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1. Campanha contra os santos e missionários que catequizaram o Brasil
Eu vinha notando, em livros didáticos brasileiros,
uma tendência a "reescrever" a História do Brasil, reinterpretando-a no
sentido de criticar a obra colonizadora portuguesa, bem como a influência
civilizadora dos Missionários [196].
Tais ideologias vinham se manifestando há anos, por
exemplo, nas poesias e escritos de Dom Pedro Casaldáliga, nos quais ele
renegava a obra evangelizadora de santos e missionários. Não lhe escapava
nem o Bem-aventurado José de Anchieta, o Apóstolo do Brasil [197].
Pior do que isso: certos teólogos da libertação
chegaram a sustentar não só que foi um mal substituir as religiões
indígenas pela católica, mas que os missionários deveriam ter-se deixado
"catequizar" pelo paganismo ameríndio, o qual teria uma visão mais
autêntica de certos aspectos da divindade e das relações do homem com o
cosmos... Vão nesse sentido, as declarações do antigo frade franciscano
Leonardo Boff, feitas para quem quiser ler (cfr. Jornal do Brasil,
Caderno Idéias e Ensaios, 6/10/91).
Alegações de tal gênero, as quais até há pouco teriam
parecido um delírio, iam tomando tal vulto na Europa que, na cidade de
Puerto Real — o porto dos Reis Católicos, perto de Cádiz (Espanha) —, a
prefeitura decidiu construir um monumento (esculpido pelo amigo de Fidel
Castro, o artista equatoriano Guayasamín) de desagravo às "vítimas" do
Descobrimento, e de desdouro a Isabel a Católica, a grande rainha que
apoiou a expedição de Cristóvão Colombo. Monumento este que não foi
executado devido a uma sadia reação da opinião pública espanhola,
decorrente, em larga medida, da vigorosa campanha de repúdio promovida por
"TFP-Covadonga".
2. Visão romântica da sociedade “comunista” dos índios primitivos
Tendo as coisas chegado a esse ponto, já em 1977,
quando tal movimento estava no início, denunciei as mencionadas ideologias
no livro
Tribalismo indígena
― ideal comuno-missionário para o Brasil no
século XXI.

Nessa obra, solidamente documentada, havia uma
previsão do que, precisamente, está acontecendo hoje [198].
Ensina a Igreja que a via normal para o homem se
salvar consiste em ser batizado, crer e professar a doutrina e a lei de
Jesus Cristo. Trazer os homens para a Igreja é, pois, abrir-lhes as portas
do Céu. É salvá-los. É este o fim da Missão.
Ser missionário, no Brasil, é principalmente levar o
Evangelho aos índios. É levar-lhes também os meios sobrenaturais para que,
pela prática dos dez Mandamentos da Lei de Deus, alcancem seu fim celeste.
É persuadi-los de que se libertem das superstições e dos costumes
bárbaros que os escravizam em sua milenar e infeliz estagnação.
Em conseqüência, é civilizá-los.
O que pensavam os missionários “atualizados”?
— Catequizar? Semear o Evangelho? Para quê? —
perguntava-se a si mesma a missiologia aggiornata. O Evangelho é
o antiegoísmo. E já impregnava tão completamente a esfera tribal, que não
era necessário anunciá-lo às coletividades indígenas.
O índio, em suma, seria muito mais um modelo para
nós, do que o somos nós para ele.
Razão? — As analogias entre a vida em tribo e a vida
da sonhada sociedade comunista: a comunidade de bens da tribo, a ausência
completa de lucro, de capital, de salários, de patrões, de empregados e de
instituições de qualquer espécie. Só a tribo, a absorver todas as
liberdades individuais desse pequeno grupo humano não fruitivo, por isso
mesmo fracamente produtivo, nem um pouco competitivo, e no qual os homens
vivem satisfeitos e sem problemas, porque se despojaram de seu “eu”, de
seu “egoísmo”.
A comunidade sexual seria um corolário da comunidade
de bens [199].
Não cabia entretanto a menor dúvida. Era bem uma
sociedade de tipo comunista que transparecia nessa visão idílica do índio
selvático, apresentada pela neomissiologia como ideal para o homem do
século XXI [200].
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Missiologia tradicional: recreio
dos índios no colégio em
Iauaretê
(Amazonas); cartão-postal que retrata crianças tukanas no
recreio do internato de Missão Salesiana, anos 30. |
3. Inspirados no estruturalismo de Lévi- Strauss
Nossos índios podiam ser qualificados de comunistas?
A pergunta só podia despertar o sorriso.
Do comunista, o índio nada tem. Nem a doutrina, nem a
mentalidade, nem os desígnios.
O estado em que ele se encontra apresenta apenas
traços de analogia com o regime comunista. Por um desses jogos de
coincidências que aparecem, freqüentes quando se faz a comparação entre os
estágios primitivos e os de decadência. Entre a infância e a velhice, por
exemplo.
Não é porque seja doutrinariamente contrário à
propriedade privada que o primitivo tem (ou quase só tem) a propriedade
comum.
Pela mesma razão por que o homem da era da pedra
lascada, se não usava a pedra polida, não era de modo algum porque
pensasse que não a devia usar. Mas simplesmente porque não a tinha
inventado.
Nessa perspectiva, o índio não podia ser equiparado
ao “civilizado”, que conhece a propriedade privada, a família monogâmica e
indissolúvel, e tudo quanto dessas fecundas instituições nasceu e
floresceu, mas tem aversão a esses troncos e a seus frutos. Este
“civilizado” lhes quer pôr o machado na raiz.
Em suma, uma nação indígena podia ser comparada a uma
planta que não cresceu, mas ainda poderia crescer. O adversário da família
e da propriedade, nostálgico do comunitarismo ou do comunismo tribal, era
um demolidor...
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Na Selva: Lévi-Strauss em uma de suas
expedições à Amazônia, em 1936 |
Na realidade, porém, uma questão muito maior emergia
por detrás do que se poderia chamar a questão neomissionária.
O pensamento que os missionários brasileiros (e os
estrangeiros que aqui atuavam) tinham pronunciadas afinidades, pelo menos
em suas linhas gerais, com uma corrente de pensamento de profundas
repercussões no campo sócio-econômico, como é o estruturalismo [201]
— com o celebérrimo Lévi-Strauss à frente [202].
Para Lévi-Strauss, a sociedade indígena, por ter “resistido
à História” e haver fixado a forma de viver do período pré-neolítico,
era a que mais se aproximava do ideal humano. E era para esse tipo de
sociedade que devíamos retornar.
4. Como foi possível introduzir-se essa filosofia na Igreja?
Muitos missionários, vários deles ainda jovens,
penetravam nas selvas do Brasil imbuídos, em grau maior ou menor, de
progressismo e esquerdismo difusos.
Não espantava, pois, que — sob a influência de tais
tendências e opiniões — esses missionários tivessem formado uma noção
absolutamente surpreendente acerca das condições de vida dos indígenas,
marcada entre outros traços pela crueldade, pelo mais elementar
primitivismo, pela mais melancólica estagnação: o índio lhes parecia um
sábio, sua organização tribal uma obra-prima de sabedoria antropológica,
em suma, o modelo a ser seguido pelos civilizados de nosso mundo.
O maior problema suscitado por esses delírios não
estava nos próprios missionários, nem nos índios.
Estava em saber como, na Santa Igreja Católica, pôde
esgueirar-se impunemente essa filosofia, intoxicando seminários,
deformando missionários, desnaturando missões. E tudo com tão forte apoio
eclesiástico de retaguarda.
Bastaria que tal câncer se manifestasse no setor
missionário da Igreja para justificar ou até impor outra pergunta: não
seria esse câncer mera metástase de outro tumor localizado em pontos mais
decisivos, dentro dos organismos não missionários da Santa Igreja? [203]
Estas eram perguntas que ficavam no ar, sem
resposta*.
* Este livro sobre
o tribalismo foi um sucesso de venda. Publicado em primeira mão em Catolicismo n° 323/324, de novembro-dezembro de 1977, dele foram
tiradas 9 edições, o que dá um total de 82 mil exemplares. Em janeiro de
1978, sócios e cooperadores da TFP saíram em caravanas de propaganda do
livro, tendo percorrido, para essa divulgação, 2.963 cidades em todos os
quadrantes do Brasil.
Nas duas últimas
edições, de 2008, comemorativas do 30° aniversário de seu lançamento, foi
acrescentada uma segunda parte, na qual os jornalistas Nelson Ramos
Barretto e Paulo Henrique Chaves contam o que viram em Roraima, na reserva
Raposa-Serra do Sol e o que pesquisaram em Mato Grosso e em Santa
Catarina. Transcrevem eles importantes entrevistas com várias
personalidades e confirmam em tudo as teses do Professor Plinio Corrêa de
Oliveira [Este
livro pode ser encontrado aqui].
Tribalismo Indígena — Ideal Comuno-Missionário para o Brasil no
Século XXI foi
ainda proclamado como "profético" pelo Ministro do Supremo Tribunal
Federal Marco Aurélio de Mello, em sua declaração de voto durante o
julgamento da polêmica demarcação das terras indígenas da reserva
Raposa-Serra do Sol em Roraima. Afirmou ele:
“Também vale
registrar que, em 1987, o professor Plinio Corrêa de Oliveira, autor de
‘Tribalismo Indígena — Ideal Comuno-Missionário para o Brasil no Século
XXI’, diante dos trabalhos de elaboração da Carta de 1988, advertiu: ‘O
Projeto de Constituição, a adotar-se em uma concepção tão hipertrofiada
dos direitos dos índios, abre caminho a que se venha a reconhecer aos
vários agrupamentos indígenas uma como que soberania diminutae rationis.
Uma autodeterminação, segundo a expressão consagrada (Projeto de
Constituição angustia o País, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1987,
p. 182; e p. 119 da obra citada). “Proféticas palavras tendo em conta,
até mesmo, o fato de o Brasil, em setembro de 2007, haver concorrido, no
âmbito da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, para a
aprovação da Declaração Universal dos Direitos dos Indígenas” (cfr.
Catolicismo n° 700, abril de 2009).
NOTAS
Índice da "Parte X"
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