Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Minha

 

Vida Pública

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Parte X

Livros e Campanhas de grande repercussão na década de 1970

 

Capítulo XIII

“Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI” (1977)

1. Campanha contra os santos e missionários que catequizaram o Brasil

Eu vinha notando, em livros didáticos brasileiros, uma tendência a "reescrever" a História do Brasil, reinterpretando-a no sentido de criticar a obra colonizadora portuguesa, bem como a influência civilizadora dos Missionários [196].

Tais ideologias vinham se manifestando há anos, por exemplo, nas poesias e escritos de Dom Pedro Casaldáliga, nos quais ele renegava a obra evangelizadora de santos e missionários. Não lhe escapava nem o Bem-aventurado José de Anchieta, o Apóstolo do Brasil [197].

Pior do que isso: certos teólogos da libertação chegaram a sustentar não só que foi um mal substituir as religiões indígenas pela católica, mas que os missionários deveriam ter-se deixado "catequizar" pelo paganismo ameríndio, o qual teria uma visão mais autêntica de certos aspectos da divindade e das relações do homem com o cosmos... Vão nesse sentido, as declarações do antigo frade franciscano Leonardo Boff, feitas para quem quiser ler (cfr. Jornal do Brasil, Caderno Idéias e Ensaios, 6/10/91).

Alegações de tal gênero, as quais até há pouco teriam parecido um delírio, iam tomando tal vulto na Europa que, na cidade de Puerto Real — o porto dos Reis Católicos, perto de Cádiz (Espanha) —, a prefeitura decidiu construir um monumento (esculpido pelo amigo de Fidel Castro, o artista equatoriano Guayasamín) de desagravo às "vítimas" do Descobrimento, e de desdouro a Isabel a Católica, a grande rainha que apoiou a expedição de Cristóvão Colombo. Monumento este que não foi executado devido a uma sadia reação da opinião pública espanhola, decorrente, em larga medida, da vigorosa campanha de repúdio promovida por "TFP-Covadonga".

2. Visão romântica da sociedade “comunista” dos índios primitivos

Tendo as coisas chegado a esse ponto, já em 1977, quando tal movimento estava no início, denunciei as mencionadas ideologias no livro Tribalismo indígena ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI.

Nessa obra, solidamente documentada, havia uma previsão do que, precisamente, está acontecendo hoje [198].

Ensina a Igreja que a via normal para o homem se salvar consiste em ser batizado, crer e professar a doutrina e a lei de Jesus Cristo. Trazer os homens para a Igreja é, pois, abrir-lhes as portas do Céu. É salvá-los. É este o fim da Missão.

Ser missionário, no Brasil, é principalmente levar o Evangelho aos índios. É levar-lhes também os meios sobrenaturais para que, pela prática dos dez Mandamentos da Lei de Deus, alcancem seu fim celeste. É persuadi-los de que se libertem das superstições e dos costumes bárbaros que os escravizam em sua milenar e infeliz estagnação. Em conseqüência, é civilizá-los.

O que pensavam os missionários “atualizados”?

— Catequizar? Semear o Evangelho? Para quê? — perguntava-se a si mesma a missiologia aggiornata. O Evangelho é o antiegoísmo. E já impregnava tão completamente a esfera tribal, que não era necessário anunciá-lo às coletividades indígenas.

O índio, em suma, seria muito mais um modelo para nós, do que o somos nós para ele.

Razão? — As analogias entre a vida em tribo e a vida da sonhada sociedade comunista: a comunidade de bens da tribo, a ausência completa de lucro, de capital, de salários, de patrões, de empregados e de instituições de qualquer espécie. Só a tribo, a absorver todas as liberdades individuais desse pequeno grupo humano não fruitivo, por isso mesmo fracamente produtivo, nem um pouco competitivo, e no qual os homens vivem satisfeitos e sem problemas, porque se despojaram de seu “eu”, de seu “egoísmo”.

A comunidade sexual seria um corolário da comunidade de bens [199].

Não cabia entretanto a menor dúvida. Era bem uma sociedade de tipo comunista que transparecia nessa visão idílica do índio selvático, apresentada pela neomissiologia como ideal para o homem do século XXI [200].

Missiologia tradicional: recreio dos índios no colégio em Iauaretê (Amazonas); cartão-postal que retrata crianças tukanas no recreio do internato de Missão Salesiana, anos 30.

3. Inspirados no estruturalismo de Lévi- Strauss

Nossos índios podiam ser qualificados de comunistas? A pergunta só podia despertar o sorriso.

Do comunista, o índio nada tem. Nem a doutrina, nem a mentalidade, nem os desígnios.

O estado em que ele se encontra apresenta apenas traços de analogia com o regime comunista. Por um desses jogos de coincidências que aparecem, freqüentes quando se faz a comparação entre os estágios primitivos e os de decadência. Entre a infância e a velhice, por exemplo.

Não é porque seja doutrinariamente contrário à propriedade privada que o primitivo tem (ou quase só tem) a propriedade comum.

Pela mesma razão por que o homem da era da pedra lascada, se não usava a pedra polida, não era de modo algum porque pensasse que não a devia usar. Mas simplesmente porque não a tinha inventado.

Nessa perspectiva, o índio não podia ser equiparado ao “civilizado”, que conhece a propriedade privada, a família monogâmica e indissolúvel, e tudo quanto dessas fecundas instituições nasceu e floresceu, mas tem aversão a esses troncos e a seus frutos. Este “civilizado” lhes quer pôr o machado na raiz.

Em suma, uma nação indígena podia ser comparada a uma planta que não cresceu, mas ainda poderia crescer. O adversário da família e da propriedade, nostálgico do comunitarismo ou do comunismo tribal, era um demolidor...

*   *   *

Na Selva: Lévi-Strauss em uma de suas expedições à Amazônia, em 1936

Na realidade, porém, uma questão muito maior emergia por detrás do que se poderia chamar a questão neomissionária.

O pensamento que os missionários brasileiros (e os estrangeiros que aqui atuavam) tinham pronunciadas afinidades, pelo menos em suas linhas gerais, com uma corrente de pensamento de profundas repercussões no campo sócio-econômico, como é o estruturalismo [201] — com o celebérrimo Lévi-Strauss à frente [202].

Para Lévi-Strauss, a sociedade indígena, por ter “resistido à História” e haver fixado a forma de viver do período pré-neolítico, era a que mais se aproximava do ideal humano. E era para esse tipo de sociedade que devíamos retornar.

4. Como foi possível introduzir-se essa filosofia na Igreja?

Muitos missionários, vários deles ainda jovens, penetravam nas selvas do Brasil imbuídos, em grau maior ou menor, de progressismo e esquerdismo difusos.

Não espantava, pois, que — sob a influência de tais tendências e opiniões — esses missionários tivessem formado uma noção absolutamente surpreendente acerca das condições de vida dos indígenas, marcada entre outros traços pela crueldade, pelo mais elementar primitivismo, pela mais melancólica estagnação: o índio lhes parecia um sábio, sua organização tribal uma obra-prima de sabedoria antropológica, em suma, o modelo a ser seguido pelos civilizados de nosso mundo.

O maior problema suscitado por esses delírios não estava nos próprios missionários, nem nos índios.

Estava em saber como, na Santa Igreja Católica, pôde esgueirar-se impunemente essa filosofia, intoxicando seminários, deformando missionários, desnaturando missões. E tudo com tão forte apoio eclesiástico de retaguarda.

Bastaria que tal câncer se manifestasse no setor missionário da Igreja para justificar ou até impor outra pergunta: não seria esse câncer mera metástase de outro tumor localizado em pontos mais decisivos, dentro dos organismos não missionários da Santa Igreja? [203]

Estas eram perguntas que ficavam no ar, sem resposta*.

* Este livro sobre o tribalismo foi um sucesso de venda. Publicado em primeira mão em Catolicismo n° 323/324, de novembro-dezembro de 1977, dele foram tiradas 9 edições, o que dá um total de 82 mil exemplares. Em janeiro de 1978, sócios e cooperadores da TFP saíram em caravanas de propaganda do livro, tendo percorrido, para essa divulgação, 2.963 cidades em todos os quadrantes do Brasil.

Nas duas últimas edições, de 2008, comemorativas do 30° aniversário de seu lançamento, foi acrescentada uma segunda parte, na qual os jornalistas Nelson Ramos Barretto e Paulo Henrique Chaves contam o que viram em Roraima, na reserva Raposa-Serra do Sol e o que pesquisaram em Mato Grosso e em Santa Catarina. Transcrevem eles importantes entrevistas com várias personalidades e confirmam em tudo as teses do Professor Plinio Corrêa de Oliveira [Este livro pode ser encontrado aqui].

Tribalismo Indígena — Ideal Comuno-Missionário para o Brasil no Século XXI foi ainda proclamado como "profético" pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio de Mello, em sua declaração de voto durante o julgamento da polêmica demarcação das terras indígenas da reserva Raposa-Serra do Sol em Roraima. Afirmou ele:

“Também vale registrar que, em 1987, o professor Plinio Corrêa de Oliveira, autor de ‘Tribalismo Indígena — Ideal Comuno-Missionário para o Brasil no Século XXI’, diante dos trabalhos de elaboração da Carta de 1988, advertiu: ‘O Projeto de Constituição, a adotar-se em uma concepção tão hipertrofiada dos direitos dos índios, abre caminho a que se venha a reconhecer aos vários agrupamentos indígenas uma como que soberania diminutae rationis. Uma autodeterminação, segundo a expressão consagrada (Projeto de Constituição angustia o País, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1987, p. 182; e p. 119 da obra citada). “Proféticas palavras tendo em conta, até mesmo, o fato de o Brasil, em setembro de 2007, haver concorrido, no âmbito da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, para a aprovação da Declaração Universal dos Direitos dos Indígenas” (cfr. Catolicismo n° 700, abril de 2009).

 


NOTAS

[197] — O Bem-aventurado José de Anchieta foi canonizado em 2014.

[198] América: esperança do século XXI, boletim da Agência Boa Imprensa, 1ª quinzena de outubro de 1992.

[202] América: esperança do século XXI, Folha de S. Paulo, 3/2/74.

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