentido. Cheios de amor, desejamos o cumprimento daquilo que pedimos no Pai-Nosso: que «venha a nós o vosso Reino». E que venha quanto antes.

Nessa matéria, devemos querer tudo, logo e para sempre!* Como deve aspirar todo coração verdadeiramente católico.

* Crítica que o presidente socialista francês François Mitterrand (1916-1996) fazia aos que não sabem aguardar o resultado de seus esforços, no caso dele, revolucionários.

 

6. A contemplação sacral é uma contemplação amorosa

O relativismo e o laicismo contemporâneos induzem à tendência a ser indiferente diante do maravilhoso e, sobretudo, apático diante do horrível. Nos antípodas desses erros está a contemplação sacral da vida terrena.

— Basta contemplar? — A contemplação não é apenas conhecimento, mas amor.

Uma das afirmações mais quentes e mais irresistíveis de nossa sociabilidade está nessa necessidade de amar e de ser amado, que é inseparável da natureza de cada homem’.

Nosso amor, porém, tem gradações. ‘Ele se volta, com a devida adequação, para as coisas do reino mineral, do reino vegetal, do reino animal:

‘— podemos amar um belo cristal que encontramos à flor da terra durante um passeio;

‘— mais adequadamente amamos uma planta, uma rosa, por exemplo;

‘— a palavra amor se enche de um sentido maior quando tem por objeto um animal, por exemplo o cão, companheiro fiel nos bons e nos maus dias;

‘— mas só há propriamente amor quando se tem por objeto um ser de nossa espécie.

‘Este último amor, incomparavelmente maior do que os demais anteriormente enumerados, nos conduz à idéia do amor que devemos Àquele que é o Ser absoluto, o Ser por excelência, o Ser que contém em Si substancialmente todas as perfeições’.[4]

Assim, a contemplação sacral inclui a admiração amorosa de todos os seres do universo, e desfecha em Deus. Porém, não se situa no terreno especificamente religioso, embora esteja numa perspectiva que, no fundo, é religiosa.

 

7. A «consecratio mundi»

Exposto o sentido da palavra contemplação, resta explicar o que significa sacral.

O conceito de sacralização foi introduzido por Pio XII em sua célebre alocução aos participantes do II Congresso Mundial para o Apostolado dos Leigos, em 5 de outubro de 1957: «As relações entre a Igreja e o mundo exigem a intervenção dos apóstolos leigos. A consecratio mundi [sacralização do mundo] é, no essencial, obra dos próprios leigos, de homens que estão intimamente entremeados à vida econômica e social, que participam do governo e das assembléias legislativas».*

* Esse tema foi retomado pelo Concilio Vaticano II no decreto Apostolicam Actuositatem (nos. 5 e 7 — apud Plinio Corrêa de Oliveira, Guerreiros da Virgem, A réplica da autenticidade. Ed. Vera Cruz, São Paulo, 1985, p. 112).

Não se trata, de modo algum, de transformar a sociedade temporal numa espécie de ordem religiosa, mas sim de aprimorar e mesmo espiritualizar seus aspectos culturais, sem que estes deixem de ser temporais ou terrenos.

A Radiomensagem de Natal de 1957, do mesmo Pontífice, pode ser considerada um desenvolvimento do que ele entendia por sacralização do mundo:

«O homem, desde o primeiro encontro com o universo, ficou extasiado com tão incomparável beleza e harmonia. [...] O céu resplandecente de luz ou ponteado de estrelas, os oceanos de extensões imensas e matizes variegados, os cumes inacessíveis dos montes coroados de neve, as florestas verdes regurgitantes de vida, a sucessão regular das estações e a multiforme variedade dos seres arrancam-lhe, do peito, um grito de admiração!»*

* O mensário Catolicismo dedicou quatro números à transcrição e comentários dessa importante Radiomensagem (nos. 87, 88, 89 e 91, respectivamente de março, abril, maio e julho de 1958). São desses comentários, feitos pelo prof. Plinio Corrêa de Oliveira, os trechos a seguir incluídos entre aspas simples, conforme explicado no Ao Leitor.

Nota do editor do site: colocamos acima link para os dois últimos números de "Catolicismo" citados( 89 e 91 ), com os comentários do prof. Plinio Corrêa de Oliveira à Radiomensagem, transcrita na íntegra, juntamente com o comentário correspondente, no nº 89.

O homem entrevê a beleza — comenta Pio XII — «até nos elementos em fúria como expressão do poder do Criador: “Mais poderoso que o estrondo de muitas águas, mais poderoso que as águas do mar, é poderoso o Senhor nas alturas” (Sl 92, 4); “Deus trovejará maravilhosamente com sua voz” (Job 37, 5)». E acrescenta que a etimologia de kosmos é ordem, harmonia, beleza.

Mas estas verdades esplendorosas são rejeitadas pelos que não conseguem estabelecer ‘relação de necessidade entre o eterno e o temporal’, segregando Deus do mundo, ‘como dois seres demasiado diferentes e distantes, e, portanto, sem vínculos recíprocos’.

O Pontífice discorre ainda sobre a dignidade, que cabe à Criação, de ser reflexo do infinito e do eterno. ‘E isto o faz em virtude da ordem essencial, inscrita em todas as coisas, e da coerência e harmonia íntimas cujo eco sonoro o mundo repete’.

A grande lei da harmonia — diz — penetra o mundo. «O universo se apresenta desse modo como sinfonia admirável, ditada pelo Espírito de Deus, e cujo acorde fundamental brota da fusão das perfeições divinas: a sabedoria, o amor, a onipotência. “Domine, Dominus noster, quam admirabile est nomen tuum in universa terra!” (Sl 8,2)».

O Pontífice exalta «aqueles que, com o Salmista, têm ouvidos para escutar enlevados a divina sinfonia que soa no cosmos» e mostra como Nosso Senhor Jesus Cristo «é a testemunha e penhor da harmonia do mundo».

A obra de sacralização visa, pois, promover a harmonia e a conformidade da esfera temporal com o Espírito de Deus. E resulta de uma atuação dentro da própria esfera temporal, tarefa que compete precipuamente aos leigos.

Um dado histórico ajuda a entender a questão: na Idade Média, havia o sagrado na ordem eclesiástica e o sacral na ordem temporal; depois dessa época abençoada, o influxo espiritual retirou-se da sociedade civil, refugiando-se sobretudo no interior das igrejas.

 

8. «Sagrado» e «sacral», diferenças de matiz

A explanação do Pontífice nos introduz em outro aspecto do tema, que é a diferença de matiz entre duas palavras muito semelhantes, mas que, para efeitos didáticos, se pode distinguir: sagrado e sacral.

Com efeito, para exprimir o caráter próprio da sociedade temporal, é legítimo empregar a palavra sacral, com sutis e importantes diferenças de sentido em relação à palavra sagrado:

— um relicário, por exemplo, é um objeto sagrado;

— um cofre onde se guardem as jóias de uma monarquia (que, portanto, não se relaciona com o culto) pode ser sacral, embora não seja sacro;

— uma mera caixa de madeira não trabalhada não é nem sagrada, nem sacral.

Assim,

— o elemento espiritual deve estar presente em ambas as esferas: a eclesiástica e a temporal;

— para a esfera eclesiástica cabe o adjetivo sagrado, ou sacro;

— para a esfera temporal é mais adequado o qualificativo sacral.

Outros exemplos:

— a tiara pontifícia era um objeto sagrado; a coroa de Carlos Magno, uma peça sacral.

— o prédio de uma igreja tem algo de sagrado; um castelo pode merecer, por sua imponência e elevação, ser chamado de sacral, jamais de sagrado.

— uma sala, um recinto, um objeto podem ser sacrais, ainda que não ostentem nenhum símbolo religioso, caso possuam grande dignidade e elevação.

São sacrais as coisas do mundo temporal que trazem consigo, a qualquer título, certa semelhança especial com Deus. Porém, um grão de areia, tomado em bruto, não é sacral. Ele é feito para ser pisado no chão. Sem embargo do que, quem analisa com finura um grão de areia, percebe que, como todas as coisas do universo, há nele um aspecto sacral. ‘É preciso procurar para encontrar; mas, procurando, realmente se encontra. Em tudo quanto existe, há algo de sacral’.[5]

 O Koh-i-Noor*, notável jóia que está na coroa da Inglaterra, pode ser chamado sacral porque tem um brilho, uma beleza que facilmente lembra a rutilância da inteligência divina!’ Mas a torre de um castelo medieval pode ser considerada sacral, ‘por lembrar, muito melhor do que um simples brilhante, a alma cheia de elevação que compôs aquela obra de arte’.[6]

* O nome indiano dessa jóia significa «montanha de luz».

Pode-se também dizer que um acontecimento na esfera temporal ou profana, como a posse de um governante ou uma parada militar em que haja um substrato religioso, marcada por uma grande elevação, poderia ter algo de sacralquão raras vezes acontece hoje em dia! — mas seria impróprio usar para esse evento o adjetivo sagrado.

Sagrado, portanto, diz respeito diretamente à esfera religiosa; e sacral, na acepção aqui explicada, é atinente à esfera temporal ou profana.

O sagrado pertence à Igreja; o sacral é o modo de a sociedade temporal ser sagrada. É a sacralidade aplicada à sociedade temporal; é por assim dizer — a diluição do sagrado que cabe à sociedade temporal’.[7] *

* O termo profano vem do latim profanum, formado de pro (diante de) e fanum (lugar consagrado, templo), e indica aquilo que está diante (e, portanto, fora) do templo. Corresponde simplesmente àquilo que de si não é sagrado. Porém, segundo o ensinamento de Pio XII acima exposto, também à esfera temporal ou profana compete buscar a conformidade com o Espírito de Deus e, portanto, neste sentido, sacralizar-se.

 ‘Por certo é à Igreja que pertencem os meios próprios para promover a salvação das almas. Mas a sociedade civil e o Estado têm meios instrumentais para o mesmo fim, isto é, meios que, movidos por um agente mais alto, produzem efeitos superiores a si mesmos.

‘O fim da sociedade e do Estado é a vida virtuosa em comum. Ora, as virtudes que o homem é chamado a praticar são as virtudes cristãs, e destas a primeira é o amor de Deus. A sociedade e o Estado têm, pois, um fim sacral’.*

* Cfr. Santo Tomás, De Regimine Principum, I, 14 e 15.

Sacral, portanto, é aquilo que apresenta, no fundo, uma analogia com Deus Nosso Senhor. A cultura sacral é a cultura que faz o homem encontrar essas analogias em tudo. Não que as fabrique, mas encontra porque elas existem. ‘Não se trata de inventar; trata-se de encontrar, o que é bem diferente’.[8]

Isto posto, a expressão contemplação sacral se torna bem definida: é olhar, com admiração religiosa, o mundo temporal.

 

9. A sociedade temporal bem ordenada é um símbolo de Deus

Obviamente, devemos ser abertos acima de tudo à contemplação de Deus, dos mistérios da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Nossa Senhora, da Igreja e dos demais temas religiosos. Estes últimos, porém, não são do âmbito deste livro, que tem como objeto a ordem do universo temporal. É a razão pela qual deles não nos ocupamos aqui.

Alguém poderia desde logo objetar:

— A esfera religiosa está tão acima da temporal, que não é o caso de perder tempo com esta última!

Não é assim. Muitas vezes, os erros que afligiram a Igreja ao longo de sua História nasceram na sociedade temporal. ‘Por exemplo, as piores tendências do progressismo moderno são uma emanação direta do espírito da Revolução Francesa’.[9]

Ademais, há um fato elementar facilmente comprovável: pelo menos 80% da vida de um leigo católico comum não se passa na igreja, mas dentro da sociedade civil. Além de que os assuntos temporais são, o mais das vezes, decisivos na vida de uma pessoa.

E não apenas isso. ‘A sociedade temporal bem ordenada é um símbolo de Deus e da ordem posta por Deus no universo. E, como tal, ela concorre para tornar as almas mais receptivas, mais modeladas pela virtude’.[10]

Pio XII reprovava «certo espiritualismo», que «adotado outrora no campo católico, ocasionou grave dano à causa de Cristo e do divino Criador do universo». Ele é claro: «A intervenção no mundo para manter a ordem divina é direito e dever, que pertencem intrinsecamente à responsabilidade do cristão» [grifos nossos].*

* Radiomensagem de Natal de 1957.

Ou seja, o horizonte dos leigos não pode limitar-se a sua própria vida espiritual.* O sentido da vida terrena não se restringe a fazer deste mundo ‘um alojamento, no qual poderiam viver a Igreja e os filhos dela’, com um mínimo de ordem, de fartura e de boas condições de existência. Em outras palavras, a sociedade temporal não é ‘o hotel da Igreja’.[11]

* Ver ensinamento de Pio XII nos Textos ilustrativos deste capítulo.

À primeira vista, para muitos poderia parecer que assim devesse ser, dado o caráter divino da Igreja e sua importância transcendental. Seria até uma honra para a sociedade temporal exercer esse papel. Mas existe uma boa dose de simplismo nessa formulação.

Nas grandes águas da contemplação espiritual, os tratados — de santos e de grandes autores — são muito numerosos. O mesmo não sucede, porém, no campo da vida terrena que, entretanto, se reveste de fundamental importância.

Embora devamos ser grandes admiradores dos santos que restringiram sua ação à esfera religiosa, é natural que a atividade dos leigos tenha em vista especialmente o mundo temporal.

Além do aspecto diretamente religioso da vida de piedade católica, nosso espírito deve subir às mais altas elucubrações, sem nunca perder o senso da realidade na qual atuamos. Isso não significa deixar-se levar por sonhos ou devaneios inúteis e estéreis, e sim um empenho em aprofundar-se continuamente nas coisas de Deus.

Portanto, para haver vida cristã na sociedade — ou seja, para que haja cultura cristã, arte cristã, família cristã, ambientes cristãos, tradições cristãs — a participação dos leigos católicos na esfera temporal é de suma conveniência. «A intervenção no mundo» como dizia Pio XII no texto citado — é extremamente importante para a formação ou deformação dos fiéis. E a ela cumpre dedicar uma atenção proporcionada à sua importância.

 

10. A investida laicista se opõe à sacralização

Há uma palavra-chave para compreender, por contraste, tanto o que significa sacral quanto o que se quer referir precisamente quando se fala em contemplação. Essa palavra é laicismo.*

* A palavra laicismo se presta a interpretações diversas. Uma corresponde à distinção entre esfera espiritual e esfera temporal, segundo o princípio enunciado por Nosso Senhor Jesus Cristo: «Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mt 22, 21; Mc 12, 17; Lc 20, 25). Os últimos papas a têm designado como sã laicidade. Outra idéia é a do agnosticismo de Estado, que quer construir um mundo como se Deus não existisse. Tal concepção foi condenada por todos os papas, a partir de Gregório XVI, no século XIX, quando a questão se pôs de forma mais aguda.

Será útil, ainda que en passant, deitar um rápido olhar sobre a investida laicista que infecciona os nossos dias, e que é o contrário do que almejamos. Freqüentemente é mais fácil compreender um conceito comparando-o com seu oposto.

Um Estado agnóstico não reconhece nenhuma religião e, portanto, é indiferente em matéria religiosa. Isso implica numa posição relativista diante da verdade e do erro, do bem e do mal, do belo e do feio. Ora, um Estado sem um ideal de verdade e de beleza é o mesmo que um guia ou um viandante que caminha sem rumo, ou um artista que pinta ou esculpe sem a intenção de representar qualquer figura’.[12]

Tal Estado sem rumo é precisamente o que o laicismo vai impondo em todo o mundo.

Infelizmente, muitos já se acostumaram com ele, pois nasceram dentro dele. Contra ele, porém, se ergue o nosso protesto, que é um ‘brado de reparação’ pela injúria feita a Deus, ‘uma proclamação de inconformidade, e mais do que isso, um prenúncio de vitória’, da vitória final de Nosso Senhor Jesus Cristo.[13]

 

11. Os ídolos pagãos do laicismo moderno

O laicismo está cada vez mais generalizado e invasivo. Toma contas ‘das mentalidades, da cultura, da arte, das relações sociais, em uma palavra, da vida’. Ora, ‘nesta matéria, laicização significa propriamente paganização’.[14]

Deseja-se tolher a liberdade de consciência, a defesa da família e o direito de educar os filhos de acordo com a moral cristã. Exclui-se a moral cristã do panorama de uma nação, na tentativa de cancelar a distinção entre bem e mal.

‘À medida que se vai empurrando para a penumbra o Homem-Deus, o lugar deixado vazio por Ele vai sendo preenchido por «valores» muito concretos e palpáveis, mas que, por vezes, são glorificados como se fossem faustosas abstrações: a Economia, a Saúde, o Sexo, a Máquina, e tantos outros’.

‘Ao contrário do que acontecia no mundo clássico, esses «valores» não são personificados em deuses, nem concretizados em estátuas. O que não impede que sejam os verdadeiros ídolos pagãos de nosso infeliz mundo laicizado’.[15]

Nada falta, pois, para poder se falar em volta ao paganismo, pois até os ídolos aí estão!

A condenação da Igreja ao laicismo deve nos empolgar, por dois motivos: em primeiro lugar, por favorecer a luta contra as forças anticristãs. Em segundo lugar, porque confirma a tese de que também o campo temporal deve refletir a grandeza de Deus Altíssimo.

 

12. O relativismo laicista apaga a oposição entre bem e mal

«Como se escureceu o ouro? (Como) se mudou sua bela cor?».* A situação de relativismo na qual o mundo de hoje está mergulhado já era discernível há muito tempo e chocava as almas retas.

* Lamentações de Jeremias 4, 1.

Estas têm muito vivo o senso do contraste entre o bem e o mal. Hoje, querer integrar o bem e o mal em uma espécie de pirão, como pretende o laicismo, é visto como manifestação de sabedoria; é como se se fizesse ‘um pirão no qual entrasse coco moído, nozes moídas, amendoim moído, amêndoa moída, castanha de caju moída e que de tudo isso resultasse um pirão tão homogêneo que passasse a ser uma só substância’, abolindo todas as diferenças de bem e de mal, de verdade e de erro, de características pessoais e nacionais’.[16]

Esta é uma imagem que descreve bem o relativismo laicista!

Procurar manter a distinção entre o bem e o mal é que ficou censurável. Existe até uma espécie de vitupério preparado para aquele que chama o bem, bem; e o mal, mal, e os vê em luta um contra o outro: «Você é maniqueísta», dizem. Supremo horror! Com isso se visa congelar instantaneamente os infratores. O qualificativo maniqueísta vem dotado de certa eletricidade, que parece fulminar a pessoa assim rotulada.*

* O maniqueísmo sustenta que o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: o bem absoluto, o «deus bom»; e o mal absoluto, o «deus mau».

Ora, diferenciar o bem do mal sempre foi considerado uma necessidade, desde o fundo da noite dos tempos. Muitíssimo antes, portanto, de Mani, que deu origem ao maniqueísmo no século III. É preceito da Lei Natural, foi consignado por Deus no Decálogo, percorreu todo o Antigo Testamento, foi objeto da divina pregação de Nosso Senhor Jesus Cristo e faz parte do patrimônio doutrinário e moral da Santa Igreja.

Negar a oposição entre o bem e o mal é, num certo sentido, o auge da imoralidade, pois constitui a essência do relativismo moral, este, sim, um verdadeiro perigo. Nele há uma falta de definição, de brio, de rumo.

A Sagrada Escritura fala a todo momento dessa oposição: «Contra o mal está o bem, e contra a morte a vida; assim também contra o homem justo está o pecador. Considera assim todas as obras do Altíssimo. Serão encontradas duas a duas, e uma oposta à outra».*

* Eclesiástico 33, 15.

 

13. Duas trilogias que se opõem

Porém, não basta ter vivo o senso do contraste entre o bem e o mal. Pois o mal é parente próximo da feiura e do erro. São conceitos afins; por assim dizer irmãos siameses.

Na realidade, são duas trilogias que se opõem, pois, no extremo oposto, o bom também forma um conjunto com o verdadeiro e o belo. Temos, assim duas trilogias:

— de um lado: verdadeirobombelo;

— no outro extremo: erradomaufeio.

No Cristianismo:

coração e razão se encontram, beleza e verdade se tocam

No encontro com o Clero, na Catedral de Bressanone, no dia 6 de agosto de 2008, S.S. Bento XVI responde à seguinte pergunta de um frade franciscano:

— No seu Discurso de Regensburg, o senhor sublinhou o vínculo substancial entre o Espírito divino e a razão humana. De outro lado, o senhor sempre ressaltou também a importância da arte e da beleza, da estética. Então, junto com o diálogo conceitual sobre Deus (na teologia), não deveria ser sempre de novo recalcada a experiência estética da fé no âmbito da Igreja, para o anúncio [da verdade] e a liturgia?

Resposta — Sim, penso que estas duas coisas caminham juntas: a razão, a precisão, a honestidade da reflexão sobre a verdade e a beleza. Uma razão que de alguma forma quisesse despojar-se da beleza, ficaria reduzida à metade, seria uma razão tornada cega. Só as duas coisas unidas formam o conjunto, e precisamente para a fé esta união é importante. […]

Os argumentos oferecidos pela razão são absolutamente importantes e irrenunciáveis, mas depois, em alguma parte permanece sempre a dissensão. Contudo, se consideramos os Santos, essa grande esteira luminosa com que Deus atravessou a história, vemos que ali verdadeiramente há uma força do bem que resiste aos milênios, ali existe verdadeiramente a luz da luz.

Do mesmo modo, se contemplamos as belezas criadas pela fé, são simplesmente — diria — a prova viva da fé. Se olho esta bela catedral: é um anúncio vivo [da fé]! Ela mesma [a catedral] nos fala, e partindo da beleza da catedral conseguimos anunciar visivelmente a Deus, Cristo e todos os seus mistérios: aqui eles tomaram forma e nos olham. Todas as grandes obras de arte, as catedrais — as catedrais góticas e as esplêndidas igrejas barrocas — todas são um sinal luminoso de Deus e, portanto, verdadeiramente, uma manifestação, uma epifania de Deus.

No Cristianismo, trata-se precisamente desta epifania: que Deus se tornou uma Epifania coberta apenas com um véu: aparece e resplandece. Acabamos de ouvir o órgão em todo o seu esplendor e penso que a grande música nascida na Igreja seja um tornar audível e perceptível a verdade da nossa fé: do gregoriano à música das catedrais, até Palestrina e sua época, até Bach e, portanto, Mozart, Bruckner, e assim por diante... Ouvindo todas estas obras — as Paixões de Bach, a sua Missa em Si bemol e as grandes composições espirituais da polifonia do século XVI, da escola vienense, de toda a música, inclusive a dos compositores menores — de repente sentimos: é verdade! Onde nascem coisas deste tipo aí está a Verdade. […]

A arte cristã é uma arte racional (pensemos na arte gótica, ou na grande música ou também, precisamente, na nossa arte barroca), mas é expressão artística de uma razão muito ampliada, na qual coração e razão se encontram. Este é o ponto. Isto, penso, é de algum modo a prova da verdade do Cristianismo: coração e razão se encontram, beleza e verdade se tocam. E quanto mais nós mesmos conseguimos viver na beleza da verdade, tanto mais a fé poderá voltar a ser criativa, também em nosso tempo, e a exprimir-se numa forma artística convincente.

S.S. Bento XVI

O verdadeiro, o bom e o belo — em latim verum, bonum, pulchrum — constituem uma tríade de conceitos de primeira importância e de máxima utilidade para compreender o que é a sacralidade. Até certo ponto são reversíveis um no outro, pois ao que é bom convém ser verdadeiro, ao que é verdadeiro convém ser belo, como também ao que é belo convém ser bom e verdadeiro.

Assim, por exemplo, o edifício de uma igreja, onde por princípio se pratica o bem e se ensina o verdadeiro, deveria se distinguir sempre por sua beleza. E a um tribunal, onde se distribui a Justiça, convém altamente que possua aquela forma de beleza que é a dignidade.

No extremo oposto, a representação do demônio como ser horrível e repelente casa muito bem com sua maldade e sua falsidade. Ele é mau, errado; logo, feio.

Um ambiente vil, cinzento, sem beleza favorece o ateísmo, pois existe uma como que solidariedade entre o feio e o errado. A feiura é, até, uma maneira de insinuar que Deus não existe.

Exemplo notório dessa afirmação é toda forma de arte oriunda do comunismo; é uma negação de toda beleza, de todo bom gosto e de toda sacralidade.

Hoje em dia se empanou o senso do bem e do mal, e também se ofuscou o senso da oposição entre o belo e o feio, entre o verdadeiro e o errado. Formou-se um «pirão». E esse pirão favorece o laicismo, que ‘procura enxotar o belo da vida e trancá-lo nos ambientes especializados’.[17]

‘Um dos pecados capitais do século XX é negar todo o fenômeno da beleza ou interpretá-lo de modo errado’.

‘Daí decorre que as culturas laicas são fundamentalmente cafajestes. Porque elas tendem só para o prático’.[18]

Os desígnios de Deus em relação ao homem eram, entretanto, bem outros:

‘Quis Deus prover o bem do homem de abundantíssimos meios para que ele tivesse sempre presentes as infinitas perfeições d’Ele’.[19]

Na Baía de Guanabara, ou nas montanhas do Tirol, ou diante da arquitetura de uma bela cidade, é mais fácil ao homem discernir as ‘infinitas perfeições de Deus’. É o contributo da beleza, ainda que em grau diminuto, ao ‘senso cristão da vida’.*

* Ver ensinamento de S.S. Bento XVI no Excerto da página ao lado.

Pelo contrário, num trânsito urbano infernal, em meio a uma poluição assustadora, é difícil ‘ter sempre presentes as infinitas perfeições de Deus’.[20]

 

14. Laicismo e sacralização: duas metas opostas

O laicismo possui duas gamas. Uma, quando tira de várias camadas da vida todos os aspectos de belo, que em última análise são semelhantes a Deus. Outra, quando, no próprio belo, não vê a Deus’.[21] Olha para uma bela catedral, mas ali vê apenas um prédio, uma construção. Quem não foi infectado pelo laicismo olha para a mesma catedral, mas sua atitude é outra: ele admira, ele contempla.

Há, pois, duas concepções que se opõem pelo vértice:

1. ‘As pessoas que foram conquistadas pelo laicismo querem que todas as coisas sejam concebidas desligadas da religião, possuindo uma realidade própria que nada tem a ver com Deus. A religião, ou não existe, ou fica confinada em um dos mil compartimentos do pensamento humano’.

2. Outras pessoas são muito sensíveis à idéia de que todas as coisas, ‘mesmo as mais afastadas do ambiente eclesiástico, devem ter uma nota sacral, ou seja, no fundo uma nota religiosa’,[22] uma vez que Deus foi o criador de todas elas. Estas pessoas estão abertas para o ideal da sacralização do mundo.

Em suma, para o laicismo é preciso afastar Deus e a Igreja, o mais possível, da vida terrena. Mas para todo bom católico, é necessário que Deus e a Igreja estejam o mais possível presentes na existência de todos os dias.

Como a ‘laicização significa propriamente paganização’,[23] devemos tender, de toda alma, à segunda concepção, ou seja, aos valores do espírito. E assim nos opormos ao laicismo e nos identificarmos com o ideal da sacralização do mundo.

 

Fontes de referência: