Artpress
Indústria Gráfica e Editora Ltda., São Paulo, 1992
Verdades Esquecidas
Coletânea
de textos do mensário “Catolicismo”
Já em seu segundo ano de existência, a direção de
CATOLICISMO julgou oportuna a criação de uma nova seção: "Virtudes
Esquecidas".
Na introdução deste volume, o Prof. Plinio Corrêa de
Oliveira — a alma, o inspirador e principal colaborador de CATOLICISMO — explica
magistralmente, em seu artigo publicado na edição de abril de 1952, as razões e
a meta daquela seção. Incumbiu-se de concretizar conscienciosamente
tal objetivo — o qual, além de realçar virtudes, ressaltava também verdades esquecidas,
desprezadas e mesmo combatidas na época — o diretor de fato do mencionado
mensário, o saudoso Dr. José Carlos Castilho de Andrade. Parece-nos esta uma
ocasião propícia para destacar a orientação jornalística segura, que este
imprimiu a CATOLICISMO, cheia de zelo meticuloso, acurado e despretensioso,
durante anos a fio.
Pode-se assegurar que a meta de tão salutar seção foi
plenamente alcançada. Os leitores do valoroso mensário — hoje transformado em
revista, nas páginas da qual reapareceu a oportuna seção — durante anos tomaram
assim conhecimento de temas silenciados ou pouco focalizados pela mídia e quase
não ventilados até na maior parte dos círculos católicos de então. E com a
vantagem, ademais, de se inteirarem da abalizada opinião que santos — elevados
aos altares como modelos para todos os fiéis — emitiram sobre tais questões.
Se as razões que fundamentaram o aparecimento da seção
"Virtudes Esquecidas", posteriormente intitulada "Verdades
Esquecidas", eram muito justificadas na época, o é muito mais em nossos
dias. Daí a idéia de se fazer uma coletânea desses textos para uso dos homens
de hoje. É o que oferecemos ao público neste volume.
* *
*
Catolicismo, N.° 16, Abril
de 1952 (www.catolicismo.com.br)
Um
apostolado especializado: difusão das "virtudes esquecidas"
É
necessário que se ponham em foco as máximas que o demônio, o mundo e a carne
procuram a todo momento relegar para segundo plano
Plinio
Corrêa de Oliveira
"Entre outras seções de Catolicismo,
"Ambientes, Costumes, Civilizações", por exemplo, dizia-me um amigo,
desagrada-me principalmente a que se intitula "Verdades esquecidas".
Serão verdades? É esta a primeira pergunta. O jornal transcreve textos
isolados. Com um texto isolado, tudo se pode demonstrar. Seria preciso ler todo
o contexto, para ver qual o pensamento autêntico do Santo citado. E, para essa
obra de erudição, quase ninguém tem tempo. Fica-se, pois, com uma idéia muito
imprecisa sobre o valor documentário dos textos publicados. Acresce que se
realmente o sentido exato e completo dos autores transcritos é o que o jornal
põe em evidência, forçoso é confessar que não se consegue reprimir um
sentimento de desagrado em relação a esses autores. E um católico, habituado a
tomar os Santos por modelo, a sentir uma inteira consonância com o modo pelo
qual eles pensam e agem, começa a sentir-se afastado... Será isto um apostolado
autêntico? Ou será trabalhar contra a salvação das almas? Pois, em última
análise, tudo quanto as afasta não pode ser tido como apostolado. Ou, na
confusão de linguagem de nossos dias, "apostolado" passou a
significar o trabalho destinado a distanciar as almas da Igreja?”
Acho provável que mais de um leitor pense como este
amigo. Por isto publico a resposta que lhe dei.
Órgão
para um escol religioso
Antes de tudo, uma observação sobre Catolicismo. Neste ano de existência,
num contato permanente com um público que se estende das margens do Amazonas
até a parte meridional do Rio Grande do Sul; desde o Rio de Janeiro até rincões
perdidos do sertão goiano ou paranaense, desejando servir inteiramente à causa
da Igreja, este jornal tem definido aos poucos, e de modo muito especial, a sua
fisionomia. Somos um país católico. Somados, os protestantes, espíritas etc.
constituem entre nós uma insignificante minoria. Assim, nosso problema de
apostolado mais essencial não consiste na conversão dos infiéis, mas na
salvação eterna dos católicos. Para que o católico se salve, para que se
santifique, não tem outro caminho senão conhecer e praticar a doutrina de Nosso
Senhor Jesus Cristo. Ora, pela vastidão do território nacional não faltam
pessoas, nem obras, nem instituições que se dediquem a este fim. Trata-se de
uma imensa rede de organizações de apostolado hierárquico ou leigo, que à custa
de esforços muitas vezes heróicos, vem trabalhando para defender os católicos
brasileiros do contágio multiforme de neopaganismo de
nossos dias.
À vista destes dados, é que o jornal estabeleceu sua
missão. A um mensário não seria possível fazer com eficácia e em grande escala
um apostolado exclusivamente popular: só a imprensa diária é o verdadeiro e
ideal instrumento para uma ação extensa sobre a massa. Ademais, a causa
católica já dispõe de verdadeira miríade de mensários
e quinzenários que lhe prestam abnegadamente todo o serviço que de órgãos desse
feitio se pode esperar. Assim, porque reconhece o grande bem que já se faz
entre nós, porque quer cooperar com este bem do modo mais eficaz, e porque
percebe as limitações inerentes a suas próprias condições de existência,
pareceu acertado a Catolicismo tomar
o caráter de um órgão de informação e análise a serviço da elite. Não
propriamente da elite intelectual ou social, mas do que se poderia chamar a
elite religiosa.
Qual o interesse deste apostolado? Por todo o Brasil,
como que constituindo uma periferia em torno da Sagrada Hierarquia, se
encontram as associações de leigos, as Universidades Católicas e outros
organismos destinados a modelar e formar a opinião dos fiéis. O pensamento e as
diretrizes da Hierarquia atingem de cheio estes meios, que, por seu zelo, se
mostram mais ávidos de as receber. E, destes meios, através de mil canais, se
embebe a massa do laicato. Um mensário destinado
especialmente a informar e orientar os organismos católicos teria por escopo
algo para o que seu feitio de mensário seria plenamente adequado.
Informar, orientar, e isto a um público muito vasto e
ao mesmo tempo muito definido e demarcado, como é a elite católica, eis o objetivo
de Catolicismo.
Missão
específica: um sino do carrilhão
Informar a que respeito? Orientar de que maneira?
Evidentemente, no sentido da melhor realização daquilo que a causa católica
espera dos leigos.
E, assim, os redatores e colaboradores de Catolicismo
foram sendo chamados insensivelmente a insistir sobre os problemas
habitualmente menos focalizados, sobre as notícias que a imprensa diária não
difundiu ou não pôs em suficiente relevo, sobre os aspectos menos conhecidos de
nossa realidade religiosa ou social.
Catolicismo não se
propôs informar a respeito de tudo, nem orientar em todos os sentidos os seus leitores.
Seria uma tarefa por demais ambiciosa para suas forças. Limitou-se ele a um
objetivo mais modesto: a acentuar aquilo que menos claramente se acentua, a ser
uma nota complementar num imponente conjunto de esforços e de ensinamentos. E,
deste papel, não deseja sair.
Certa vez, ouvi em um sermão, uma formosa imagem.
Católicos de uma certa cidade do norte da Itália doaram ao campanário da matriz
um conjunto de sinos, dos quais cada qual tinha o nome de uma das Encíclicas do
Papa Pio XI, então reinante. O toque de conjunto do carrilhão simbolizava o
conjunto dos ensinamentos do ilustre Pontífice.
No carrilhão das atividades católicas, este jornal não
pretende ser senão um sino. Não se procure nele a melodia toda, mas apenas uma
das notas. Esta nota, que é grave, não poderia aliás faltar para a perfeita
harmonia do conjunto.
Uma
preocupação constante: completar a bondade pela fortaleza
Com efeito, ninguém pode fechar os olhos à grande
realidade de que a formação religiosa do Brasil se ressente — falamos da massa —
de um evidente ressaibo de liberalismo. Diante de nossos inimigos, preferimos
não lutar. A atitude dos braços cruzados é justificada por toda uma série de
falsas noções de moral. Entende-se que perdoar pecados é deixar em impunidade
perfeita os que pelo mau exemplo ou pelo ensino de falsas doutrinas corrompem
as almas. Entende-se que fustigar o vício triunfante, a impiedade insolente, é
falta de caridade. Entende-se que a severidade é sempre um mal, a luta é sempre
um pecado, a franqueza é sempre uma grosseria, a intransigência é sempre uma
brutalidade. Neste ambiente, quem se pode surpreender vendo que famílias
católicas toleram a freqüentação dos piores cinemas
por seus filhos, as leituras mais perigosas, as companhias mais reprováveis?
Quem se pode surpreender vendo que uma tolerância criminosa beneficia na vida
social os casais constituídos à margem da lei de Deus? Quem se surpreende,
vendo que não combatemos o comunismo com a energia devida?
Em sentido contrário, se todos os católicos
temperassem suas outras virtudes com uma orientação anti-liberal
pronunciada, se soubessem combater em seus filhos os maus costumes e as
ocasiões de pecado, se mantivessem no devido isolamento os casais soi-disant
constituídos segundo a lei mexicana ou uruguaia, se se
opusessem ao mau cinema, à má imprensa, ao mau rádio; se todos empenhassem suas
forças na luta contra o comunismo, o que seria o Brasil!
Em última análise, de tudo que nos falta, nada nos é
tão necessário, tão urgentemente necessário, quanto uma combatividade intrépida
e temperante. Com ela nos salvaríamos. Perecemos à míngua dela.
O
ensinamento dos Santos
Compreende-se pois, que esta folha procure destroçar
estes preconceitos de um falso pacifismo. E nenhum meio seria mais adequado
para isto, do que a publicação de trechos atribuídos a Santos, isto é a pessoas
que a Igreja canonizou com autoridade infalível, e que não seriam Santos se
tivessem de qualquer forma — enquanto pessoas já no ápice da vida espiritual —
violado a caridade. Daí a seção "Virtudes esquecidas".
Se um católico — entendemos uma pessoa que crê na
infalibilidade da Igreja — vê um pensamento de um Santo, aprovado pela Igreja,
e nota que está em desacordo com este pensamento, deve evidentemente modificar
seu próprio modo de ver. De católicos de elite, não se pode esperar outra
coisa.
Tem toda a razão meu amigo, dizendo que devemos
confiar nos Santos e imitá-los. Mas confiar neles é segui-los ainda quando não
os compreendemos bem; tomá-los por modelo, é vê-los
como eles são e imitá-los, e não imaginá-los como eles não são, e admirá-los
pelo que não foram. Nisto tudo, nosso amigo parece deixar-se guiar por um
espírito de independência em relação ao qual deve tomar precauções. E já será
este um insigne benefício que lhe terá prestado a seção "Virtudes
Esquecidas".
Mas, dirá alguém, nem todo o mundo entende isto. É
claro que não se pode reimprimir estas explicações em cada número de Catolicismo.
Mas de um leitor católico espera-se — pelo menos quando é de escol, como aqui
se pressupõe — um contato fácil com Sacerdotes que o possam orientar. Por pouco
que procure um Sacerdote, terá possibilidade de se esclarecer quanto à frase
que não tenha entendido. E estará sanado o "mal" que a seção lhe
poderia fazer.
Teste
de ortodoxia
Que é, pois, esta seção? Um verdadeiro teste de
catolicidade. Pensamos habitualmente de acordo com aquela doutrina? Então
estamos certos. Pensamos de outro modo? Então precisamos retificar nossa
formação. Numa época de confusão, não é bem verdade que uma tal seção pode
prestar grandes serviços?
E suponhamos que se suprimisse a seção. De fato, o que
estaria sendo feito? Um verdadeiro serviço de "censura" nos textos
dos Santos, distinguindo entre os "textos proibidos" para nossos
dias, e os outros que podem circular. Quem não vê que há nisto não só um
verdadeiro absurdo, mas um incontestável ridículo?
E, a propósito de tudo isto, uma pergunta: os leitores
que eventualmente desejem com tanta veemência uma censura nos textos dos
Santos, são igualmente veementes quando se trata de censura nos filmes
cinematográficos?
Oh!
liberalismo, a quanto levas!
Pedido
inexequível
Quanto ao valor documentário da citação, meu amigo
pede algo de impossível. Quer todo o contexto, mas, se se
atender seu pedido, declarará não ter tempo de ler coisa alguma e sugerirá que
se destaquem os textos decisivos. Isto é o que os antigos diziam ser alguém
preso por ter cão e por não ter cão.