Auto-retrato Filosófico de Plinio Corrêa de Oliveira (dezembro de 1994)

Plinio Corrêa de Oliveira

Auto-Retrato Filosófico de Plinio Corrêa de Oliveira

 

Transcrição do texto publicado pela revista "Catolicismo"   Nº 550 de Outubro de 1996

 

 

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Índice

 

§         Excertos da nota introdutória extraída da revista

§         Auto-retrato filosófico

§         As grandes transformações históricas resultam da atitude do espírito humano perante a Religião e a Filosofia

§         Civilização cristã: em inteira consonância com os princípios básicos e perenes da lei natural e da Lei de Deus

§         As nações só podem alcançar a civilização perfeita mediante a correspondência à graça e à Fé

§         “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados...”

§         As crises nascem, não da mente de algum pensador, mas das paixões desordenadas, atiçadas pelo Poder das Trevas

§         Orgulho e sensualidade: importância culminante no processo de revolta contra a Igreja

§         Processos opostos: a Fé convida ao amor à hierarquia; a corrupção, ao igualitarismo anárquico

§         Principais elementos doutrinários de Revolução e Contra-Revolução

§         Algumas definições fundamentais: Ordem, Revolução, Contra-Revolução

§         Revolução A, tendenciosa e sofística; Revolução B, nas leis, estruturas, instituições e costumes

§         Quem for igualitário terá forçosamente objeções contra a Fé

§         Primeira Revolução: Humanismo, Renascença, Protestantismo

§         Segunda Revolução: Enciclopedismo, absolutismo, Revolução Francesa

§         A Revolução Francesa propagou-se por toda a Europa nas mochilas das tropas de Napoleão

§         Os princípios de 1789: tendência para a liberdade e igualdade completas

§         O comunismo utópico proclamou que, desacompanhada da igualdade social e econômica, a igualdade política burguesa seria uma burla

§         Um substrato igualitário e anárquico continua a influenciar a fundo a opinião pública

§         A Contra-Revolução deve apontar os erros metafísicos fundamentais da Revolução

§         No terreno da ação

§         Em defesa da Ação Católica : brado de alarma contra germes de laicismo, liberalismo e igualitarismo nos meios católicos

§         *O mais destacado efeito de * Revolução e Contra-Revolução : TFPs e entidades afins em 26 países, nos cinco continentes

§         Uma transformação interna anunciada pelos próprios teóricos marxistas: a derrocada do Estado e o surgimento da sociedade cooperativista

§         Metamorfose do comunismo rumo à sociedade autogestionária

§         Se o Brasil não conheceu a desgraça da pulverização agrária, deve-o a RA-QC

§         Acordo com o regime comunista: para a Igreja, esperança ou autodemolição? -- Carta de louvor de Congregação da Santa Sé

§         Baldeação ideológica inadvertida e diálogo denuncia manobra para debilitar a resistência ideológica dos católicos

§         A Igreja ante a escalada da ameaça comunista — Apelo aos Bispos silenciosos

§         Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI

§         O católico pode e deve ser contra a Reforma Agrária

§         O socialismo autogestionário em vista do comunismo: barreira ou cabeça de ponte?

§         CEBs: instrumento da esquerda católica para reformar o Brasil num sentido socializante

§         A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista

§         Guerreiros da Virgem: a réplica da autenticidade — A TFP sem segredos

§         25 anos de luta contra o agro-socialismo confiscatório

§         Rumo à socialização integral do País: uma Constituição que a maioria da população não quer

§         Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana

§         Estudos, análises e pronunciamentos públicos

§         O verdadeiro pensador deve ser também um observador da realidade palpável de todos os dias

§         O caráter tradicionalista de uma corrente de pensamento não lhe tira a visão da realidade

§         TFP: os valores essenciais da civilização cristã despertam entusiasmo e dedicação incontáveis

§         No campo das idéias, não existe apenas o antigo e o novo, mas sobretudo o verdadeiro e o perene 


 

Excertos da nota introdutória extraída da revista: Índice

 

Trata-se do “Auto-retrato filosófico” que Plinio Corrêa de Oliveira preparou, numa versão inicial em 1976, a pedido do Pe. Stanislas Ladusäns S.J. Tal documento foi elaborado para ser incluído na Enciclopédia do Pensamento Filosófico Brasileiro, em vários volumes, que esse sacerdote jesuíta pretendia publicar.

Em 1989, o mesmo Pe. Ladusäns solicitou a Plinio Corrêa de Oliveira atualizar seu “auto-retrato filosófico”, pois o primeiro volume da enciclopédia já se encontrava no prelo quando ele recebera a primeira versão.

Absorvido por numerosos outros trabalhos, o Fundador da TFP brasileira não pôde fazer a dita atualização em vida do referido sacerdote, que faleceu em 1993.

Entretanto, estando em preparação, desde 1994, a coletânea de todos os escritos do ilustre pensador católico, em vista da publicação de sua Opera Omnia, os responsáveis pela edição solicitaram ao autor que procedesse à desejada atualização de seu retrato filosófico, o que felizmente ocorreu em fins daquele ano.

 


Auto-retrato filosófico

O sorriso dos céticos jamais conseguiu deter a marcha vitoriosa dos que têm Fé

  

Sou tomista convicto [*]. O aspecto da Filosofia pelo qual mais me interesso é a Filosofia da História. Em função desta encontro o ponto de junção entre os dois gêneros de atividade em que me venho dividindo ao longo de minha vida: o estudo e a ação.

[*] Nota da redação  —  É compreensível que o insigne pensador e líder católico comece seu auto-retrato filosófico declarando-se convicto seguidor de Santo Tomás de Aquino.

Na esteira dos elogios que vários antecessores seus no Sólio pontifício teceram àquele luzeiro da Teologia e Filosofia, São Pio V proclamou-o Doutor da Igreja Universal, afirmando que sua doutrina é “regra certíssima de nossa fé”.

No Concílio de Trento, a Suma Teológica do Doctor Communis  (Doutor Comum) “mereceu a honra singularíssima de ser colocada sobre o altar junto com a Bíblia”.

Leão XIII cognominou-o “Príncipe dos Filósofos” e São Pio X declarou que a doutrina tomista “é íntegra, incorrupta, fonte inesgotável em todo o gênero de ciência”.

 Esta última, eu a tenho exercido num campo muito definido: a difusão doutrinária, feita ora com o caráter de diálogo, ora — por mais que a noção e a palavra pareçam anacrônicas, sinto todo o desembaraço ao fazer o presente depoimento — também de polêmica.

O ensaio em que condenso o essencial de meu pensamento explica o sentido de minha atuação ideológica. Trata-se do livro Revolução e Contra-Revolução .

As grandes transformações históricas resultam da atitude do espírito humano perante a Religião e a Filosofia Índice

Um dos pressupostos desse ensaio é que, ao contrário do que pretendem tantos filósofos e sociólogos, o curso da História não é traçado exclusiva ou preponderantemente pelas injunções da matéria sobre o homem. Estas influem, sem dúvida, no agir humano. Mas a direção da História pertence ao homem, dotado que é de uma alma racional e livre. Em outros termos, é ele que, atuando ora mais profundamente, ora menos, sobre as circunstâncias em que se encontra, e recebendo também, em medida variável, as influências destas, comunica aos acontecimentos o seu curso.

Ora, o agir do homem se faz normalmente em função de suas concepções sobre o universo, sobre si mesmo e sobre a vida. Isto importa em dizer que as doutrinas religiosas e filosóficas dominam a História, e que o núcleo mais dinâmico dos fatores de que resultam as grandes transformações históricas está nas sucessivas atitudes do espírito humano perante a Religião e a Filosofia.

Civilização cristã: em inteira consonância com os princípios básicos e perenes da lei natural e da Lei de Deus Índice

Passo a outro pressuposto de Revolução e Contra-Revolução . Uma concepção católica da História deve levar em toda conta o fato de que a Lei Antiga e a Lei Nova contêm em si não só os preceitos segundo os quais o homem deve modelar sua alma na imitação de Cristo, preparando-se desse modo para a visão beatífica, como também as normas fundamentais do procedimento humano, conformes à ordem natural das coisas.

Assim, ao mesmo tempo que o homem se eleva na vida da graça, vai, pela prática da virtude, elaborando uma cultura, uma ordem política, econômica e social, em inteira consonância com os princípios básicos e perenes da lei natural e da Lei de Deus. É o que se chama a civilização cristã.

É óbvio que a boa disposição das coisas terrenas não se cifra exclusivamente a esses princípios básicos e perenes, e comporta muito de contingente, transitório e livre. A civilização cristã abrange uma incalculável variedade de aspectos e matizes. É isto tão verdadeiro que, de certo ponto de vista, se pode até falar em civilizações cristãs , e não apenas em civilização cristã . Não obstante, dada a identidade dos princípios fundamentais inerentes a todas as civilizações cristãs, a grande realidade que paira por cima de todas elas é uma possante unidade que merece o nome de civilização cristã  por antonomásia. A unidade na variedade, e a variedade na unidade, são elementos de perfeição. A civilização cristã continua una em toda a variedade de suas realizações, de maneira a poder-se dizer que, no sentido mais profundo da palavra, há uma só civilização cristã. Mas ela é tão prodigiosamente vária em sua unidade que, com uma legítima liberdade de expressão, se pode afirmar, sob certo ponto de vista, existirem várias civilizações cristãs.

Dado este esclarecimento — que aliás vale analogamente para o conceito de cultura católica — observo que empregarei as expressões civilização cristã  e cultura cristã  no seu sentido maior , que é o da unidade.

Dispenso-me de fundamentar as asserções acima em textos de Santo Tomás ou do Magistério da Igreja, pois são eles tão numerosos e tão do conhecimento dos que com seriedade estudam esses assuntos, que o trabalho resultaria ao mesmo tempo fastidioso e supérfluo. Esta observação vale também para mais algumas considerações que se seguirão nesta primeira parte da presente exposição.

Em função destes pressupostos é fácil definir o papel da Igreja e da civilização cristã na História.

 As nações só podem alcançar a civilização perfeita mediante a correspondência à graça e à Fé Índice

É certo que, embora o homem possa conhecer com firme certeza e sem eiva de erro aquilo que nas coisas divinas não é de per si inacessível à razão humana [*], dado o pecado original é impossível ao homem praticar duravelmente a Lei de Deus. É só por meio da graça que tal se lhe torna possível. Ainda assim, para acautelar o homem contra sua própria maldade e sua própria fraqueza, Jesus Cristo dotou a Igreja de um Magistério infalível, que lhe ensinasse sem erro, não só as verdades religiosas, como também as verdades morais necessárias à salvação.

[*] Cfr. Denzinger-Schoenmetzer , 33ª ed., n° 3005.

 A adesão do homem ao Magistério da Igreja é fruto da Fé. Sem a Fé não pode o homem praticar durável e integralmente os Mandamentos.

Daí resulta que as nações só podem alcançar a civilização perfeita, que é a civilização cristã, mediante a correspondência à graça e à Fé, o que inclui um firme reconhecimento da Igreja Católica como única verdadeira, e do Magistério eclesiástico como infalível.

Assim, o ponto chave mais profundo e mais central da História consiste em que os homens conheçam, professem e pratiquem a Fé católica.

Dizendo-o, não nego evidentemente que tenha havido civilizações não cristãs de alto teor. Todas elas, entretanto, foram desfiguradas por estes ou aqueles traços que destoaram chocantemente da própria elevação que sob outros aspectos apresentavam. Basta recordar a enorme extensão da escravatura e a condição vil imposta à mulher antes de Jesus Cristo. E nenhuma civilização houve que apresentasse a perfeição excelsa inerente à civilização cristã.

Igualmente não contesto que, em países de população prevalentemente cismática ou herética, a civilização possa conter importantes traços de tradição cristã. Entretanto, a plenitude da civilização cristã, só da Igreja Católica pode florescer e só em povos católicos pode conservar-se cabalmente.

“Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados...” Índice

Mas — perguntará alguém — quando existiu historicamente essa civilização cristã perfeita? Será a perfeição realizável nesta vida?

A resposta a estas perguntas chocará e irritará muitos leitores. Sem embargo, devo afirmar que houve tempo no qual uma larga parte da humanidade conheceu esse ideal de perfeição e para ele tendeu com fervor e sinceridade. Em conseqüência dessa tendência das almas, os traços fundamentais da civilização se tornaram tão cristãos quanto o permitiram as circunstâncias de um mundo que se ia soerguendo da barbárie. Refiro-me à Idade Média, da qual, a despeito desta ou daquela falha, Leão XIII escreveu com eloqüência: “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer” [*].

[*] Encíclica Immortale Dei de 1° de novembro de 1885, Bonne Presse,  Paris, vol. II, p. 39.

Este modo de ver a amplitude da influência da Igreja na Idade Média, nós o encontramos também no seguinte texto de Paulo VI, referente ao papel do Papado na Itália medieval: “Não esquecemos os séculos durante os quais o Papado viveu sua História [da Itália], defendeu suas fronteiras, guardou seu patrimônio cultural e espiritual, educou as suas gerações para a civilização, para a polidez, para a virtude moral e social, e associou sua consciência romana e seus melhores filhos à própria missão universal [do Papado]”[*].

[*] Alocução ao Presidente da República Italiana de 11 de janeiro de 1964, Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. II, p. 69.

Assim, a civilização cristã não é uma utopia. É algo de realizável, e que em determinada época se realizou efetivamente. Algo, enfim, que durou de certo modo mesmo depois da Idade Média, a tal ponto que o Papa São Pio X pôde escrever: “A civilização não mais está para ser inventada, nem a cidade nova para ser construída nas nuvens. Ela existiu, ela existe: é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e restaurá-la sem cessar sobre seus fundamentos naturais e divinos contra os ataques sempre renascentes da utopia malsã, da revolta e da impiedade” [*]. Portanto, a civilização cristã tem largos vestígios ainda vivos em nossos dias.

[*] Carta Apostólica _ Notre Charge Apostolique de 25 de agosto de 1910, Acta Apostolicae Sedis , vol. II, p. 612.

As crises nascem, não da mente de algum pensador,  mas das paixões desordenadas,  atiçadas pelo Poder das Trevas Índice

Há quem imagine todas as crises da cultura e da civilização como nascidas necessariamente de algum pensador, de cuja mente possante partiria sempre a centelha esclarecedora — ou destruidora — que se comunicaria primeiramente aos ambientes de alta cultura e ganharia depois todo o corpo social. É claro que, por vezes, as crises nasceram desse modo. Mas a História não confirma que assim tenham nascido todas elas. E em particular não nasceu assim a crise que pôs em declínio a Idade Média e suscitou o Humanismo, a Renascença e a Pseudo-Reforma protestante.

Pelo próprio fato de pedir ao homem uma austeridade de costumes penosa para a natureza humana decaída, a influência da Igreja sobre cada alma, cada povo, cada cultura e cada civilização está continuamente ameaçada. As paixões desordenadas, atiçadas pela ação preternatural do Poder das Trevas, solicitam continuamente homens e povos para o mal. A debilidade da inteligência humana é explorável por essas tendências. O homem facilmente engendra sofismas para justificar as más ações que deseja praticar ou já praticou, os maus costumes que contraiu ou está contraindo. Disse-o Paul Bourget: “Cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu” [*].

[*] Le Démon du Midi , Plon, Paris, 1914, vol. II, p. 375.

Orgulho e sensualidade: importância culminante no processo de revolta contra a Igreja Índice

Especialmente duas paixões podem suscitar a revolta do homem contra a Moral e contra a Fé cristãs: o orgulho e a sensualidade.

O orgulho leva-o a rejeitar qualquer superioridade existente em outrem, e gera nele um apetite de preeminência e de mando que facilmente chega ao paroxismo. Pois o paroxismo é o ponto final para o qual tendem todas as desordens. Em seu estado paroxístico, o orgulho assume coloridos metafísicos: já não se contenta em sacudir em concreto esta ou aquela superioridade, esta ou aquela estrutura hierárquica, mas deseja a abolição de toda e qualquer superioridade, em qualquer campo em que exista. A igualdade onímoda e completa se lhe afigura então a única situação suportável e, por isso mesmo, a suprema regra da justiça. Assim, o orgulho acaba por engendrar uma moral própria. E no âmago dessa moral orgulhosa está um princípio metafísico: a ordem do ser postula a igualdade, e tudo quanto é desigual é ontologicamente mau.

A igualdade absoluta é, para o que chamaríamos de orgulhoso integral , o valor supremo ao qual tudo tem de se conformar.

A luxúria é outra paixão desordenada, de importância culminante no processo de revolta contra a Igreja. De si, ela induz ao desbragamento, e convida assim o homem a calcar aos pés toda lei, a rejeitar como insuportável todo freio. Seus efeitos se somam aos do orgulho, para suscitar na mente humana toda espécie de sofismas capazes de minar no seu âmago o próprio princípio de autoridade.

Por isso, a tendência que o orgulho e a sensualidade despertam orienta-se para a abolição de toda desigualdade, de toda autoridade e de toda hierarquia.

Processos opostos: a Fé convida ao amor à hierarquia;  a corrupção, ao igualitarismo anárquico Índice

Claro está que essas paixões desordenadas, ainda quando o homem capitula diante delas, podem encontrar em uma alma — ou no espírito de um povo — contrapesos representados por convicções, tradições, etc.

Nesse caso, a alma — ou a mentalidade do povo — fica dividida em dois pólos opostos: de um lado a Fé, que convida à austeridade, à humildade, ao amor de todas as hierarquias legítimas; e de outro lado a corrupção, que convida ao igualitarismo completo, anárquico no sentido etimológico da palavra. Como pouco adiante se verá, a corrupção acaba por induzir à dúvida religiosa e à negação completa da Fé.

O mais das vezes, a opção entre esses pólos não se faz de um momento para o outro, mas aos poucos. Por meio de sucessivos atos de amor à verdade e ao bem, uma pessoa ou uma nação pode ir progredindo gradualmente na virtude, até se converter por completo. Foi o que sucedeu com o Império Romano sob a influência das comunidades cristãs, das preces dos fiéis nas catacumbas e nos ermos, do heroísmo que revelavam na arena e dos exemplos de virtude que davam na vida cotidiana. É um processo de ascensão.

O processo também pode ser de decadência. Ao embate das paixões desordenadas, as boas convicções vão sendo abaladas, as boas tradições vão perdendo sua seiva, os bons costumes vão sendo substituídos por costumes picantes , que degeneram para o francamente censurável, e chegam por fim ao escandaloso.

Principais elementos doutrinários de  Revolução e Contra-Revolução Índice

Tudo isto dito, ficam aqui resumidos os principais elementos doutrinários em que baseei Revolução e Contra-Revolução :

a)  a missão da Igreja como única Mestra, Guia e Fonte de Vida dos povos rumo à civilização perfeita;

b)  a contínua oposição das paixões desordenadas, particularmente do orgulho e da luxúria, à influência da Igreja;

c)  a existência, para o espírito humano, de dois pólos opostos, para um dos quais necessariamente ruma: de um lado a Fé católica, que induz ao amor da ordem, da austeridade e da hierarquia; e de outro lado as paixões desordenadas, que induzem ao desbragamento, à revolta contra a lei, contra a hierarquia, contra qualquer forma de desigualdade, e que levam por fim à dúvida e à inteira negação da Fé;

d) a noção de um processo  -- entendida a expressão sem prejuízo do livre arbítrio — pelo qual gradualmente os indivíduos ou os povos, sofrendo a atração dos dois pólos opostos, se vão aproximando de um deles e distanciando do outro;

e)  a influência desse processo moral sobre a elaboração das doutrinas. As más tendências inclinam ao erro. As boas tendências inclinam à verdade. As grandes modificações no espírito dos povos não são um mero resultado de doutrinas elaboradas por pequenos cenáculos de intelectuais que elucubram serenamente à margem da vida. Para que uma doutrina encontre ressonância num povo, é mister o mais das vezes que as tendências desse povo tenham afinidade com tal doutrina. E não é raro que a própria reflexão feita pelos doutos, nos gabinetes, seja mais influenciada do que se pensa por essas apetências do ambiente no qual eles mesmos vivem.

Algumas definições fundamentais: Ordem, Revolução, Contra-Revolução Índice

Tendo tudo isto em mira, é fácil definir os conceitos de:

1.  Ordem , que não é apenas a disposição metódica e prática das coisas materiais, mas, conforme o conceito tomista, a reta disposição das coisas segundo o seu fim próximo e remoto, físico e metafísico, natural e sobrenatural;

2.  Revolução , que não é essencialmente uma agitação de rua, um tiroteio ou uma guerra civil, mas todo esforço que visa dispor os seres contra a Ordem;

3.  Contra-Revolução , todo esforço que vise circunscrever e eliminar a Revolução.

Revolução A, tendenciosa e sofística; Revolução B, nas leis, estruturas, instituições e costumes Índice

Como se vê, tanto a Ordem como a Revolução e a Contra-Revolução podem existir:

a) nas tendências;

b) nas idéias; e

c) nas leis, nas estruturas, nas instituições, nos costumes.

Assim, chamo de tendenciosa  a Revolução enquanto existente nas tendências. E de sofística  enquanto se desenvolve no terreno das doutrinas, ao sopro das tendências.

Estas duas modalidades de Revolução constituem um fenômeno eminentemente espiritual, isto é, têm como campo de operação a alma humana e a mentalidade das sociedades. Elas formam portanto um todo, que denomino Revolução A .

Quando a Revolução passa do interior das almas para os atos, produzindo convulsões históricas, desordenando as leis, estruturas, instituições, etc., ela constitui o que chamo de Revolução B .

Claro está que estas noções, apresentadas assim com o máximo de brevidade, pedem uma série de ressalvas e de conformes, que exponho em Revolução e Contra-Revolução , e que não caberia aqui explanar.

Limito-me a esclarecer que, delineando nesses traços o que há de mais essencial na História, não pretendo que ela se reduza a isto. A observação mais elementar indica que um sem-número de fatores, entre os quais os étnicos, geográficos e econômicos, condicionam possantemente o curso da História.

Quem for igualitário terá forçosamente objeções contra a Fé Índice

Resta-me dizer uma palavra sobre o nexo existente entre o igualitarismo absoluto e metafísico, e a Fé. Quem for radicalmente igualitário terá forçosamente um sem-número de objeções à doutrina católica. Os conceitos de um Deus pessoal, perfeito e eterno, que paira infinitamente acima de suas criaturas imperfeitas e contingentes; da ordem sobrenatural, que transcende a ordem natural; da Lei promulgada por Deus, à qual cumpre obedecer; da Revelação, que comunica à mente humana verdades superiores à sua capacidade natural de conhecimento; do Magistério infalível da Igreja; das notas monárquica e aristocrática da estrutura desta; tudo, enfim, e até a noção de um Juízo em que os bons vão ser premiados e os maus castigados, irrita o igualitário e o convida à negação.

A contrario sensu , o católico aprende em Santo Tomás ( Summa Theologica , I, q. 47, a. 2) que a desigualdade é uma condição necessária para a perfeição da ordem criada. E, em conseqüência, as desigualdades de poder, ciência, categoria social e fortuna são intrinsecamente legítimas e indispensáveis à boa ordem, desde que não se acentuem a ponto de negar a cada homem a dignidade, a suficiência e a estabilidade de vida a que tenha direito por sua condição de homem, por seu trabalho, etc.

Primeira Revolução: Humanismo, Renascença, Protestantismo Índice

Isto posto, descobre-se o sentido profundo da Revolução A sofística  e da Revolução B  ocorridas na Europa, no século XV, em conseqüência da anterior Revolução A tendenciosa , acima descrita.

O declínio da Idade Média foi marcado por uma explosão de orgulho e sensualidade. Essa explosão gerou tendências igualitárias e liberais, que não fizeram senão progredir nos séculos seguintes.

No Humanismo e na Renascença revela-se a hostilidade ao sobrenatural, ao Magistério da Igreja, bem como à austeridade dos costumes. No Protestantismo se encontram o livre-exame, o minimalismo em face do sobrenatural, o favorecimento do divórcio, a abolição do estado religioso, das austeridades e sujeições expressas nos votos de pobreza, castidade e obediência, e a eliminação virtual da hierarquia eclesiástica. Com efeito, em quase todas as seitas protestantes há o estado eclesiástico. Mas a diferença nítida e profunda entre o eclesiástico e o leigo, existente na Igreja Católica, ficou nelas debilitada em virtude do modo pelo qual entendem o sacerdócio. Ademais, a estrutura hierárquica do estado eclesiástico, como é instituída na Igreja, também foi profundamente mutilada, nas seitas protestantes, pela negação do elemento monárquico, que é o Papado. Se entre os anglicanos a tendência igualitária não chegou a suprimir a dignidade episcopal, já entre os presbiterianos não há dignitários intitulados bispos , mas apenas presbíteros . Em outras seitas o sopro do igualitarismo chegou a ponto de abolir mesmo a condição de sacerdote .

Ao realçar a importância do fator liberal e igualitário no Humanismo, na Renascença e no Protestantismo, não pretendo negar, é claro, que outras causas tenham concorrido para a gênese e expansão desses movimentos. Digo apenas que, na origem, na psicologia, nas doutrinas, no que hoje se chamaria de êxito propagandístico e nas realizações desses movimentos, a Revolução A tendenciosa , de sentido radicalmente anárquico e igualitário, representou o papel de força mestra.

Também não pretendo afirmar que essa força mestra tenha atuado apenas nas nações que se separaram da Igreja. A Renascença e o Humanismo sopraram com toda a intensidade mesmo nos países que continuaram nominalmente católicos. E ainda que a Revolução A tendenciosa  não tenha chegado a provocar uma ruptura explícita deles com a Igreja, despertou entretanto formas larvadas de protestantismo, das quais a principal foi o jansenismo. Este produziu um progressivo esfriamento religioso, que culminou no ceticismo. Um estudo atento do absolutismo real, que em nenhum país protestante assumiu formas mais radicais do que na França católica, mostra que a política dos monarcas absolutos, em tudo quanto não dizia respeito à sua própria autoridade, era marcada por certo espírito igualitário. A redução dos privilégios do clero e da nobreza, feita progressivamente pelos reis absolutos, rumava para uma equiparação política de todos os cidadãos sob o poder do monarca. O favorecimento contínuo, pelos reis, da parte mais atuante e desenvolvida da plebe, isto é, da burguesia, contribuiu ainda mais para a igualdade política.

Segunda Revolução: Enciclopedismo, absolutismo, Revolução Francesa Índice

A corrupção dos costumes, que vinha crescendo desde o fim da Idade Média, atingira no século XVIII um grau que espantava até alguns de seus corifeus.

A sociedade francesa, túmida dos fatores que nos países nórdicos haviam produzido o Protestantismo, se preparava, através do enciclopedismo e do absolutismo, para uma convulsão profunda, que outra coisa não seria senão a projeção, na esfera política, social e econômica, com novos desdobramentos no campo religioso e filosófico, daquilo que fora a essência do Protestantismo.

Assim, quando este último, em fins do século XVIII, já cansado e envelhecido, se mostrava falho de força de expansão, minado por dentro pelos progressos crescentes da dúvida e do ceticismo, e conservando uns restos de vida graças principalmente ao apoio do Estado, na França as tendências liberais e igualitárias atingiam um ápice. O Humanismo e a Renascença estavam mortos havia muito tempo. No Protestantismo, como acaba de ser dito, tudo estava gasto. Mas o que esses três movimentos tinham de mais dinâmico e fundamental — o espírito que os suscitara — a eles sobrevivera e estava mais forte do que nunca. Esse espírito haveria de lançar a França, e depois a Europa inteira, num cataclismo liberal e igualitário.

A Revolução Francesa de tal maneira era marcada pelo espírito protestante, que a Igreja constitucional por ela organizada não era senão um mal velado instrumento para implantar na França um verdadeiro Protestantismo. O sentido igualitário, antimonárquico e antiaristocrático da Revolução Francesa é a projeção, na esfera civil, da tendência igualitária que levou o Protestantismo a rejeitar os elementos aristocrático e monárquico da hierarquia eclesiástica. O fermento comunista, que trabalhava a extrema esquerda da Revolução, e que acabou por se explicitar em movimentos como o de Babeuf, não era senão o símile laico dos movimentos comunistas, como o dos irmãos Morávio, que brotaram daquilo que se poderia chamar a extrema-esquerda protestante. A completa laicização do Estado, a mascarada greco-romana, a contínua evocação das repúblicas do paganismo clássico, mostravam na Revolução Francesa o efeito do Humanismo, da Renascença e do Enciclopedismo.

Cumpre insistir. O Protestantismo, o Humanismo, a Renascença não foram senão aspectos que o espírito anárquico e igualitário tomou em sua longa trajetória histórica. Esses aspectos se extinguiram, em parte porque o espírito que os suscitara, destruidor por excelência, os aniquilara no seu próprio foco. A Revolução Francesa não foi senão um aspecto novo e ainda mais enérgico desse mesmo espírito.

A Revolução Francesa propagou-se por toda a Europa  nas mochilas das tropas de Napoleão Índice

Através de vicissitudes históricas bem conhecidas, a Revolução Francesa, aparentemente encerrada com a instauração do Império, propagou-se na mochila das tropas de Napoleão por toda a Europa. As guerras e revoluções que marcaram o período de 1814 a 1918, isto é, da queda de Napoleão até a queda dos Habsburg, dos Romanov e dos Hohenzollern, foram um conjunto de convulsões ao longo das quais toda a Europa se metamorfoseou segundo o espírito da Revolução Francesa. Os resultados da II Guerra Mundial não fizeram senão acentuar ainda mais essa metamorfose. Hoje, das antigas monarquias européias só resta uma meia dúzia, todas tão tímidas em se afirmarem e tão dóceis em se deixarem modelar cada vez mais pelo espírito republicano, que se tem a impressão de que a todo momento estão a pedir desculpas por ainda viverem...

Ao fazer estas observações, de modo nenhum quero negar que houvesse, nas estruturas assim destruídas, reais abusos que estavam a pedir corretivo. Nem quero dizer que a adoção de uma forma de governo eletiva e popular só possa resultar do espírito igualitário e liberal que venho analisando. Isto não seria verdade em doutrina, nem se justificaria em vista da História. A Idade Média conheceu várias estruturas políticas aristocráticas, se bem que não monárquicas, como a República de Veneza, e várias estruturas sem caráter monárquico nem aristocrático, como certos cantões helvéticos e cidades livres alemãs. Todas essas formas de governo conviviam pacificamente entre si. Pois se compreendia a legítima diversidade de formas de governo segundo os tempos, os lugares e as demais circunstâncias.

A Revolução que eclodiu em fins da Idade Média era animada de um espírito completamente diverso do que levara à formação dos Estados aristocráticos ou burgueses da Europa medieval. Esse espírito importava na afirmação da liberdade absoluta e anárquica, e da igualdade completa, como únicas regras de ordem e justiça, válidas para todos os tempos e todos os lugares.

Por sua vez, esse espírito minou a sociedade burguesa, politicamente igualitária, a que dera origem. E passou por fim a se manifestar na mais audaciosa de suas afirmações, na terceira grande Revolução do Ocidente, que é o comunismo.

Os princípios de 1789: tendência para a liberdade e igualdade completas Índice

A tese igualitária exprimiu-se na Declaração dos Direitos do Homem  -- magna carta da Revolução Francesa e da era histórica por esta inaugurada — em toda a sua nudez: ”Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos” . É claro que este princípio é suscetível de uma boa interpretação. Fundamentalmente, isto é, considerados em sua natureza, os homens realmente são iguais. É apenas pelos acidentes que são desiguais. Por outro lado, sendo dotados de uma alma espiritual, e portanto de inteligência e vontade, são eles fundamentalmente livres. Os limites dessa liberdade estão apenas na lei natural e divina e no poder das diversas autoridades espirituais e temporais às quais os homens devem sujeitar-se.

Que em todos os tempos tenha havido autoridades que violaram a fundamental igualdade e a fundamental liberdade do homem, ninguém o pode negar. Que ao longo da História se notaram, em contrapartida, sucessivos movimentos de defesa em face dos excessos da autoridade, procurando contê-la em seus justos limites, é evidente. Que tais movimentos, enquanto circunscritos a esse objetivo, só merecem aplauso, também é inquestionável. A igualdade e a liberdade — retamente entendidas — podiam ser lembradas utilmente no século XVIII, como em qualquer outra época.

É bem certo que em 1789, entre os revolucionários das primeiras horas, havia pessoas que não desejavam senão uma justa contenção do Poder Público, e entendiam a igualdade e a liberdade promulgadas pela Declaração dos Direitos do Homem no seu sentido mais favorável.

Mas o texto da famosa Declaração era por demais genérico: afirmava a igualdade e a liberdade sem lhes mencionar qualquer restrição. Isso propiciava uma interpretação lata e desfavorável: uma igualdade e uma liberdade absolutas e onímodas.

Bem entendido, esta interpretação é a que correspondia ao espírito da Revolução nascente. Ao longo do seu curso, foi ela alijando todos aqueles de seus partidários que não comungavam nesse espírito. A caça aos nobres e aos clérigos foi seguida pela caça aos burgueses. Só o trabalhador manual devia subsistir.

Caído o Terror, a burguesia, desejosa de eliminar por toda a Europa as antigas classes privilegiadas, continuou a afirmar os imortais princípios  de 1789. Ela o fazia de modo ambíguo e imprudente, não duvidando em suscitar nas massas populares a tendência para a igualdade e a liberdade completas, a fim de obter o apoio delas na luta contra a realeza, a aristocracia e o clero.

Esta imprudência facilitou em larga medida a eclosão do próprio movimento que haveria de pôr em xeque o poder da burguesia.

Se todos os homens são livres e iguais, com que direito existem os ricos? Com que direito os filhos herdam, sem trabalhar, os bens de seus pais?

O comunismo utópico proclamou que, desacompanhada da igualdade social e econômica, a igualdade política burguesa seria uma burla Índice

Já antes de que a industrialização formasse as grandes concentrações de proletários subnutridos, o comunismo utópico denunciava como uma burla a mera igualdade política instituída pela burguesia e exigia a igualdade social e econômica absolutas. O anarquismo, que sonhava com uma sociedade sem autoridade, se propagava. Esses princípios radicais, que na fase do comunismo utópico tiveram um número restrito de militantes, não obstante alcançaram mais tarde, no Ocidente, uma prodigiosa difusão. Eles minaram aos poucos a mentalidade de numerosos monarcas, como também de potentados e notabilidades civis e eclesiásticas. E instilaram assim, em larguíssimas camadas de beneficiários da ordem então vigente, certa simpatia pela generosidade  dos ideais libertários e igualitários, bem como uma má consciência  quanto à legitimidade dos poderes de que se encontravam investidos.

A grande realização de Karl Marx não foi, a meu ver, a elaboração do comunismo dito científico, doutrina confusa e indigesta que poucos conhecem. O marxismo é tão ignorado pelas bases comunistas e pela opinião pública de nossos dias quanto as elucubrações de Plotino ou Averróis. Marx conseguiu, isto sim, desencadear a ofensiva comunista mundial coligando os adeptos de uma tendência radicalmente igualitária e anárquica, toda ela inspirada no comunismo utópico.

Em outros termos, se os líderes marxistas, em medida maior ou menor, estão imbuídos de Marx, os soldados rasos que eles comandam são em geral incapazes de lhe conhecer a doutrina. O que os move a se aglutinarem em torno dos seus chefes são vagas idéias de igualdade e justiça, inspiradas no socialismo utópico. E se os quadros marxistas encontram fora de si mesmos, em certas zonas da opinião pública, uma aura de simpatia, devem-no ainda à irradiação quase universal dos princípios igualitários da Revolução Francesa e do sentimentalismo romântico inerente ao socialismo utópico.

Um substrato igualitário e anárquico continua a influenciar a fundo a opinião pública Índice

De todas estas considerações ressalta com clareza o principal fator do caos em que o Ocidente vai afundando, e para o qual vai levando o resto do mundo. Esse fator é a aceitação muito generalizada das tendências e doutrinas de substrato igualitário e anárquico, as quais, inteiramente démodées  nos círculos propriamente intelectuais, continuam no entanto a influenciar a fundo a opinião pública. E assim servem de isca aos comunistas para arrastarem atrás de si, em determinadas conjunturas políticas passadas e presentes, as turbas com que pretendem arrasar os últimos resquícios de sacralidade e hierarquia da civilização cristã ainda existentes.

Tudo isso não importa em afirmar que o pensamento de Proudhon e de seus congêneres constitua a grande alavanca ideológica dos acontecimentos contemporâneos. Os utopistas estão mortos, e quase ninguém deles cogita em nossos dias. Eles não foram senão uma etapa na grande trajetória aberta com os movimentos ideológicos e culturais do século XVI. Eles contribuíram para dar universalidade às aspirações de nivelamento econômico-social que a Revolução Francesa continha apenas em germe. Tais aspirações de total igualdade econômico-social, de que os utopistas foram apenas os porta-vozes, alcançaram um eco difuso por todo o mundo. Esse eco continua ao longo da História, muito depois de terem eles e suas obras caído no olvido.

Se queremos pois deter os passos à nova catástrofe que nos espreita, cumpre principalmente desfazer o trágico erro doutrinário que identifica a igualdade absoluta com a justiça absoluta, e a liberdade verdadeira — à qual a Verdade e o Bem fazem jus — com o livre curso e até com o favorecimento de todos os erros e de todos os desregramentos.

Isto nos leva a pensar na Contra-Revolução.

A Contra-Revolução deve apontar os  erros  metafísicos fundamentais da Revolução Índice

Ao longo dos últimos séculos, muitos movimentos se têm erguido contra o processo revolucionário. Mas o êxito concreto por eles alcançado foi transitório, e às vezes nulo. Não que a esses movimentos faltasse o apoio de talentos brilhantes, de pessoas altamente colocadas e até de largos setores populares. Mas esses movimentos o mais das vezes se limitaram a combater a Revolução em uma ou outra de suas expressões religiosas, políticas, sociais ou econômicas. Se bem que, de quando em quando, fizessem aceno aos erros revolucionários mais profundos e de porte metafísico, eles não insistiam suficientemente neste ponto. Daí o fato de a Revolução continuar incólume o seu curso.

Outros julgaram mais hábil, para detê-la, usar a sua linguagem e as suas técnicas, e investir contra alguns dos abusos inegáveis que a própria Revolução denunciava. Procuraram assim tirar-lhe os pretextos . Ora, combater abusos é sempre meritório; mas quanta ingenuidade havia em imaginar que a força da Revolução estava sobretudo na indignação causada por certos abusos contra os quais ela bradava! A História provou a falência dessa tática. Certos abusos existentes ainda há algumas décadas foram de tal modo corrigidos na Europa, que Pio XII pôde dizer ao “Katholikentag” de Viena: ”Diante do olhar da Igreja se apresenta hoje em dia a primeira época das lutas sociais contemporâneas. Em seu âmago dominava a questão operária: a miséria do proletariado e o dever de elevar esta classe de homens, entregue sem defesa às incertezas da conjuntura econômica, até a dignidade das outras classes da cidade, dotadas de direitos precisos. Este problema pode ser hoje em dia considerado como resolvido, ao menos nas suas partes essenciais, e o mundo católico contribuiu para esta solução de modo leal e eficaz” [*]. Entretanto, a Revolução continua a rugir, mais ameaçadora do que nunca.

[*] Pio XII, Radiomensagem de 14 de setembro de 1952, Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII , Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. XIV, p. 313.

Assim, sem negar o caráter meritório de tantos movimentos de sentido contra-revolucionário no passado ou no presente, sem negar também o que há de benemérito na luta contra injustiças que a atual ordem de coisas apresenta, parece-me que a grande necessidade de nossos dias é assinalar os erros metafísicos fundamentais da Revolução e a coesão íntima existente entre esses três vagalhões que se jogaram sucessivamente contra a Cristandade ocidental: numa primeira etapa, o Humanismo, a Renascença e a Pseudo-Reforma protestante (primeira Revolução); mais tarde, a Revolução Francesa (segunda Revolução); e, por fim, o Comunismo (terceira Revolução).

No terreno da ação Índice

Este empenho deu sentido à minha atuação como parlamentar, professor, escritor e jornalista.

Refiro-me aqui apenas de passagem à minha atuação como deputado pela Liga Eleitoral Católica na Assembléia Constituinte Federal de 1934. Ela não interessa diretamente à Enciclopédia para a qual me foi pedido escrever.

Em minha longa atuação no magistério — quer como professor de História da Civilização no Colégio Universitário, seção anexa à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo; quer como professor da mesma disciplina no Colégio Roosevelt de São Paulo; quer como Catedrático de História Moderna e Contemporânea na Faculdade de Filosofia de São Bento e na Faculdade de Filosofia Sedes Sapientiae , ambas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo — as considerações que acabo de fazer nunca estiveram ausentes de meu espírito.

Atuando como diretor do conhecido semanário católico “Legionário”, órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo; como um dos fundadores e secretário da Junta Estadual da Liga Eleitoral Católica do Estado de São Paulo; como Presidente da Junta Arquidiocesana da Ação Católica; e também como secretário da Federação das Congregações Marianas de São Paulo, marquei meu apostolado pela preocupação de lutar sempre contra a Revolução. Revolução que eu não via apenas encarnada em movimentos de esquerda, mas também em tendências incubadas freqüentemente em movimentos do centro, e mesmo em outros que se rotulavam de extrema-direita. Contra estes últimos, especialmente, conduzi campanhas enérgicas, revidadas aliás com violência. As páginas do “Legionário” estão cheias da polêmica que mantive contra as várias formas de fascismo e nazismo[*], ao tempo em que esses movimentos pareciam atingir o zênite.

[*] Nota da redação — Foram publicados no “Legionário” (1929 a 1947) 2.936 artigos contra o nazismo e o fascismo, sendo 447 de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, redator-chefe e diretor do dito órgão de 12-10-29 a 8-12-29 e de 6-8-33 a 28-12-47.

Foram publicados 55 artigos sobre o mesmo tema em Catolicismo  (1951 a 1982), 6 dos quais são do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Ainda sobre esse tema, publicou ele também 24 artigos na “Folha de S. Paulo” (1968 a 1982) (cfr. Um Homem, uma obra, uma gesta — Homenagem das TFPs a Plinio Corrêa de Oliveira , Edições Brasil de Amanhã, p. 39).

 A Contra-Revolução é também o que dá sentido a minha atividade como escritor.

Em defesa da Ação Católica : brado de alarma contra germes de laicismo, liberalismo e igualitarismo nos meios católicos Índice

Meu primeiro livro foi publicado em 1943, e se intitula Em defesa da Ação Católica (Editora Ave Maria, São Paulo). Era ele um brado de alarma contra germes de laicismo, liberalismo e igualitarismo que começavam a invadir a Ação Católica[*]. Na qualidade de Presidente do ramo paulista dessa entidade, cabia-me abrir a luta contra aqueles erros. O livro despertou controvérsias apaixonadas. Estas não cessaram sequer quando, em 1949, recebi a propósito do livro uma carta de louvor calorosa, enviada, em nome do Papa Pio XII, por Mons. João Batista Montini, então substituto da Secretaria de Estado da Santa Sé, e depois Papa Paulo VI.

[*] Nota da redação — A obra teve duas edições. A primeira, de 2.500 exemplares, esgotou-se totalmente. Em 1983 foi publicada uma segunda edição de 2.000 exemplares, comemorativa do 40° aniversário do seu lançamento.

Em defesa da Ação Católica  foi aplaudido em boa parte dos setores católicos. Entretanto, em alguns ambientes continuaram a se expandir os germes de progressismo, culminando na onda de erros que hoje notoriamente se estende por todo o País. Os que de futuro escreverem com imparcialidade a História da Igreja no Brasil do século XX reconhecerão, creio eu, que a considerável resistência que o progressismo vem enfrentando entre nós se deve, em larga medida, ao brado de alarma de Em defesa da Ação Católica . Pois esse livro alertou, contra o vírus incipiente do progressismo brasileiro, muitas mentalidades que não tinham começado ainda a sofrer a ação sedutora das idéias novas.

Como se vê, meu primeiro livro, embora de caráter doutrinário, foi escrito em função de um importante problema concreto, já muito atual naqueles tempos.

*O mais destacado efeito de * Revolução e Contra-Revolução : TFPs e entidades afins em 26 países, nos cinco continentes Índice

Não se pode dizer o mesmo de Revolução e Contra-Revolução . Pelo resumo que dele fiz acima, é fácil perceber que seu tema não se relacionava de perto com qualquer assunto brasileiro de atualidade em 1959, ano no qual foi publicado. O principal objetivo da nova obra foi explicitar, aos olhos do público, o sentido doutrinário profundo do prestigioso mensário de cultura Catolicismo , naquela época editado em Campos (RJ) sob os auspícios do então Bispo daquela Diocese, Dom Antonio de Castro Mayer (* 20/6/1904, +25/4/1991) [*].

[*] Nota da redação — Convém esclarecer que Dom Antonio de Castro Mayer, em dezembro de 1982, declarou cortadas as relações que mantinha com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e com a TFP. O mensário Catolicismo  tornou-se então o órgão porta-voz da TFP.

Em 22 de junho de 1988, Dom Mayer participou, juntamente com o Arcebispo francês Dom Marcel Lefèbvre, da cerimônia de sagração de quatro bispos em Ecône (Suíça) sem autorização de Roma. Logo no dia 1° de julho seguinte, o Cardeal Gantin, Prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos, publicava um decreto, pelo qual confirmava a excomunhão dos dois prelados.

Assim, o rompimento do ex-bispo de Campos com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, com a TFP e com Catolicismo  ocorreu cinco anos antes de sua excomunhão.

No Brasil, Revolução e Contra-Revolução  teve quatro edições. A publicação inicial (1959) foi feita no número 100 de Catolicismo  (duas tiragens). As edições se sucederam no mundo hispânico, nos Estados Unidos, no Canadá e na Itália[*].

[*] Nota da redação — Além das edições em português publicadas no Brasil (duas em 1959, uma em 1982 e outra em 1993), Revolução e Contra-Revolução  teve ainda doze edições em espanhol: Argentina (2 edições em 1970 e uma em 1992), Chile (1964 e 1992), Colômbia (1992), Equador (1992), Espanha (1959, 1965, 1978, 1992) e Peru (1994); duas em francês: Brasil (1960) e Canadá (1978); três em inglês: Estados Unidos (1972, 1980, 1993); três em italiano (1964, 1972, 1977); e uma em rumeno (1995), perfazendo um total de 25 edições. Foi outrossim transcrito em jornais ou revistas do Brasil, de Angola, da Argentina, Colômbia, Espanha, França, Itália e Venezuela, alcançando uma tiragem total (excluídas as transcrições parciais) de 123.700 exemplares.

 O mais destacado efeito de Revolução e Contra-Revolução  foi ter inspirado, no Brasil, a constituição da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade — TFP, e fora do País, a fundação de organizações congêneres e autônomas, que hoje vicejam em quase todas as grandes nações do Ocidente e estendem seus ramos pelos outros continentes. Bureaux  de representação das TFPs também existem em vários países, projetando desse modo os princípios doutrinários e os ideais de Revolução e Contra-Revolução  por 26 países dos cinco continentes[*].

[*] Nota da redação — TFPs e entidades afins ou Bureaux -TFP existem hoje no Brasil, África do Sul, Alemanha, Argentina, Austrália, Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Espanha, Estados Unidos, Filipinas, França, Índia, Itália, Nova Zelândia, Paraguai, Peru, Polônia, Portugal, Reino Unido (Inglaterra e Escócia), Uruguai e Venezuela.

 A TFP da Venezuela foi arbitrariamente encerrada em 1984, por um decreto iníquo do governo daquele país. Seus membros continuaram a serviço dos mesmos ideais, em TFPs de outros países.

A inocência da TFP venezuelana ficou amplamente comprovada com a publicação da sentença judicial definitiva de 15 de maio de 1986, na qual se declaravam sem fundamento as acusações levantadas contra a entidade.

Essas entidades constituem uma grande família de almas formada em torno de Revolução e Contra-Revolução .

Uma transformação interna anunciada pelos próprios teóricos marxistas: a derrocada do Estado e o surgimento da sociedade cooperativista Índice

Em 1976, acrescentei a Revolução e Contra-Revolução  uma terceira parte. Trata-se de uma mise au point  do panorama internacional transformado pela Revolução nos cerca de vinte anos decorridos desde o lançamento da obra, com vistas a que o leitor relacionasse facilmente o seu conteúdo com a nova realidade de então.

O domínio da III Revolução — a comunista — chegara a um estado paradoxal de apogeu e crise. Apogeu pela extensa área que o comunismo efetivamente veio a dominar, e pela influência que exerceu no Ocidente através da imensa coligação de partidos comunistas, criptocomunistas, paracomunistas, além do magma ilimitado dos inocentes-úteis. A par de apogeu, crise. Com efeito, o comunismo entrara pari passu  em declínio, junto à opinião pública. O poder persuasório dele e sua capacidade de liderança revolucionária minguavam dentro e fora dos limites da União Soviética. Comprometido assim o avanço do comunismo pelo insucesso dos seus costumeiros métodos de ação e proselitismo, optaria este, daí em diante, pela aventura?

O fato é que, no auge de seu poder, a III Revolução deixou de ameaçar e agredir, e passou a sorrir e pedir. Ela abandonou o caminho reto — sempre o mais curto — e escolheu um ziguezague, no decurso do qual não faltavam as incertezas.

Colocou ela então o melhor de suas esperanças na guerra psicológica revolucionária, que usa o sorriso tão-somente como arma de agressão e de guerra, e transfere seu impacto conquistador, de violência (isto é, do físico e palpável), para o campo das atuações psicológicas (isto é, para o campo impalpável). Seu objetivo: alcançar, no interior das almas, por etapas e invisivelmente, a vitória que certas circunstâncias lhe estavam impedindo conquistar de modo drástico e visível, segundo os métodos clássicos.

Bem entendido, esses métodos nada têm de comum com a mera novela jornalística correntemente denominada de conquistas das mentes , lavagem cerebral , etc. Não se tratava de efetuar, no campo do intelecto, algumas operações esparsas e esporádicas. Tratava-se, pelo contrário, de uma verdadeira guerra de conquista — psicológica, sim, mas total — visando o homem todo, e todos os homens em todos os países.

Não seria possível descrever esta guerra psicológica revolucionária sem tratar acuradamente do seu desenrolar naquilo que é a própria alma do Ocidente, ou seja, o Cristianismo, e mais precisamente a Religião Católica, que é o Cristianismo em sua plenitude absoluta e em sua autenticidade única.

Dentro da perspectiva de Revolução e Contra-Revolução , o êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante e espantoso, apocalipticamente trágico, do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo.

A evidência dos fatos aponta, pois, o Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja. Depois dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a ”fumaça de Satanás” [*], que se vai dilatando dia a dia, com a terrível força da expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo de ”autodemolição” , do qual falou Paulo VI[**].

[*] Cfr. alocução de Paulo VI de 29 de junho de 1972.

[**] Cfr. alocução de 7 de dezembro de 1968.

 Nota da redação — Também João Paulo II, em diversas ocasiões, tem-se referido aos problemas do mundo moderno e a sua relação com a tempestade que se abate sobre a Santa Igreja. Muitos destes problemas, afirma o Papa, incluem a difusão de ”verdadeiras heresias, no campo dogmático e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões”  (Alocução de 6 de fevereiro de 1981, in Insegnamenti di Giovanni Paolo II , Libreria Editrice Vaticana, 1981, vol. IV, 1, p. 235).

 Ficava assim delineada a situação da III Revolução, como ela se apresentava pouco antes do 20° aniversário da publicação de Revolução e Contra-Revolução .

Entretanto, esse panorama não seria completo se se negligenciasse uma transformação interna na III Revolução: é a IV Revolução que dela vai nascendo.

Como é bem sabido, nem Marx nem a generalidade de seus mais notórios sequazes viram na ditadura do proletariado a etapa terminal do processo revolucionário. Na mitologia evolucionista inerente ao pensamento de Marx e de seus seguidores, assim como a evolução se desenvolverá ao infinito no suceder dos séculos, assim também a Revolução  não terá termo. Da Iÿ20Revolução  já nasceram duas outras. A terceira, por sua vez, gerará mais uma. E daí por diante...

Não é impossível prever, por ora, dentro da perspectiva marxista, como será a IV Revolução . Ela deverá consistir, segundo os próprios teóricos marxistas, na derrocada da ditadura do proletariado em conseqüência de uma nova crise, por força da qual o Estado hipertrofiado será vítima de sua própria hipertrofia. E desaparecerá, dando origem a um estado de coisas cientificista e cooperativista, no qual — dizem os comunistas — o homem terá alcançado um grau de liberdade, igualdade e fraternidade até aqui insuspeitável.

Como? -- É impossível não perguntar se a sociedade tribal sonhada pelas correntes estruturalistas não dá uma resposta a esta indagação. O estruturalismo vê na vida tribal uma síntese ilusória entre o auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último acaba por devorar a liberdade. Em tal coletivismo, os vários eus  ou as pessoas individuais, com o seu pensamento, sua vontade e seus modos de ser, característicos e conflitantes, se fundem e se dissolvem — segundo eles — na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns.

A Parte III de Revolução e Contra-Revolução  termina com considerações sobre essa IV Revolução nascente.

Metamorfose do comunismo rumo à sociedade autogestionária Índice

A década seguinte, dos anos 80, não se encerraria sem que os prognósticos feitos na Parte III de Revolução e Contra-Revolução  recebessem uma extraordinária confirmação nos fatos.

Não conseguindo esconder mais seu estrondejante fracasso econômico, bem como o desumano cerceamento de liberdades legítimas, a Rússia soviética optou por admitir o fato desinibidamente diante do mundo. E assim, depois das convulsões geopolíticas espetaculares que se seguiram aos programas liberalizantes da glasnost  (1985) e da perestroika  (1986) desencadeados por Gorbachev, o regime soviético se esboroou (1989-1991) e parece desde então evoluir para um modelo menos distante do que vigora no Ocidente.

Essa transformação coloca um problema estratégico novo para os não comunistas, pois parece conter um apelo: assim como se dissolveu a estrutura granítica do comunismo, torne-se também o Ocidente menos rígido em sua aplicação dos princípios da propriedade privada e da livre iniciativa, aceitando dar passos decisivos na direção do socialismo. Desse modo, Ocidente e Oriente convergirão para um ponto intermédio — não necessariamente a meio caminho, e possivelmente bem mais próximo do comunismo que do capitalismo — e estará encontrada uma solução definitiva para a paz mundial.

Quantos no Ocidente não se têm deixado seduzir por esta perspectiva! Quantos não são propensos a dizer: é melhor aceitarmos um regime mais igualitário, com menos liberdade civil e econômica, a fim de evitarmos que a situação na Rússia retroceda, os comunistas retomem o poder e volte a nos importunar o terrível espectro do holocausto nuclear, do qual milagrosamente nos livramos!

A essa ponderação cabe responder que as guerras são castigos pelos pecados dos homens. A aceitação de um regime antinatural e contrário à Lei de Deus, como é o comunismo, ainda que algum tanto mitigado, constitui enorme pecado que, desdobrando inevitavelmente seus efeitos maléficos, só pode acarretar a ruína e a infelicidade dos homens.

Assim, face ao esfacelamento do império soviético, no Ocidente os espíritos mais argutos se perguntam o que isso tudo tem de autêntico, de consistente, de irrefragável, que autorize esperanças solidamente fundadas. E embora não faltem otimistas pressurosos de abrir os braços de par em par para tais perspectivas enganadoramente alvissareiras, a prudência recomenda muita circunspeção diante da enigmática retração do comunismo, que muito bem pode não ser mais do que uma metamorfose para atingir a meta última deste, que é a sociedade autogestionária.

Advertiu-o honestamente  o próprio Gorbachev, em seu ensaio propagandístico Perestroika — Novas idéias para o meu país e o mundo [*]: ”A finalidade desta reforma é garantir .... a transição de um sistema de direção excessivamente centralizado e dependente de ordens superiores para um sistema democrático baseado na combinação de centralismo democrático e autogestão”.  Autogestão esta que, de mais a mais, era ”o objetivo supremo do Estado soviético” , segundo estabelecia a própria Constituição da ex-URSS em seu Preâmbulo.

[*] Ed. Best Seller, São Paulo, 1987, p. 35.

 Todas estas considerações encontram-se mais amplamente explanadas na edição atualizada de Revolução e Contra-Revolução  publicada em 1992 [*].

[*] A Parte III de Revolução e Contra-Revolução , acrescida pelo Autor de alguns comentários, foi publicada no Catolicismo  n° 500, de agosto de 1992.

 Edições atualizadas da obra se sucederam na Argentina, Chile, Colômbia, Equador e Espanha (todas em 1992), nos Estados Unidos (1993), no Brasil (1993), no Peru (1994) e na Romênia (1995).

Se o Brasil não conheceu a desgraça da pulverização agrária, deve-o a RA-QC Índice

É o momento de mencionar algumas realizações contra-revolucionárias de envergadura, levadas a cabo pelas TFPs nos respectivos países.

Em 1960, fervilhava no Brasil uma agitação agrária... quase toda ela urbana! Uma propaganda sabiamente orquestrada nas grandes cidades procurava fazer crer que todo o nosso mundo rural estava a ponto de explodir em virtude do descontentamento da classe dos trabalhadores manuais. Segundo se dizia, para desarmar a efervescência das massas rurais — prevenindo assim uma hecatombe — impunha-se fazer uma Reforma Agrária. Esta consistiria fundamentalmente em que o Poder Público expropriasse a preço vil os latifúndios improdutivos, em vista de distribuir terra aos pequenos agricultores. O próprio dinamismo do espírito igualitário que animava os agro-reformistas leva-los-ia entretanto a eliminar progressivamente todas as grandes e médias propriedades, transformando nossa estrutura rural numa imensa contextura de pequenas propriedades de dimensão familiar. Foi quando veio a lume o livro Reforma Agrária — Questão de Consciência . Obra de grande porte, exigia um trabalho de equipe. Foi assim que redigi a primeira parte do livro, submetendo-a depois à consideração de dois ilustres prelados, Dom Antonio de Castro Mayer, então Bispo de Campos, e Dom Geraldo de Proença Sigaud, então Bispo de Jacarezinho, depois Arcebispo de Diamantina, para que fizessem a revisão do texto, sob o ponto de vista especificamente teológico. A segunda parte, de natureza técnica,  ficou a cargo do economista Luiz Mendonça de Freitas [*].

[*] Reforma Agrária — Questão de Consciência  teve dez edições, nos seguintes países: Brasil (2 edições em 1960, uma em 1961 e outra em 1962), Argentina (1963), Espanha (1969) e Colômbia (3 ed. em 1971 e uma em 1985), num total de mais de 41 mil exemplares.

 A obra teve uma acolhida muito favorável nos meios rurais e foi objeto de manifestações de aplauso da parte de governadores, deputados estaduais e federais, senadores, centenas de prefeitos, câmaras municipais e entidades de classe.

Os mesmos autores publicamos em 1964 a Declaração do Morro Alto , programa positivo de Reforma Agrária[*].

[*] A Declaração do Morro Alto  teve duas edições em português. Com a transcrição em Catolicismo , sua tiragem totalizou 32.500 exemplares.

 No seu conjunto, essas obras constituíram ao mesmo tempo uma franca e enérgica defesa do princípio da propriedade privada, negado mais ou menos veladamente pelo agro-reformismo socialista e expropriatório, bem como uma afirmação da função social do referido princípio, para a correção de abusos e falhas existentes em nossa situação rural.

Reforma Agrária — Questão de Consciência  deu origem a polêmicas que alertaram a opinião pública para os verdadeiros objetivos das reformas de estrutura então preconizadas pelas correntes de esquerda, e desse modo contribuiu para a formação do clima ideológico e psicológico que cortou o passo à instalação da república sindicalista então desejada pelo Presidente João Goulart.

Inegavelmente, se nosso País não conheceu a desgraça da pulverização de sua estrutura agrária num número incontável de minifúndios de baixa produção, deve-o em muito larga medida a esse livro.

Acordo com o regime comunista: para a Igreja, esperança ou autodemolição? -- Carta de louvor de Congregação da Santa Sé  Índice

Entretanto, de minhas obras, a que teve maior divulgação foi incontestavelmente A liberdade da Igreja no Estado comunista, que, nas últimas edições, saiu com o título de Acordo com o regime comunista: para a Igreja, esperança ou autodemolição? [*]

[*] Este ensaio, publicado pela primeira vez em 1963, teve dez edições em português: Brasil (1963, 7 ed. em 1965, 1967 e 1974); onze em espanhol: Brasil (1963 e 2 ed. em 1964), Chile (1964), Espanha (2 ed. em 1970, 2 ed. em 1971, e outras 2 ed. em 1973) e México (1965); cinco em francês: Brasil (1963, 1964, 1965) e França (1975, 1977); uma em alemão (1965); uma em húngaro (1967); quatro em inglês (1963 e 3 ed. em 1964); duas em italiano (1963 e 1964); e duas em polonês. As edições nestes últimos cinco idiomas foram todas publicadas no Brasil. Essas sucessivas edições atingiram o total de mais de 163.500 exemplares.

 Além disso, o trabalho foi transcrito na íntegra em 40 jornais ou revistas do Brasil, Alemanha, Angola, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, México e Portugal.

A obra foi prestigiada por uma carta de louvor da Sagrada Congregação dos Seminários e Universidades da Santa Sé, em data de 2 de dezembro de 1964, assinada pelos Cardeais Pizzardo e Staffa.

Repercutiu, este estudo, para além da cortina de ferro. O semanário católico -esquerdista “Kierunki” e o mensário “Zycie i Mysl”, ambos poloneses, o atacaram violentamente. Zbigniew Czajkowski, colaborador destes dois periódicos, publicou extensos e indignados artigos contra meu ensaio. Respondi através das páginas de Catolicismo . Daí se seguiu uma polêmica, na qual interveio em apoio à minha obra o periódico “L’Homme Nouveau”, de Paris, pela pena de seu colaborador Henri Carton, enquanto “Témoignage Chrétien” — turbulento órgão comuno-progressista francês — se colocava ao lado de Czajkowski.

Assim como Reforma Agrária — Questão de Consciência , também A liberdade da Igreja no Estado comunista  foi escrita em função de um problema concreto. Já então se ia generalizando entre os católicos — astutamente propagada — a idéia de que o único obstáculo que os impede de aderir ao regime comunista é que este costuma tolher o exercício do culto. A partir dessa noção gravemente incompleta, foi fácil aos marxistas, simulando respeito à liberdade da Igreja, obter decidido apoio de certos católicos para um hipotético comunismo que deixasse inteira liberdade aos diversos cultos.

Essa manobra propagandística poderia render — e rendeu — ao comunismo incalculáveis benefícios. Pois, na medida em que influenciasse as massas católicas, enfraqueceria ou anularia a oposição que os 800 milhões de católicos existentes no mundo haveriam de fazer ao comunismo.

Em meu ensaio, procurei frustrar essa manobra já em 1963, mostrando que é intrínseco ao regime comunista eliminar ou mutilar muito gravemente o instituto da propriedade privada, o que, por sua vez, é contrário à doutrina da Igreja. Para ser fiel à sua missão, a Igreja não poderia deixar de combater tal regime, ainda que este lhe reconhecesse inteira liberdade de culto. Tal combate criaria um inevitável conflito entre os católicos e qualquer Estado comunista.

Baldeação ideológica inadvertida e diálogo denuncia manobra para debilitar a resistência ideológica dos católicos Índice

Também Baldeação ideológica inadvertida e diálogo alcançou ampla repercussão[*].

[*] Publicado pela primeira vez em 1965, teve treze edições, sendo cinco em português (4 ed. em 1966 e uma em 1974), uma em alemão (no Brasil, em 1967), seis em espanhol (uma na Argentina em 1966, duas na Espanha em 1966 e 1971, uma no México e duas no Chile em 1985) e uma em italiano (1970). Foi transcrito em nove jornais ou revistas do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos e Portugal, atingindo o total de 136.500 exemplares.

 Este ensaio mostra por que forma os comunistas se valem do diálogo para debilitar sub-repticiamente a resistência ideológica de seus adversários, e especialmente a dos católicos. O assunto aí versado é por demais sutil e extenso para sequer ser resumido aqui. Uma das observações mais importantes — de ordem prática — contidas nesse estudo é que, por meio do falso diálogo, os comunistas não visam tanto alcançar dos católicos que renunciem explicitamente à Fé, mas que aceitem uma interpretação relativista e evolucionista da doutrina católica. Assim, corrompe-se a Fé, que por sua natureza exige uma certeza incompatível com o estado de dúvida inerente ao relativismo e ao evolucionismo. E, alcançado esse resultado, não é difícil à propaganda comunista induzir os católicos a esperar do diálogo com o comunismo o encontro de uma síntese... a qual bem poderia ser, em último termo, o mesmo comunismo com outra roupagem.

A Igreja ante a escalada da ameaça comunista — Apelo aos Bispos silenciosos Índice

Em 1976 publiquei o livro intitulado A Igreja ante a escalada da ameaça comunista — Apelo aos Bispos silenciosos[*]. Constitui esse meu trabalho uma análise marcadamente doutrinária das posições então assumidas pela Hierarquia eclesiástica no Brasil, em favor do comunismo. A pregação claramente pró-comunista de D. Pedro Casaldáliga, Bispo de São Félix do Araguaia, por exemplo.

[*] Dado a lume em junho de 1976, o livro alcançou quatro edições (duas em 1976 e outras duas em 1977), num total de 51 mil exemplares, vendidos por sócios e cooperadores da TFP em 1.700 cidades de 24 Unidades da nossa Federação.

 No livro, mostro a imensa transformação que se operou no seio do Episcopado nacional, adversário ferrenho do marxismo até os idos de 1948. Precisamente por essa época, começou uma rotação para a esquerda do Episcopado. A nova orientação recebeu grande impulso quando, em 1952, com a formação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), D. Helder Câmara foi eleito o primeiro secretário-geral desse organismo. Os frutos dessa rotação foram os padres de passeata , as freiras de mini-saia  e os líderes católico -esquerdistas, que apoiaram as agitações comuno-janguistas.

Após 1964, deu-se um expurgo de comunistas em numerosas instituições brasileiras. Os meios católicos, entretanto, permaneceram incólumes. Com isso, as tendências esquerdistas se refugiaram neles. E, assim protegidas, medraram de modo impressionante, a ponto de mais de uma figura do Episcopado nacional se ter transformado — por ação ou por omissão — em valioso esteio dos que se esforçam para comunistizar o Brasil.

Formulei no livro um apelo veemente aos “Bispos silenciosos” para que falassem. Eram eles numerosos e dispunham de prestígio suficiente para salvar o Brasil se simplesmente dessem ampla difusão entre os fiéis dos numerosos documentos pontifícios sobre o assunto.

Paralelamente a essa triste evolução do Episcopado, mostrei a luta — toda ela legal e doutrinária — que, em prol da Igreja e da civilização cristã, vem sendo travada por um grupo de católicos fiéis que se reuniu inicialmente em torno do “Legionário”, depois de Catolicismo , e hoje, já muito avolumado, constitui a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade — TFP.

Esse trabalho eu o quis publicar como estudo introdutório a uma condensação de La Iglesia del Silencio en Chile — La TFP proclama la verdad entera , brilhante best-seller  publicado em janeiro de 1976 pela TFP chilena. Pois existe entre ambos os trabalhos íntima afinidade. Tal afinidade resulta da semelhança de situações entre o Brasil e o Chile no que concerne à atuação da Hierarquia eclesiástica. Lá, ainda mais claramente do que aqui, a maior parte do Episcopado (e não apenas setores dele, como no Brasil) trabalhou pela comunistização do país, como prova com abundância de documentos o referido livro chileno. E isto tanto pela preparação da ascensão de Frei, o  Kerensky chileno [*], e posteriormente de Allende à presidência da República, quanto pelo apoio que os Bispos deram a este último durante seu nefasto governo, como ainda pelo esforço que desenvolveram após sua queda, no sentido de fazer retroceder o país irmão para as malhas do comunismo.

[*] Sobre o sentido comunistizante da atuação do ex-presidente do Chile, Eduardo Frei, e da Democracia-Cristã chilena, veja-se Frei, o Kerensky chileno, de Fábio Vidigal Xavier da Silveira. Publicado pela primeira vez em 1967 por "Catolicismo"  (n° 178/179), teve dez edições, sendo duas em português, sete em espanhol (três na Argentina, uma na Colômbia, uma no Equador e três na Venezuela) e uma em italiano. Teve, também, duas tiragens em Catolicismo  (Brasil) e três em “Cruzada” (Argentina). O diário “La Verdad”, de Caracas, o transcreveu na íntegra, e excertos apareceram em outros três jornais da mesma cidade. O total dessas edições é de 128.800 exemplares.

 É bem de ver que, com a ascensão de João Paulo II ao sólio pontifício, em 1978, todo este processo passou por importantes transformações, as quais implicam em ajustes não pequenos nesse quadro, para se descrever como ele atualmente se apresenta.

Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI Índice

Para o estruturalismo , cujo expoente máximo foi o filósofo Lévy Strauss, a sociedade indígena, por ter ”resistido à História” , é a que mais se aproxima do ideal humano. E é para essa forma de vida pré-neolítica que — segundo essa corrente filosófica — devemos retornar.

Se causa espanto que filósofos ateus defendam teses tão absurdas, mais ainda deve estarrecer que missionários católicos propugnem como padrão perfeito de homem o índio selvático, e como modelo ideal de vida humana a vida na taba.

Não obstante, é bem isto o que acontece. Uma nova corrente missiológica, com livre trânsito nos meios eclesiásticos, sustenta que a civilização atual deve desaparecer, para dar lugar ao sistema de vida tribal. Institutos como a propriedade privada, a família monogâmica e o casamento indissolúvel devem ser eliminados. A figura clássica dos missionários — evangelizadores e civilizadores --, como o foram os Padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, deve ser abandonada. A nova corrente missiológica, porque não quer civilizar, não quer catequizar. E porque não quer catequizar, também não quer civilizar.

Insinua-se nessa conduta uma questão tática. Se a missiologia atualizada  elogiasse a comunidade de bens implantada nos países comunistas, expor-se-ia inevitavelmente a críticas e refutações incômodas.

Esquivando o perigoso assunto, os novos missionários fazem a apologia do sistema de vida tribal: exalçam nele a comunidade de bens, a inexistência de lucro, de capital, de salários, de patrões e empregados, de “privilegiados” e “marginalizados”, de “opressores” e “oprimidos”, como dizem. E assim aproveitam a ocasião para invectivar a propriedade privada, em vigor nas nações civilizadas do Ocidente.

O efeito concreto dessa tática é que o elogio torrencial da nova missiologia à propriedade comum, vigente nas tribos indígenas, nem de longe levantou entre nós a celeuma que a apologia direta das sociedades comunistas de além cortina de ferro certamente despertaria.

Não cabe entretanto a menor dúvida. É bem uma sociedade de tipo comunista que transparece nessa visão idílica do índio selvático, apresentada pela neomissiologia como ideal para o homem do século XXI.

O maior problema suscitado por esses delírios não está nos próprios missionários nem nos índios, cumpre repetir. Está em saber como, na Santa Igreja Católica, pôde esgueirar-se impunemente essa filosofia, intoxicando seminários, deformando missionários, desnaturando missões. E tudo com tão forte apoio de certa retaguarda eclesiástica.

Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI  foi o livro que publiquei no final de 1977, para dar a conhecer aos brasileiros essa faceta inesperada da crise na Igreja.

Catolicismo  o publicou em primeira mão (n° 323/324, de novembro-dezembro de 1977). Ainda em dezembro de 1977, a Editora Vera Cruz lançou a primeira edição em forma de livro, e depois mais seis edições, totalizando 76 mil exemplares.

O católico pode e deve ser contra a Reforma Agrária Índice

A CNBB constitui um órgão oficial do Episcopado brasileiro. Assim sendo, seus pronunciamentos devem ser recebidos normalmente pelos católicos como representando o pensamento da Igreja.

Não podia portanto deixar de causar a maior perplexidade entre os fiéis a publicação, ao final da reunião plenária do provecto organismo eclesiástico, em 1980, na habitual fazenda de Itaici, do documento Igreja e problemas da terra  (IPT). Verdadeiro manifesto agro-reformista, o documento da CNBB procurava suscitar a ofensiva geral do País contra as propriedades rurais grandes e médias. Ademais, sugeria às autoridades governamentais medidas concretas para a imediata efetivação da partilha rural.

Este fato criava gravíssima questão de consciência, não apenas para os fazendeiros, mas também para todos os católicos formados segundo a doutrina tradicional da Igreja, bem como para os homens de pensamento e de ação existentes no País. Essas três amplas e ponderáveis categorias de brasileiros muito explicavelmente poderiam se perguntar qual a efetiva validade magisterial de tantas afirmações, novas e singulares, contidas no IPT. E qual a autoridade dos argumentos doutrinários do IPT para lançar tão hirsutas e explosivas asseverações.

Estava no papel da TFP romper o silêncio e dar a resposta a essas perguntas. Ela o fez por meio do livro Sou católico: posso ser contra a Reforma Agrária?  (1981, 360 pp., 4 edições, 29 mil exemplares), de minha autoria, em colaboração com o Master of Science  em Economia Agrária (pela Universidade da Califórnia, Berkeley, EUA), Prof. Carlos Patricio del Campo.

O livro demonstra que o católico deve ser fiel, acima de tudo, aos ensinamentos tradicionais do Supremo Magistério da Igreja. Ora, um exame detido do IPT leva à conclusão de que não há consonância entre aqueles ensinamentos e a Reforma Agrária preconizada pelo documento da CNBB. Em conseqüência, o católico anti-agro-reformista tem não só o direito, como também o dever de continuar contrário à Reforma Agrária.

A parte econômica da obra prova que o documento da CNBB apresenta graves lacunas, ao traçar o panorama da situação econômica da lavoura brasileira e ao apontar para a “solução”: a Reforma Agrária que pleiteia. Assim, ainda que o pronunciamento episcopal não fosse objetável do estrito ponto de vista da doutrina católica, seria inaceitável do ângulo econômico.

O socialismo autogestionário em vista do comunismo: barreira ou cabeça de ponte? Índice

O título em epígrafe constitui ampla exposição e análise crítica do programa autogestionário de Mitterrand, então recém-eleito Presidente da República Francesa. Esse trabalho, redigido por mim — endossado e divulgado em nome próprio pelas treze TFPs então existentes --, foi estampado a partir de dezembro de 1981 na íntegra em 45 diários de maior circulação de 19 países da América, Europa e Oceania. Um substancioso resumo do mesmo foi publicado em 49 países dos cinco continentes, em treze idiomas. Assim, a difusão do documento atingiu uma tiragem total de 33,5 milhões de exemplares.

Para aquilatar o alcance do mencionado estudo, é preciso ter em conta que, no período que precedeu a primeira eleição do Presidente François Mitterrand, a expressão _ socialismo autogestionário correspondeu a uma espécie de primavera propagandística mundial, de maneira a tornar-se moda nos ambientes da esquerda.

Todo intelectual que se quisesse mostrar aggiornato , isto é, em dia, dizia-se socialista autogestionário .

Tal se devia ao fato de que as palavras “socialismo” e “socialista” estavam em franco processo de envelhecimento, o qual se tratava de sustar mediante um disfarce qualquer. Algo à maneira de uma senhora cujos cabelos estão branqueando, e que por isso procura tingi-los.

Assim, o socialismo, velho de tantas e tantas décadas, e já com o prateado de sua velhice estampado nos cabelos, refazia seu semblante chamando-se autogestionário . Era o modo de revitalizar-se e rejuvenescer.

A denúncia mundial contra o socialismo autogestionário foi de tal porte que as palavras autogestão  e autogestionário  saíram de moda. E o socialismo não pôde, em seu processo de envelhecimento, continuar a recorrer à tintura que entretanto lhe estava proporcionando tão bons resultados propagandísticos.

De lá para cá, só obteve escassos sucessos...

Pior, o fato concreto é que o processo de envelhecimento chegou ao ponto em que, hoje em dia, o socialismo é declarado decrépito pelos seus próprios dirigentes e partidários.

Uma sumária crônica dos fatos posteriores à publicação da referida análise, de minha autoria, atesta o que dissemos.

1.  Com efeito, em 12 de dezembro de 1981 (ou seja, três dias após a publicação do mencionado documento), um prestigioso quotidiano de língua inglesa editado em Paris pelo “New York Times” e pelo “Washington Post”, o “International Herald Tribune”, difundido no mundo inteiro, assim descreveu a reação do governo socialista francês face à aludida análise a respeito do Projeto Socialista para a França dos anos 80 : ”Em Paris, fontes governamentais autorizadas disseram que não estavam preparadas para reagir a esta publicação, mas que a estavam estudando. ‘Absolutamente não há pânico, e estamos bem mais interessados em saber quem ou o que se encontra por detrás desta publicação’, declarou quinta-feira um porta-voz do Eliseu, acrescentando que ‘mais tarde’ poderia haver alguma reação” . Reação esta que em vão se esperaria, pois que não houve.

2.  Convém recordar o que afirmava o referido Projeto Socialista para a França dos anos 80 : ”Não pode haver um Projeto Socialista só para a França. O dilema ‘liberdade ou servidão’, ‘socialismo ou barbárie’ ultrapassa as fronteiras de nosso País .... O socialismo é internacional, por natureza e por vocação .... A França ou é uma aspiração coletiva, ou ela simplesmente não é .... Imensas possibilidades existem para um país como o nosso .... de levar alto e longe, na Europa e no mundo, a mensagem universal do socialismo”  (cfr. _Projet socialiste pour la France des années 80, Club Socialiste du Livre, Paris, maio de 1981, pp. 18, 108, 126, 164).

Igualmente é oportuno lembrar que os socialistas da velha guarda se ufanavam de sua filiação marxista. Assim, escrevia em 1980 o ex-Primeiro-Ministro Pierre Mauroy: _ “Permanecemos fiéis ao espírito do marxismo” (cfr. Documentation Socialiste , suplemento n° 2).

3.  Em dezembro de 1991 -- ou seja, depois de 10 anos de fracassadas tentativas do governo socialista de aplicar seu _Projet — em congresso extraordinário realizado pelo PSF no Arco da Defesa, o radical programa de 1981 foi substituído pelo anódino Novos Horizontes .

Com efeito, pode-se ler nesse novo projeto: _ “Na verdade, o empobrecimento das classes operárias, previsto por certa análise marxista, não se produziu. O nível de vida, na França, foi quadruplicado entre 1950 e 1990 .... Já não se trata, como ocorria no que concerne à antiquada autogestão (sic!), de eliminar os empresários para substituí-los por dirigentes designados pelo Estado ou eleitos pela base .... Os representantes dos assalariados não devem substituir os chefes na direção da empresa .... A força do mercado está em ser insubstituível .... Todas as tentativas de substituí-lo acabaram por fracassar .... O socialismo reivindica e quer outra organização do Planeta, mas esta deverá desenvolver-se no contexto de um capitalismo mundializado” (cfr. Michel Charzat, _Un nouvel Horizon, pp. 94, 96 e 97).

4.  Em outubro de 1992, a ministra da Habitação francesa, Marie-Noèlle Lienemann declarou:  “O Partido Socialista acabou. Nós temos que criar uma nova estrutura, um novo partido” (cfr. “Folha de S. Paulo”, 22-10-92).

Tais declarações equivalem a um verdadeiro atestado de óbito do sonho autogestionário dos socialistas franceses [*]. 

[*] Nota da redação — O leitor desejoso de conhecer mais pormenores sobre mais este eficaz e salutar documento do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — e isto em nível internacional --, se verá plenamente atendido consultando o livro Um homem, uma obra, uma gesta  (pp. 286 a 297).

CEBs: instrumento da esquerda católica para reformar o Brasil num sentido socializante  Índice

Uma corrente teológica dita ”da libertação” , explicitada pelos teólogos Gustavo Gutiérrez e Hugo Assmann e impulsionada pela Conferência do Episcopado Latino-americano de Medellin, em 1968, se expandiu largamente em círculos teológicos de todo o mundo. Ela procura fundamento na Sagrada Escritura para erros veiculados por duas correntes doutrinárias distintas, mas intimamente conjugadas entre si: uma constituída pelo progressismo  no campo da Teologia, da Filosofia e da Moral, com os conseqüentes reflexos entre os estudiosos do Direito Canônico, da História Eclesiástica etc. E a outra pelo esquerdismo  no campo da sociologia católica, também com reflexos conseqüentes nos estudos de Economia e de Política promovidos sob a influência católica, bem como na vida, no pensamento e na ação das correntes políticas denominadas democratas-cristãs , socialistas cristãs , socialistas católicas , etc.

A doutrina da Teologia da Libertação foi condenada em vários de seus aspectos por João Paulo II, em sua Alocução de Puebla (1979). Não obstante, ela continuou a se expandir tranqüilamente por todo o Brasil.

As potencialidades de ação suscitadas ou estimuladas pelo progressismo pedem, por sua própria natureza, uma organização que dê, no plano concreto, unidade de metas e de métodos aos clérigos e fiéis engajados no empreendimento de reformar o Brasil  num sentido socializante.

Esta organização é constituída pelas CEBs.

Para alertar o Brasil contra essa ameaça, os irmãos Gustavo Antonio Solimeo e Luiz Sérgio Solimeo, e eu escrevemos o livro intitulado As CEBs... das quais muito se fala, pouco se conhece — A TFP as descreve como são .

Na primeira parte, mostro como as CEBs são o instrumento da esquerda católica para semear o descontentamento na população (especialmente entre os trabalhadores manuais), transformar em seguida o descontentamento em agitação e, através dessa agitação, impor aos Poderes Públicos a tríplice Reforma: Agrária, Urbana e Empresarial. Tudo isso, muito provavelmente, com vistas a instituir no Brasil um regime socialista autogestionário.

A Parte II da obra informa o público brasileiro sobre a realidade das CEBs — a doutrina disseminada por estas, sua organização, seus métodos para recrutamento de aderentes, e para a ação dos mesmos aderentes sobre o conjunto do corpo social. Para este efeito, os autores dessa parte da obra foram colher os dados, por assim dizer, dos próprios lábios daquelas organizações, isto é, dos escritos em que elas se autodefinem para seus aderentes e para o público. Completam as informações assim coligidas, outras notícias de jornais e revistas inteiramente insuspeitos de distorcer os fatos em detrimento das CEBs.

A partir de agosto de 1982, sócios e cooperadores da TFP encarregaram-se da difusão da obra por todo o Brasil -- 1510 cidades foram visitadas pelas beneméritas caravanas de propagandistas da TFP — tendo-se escoado 6 edições do livro, num total de 72 mil exemplares.

A propriedade privada e a livre iniciativa,  no tufão agro-reformista Índice

Com a inesperada doença e em seguida a morte do presidente eleito, Tancredo Neves, e a ascensão à Presidência da República do Sr. José Sarney, em 15 de março de 1985 inaugurou-se no Brasil a Nova República. Veio ela disposta a levar avante a Reforma Agrária, encalhada desde o Estatuto da Terra, promulgado em novembro de 1964 pelo Governo Castelo Branco.

Concomitantemente, o País estava sendo tumultuado por invasores de propriedades individuais, os quais procuravam justificar suas investidas tomando por base uma fundamentação doutrinária de aparência católica.

Nesse momento em que o País ia entrando numa fase de grandes controvérsias sobre matérias doutrinárias, técnicas e outras, que marcavam a fundo o desempenho da Nova República, publiquei o livro A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista. Nele analiso, item por item, o Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), então lançado pelo Governo federal. Como sempre, tomo como base doutrinária os ensinamentos do Supremo Magistério da Igreja, na defesa da propriedade privada e da livre iniciativa — e das respectivas funções sociais — gravemente feridas pelo PNRA.

Em ampla campanha de esclarecimento da opinião pública acerca da Reforma Agrária, 52 duplas de propagandistas da TFP e quatro caravanas de sócios e cooperadores da entidade percorreram 694 cidades em 19 Unidades da Federação, fazendo escoar duas edições do livro, num total de 16 mil exemplares, e mais 30 mil exemplares de uma edição especial de Catolicismo  (n° 415-416, de julho-agosto de 1985), com excertos do livro.

Nessa verdadeira epopéia anti-agro-reformista, os propagandistas da TFP contactaram então mais de dez mil fazendeiros de norte a sul do Brasil.

Guerreiros da Virgem: a réplica da autenticidade — A TFP sem segredos Índice

Toda a luta que venho desenvolvendo contra a Revolução não ficaria adequadamente descrita se não mencionasse a contra-ofensiva dos adversários, que se segue a cada lance maior desse combate.

Enveredar pela narração pormenorizada de tal contra-investida seria alongar em demasia este auto-retrato filosófico. Restrinjo-me a um exemplo típico.

Apenas oito dias após seu primeiro lance na batalha anti-agro-reformista que acaba de ser descrita, a TFP era objeto de uma investida publicitária em matéria alheia à controvérsia agrária: uma reportagem publicada em “O Estado de S. Paulo”, ocupando página inteira, sob o título Guerreiros da Virgem, escravos da TFP .

Tal reportagem fora precedida por vistosa propaganda publicada durante todos os dias da semana anterior.

Fazendo eco à publicidade de “O Estado de S. Paulo”, 29 outros jornais e revistas de todo o País divulgaram matérias de variadas extensões, com esse mesmo conteúdo.

O eixo de toda a celeuma era o livro Guerreiros da Virgem — A vida secreta da TFP , pouco depois colocado à venda nas livrarias de São Paulo e de outras cidades do Brasil. Seu autor, o Sr. José Antonio Pedriali, fora cooperador da entidade, e agora integrava o quadro de jornalistas de “O Estado de S. Paulo”.

Para condensar numa única frase todo o extenso corpo de acusações do Sr. J.A.P., pode-se dizer que, segundo ele, a TFP seria uma seita  de caráter iniciático que, por meio da lavagem cerebral , produz efeitos altamente danosos sobre seus sócios e cooperadores.

Tão pesadas acusações eram feitas em tom de uma aparente naturalidade, quase sorridente. Ao mesmo tempo, o livro inclui descrições tão cruamente imorais, e até tão obscenas, de lances da conduta do autor em seu processo de afastamento da TFP, que poderiam figurar na farta literatura pornográfica atualmente em curso no País.

Tudo isto vinha à tona, como foi dito, no preciso momento em que a TFP se erguia mais uma vez contra a Reforma Agrária socialista e confiscatória. Procurava-se inculcar no público uma nova imagem da entidade: a TFP não seria... anticomunista! Não seria o que todo o povo brasileiro sabe que, desde sua fundação, ela é de modo ininterrupto, notório e heróico. Seria, pelo contrário, uma seita  obscura, e todo o gigantesco esforço anticomunista de seus sócios e cooperadores não passaria de uma miragem, de um embuste.

Apesar da propaganda estrondejante que precedeu e acompanhou o lançamento desse livro, ele nem de longe causou o efeito que seu autor e a lançadora pareciam esperar.

Tudo quanto é exagerado é insignificante”  -- afirmou Talleyrand. O desmesurado, o evidentemente inverossímil da acusação do Sr. J. A. Pedriali reduziu-a liminarmente à merecida insignificância.

A resposta da TFP a essas acusações constou do livro que escrevi, Guerreiros da Virgem: a réplica da autenticidade — A TFP sem segredos  (Editora Vera Cruz, São Paulo, 1985, 333 pp.). Nele aponto as manipulações que se têm feito da palavra seita , com vistas a denegrir as entidades que, como a TFP, levantem obstáculos ao processo revolucionário. Ali mostro, também, que lavagem cerebral  é uma expressão jornalística que os cientistas de bom quilate não levam a sério.

Como de hábito, à réplica da TFP seguiu-se o silêncio dos adversários, que nada encontraram para treplicar.

Na verdade, as batalhas da TFP, nas quais, como é óbvio, me encontro pessoalmente envolvido, caracterizam-se por um ritornello : 1°) a uma campanha nossa segue-se uma contra-ofensiva dos adversários sobre um ponto extrínseco ao tema da campanha; 2°) a TFP refuta as acusações dos adversários e estes se calam; 3°) tempos depois (às vezes anos), os adversários (os mesmos ou outros) voltam às acusações iniciais, como se nada houvesse sido refutado!...

 25 anos de luta contra o agro-socialismo confiscatório  Índice

A Nova República prosseguia no seu esforço inglório de implantar no Brasil o agro-socialismo confiscatório. A TFP, sempre atenta, acompanhava de perto cada lance.

Em 1986, a meu pedido, o conhecido Master of Science  em economia agrária, Carlos Patricio del Campo, sócio efetivo da TFP brasileira, escreveu o livro Is Brazil Sliding Toward the Extreme Left? -- Notes on the Land Reform Program in South America’s Largest and Most Populous Country , que a TFP norte-americana lançou em Washington, em outubro de 1986. Receberam o livro os principais centros de decisão norte-americanos: todos os membros de primeiro e segundo escalão do Governo dos Estados Unidos; todos os senadores e deputados, embaixadores norte-americanos; bancos internacionais com sede nos Estados Unidos, centenas de intelectuais conservadores, brazilianists  e 1.100 jornalistas.

A obra apresenta penetrante análise da realidade sócio-econômica brasileira, solidamente baseada em estatísticas insuspeitas. Os prestidigitadores da fome e da miséria, os quais, sob esse pretexto, queriam impingir ao País uma Reforma Agrária socialista e confiscatória, ficavam, assim, privados de sua insustentável argumentação.

No prefácio do livro descrevo, em rápidas pinceladas, o Brasil real, em confronto com o quadro profundamente pessimista e tendencioso apresentado pela propaganda esquerdista no Exterior.

Entrementes, a TFP se preparava para entrar em nova campanha, desta vez para divulgar o livro de minha autoria, No Brasil, a Reforma Agrária leva a miséria ao campo e à cidade — A TFP informa, analisa, alerta  (Editora Vera Cruz, São Paulo, 64 pp.), no qual faço um balanço de 25 anos de luta contra o agro-socialismo confiscatório, e incito os fazendeiros e produtores rurais a não se deixarem embair pelo velho slogan  agro-reformista ceder para não perder , alertando-os para o fato de que a irresolução deles era a primeira condição de êxito da investida agro-reformista.

Da obra foram feitas quatro edições, num total de 55 mil exemplares, vendidos diretamente ao público em campanhas de rua, pelos propagandistas da TFP.

Rumo à socialização integral do País: uma Constituição que a maioria da população não quer  Índice

Dado que o modelo de democracia-direta  -- que vigeu, por exemplo, nos Estados de dimensões municipais da Antigüidade helênica — é impraticável nos Estados contemporâneos, devido à amplitude de sua população e de seu território, a democracia se exerce neles de modo indireto , ou seja, representativo .

Assim, os cidadãos elegem representantes, que votam as leis e dirigem o Estado segundo as intenções do eleitorado. É democracia representativa .

A relação entre o eleitor e o candidato por ele sufragado é, em essência, a de uma procuração. O eleitor confere ao candidato a deputado ou senador de sua preferência um mandato, para que exerça o Poder Legislativo segundo o programa que este deve expor normalmente ao conhecimento da opinião pública durante a campanha eleitoral.

Análogas afirmações cabem quanto às eleições para o preenchimento de vagas no Poder Executivo.

Em conseqüência de quanto fica aqui exposto, a autenticidade do regime democrático repousa por inteiro sobre a autenticidade da representação.

É isto óbvio. Pois, se a democracia é o governo do povo, ela só será autêntica se os detentores do Poder Público (tanto o Executivo  como o Legislativo ) forem escolhidos e atuarem segundo os métodos e tendo em vista as metas desejados pelo povo.

Se tal não se dá, o regime democrático não passa de uma vã aparência, quiçá de uma fraude.

Tal problema se colocava de modo agudo para os brasileiros que tinham sido chamados a eleger, em 15 de novembro de 1986, parlamentares que formariam a futura Assembléia Nacional Constituinte.

Realizado o pleito eleitoral, impunha-se fazer um estudo que versasse ao mesmo tempo sobre a representatividade da Constituinte então eleita e sobre o Projeto de Constituição que ela estava elaborando.

O resultado desse estudo foi o livro Projeto de Constituição angustia o País , que concluí em outubro de 1987, e que foi oferecido a todos os Constituintes como contribuição para evitar o funesto desfecho que se podia vislumbrar ante o eventual divórcio do novo texto constitucional em relação ao pensamento majoritário da Nação.

Na Parte I desse trabalho analiso os requisitos para a representatividade de uma eleição. Faço aí a distinção entre políticos-profissionais  e profissionais-políticos , e mostro como o ingresso destes últimos na vida pública, como representantes autênticos das mais variadas profissões ou campos de atividade, enriqueceria o quadro político do País.

Nisso estaria, a meu ver, o meio para desfazer o alheamento do eleitorado (manifestado pela surpreendente porcentagem de abstenções, votos brancos e nulos) e sanar a carência de representatividade da Constituinte, melancólico resultado da eleição-sem-idéias  de 1986 (Parte II).

A essa carência de representatividade congênita veio somar-se outra, decorrente do funcionamento tumultuado e anômalo da própria Constituinte, em que as inautenticidades se sucediam em cadeia: 1°) o Plenário da Constituinte era menos conservador do que o eleitorado; 2°) as Comissões temáticas eram mais esquerdistas que o Plenário; 3°) a Comissão de Sistematização (que coordenava o trabalho preparado pelas Comissões temáticas) apresentava a maior dose de concentração esquerdista da Constituinte. Assim, uma minoria esquerdista ativa, articulada, audaciosa, ameaçava arrastar o País por rumos não desejados pela maioria da população (Parte III).

Na Parte IV analiso o Projeto de Constituição que então subia para debate em Plenário, e mostro como se estava dando um grande passo rumo à socialização integral do Brasil, notadamente no que concerne à desagregação da família e ao minguamento da propriedade particular.

O livro termina com uma proposta concreta: em primeiro lugar, votar-se-ia uma Constituição sobre a organização política, a respeito da qual facilmente se pode chegar a um consenso nas condições atuais da opinião pública brasileira. Aprovada essa parte pelos constituintes, seria submetida a um referendum  popular. Numa segunda etapa, após amplo trabalho de esclarecimento da população sobre as matérias de natureza sócio-econômica, a respeito das quais há uma profunda divisão, elaborar-se-ia um complemento, o qual também seria submetido a referendum . Isto importaria em dar à população a maior largueza possível de expressão, e a Constituinte, em pontos tão delicados, elevar-se-ia ao nobre papel de interrogar o povo para conhecer sua vontade.

Sócios e cooperadores da TFP consagraram-se, durante cinco meses, a difundir a obra por mais de 240 cidades de 18 Unidades da Federação, fazendo escoar os 73 mil exemplares editados.

Ressalte-se a média recorde de 1.083 exemplares diários vendidos durante os dezenove dias de difusão intensiva na Grande São Paulo.

Finalmente, esboçou-se uma certa reação dos elementos mais conservadores no seio da Constituinte; porém faltavam-lhes o ímpeto e a determinação necessários para reverter o processo descrito no livro. E o Brasil foi presenteado  com uma Constituição que criaria em seguida toda espécie de embaraços para a governabilidade do País.

Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana Índice

Um dos aspectos mais graves da presente crise brasileira tem como causa profunda o processo de deperecimento gradual de nossas elites.

Desde fins do século XIX, esse fenômeno se vem produzindo com crescente intensidade, sem que nosso otimismo brasileiro, despreocupado e bonacheirão, tenha dado ao fato a devida atenção. E isto nos conduziu a este terrível fim de século.

Em qualquer campo de atividade onde se queiram reintroduzir a honradez, a competência e a ordem, não faltam sugestões inteligentes a pôr em prática. Mas a grande questão que surge desde logo é a da constituição, para cada plano, de uma equipe moral e intelectualmente capaz. Inteligências — muitas das quais até insignes — não nos faltam. Infelizmente nossa maior carência é no campo moral, e a todo momento nos encontramos diante desta embaraçosa constatação.

E por que não temos tais equipes? Porque não temos as necessárias elites. Onde há elites moral e intelectualmente capazes, os homens idôneos por sua competência e por sua moralidade não faltam. Onde não há elites, os homens de real valor são raros, pouco conhecidos e condenados a vegetar anônimos na multidão dos medíocres ou dos gatunos.

O memorável Pontífice Pio XII (1939-1958) previu provavelmente que, mais cedo ou mais tarde, as condições morais do mundo moderno levariam a essa situação quase todos os países. O que lançaria a humanidade em uma crise onímoda de imprevisíveis conseqüências. Assim é que ele pronunciou, em seu pontificado, catorze importantíssimas alocuções, as quais contêm um apelo a que fossem preservados cuidadosamente, nos países com tradição nobiliárquica, as aristocracias respectivas. E que, ao mesmo tempo, as elites novas, originadas do trabalho exercido no campo da cultura, como no da produção, encontrassem condições propícias para constituírem elites autênticas, congêneres com a nobreza por sua formação moral e cultural, como por sua capacidade de mando. Caber-lhes-ia formar, à maneira da nobreza, verdadeiras elites capazes de originar homens de escol nos mais variados campos.

No Brasil, o apelo de Pio XII quase não teve repercussão. Teve-a escassa em outros países. E, assim, a falta de elites, que para nós era um problema trágico, para outras nações constitui problema sério a que cumpre dar remédio urgente.

Visando contribuir para a solução desse magno problema, escrevi o livro Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, que analisa as condições do mundo contemporâneo à luz das catorze alocuções de Pio XII.

A primeira edição desta obra em idioma português foi confiada à notável Editora Civilização, de Portugal, e veio a lume em abril de 1993. Traduzida para o castelhano, a obra foi divulgada na Espanha pela Editora Fernando III El Santo. Essa edição cobriu não só o território espanhol, como o das nações hispano-americanas.

Nos Estados Unidos, a obra foi publicada pela importante editora Hamilton Press, e teve seu lançamento oficial no prestigioso Mayflower Hotel de Washington, em setembro de 1993. Na ocasião, diante de um público de 850 convidados, entre os quais a Arquiduquesa Mônica da Áustria e o Duque de Maqueda, Grande de Espanha, discursaram personalidades de alto relevo na vida pública norte-americana.

Na França, publicado pela Editora Albatros, o livro vem encontrando larga aceitação em amplos setores daquele país.

Na Itália, a obra foi publicada pela Editora Marzorati, e apresentada no Congresso da Nobreza Européia, realizado em Milão em outubro de 1993, como também numa concorrida sessão de lançamento oficial no Circolo della Stampa, Palácio Seberlloni, daquela cidade.

O lançamento em Roma ocorreu no histórico palácio da Princesa Elvina Pallavicini, com a presença do Cardeal Alfons Stickler, de Mons. Cândido Alvim Pereira, Arcebispo emérito de Lourenço Marques, do Arquiduque Martin da Áustria, de príncipes, princesas e inúmeros outros membros da mais alta aristocracia italiana.

Nesses diversos atos, a obra foi, além de acuradamente analisada, também vivamente elogiada pelos distintos conferencistas que se sucederam no decurso das sessões então realizadas.

Na imprensa romana, a repercussão desse lançamento foi das mais vivas. Os principais quotidianos noticiaram com grande destaque o evento, o qual chegou a ser apresentado (“Il Tempo”, 31-10-93) como ”os estados gerais da aristocracia negra”  (assim é designada a parte mais tradicional da nobreza romana, a qual, solidária com a Santa Sé, se recusou a reconhecer a anexação forçada dos Estados Pontifícios à Itália).

Importa consignar aqui essas excelentes repercussões da obra, para mostrar a atualidade do tema nela tratado. Pois o mero enunciado do título dela poderia parecer, a várias pessoas, como de interesse unicamente histórico.

De sua perfeita consonância com o ensinamento pontifício dão testemunho calorosas cartas de apoio dos Emmos. Cardeais Silvio Oddi, Luigi Ciappi, Alfons M. Stickler e Bernardino Echeverría, e de teólogos de fama mundial, como os padres Raimondo Spiazzi OP, Victorino Rodríguez OP, e Anastasio Gutiérrez CMF.

Estudos, análises e pronunciamentos públicos  Índice

Minha atuação doutrinária desenvolve-se também por meio de pronunciamentos publicados pela imprensa, TV e rádio, sobre as questões mais candentes, ou pelo envio às autoridades, de estudos e análises sobre temas de atualidade. Essa ação, exerço-a por vezes em nome pessoal, porém mais freqüentemente em nome do Conselho Nacional da TFP, que tenho a honra de presidir. Cito alguns exemplos.

  • - Em dezembro de 1970 publiquei na imprensa diária um longo documento, essencialmente doutrinário, intitulado Análise, defesa e pedido de diálogo , defendendo a TFP dos ataques que lhe fazia o então Primaz do Brasil e Arcebispo de Salvador, Cardeal D. Eugênio Sales, e ressaltando as afinidades ideológicas deste com o Arcebispo emérito de Recife, D. Helder Câmara, no que se refere ao esquerdismo.

  • - Em 1972 enviei ao então Ministro da Justiça, Prof. Alfredo Buzaid, uma análise sobre o anteprojeto de Código Civil, no qual apontava uma tendência genérica ao relaxamento dos vínculos constitutivos da família e um injustificável preconceito contra a condição de proprietário, em benefício de uma concepção coletivista da sociedade humana.

  • - Em abril de 1974, tendo chegado a seu auge a Ostpolitik  vaticana, trazendo como conseqüência enorme perturbação de consciência para a maioria anticomunista de católicos, vi-me levado pelas circunstâncias a elaborar um documento — vazado na linguagem mais reverente — em que demonstro, com base na doutrina católica, a liceidade da resistência à détente  com o comunismo, então promovida pelo Vaticano. Esse documento, intitulado A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas — Para a TFP: omitir-se? ou resistir? , foi largamente difundido pela imprensa nacional e internacional[*].

[*] O documento — verdadeiro manifesto — foi publicado em 57 diários de onze países: no Brasil, em 36 jornais dos mais diversos pontos do País; na Argentina em “La Nación”, de Buenos Aires, e “La Voz del Interior”, de Córdoba; no Chile em “La Tercera”, de Santiago, “El Sur”, de Concepción, “El Diario Austral”, de Temuco, “La Prensa”, de Osorno; no Uruguai em “El País”, de Montevidéu; na Bolívia em “El Diario”, de La Paz; no Equador em “El Comercio”, de Quito; na Colômbia em “El Tiempo” e “El Espectador”, de Bogotá; na Venezuela em “El Universal”, “El Nacional”, “Ultimas Noticias”, “El Mundo” e “2001”, de Caracas; nos Estados Unidos em “The National Educator”, de Fullerton, California; no Canadá em “Speek Up”, de Toronto; na Espanha em “Hoja del Lunes” e “Fuerza Nueva”, de Madrid e “Región”, de Oviedo . Divulgaram-na, também, além de Catolicismo , os jornais e revistas das diversas TFPs e entidades afins: “Tradición, Familia, Propiedad”, da Argentina; “Fiducia”, do Chile; “Cristiandad”, da Bolívia; “Reconquista”, do Equador; “Cruzada”, da Colômbia; “Covadonga”, da Venezuela e “Crusade for a Christian Civilization”, dos Estados Unidos.

  • - Em fevereiro de 1990, diante da espetacular derrubada do muro de Berlim e da cortina de ferro, e dos abalos políticos que se sucediam nos diversos países do bloco comunista, redigi o manifesto intitulado Comunismo e anticomunismo na orla da última década deste milênio , em que analiso o Descontentamento (assim grafado com inicial maiúscula) que lavrava naquelas nações e que logo depois teria como resultado o esfacelamento do império soviético. O manifesto foi publicado pelas diversas TFPs em 21 jornais de oito países da América e da Europa.

O verdadeiro pensador deve ser também um observador da realidade palpável de todos os dias  Índice

Como jornalista, comecei minha carreira no “Legionário”, então expressão do pensamento da Congregação Mariana da paróquia de Santa Cecília, e mais tarde órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo. Algo já disse sobre minha atuação à frente desse periódico, do qual fui diretor de 1933 a 1947.

Em 1951, com a maior parte dos antigos colaboradores do “Legionário”, comecei a escrever no mensário "Catolicismo", que então se fundava, e o qual continua a ser publicado com crescente pujança. "Catolicismo"  tem uma tiragem média que atinge 15 mil exemplares, além de edições especiais de várias dezenas de milhares.

Foi também em "Catolicismo"  que criei e mantive, durante vários anos, a seção Ambientes, Costumes, Civilizações , por muitos apontada como a expressão rica e original de uma escola de produção intelectual. Essa seção constava da análise comparativa de aspectos do presente e do passado, tendo por objeto monumentos históricos, fisionomias características, obras de arte ou de artesanato, apresentados ao leitor através de fotos. Tal análise, feita à luz dos princípios que explicitei em Revolução e Contra-Revolução , tinha por meta mostrar que a vida de todos os dias, em seus aspectos-ápice ou triviais, é suscetível de ser penetrada pelos mais altos princípios da Filosofia e da Religião. E não só penetrada, mas também utilizada como meio adequado para afirmar ou então negar — de modo implícito, é verdade, mas insinuante e atuante — tais princípios. De tal forma que, freqüentemente, as almas são modeladas muito mais pelos princípios vivos  que pervadem e embebem os ambientes, os costumes e as civilizações, do que pelas teorias por vezes estereotipadas e até mumificadas, produzidas à revelia da realidade, em algum isolado gabinete de trabalho ou postas em letargo em alguma biblioteca empoeirada. De onde a tese de Ambientes, Costumes, Civilizações  consistir em que o verdadeiro pensador também deve ser normalmente um observador analista da realidade concreta e palpável de todos os dias. Se católico, esse pensador tem ademais o dever de procurar modificar essa mesma realidade, nos pontos em que ela contradiga a doutrina católica.

De 1968 a 1990 colaborei como articulista assíduo na “Folha de S. Paulo”, analisando problemas da atualidade brasileira e mundial sob o ângulo doutrinário. Com freqüência que se tornou habitual, meus artigos são reproduzidos em jornais norte-americanos e latino-americanos.

O caráter tradicionalista de uma corrente de pensamento não lhe tira a visão da realidade  Índice

Em meus livros e artigos, denunciei amplamente o grande desgaste do comunismo marxista e sua incapacidade de empolgar as multidões e conquistar o poder, e, conseqüentemente, a necessidade em que ele se encontrou, para dar curso à Revolução encalhada, de recorrer com eficiência aos ardis da guerra psicológica revolucionária.

Acontecimentos posteriores patentearam tragicamente, diante do mundo estupefato, a procedência de minhas afirmações sobre o impressionante desgaste do chamado comunismo ortodoxo. Acentuo o fato para mostrar que o caráter tradicionalista de uma corrente de pensamento não lhe tira a visão da realidade. Pelo contrário, nenhuma análise lúcida do presente pode prescindir da tradição que o impregna, e em função da qual — a favor ou contra — se estrutura o porvir.

Empreguei intencionalmente a expressão corrente de pensamento . Creio que, mais ainda do que em meus livros e na minha atuação como professor universitário e jornalista, encontro a imagem de meu pensamento e o fruto de meu trabalho doutrinário em um grupo de estudos e de ação, que se constituiu inicialmente em torno do “Legionário”, e em seguida de Catolicismo . Fosse este grupo socialista ou comunista, e as tubas da propaganda já teriam levado seu nome ao conhecimento do mais largo público, tal a inteligência, a cultura, a lucidez de observação que distinguem meus nobres companheiros. Preferiram eles, entretanto, aceitar desinteressadamente as conseqüências da campanha de silêncio que tenta abafar implacavelmente, em nossos dias de pretensa liberdade, a voz de quantos cantam fora do coro da Revolução universal.

Destaco aqui o nome daqueles que a Providência já chamou a si: pelo brilho de sua colaboração no “Legionário” e em Catolicismo , o vigoroso polemista que foi o engenheiro José de Azeredo Santos; o professor universitário Fernando Furquim de Almeida, autor de estudos históricos de alto mérito; o advogado, escritor e redator exímio, José Carlos Castilho de Andrade, sob cujas mãos os artigos e textos de Catolicismo  alcançavam um brilho e uma correção inexcedíveis. Foi ainda uma emanação dessa corrente de pensamento o livro penetrante, ao qual já me referi, de Fábio Vidigal Xavier da Silveira, Frei, o Kerensky chileno , qualificado de “profético” por observadores políticos chilenos.

TFP: os valores essenciais da civilização cristã despertam entusiasmo e dedicação incontáveis  Índice

O mencionado núcleo de homens de estudo e de ação constituiu o pugilo inicial da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Essa Sociedade é não só um precioso instrumento de difusão de todas as obras aqui referidas, mas também uma pública afirmação de que na juventude de hoje a tradição, a família e a propriedade, valores essenciais da civilização cristã, são capazes de despertar entusiasmo e dedicação sem limites.

Nos cursos, nas pensões, nas sedes que a TFP mantém em cerca de trinta cidades dos mais diversos Estados da Federação, a grande maioria dos freqüentadores são jovens que se transformam em cooperadores abnegados e fervorosos. Ultrapassam eles, em nosso País, a cifra de 1.200.

Os jovens cooperadores da TFP são provenientes de famílias das mais variadas classes sociais, desde representantes da antiga nobreza imperial, da velha aristocracia rural da I República e dos novos capitalistas do mundo industrial e bancário da II República, até famílias de trabalhadores manuais, passando por toda a gama dos estratos sociais intermediários.

A TFP conta também com a colaboração de correspondentes-esclarecedores , isto é, pessoas que, permanecendo extrínsecas ao quadro social, dão solidariedade irrestrita aos princípios e aos métodos desta Sociedade, e empregam o tempo que lhes deixe livres o cumprimento de seus deveres familiares e profissionais, na propaganda da TFP, de suas doutrinas e ideais.

Graças ao trabalho desinteressado e elevadamente idealista dos cooperadores da TFP e, na medida de suas possibilidades, dos correspondentes da mesma, a entidade tem podido empreender uma série de campanhas, cuja narração entra a propósito aqui, porque são reflexo do pensamento a que dediquei minha vida:

  • - Em 1966, o Governo Castelo Branco apresentou um projeto de Código Civil divorcista. Mantendo na rua, durante cinqüenta dias, uma média de quatrocentos coletores de assinaturas, foi possível à TFP reunir 1.042.359 firmas contrárias ao divórcio. O Governo retirou o projeto.

  • - Em 1968, a TFP realizou em todo o Brasil uma campanha de coleta de assinaturas, desta vez pedindo a Paulo VI medidas contra a infiltração esquerdista em meios católicos. O fato detonador da campanha foi o tristemente célebre documento Comblin , no qual o sacerdote belga Joseph Comblin, acobertado em Recife por D. Helder Câmara, pregava reformas escandalosamente subversivas. Nessa ocasião, 1.600.368 brasileiros subscreveram, em apenas 58 dias, o abaixo-assinado. As TFPs da Argentina, Chile e Uruguai resolveram fazer análoga campanha face a problemas surgidos nos seus respectivos países, o que resultou no envio a Paulo VI de um total de 2.025.201 assinaturas.

  • - Já no ano seguinte tratou-se da difusão de um número especial de Catolicismo , denunciando os chamados “grupos proféticos” e o IDO-C, organismos enquistados na Igreja para corroê-la internamente, e levá-la depois a jogar-se na subversão. Nessa ocasião, dezenove caravanas de jovens propagandistas percorreram, em 70 dias, 514 cidades (em vinte Estados) de nosso território. Foram então vendidos 165 mil exemplares de Catolicismo . Foi nessa campanha que, pela primeira vez, por iniciativa minha, a TFP lançou, para uso dos seus cooperadores, a capa rubra ostentando o leão áureo, hoje tão conhecida. Juntamente com o estandarte, as capas têm marcado, de lá para cá, não só a fisionomia da TFP, mas — por ocasião das campanhas da entidade — a própria paisagem das cidades brasileiras.

  • - Cinqüenta cidades de nosso País assistiram, em 1970, à campanha de divulgação, feita pela TFP, de um artigo-manifesto que redigi, intitulado Toda a verdade sobre as eleições no Chile . Contribuiu ele sensivelmente para anular o mau efeito que a propaganda comunista procurava produzir no Brasil, quando da eleição do socialo-comunista Allende para Presidente da República andina. Foram distribuídos na ocasião 550 mil exemplares desse manifesto, além da venda, em larga escala, de Frei, o Kerensky chileno .

  • - Em dezembro do mesmo ano, a TFP arrecadou, em campanha pública realizada em quatro das principais capitais do País, grande quantidade de dinheiro, roupas, brinquedos e gêneros alimentícios, para o Natal dos pobres. O produto da coleta foi entregue a associações de caridade, para que o distribuíssem.

  • - Em fins de 1972 e início de 1973, a TFP promoveu uma campanha de porte nacional para a difusão da corajosa e oportuníssima Carta Pastoral sobre Cursilhos de Cristandade , de D. Antonio de Castro Mayer [*]. Nela, o então Bispo de Campos alertava os católicos de sua Diocese sobre perigosos erros doutrinários, inclusive abertura para o marxismo, que afetavam numerosos setores desse movimento. Em quatro meses, treze caravanas com 120 propagandistas percorreram 1328 cidades de norte a sul do Brasil, vendendo 93 mil exemplares da Pastoral.

[*] Nota da redação — O referido documento foi redigido, portanto, 10 anos antes do afastamento do Prelado em relação à TFP.

  • - Em 1974, sócios e cooperadores da TFP empenham-se em ajudar o Exército Azul de Nossa Senhora de Fátima a promover a peregrinação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima, que chorara milagrosamente em Nova Orleans, Estados Unidos. O bem que essa Imagem Peregrina tem feito às almas, no Brasil e no Exterior, é literalmente incalculável. Mais de 500 mil pessoas acorreram para venerá-la em seu percurso pela América do Sul.

  • - Em 1975 o divorcismo voltou à carga, através de duas emendas constitucionais. A TFP também retornou às ruas, desta vez para difundir a Carta Pastoral Pelo casamento indissolúvel , do Bispo de Campos, D. Antonio de Castro Mayer. Em pouco mais de um mês venderam-se cem mil exemplares da Carta Pastoral. As emendas divorcistas foram rejeitadas.

  • - A partir de maio de 1977, a TFP do Brasil, bem como as demais TFPs do continente americano, divulgaram em seus respectivos órgãos de imprensa e em dezenas de milhares de folhetos um importante estudo entregue pela TFP norte-americana aos membros de ambas as Casas do Congresso, ao Departamento de Estado e a influentes personalidades da vida pública dos Estados Unidos. Intitulado Direitos humanos na América Latina — o utopismo democrático de Carter favorece a expansão comunista , o estudo da TFP norte-americana observa que a administração Carter _”se outorgou o direito de definir, dogmaticamente, e com validade absoluta para todos os povos, grande número de pontos controvertidos, como se fosse uma espécie de Vaticano infalível, determinando a natureza das liberdades civis que todas as nações têm que aceitar”.

  • - Expoentes da Teologia da Libertação reuniram-se em fins de fevereiro de 1980 em Taboão da Serra, em São Paulo. À noite, entretanto, eram realizadas pelas CEBs sessões de animação dos participantes da jornada de Taboão da Serra, no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA). A noite de 28 de fevereiro foi especialmente consagrada à Revolução Sandinista da Nicarágua, e constituiu um forte incitamento à guerrilha, feito pelos sandinistas à esquerda católica brasileira e de toda América Latina. "Catolicismo"  obteve a gravação da sessão (facultada, aliás, a qualquer pessoa presente) e a publicou, com comentários meus, no número de julho-agosto de 1980. As caravanas de propagandistas da TFP divulgaram a reportagem de Catolicismo  por todo o território nacional (36.500 exemplares). As TFPs da Argentina, Colômbia, Equador, Uruguai e Espanha reproduziram meu estudo sobre a Noite Sandinista em seus respectivos países, totalizando, com a edição do Brasil, 80.500 exemplares.

  • - Consultados por proprietários rurais, os professores Sílvio Rodrigues, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, e Orlando Gomes, da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, afirmam, em bem fundamentados pareceres, que toca aos fazendeiros, desassistidos do Poder Público, o direito de defender-se à mão armada contra bandos de desordeiros que tentam invadir suas propriedades, com a intenção de ocupá-las ilegalmente. A partir de janeiro de 1986, a TFP deu a mais ampla divulgação aos pareceres dos dois eminentes jurisconsultos, fazendo-os publicar em 87 jornais de 76 cidades de 21 Estados.

  • - Durante 130 dias, de 31 de maio a princípios de outubro de 1990, as TFPs e Bureaux -TFP reuniram 5.218.020 assinaturas em 26 países, para um abaixo-assinado hipotecando solidariedade à declaração de independência da Lituânia do jugo soviético. Uma delegação das TFPs, de onze membros, entregou o abaixo-assinado ao Presidente da Lituânia, Vytautas Landsbergis, no dia 4 de dezembro de 1990. No dia 6, já em Moscou, a delegação se fez fotografar em plena Praça Vermelha, desfraldando um estandarte da entidade, com todos os seus integrantes portando a capa vermelha característica das TFPs. E no dia 11 do mesmo mês a comitiva entregou, nos próprios escritórios do Kremlin, uma carta coletiva dos presidentes de todas as TFPs ao Presidente da URSS, Mikhail Gorbachev, solicitando-lhe formalmente que, diante dessa categórica manifestação do mundo livre, removesse todos os obstáculos que impediam a Lituânia de alcançar sua plena independência.

  • - Entre as memoráveis campanhas da TFP, incluem-se também as de difusão dos livros que escrevi, bem como das demais obras editadas sob os auspícios da entidade. Dentre estas, cabe destacar, pela sua originalidade, a coleção intitulada Diálogos Sociais . Consiste ela em vários opúsculos que tratam de diversos temas ligados à problemática comunismo-anticomunismo, no diapasão em que são habitualmente sentidos e comentados pelo homem comum em conversas caseiras e encontros de rua. Os Diálogos Sociais  colocam ao alcance do grande público, de modo resumido e substancioso, argumentos para que ele possa premunir-se contra as artimanhas da propaganda do socialismo e do comunismo. Os três opúsculos da coleção editados no Brasil intitulam-se: N° 1 -- A propriedade privada é um roubo? ; N° 2 -- Devemos trabalhar só para o Estado? ; N° 3 -- É anti-social economizar para os filhos?  Em edições sucessivas foram vendidos, no Brasil, 100 mil exemplares de cada opúsculo.

  • - Outras atuações da TFP: publicação de manifestos pelos jornais e estudos enviados às autoridades mostrando os aspectos socializantes da lei do inquilinato; carta ao Presidente Castelo Branco em prol de uma lei de imprensa que conciliasse a repressão dos abusos com uma justa e adequada liberdade; missas anuais realizadas: 1)  pelas almas das vítimas que o comunismo vem fazendo, desde 1917, em todo o mundo, em particular no Brasil, através de atos de terrorismo, e 2) pela libertação dos povos escravizados pela seita vermelha; campanhas realizadas pelos estudantes da entidade a fim de alertar a juventude universitária sobre a origem e objetivos esquerdistas de certas fermentações estudantis; memorial ao Ministro da Justiça contra o aborto; visitas sistemáticas a hospitais, a fim de levar o conforto de uma palavra cristã e de uma dádiva material aos doentes, principalmente os mais pobres e abandonados; recolhimento de roupas e alimentos de pessoas abastadas e posterior distribuição nos bairros pobres.

Se quisesse historiar aqui tudo o que a TFP tem feito na linha da difusão doutrinária e do combate ideológico, seria um não mais acabar. Citei, portanto, apenas as grandes campanhas levadas a cabo pela organização que fundei, e cujo Conselho Nacional tenho a honra de presidir. Elas têm cabida aqui porque completam, mais ainda do que meu retrato filosófico, a fisionomia dos princípios que defendo.

No campo das idéias, não existe apenas o antigo e o novo, mas sobretudo o verdadeiro e o perene  Índice

Com efeito, ao ler este retrato filosófico , muitos terão tido em mente, de começo a fim, uma objeção: tudo isto é anacrônico e incapaz de deitar raízes no mundo em que vivemos.

A linguagem dos fatos é outra. No campo das idéias, não existe apenas o antigo e o novo, como quereriam os evolucionistas. Existem também, e sobretudo, o verdadeiro, o bom, o belo e o perene. Em contraposição irreconciliável com o erro, o mal e o disforme. E ao verum, bonum  e pulchrum , significativos setores da juventude hodierna não só permanecem sensíveis, mas engajaram uma marcha de resoluta expansão.

A tradição do perene não é morte, mas vida — vida de hoje e vida de amanhã. De outra maneira não se explicaria este fato patente, que é a repercussão das várias TFPs na mais nova juventude deste nosso novíssimo continente.

Não pretendo ser apenas um defensor do passado, mas um colaborador — com outras forças vivas — para influir no presente e preparar o futuro. Estou certo de que os princípios a que consagrei minha vida são hoje mais atuais do que nunca e apontam o caminho que o mundo seguirá nos próximos séculos.

Os céticos poderão sorrir. Mas o sorriso dos céticos jamais conseguiu deter a marcha vitoriosa dos que têm Fé.