Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

O culto ao Coração de Jesus:

seu verdadeiro sentido,

importância  e  atualidade

 

 

 

Catolicismo, N° 68, agosto de 1956, pags. 3 e 4

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Imagem que se encontra na esplanada do Santuário de Fátima (Portugal) 

 

Apostolado não é ocultar às almas sua malícia, mas lavá-las na misericórdia de Deus

Por ocasião do centenário da extensão para a Igreja Universal da festa litúrgica do Sagrado Coração de Jesus, o Santo Padre Pio XII promulgou a Encíclica "Haurietis aquas" (15 de maio de 1956), sobre o verdadeiro sentido, a importância e a atualidade dessa devoção. Ao longo do imortal pontificado do Santo Padre reinante, são numerosos os documentos dignos da maior nota. Entretanto, podemos dizer, sem dúvida nenhuma, que essa Encíclica ficará na história de Sua Santidade como um dos seus marcos mais luminosos e importantes.

Se todo ensinamento pontifício é recebido pelos fiéis com respeito e contentamento, pode-se todavia dizer que "Catolicismo" estampa hoje um extenso resumo desse magnífico documento, com uma emoção particular. Com efeito, o tema desta Encíclica se situa bem no âmago de todo um conjunto de problemas de que, ora implícita, ora explicitamente, temos tratado com freqüência.

Uma das observações que a leitura de nosso jornal facilmente sugere, é a de que "Catolicismo”, se mostra extremamente empenhado na observância exata e integral de todos os preceitos da doutrina católica, bem como na adesão irrestrita e meticulosa a todo o ensinamento da Santa Igreja. Esta constante preocupação de fidelidade eximia, de exatidão precisa, a muitos espíritos parece imprudente, e quiçá antipática. Afigura-se-lhes que o dever de compaixão, o espírito de clemência para com os infiéis, a quem é tão difícil - máxime em nossos dias - abraçar a verdadeira Fé; e para com os fieis, cuja perseverança exige lutas cada vez maiores, deveria induzir o jornalista católico a uma posição extremamente conciliatória.

Em lugar de verberar o erro e o mal, deveria silenciar sobre um e outro. Em lugar de desfraldar a bandeira da perfeição, atraindo os leitores para os cimos árduos mas deslumbrantes dos altos ideais, deveria ensinar apenas o indispensável para a salvação, fazendo-se pregoeiro de uma correção minimalista que em última análise não é senão mediocridade. A quem concebesse assim a missão do jornalista católico - e não falta quem pense por esta forma - nossa posição facilmente poderia passar por intransigente, por intolerante, por incompreensiva.

Somos os primeiros a reconhecer que, se estas objeções não são verdadeiras, têm, entretanto, muito de verossímil. À primeira vista, o que salta aos olhos é que a doutrina católica é extremamente difícil de ser praticada pelos homens. A Santa Igreja tem ensinado reiteradas vezes que nenhum fiel, só por suas forças, pode praticar duravelmente e em sua totalidade os Mandamentos. De onde parece razoável considerar exagerada toda atitude de muita exatidão no cumprimento da Lei.

Na realidade a solução do problema se encontra numa outra ordem de idéias. Se é verdade que a fraqueza da natureza humana é tal que a observância dos Mandamentos é absolutamente superior a ela, devemos entretanto considerar a infinita misericórdia divina. Não para dela deduzir que Nosso Senhor coonesta o pecado, o crime, Ele que é a perfeição infinita. A misericórdia de Deus não pode consistir em nos deixar jazendo desamparados em nossa corrupção, mas em nos tirar dela. Diante dos cegos, dos coxos, dos leprosos, Ele não Se limitava a sorrir e passar adiante. Ele os curava. Diante de nossos pecados, sua compaixão não consiste em nos deixar presos, mas em nos tirar deles amorosamente e nos levar aos ombros. O que esperamos da misericórdia de Deus são os recursos necessários para nos tornarmos capazes de praticar a lei moral. Temos para isto a graça, que nos foi alcançada pelos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. A graça torna a inteligência do homem capaz do ato de fé. Torna a vontade humana capaz de uma energia tal, que se lhe faz possível praticar os Mandamentos. O grande dom de Deus para os homens, insistimos, não consiste em condescender com suas faltas, no sentido de que, sem censurar, os deixe displicentemente mergulhados nelas. O grande dom de Deus consiste em dar-nos os meios sobrenaturais para evitar o pecado e atingir a santidade. E dai também uma grande responsabilidade para os que recusem este dom inestimável.

Símbolo expressivo desse amor misericordioso de Deus, da abundancia dos seus perdões, e da insistência com que Ele está constantemente convidando o homem a que se arrependa, a que peça as graças necessárias para praticar a virtude, a que por meio da oração consiga todos os recursos necessários para a reforma do seu caráter, é o Sagrado Coração de Jesus. É pois no Sagrado Coração de Jesus que toda verdadeira intransigência tem sua norma e sua explicação. A bondade não consiste para o jornalista católico em deixar o pecador na ilusão de que seu estado de alma é satisfatório. Cumpre mostrar ao ímpio todo o horror de sua impiedade, para o demover dela. Cumpre apontar-lhe os cimos da perfeição para que almeje alcançá-los. O que, tudo, lhe é possível se pedir com perseverança a graça de Deus, e com ela cooperar. Nesta convicção profunda e alegre de que o homem tudo pode com a graça, está a razão profunda da santa virtude da intransigência cristã. Toda misericórdia constitui um grande dom. Mas constitui também uma grande responsabilidade. Posto que o homem, pela oração e pela fidelidade à virtude, pode e deve praticar os Mandamentos, é bem evidente que não resta para ele desculpa nenhuma se se obstinar no pecado. Pio XII nos mostra como as graças jorram superabundantes do Coração dulcíssimo de Jesus. Por isso mesmo, a fórmula do apostolado eficaz consiste, não em silenciar aos homens sua malícia, mas em convidá-los a se lavarem dela na fonte divina onde brotam as torrentes da graça.

Depois de mais este monumental documento que a Cristandade fica a dever ao Santo Padre Pio XII, os nossos espíritos sentem arder um desejo quase insopitável.

Gostaríamos de ter, com a mesma profundidade, com a mesma soberana autoridade, com a mesma eximia piedade desta Encíclica, um documento relativo ao culto ao Imaculado Coração de Maria. Seria um complemento harmonioso e perfeito da Carta "Haurietis aquas", cujo texto passamos a resumir da versão francesa publicada pelo "Osservatore Romano" (os subtítulos constam desse original). [Para ler o texto integral, segundo a versão do site do Vaticano, basta clicar aqui

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INTRODUÇÃO

Na introdução da Encíclica o Santo Padre afirma: "É impossível na realidade enumerar as graças que o culto prestado ao Sagrado Coração tem difundido nas almas dos fiéis: graças de purificação, de consolação sobrenatural, de estimulo à pratica de todas as virtudes. Assim, lembrando-Nos das palavras, profundas do Apóstolo São Tiago: Toda dádiva boa e todo dom perfeito vem do alto e desce do Pai das luzes (1) vemos, com razão, neste culto difundido por todo o mundo com fervor cada vez maior, um dom inestimável que o Verbo Encarnado, nosso Divino Salvador, Mediador único da graça e da verdade entre o Pai dos Céus e o gênero humano, fez à Igreja, sua Esposa mística, no decurso desses últimos séculos, para Ela tão cheios de provações a suportar, de dificuldades a superar". Depois disto a Encíclica passa a aludir a expressões da Sagrada Escritura que fazem pensar no dom da devoção ao Sagrado Coração: "Seguramente, os que ouviram Jesus podiam facilmente aproximar sua promessa de uma fonte de água viva (2), brotando de seu peito, das palavras proféticas de Isaias, Ezequiel e Zacarias, sobre o reino messiânico, como também da pedra simbólica que fez miraculosamente jorrar água, quando Moisés a golpeou (3)".

A caridade divina tem sua primeira origem no Espírito Santo, que é o Amor personificado do Pai e do Filho. Existe assim um vínculo muito íntimo entre a caridade divina, que abrasa as almas fiéis, e o Espírito Santo. Daí se deduz a natureza intima do culto que devemos ao Sagrado Coração de Jesus, ato eminente de religião e correspondência de nosso amor ao amor de Deus.

I - FUNDAMENTOS E FIGURAS DO CULTO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS NO ANTIGO TESTAMENTO

• Incompreensão sobre a verdadeira natureza do culto do Sagrado Coração de Jesus, entre certos cristãos

Começa o Santo Padre, na primeira parte da Encíclica, por enumerar as incompreensões da verdadeira natureza do culto ao Sagrado Coração de Jesus, existentes entre certos cristãos. Diz ele a esse respeito: "Por certo, a Igreja votou sempre ao culto do Sagrado Coração de Jesus tão alta estima que Ela Se empenhou em o difundir por toda a parte e de o instaurar de todas as maneiras entre os povos cristãos, bem como de o defender com esmero contra certas acusações de naturalismo ou de sentimentalismo; e entretanto, não deixa de haver graves motivos para deplorar que - no passado, e mesmo em nossos dias - este culto tão nobre não tenha sido suficientemente honrado por muitos cristãos, e às vezes até mesmo por aqueles que se declaram animados de zelo pela Religião Católica e desejosos de atingir a santidade.

"Se conhecêsseis o dom de Deus (4). Nós que fomos escolhido por impenetrável desígnio da Providencia para ser o guarda e o dispensador do tesouro sagrado de fé e de piedade que o Divino Redentor confiou à sua Igreja, retomamos, consciente de Nossas responsabilidades, veneráveis Irmãos, essas palavras da Escritura para fazer uma advertência a alguns de Nossos filhos: se é verdade que o culto do Sagrado Coração de Jesus, triunfando dos erros e da negligencia dos homens, se difundiu em todo o Corpo Místico, há entretanto um número ainda excessivo de pessoas que, deixando-se guiar por preconceitos, se conduzem às vezes como se esse culto lhes parecesse menos adaptado, para não dizer prejudicial, às necessidades espirituais da Igreja e do gênero humano, mais prementes ainda em nossos dias. Confundindo, com efeito, esse culto privilegiado com as diversas formas de piedade privada que a Igreja aprova e estimula, sem entretanto as prescrever, alguns consideram a devoção ao Sagrado Coração de Jesus como qualquer coisa de super-errogatorio, algo que cada qual é livre de admitir ou não segundo os próprios gostos. Outros pretendem que esse culto é inoportuno e principalmente que ele não tem, ou quase não tem, utilidade para quem milita no serviço do Reino de Deus, preocupados que estão, sobretudo, em empregar suas forças, seus recursos e seu tempo em defender e difundir a verdade católica, e a doutrina cristã em matéria social, bem como em promover atividades religiosas tidas por muito mais necessárias na hora atual. Há, por fim, os que, muito longe de ver nesse culto um auxiliar valioso para a reforma e renovação dos costumes cristãos - tanto na vida privada como no lar - o consideram antes como uma piedosa pratica, mais sensível do que intelectual, ou, ainda, mais adaptada a mulheres, e de um cunho que não conviria a homens cultos. 

"Jesus Cristo, Pontífice misericordioso e fiel para expiar os pecados do povo"

"Outros, alem disso, afirmam que um culto desse gênero exige sobretudo a penitência, a reparação e outras virtudes por eles chamadas passivas - porque não trazem em si frutos externos - e assim o consideram incapaz de reanimar a piedade espiritual de nossa época, a qual deve antes entregar-se a uma ação exterior e espetacular para o triunfo da Fé católica e a salvaguarda corajosa dos costumes cristãos. - Esses costumes, como se sabe, estão hoje viciados pelas novidades enganadoras daqueles que colocam no mesmo pé todas as formas de religião, suprimindo, em teoria e na prática, a distinção entre verdade e erro, impregnados, como infelizmente estão, dos princípios do materialismo ateu e do laicismo". 

• Estima dos Soberanos Pontífices pelo culto do Sagrado Coração de Jesus

O Santo Padre contrapõe, em seguida, a esses erros concernentes à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, os testemunhos de alta estima que os Soberanos Pontífices não têm cessado de dar a essa devoção. E, para não citar senão os mais recentes, Sua Santidade lembra de seu predecessor Leão XIII, que ensinava ser o culto ao Sagrado Coração de Jesus "a forma mais louvável da virtude da Religião". Leão XIII o considerava como um remédio eficaz para os males que ainda hoje, e mesmo mais larga e profundamente, oprimem e abalam os indivíduos e a sociedade inteira. Esta devoção, dizia, "que aconselhamos a todos, a todos será proveitosa". E acrescentava a seguinte exortação sobre o culto do Sagrado Coração de Jesus: "Daí (provêm) esses males inúmeros que há muito tempo nos acabrunham e nos forçam a pedir o socorro d'Aquele que é o único a poder repeli-los. De quem se trata senão de Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus? Porque sob o Céu nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual devamos ser salvos (5). Assim pois recorramos Àquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (6)".  O Santo Padre Pio XII cita também seu predecessor imediato, Pio XI: "Esta... forma de devoção compendia em si toda a Religião, e é, por isto mesmo, a regra da perfeição, aquela que conduz mais facilmente as inteligências ao conhecimento profundo do Cristo Senhor, arrasta mais fortemente os espíritos a seu amor e mais eficazmente à sua imitação (7)".

E Pio XII prossegue: "No decurso dos anos de Nosso pontificado, cheios de sofrimentos e de angústias, mas também de consolações inefáveis, esses frutos, longe de diminuir em número e em perfeição, aumentaram certamente. Diversas iniciativas procuraram, de modo muito feliz, reanimar este culto, adaptando-se do melhor modo às necessidades de nossa época: associações culturais, religiosas, ou de caridade; publicações históricas, ascéticas e místicas, ilustrando a doutrina relativa a essa devoção; obras piedosas de reparação; e principalmente manifestações ardentes de piedade, suscitadas pela Associação do Apostolado da Oração. Graças à iniciativa e ao apoio desta última, lares, colégios, instituições e até mesmo nações, se consagraram ao Sagrado Coração de Jesus, e Nós mesmo, por cartas, discursos ou mensagens radiofônicas, lhes exprimimos muitas vezes, com coração paterno, as Nossas felicitações (8)".

Passa depois o Santo Padre a estabelecer o esquema de sua monumental explanação doutrinaria: "A fim de dar à inteligência dos fiéis um alimento salutar que lhes faça melhor compreender a verdadeira natureza desse culto, e, assim, dele auferir frutos abundantes, queremos percorrer as páginas do Antigo e do Novo Testamento que nos revelam nos expõem a infinita e insondável caridade de Deus para com o gênero humano; examinaremos em seguida, em suas grandes linhas, os comentários que os Padres e os Doutores da Igreja nos deixaram dessas páginas; por fim, Nós Nos empenharemos em colocar sob sua verdadeira luz o vínculo muito íntimo que existe entre a forma de devoção devida ao Coração do Divino Redentor e o culto que devemos prestar ao amor desse Redentor e ao amor da Augustíssima Trindade, Ela mesma, para com todos os homens. Consideramos que, situando na luz da Escritura e da Tradição os grandes princípios fundamentais dessa tão nobre forma de devoção, teremos tornado mais fácil aos cristãos haurir com alegria as águas nas fontes da salvação (9)". 

O amor de Deus, motivo principal do culto ao Coração de Jesus - Suas figuras no Antigo Testamento

Expondo, no que eles têm de mais profundo, os pressupostos doutrinários da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, diz textualmente a Encíclica: "Para melhor compreender o valor dos ensinamentos que as passagens do Novo e do Antigo Testamento nos ministram a respeito do culto ao Sagrado Coração de Jesus, é preciso ter claramente em vista a razão pela qual a Igreja presta um culto de latria ao Coração do Divino Redentor. Estas razões, vós o sabeis, Veneráveis Irmãos, são duas. A primeira, que é igualmente legítima para todas as outras partes do sagrado Corpo de Jesus Cristo, se apóia sobre o principio bem conhecido, de que seu Coração, o elemento mais nobre da natureza humana, está unido hipostaticamente à Pessoa do Verbo Divino: este é o motivo pelo qual lhe devemos o mesmo culto de adoração prestado pela Igreja à própria Pessoa do Filho de Deus Encarnado. Trata-se aí, de uma verdade de fé solenemente definida no Concilio Ecumênico de Éfeso, e no segundo Concilio Ecumênico de Constantinopla (10). A outra razão concerne especialmente ao Coração do Divino Redentor e pede especialmente também para ele um culto de latria: é que o Coração, mais do que todas as outras partes do seu Corpo, é o sinal natural e o símbolo de sua imensa caridade para com o gênero humano: Encontramos no Sagrado Coração, lembra Nosso predecessor Leão XIII, o símbolo e a imagem exata da infinita caridade de Jesus Cristo que nos leva a corresponder-lhe por nosso próprio amor (11).

"É bem certo, evidentemente, que os Livros Sagrados nunca fazem menção de um culto especial de veneração e amor para com o Coração físico do Verbo Encarnado como símbolo de sua ardente caridade. Reconhecendo abertamente este fato, entretanto é preciso não se surpreender com isto, e menos ainda duvidar de que o Antigo e o Novo Testamento desenvolvem o tema do amor de Deus por nós, que é o objeto principal desse culto. Eles o fazem com imagens cuja natureza é muito própria a comover a fundo os espíritos, e como elas se encontram às vezes nas passagens dos Livros Santos, concernentes à vinda do Filho de Deus feito homem, pode-se perfeitamente ver nelas o prenuncio do sinal nobilíssimo e do símbolo do amor de Deus, o Coração santíssimo e adorável do Divino Redentor".

O Pontífice passa a se referir a varias trechos do Antigo Testamento, nos quais se fala do amor de Deus para com os homens. E depois de mostrar que, ao par da lei do temor, também se ensinou largamente, na Antiga Aliança, a lei do amor, continua: "Não é pois surpreendente que, tendo reconhecido no preceito do amor o fundamento de toda a Lei, Moisés e os Profetas — os maiores (12) do povo eleito, no dizer do Doutor Angélico - tenham comparado todas as relações entre Deus e seu povo com o amor mutuo entre o pai e os filhos ou entre esposos, muito mais do que com as severas imagens inspiradas pelo soberano domínio de Deus ou pela submissão cheia de temor que Lhe é devida. O próprio Moisés, por exemplo, em seu célebre cântico sobre a libertação do povo e o êxodo do Egito, atribui esse acontecimento ao poder de Deus empregando termos de comparação absolutamente próprios a comover o espírito: Qual uma águia que vela sobre seu ninho pairando acima de seus filhotes, Yaveh abre suas asas, e toma o povo eleito, sustentando-o sobre suas penas (13). Mas nenhum dos Profetas, talvez, exprimiu e enunciou com tanta clareza e força quanto Oseas, o amor com que Deus não deixa de perseguir o seu povo. Este Profeta - o mais notável dos Profetas menores pela concisão e nobreza do estilo - faz-nos ver Deus testemunhando ao povo eleito um amor justo, santamente inquieto, comparável ao de um pai amoroso, misericordioso, ou de um esposo ofendido em sua honra. Este amor não decresce nem recua diante da perfídia e dos crimes horríveis dos que o traem; se inflige aos culpados um justo castigo, não é porque os rejeite e abandone a si mesmos, mas para ver a esposa infiel e os filhos ingratos se arrependerem e se purificarem, para uni-los de novo a ele pelos vínculos de um amor fortalecido: Quando Israel estava na infância, Eu o amava; do Egito, chamava meu filho... e ensinava Efraim a andar; tomava-os em meus braços, e eles não compreenderam que Eu cuidava deles. Eu os conduzia com doces vínculos, com vínculos de amor... Curarei sua infidelidade, amá-los-ei de todo o coração, pois minha cólera se desviou deles. Serei como um orvalho para Israel; ele crescerá como o Enio, ele deitará raízes como os cedros do Líbano (14)".

Depois de citar admiráveis passagens de Isaias e do Cântico dos Cânticos, Pio XII conclui: "Tal amor já revela a ternura e a indulgente paciência de um Deus que, indignado com as infidelidades repetidas de Israel, entretanto não o rejeita definitivamente. Todavia, por mais veemente e sublime que fosse, esse amor não era senão um prenuncio da ardente caridade do Redentor prometido aos homens, transbordando sobre todos, de seu Coração muito amoroso, como modelo do nosso amor e base da Nova Aliança. Só Ele, com efeito, o Filho Unigênito do Pai, Verbo Encarnado, cheio de graça e de verdade (15), tendo vindo entre os homens acabrunhados sob o peso de seus inúmeros pecados e misérias, pôde fazer jorrar de sua natureza humana unida hipostaticamente à Pessoa divina, uma fonte de água viva, que irrigou abundantemente a terra dessecada da humanidade, e a transformou num jardim florido e fértil. Esses efeitos maravilhosos do eterno e misericordioso amor de Deus, o profeta Jeremias já parece anunciá-los neste texto: Amei-te com um amor eterno; assim te conservei meu favor. Eis que vêm dias, oráculo de Yaveh, em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma aliança nova... Eis a aliança que farei com a casa de Israel, depois destes dias, oráculo de Yaveh: porei minha Lei no fundo de seu ser e a escreverei em seu coração. Então serei seu Deus e eles serão meu povo... Pois perdoarei sua iniqüidade e não Me lembrarei de seus pecados (16)".

 

II - FUNDAMENTOS DO CULTO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS SEGUNDO O NOVO TESTAMENTO E A TRADIÇÃO 

Tríplice amor do Redentor para com o gênero humano: divino, humano (espiritual e sensível)

Na segunda parte, a Encíclica, depois de tratar do "amor de Deus no mistério da Encarnação Redentora segundo o Evangelho", mostra que "é necessário observar que o amor do Divino Redentor para com os homens não foi apenas o amor espiritual que é próprio a Deus enquanto Ele é espírito (17)". As expressões do Antigo Testamento que se referem ao amor de Deus aos homens comparando-o ao amor humano conjugal ou paterno, são muito comovedoras, e indicam uma realidade profunda, mas têm um caráter metafórico. Pelo contrario, no que diz respeito a Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, as expressões do Novo Testamento "não significam só a caridade divina, mas também sentimentos de afeto humano". De maneira que podemos distinguir no amor do Redentor por nós, o amor divino e o amor humano, o amor humano espiritual e o amor humano sensível, - "o que é absolutamente fora de dúvida para qualquer pessoa que professe a Fé Católica. O Verbo de Deus, com efeito, não tomou um corpo aparente e sem consistência. Os hereges do primeiro século da era cristã que o pretendiam, atraíram sobre si a reprovação severa do Apóstolo São João: Muitos são os sedutores que se espalharam no mundo, que não confessam Jesus Cristo vindo em sua carne. Eis aí o Sedutor, o Anti-Cristo (18). É, na realidade, uma natureza humana individual, inteira e perfeita, concebida pelo Espírito Santo no seio puríssimo da Virgem Maria (19) que Ele uniu à sua Pessoa divina. Nada falta à natureza humana que se une ao Verbo de Deus. Ele a assumiu sem nenhuma diminuição, sem qualquer modificação, em todos os seus elementos espirituais, em todos os seus elementos corporais: ela era dotada de inteligência e de vontade, de todas as outras faculdades de conhecimento interno e externo, assim como do apetite sensível, e de todas as paixões naturais. Eis o que ensina a Igreja Católica e o que os Pontífices Romanos e os Concílios Ecumênicos solenemente sancionaram e confirmaram".

Diz mais adiante Sua Santidade: "Que o Verbo de Deus tenha tomado uma natureza real e perfeita, que Ele Se tenha formado e modelado um Coração de carne capaz como o nosso de sofrer e de ser transfixado, - se se consideram esses fatos fora da luz que emana, não somente da doutrina da união hipostática e substancial, mas também da doutrina da Redenção que a completa, eles poderão ser para alguns escândalo e loucura, como o foi para os judeus e para os pagãos Cristo Crucificado (20). Com efeito, os Símbolos da Fé Católica, em perfeito acordo com a Escritura, nos asseguram que o Filho Unigênito de Deus tomou uma natureza humana passiva e mortal sobretudo porque desejava oferecer sobre a Cruz um sacrifício cruento, e consumar assim a obra da salvação dos homens. E o que o Apóstolo das nações ensina por estas palavras: ...Foi conveniente que Ele se fizesse em tudo semelhante a seus irmãos, a fim de Se constituir nas relações deles com Deus, um pontífice misericordioso e fiel, para expiar os pecados do povo. Pois, por isso que sofreu a provação, é Ele capaz de vir em auxilio daqueles que são provados (21)".

Para corroborar essas asserções, o Santo Padre Pio XII passa a citar "os testemunhos patrísticos concernentes à existência de afeições sensíveis no Verbo Encarnado". Menciona, então, textos magníficos de São Justino, São Basílio, São João Crisóstomo, Santo Ambrosio, São Jerônimo, Santo Agostinho e São João Damasceno. 

O simbolismo natural do Coração de Jesus e sua expressão velada na Sagrada Escritura e nos Padres

Os Evangelistas - diz o Soberano Pontífice - e os outros autores sagrados não descrevem explicitamente o Coração de nosso Redentor como cheio de vida, dotado tanto quanto nós da faculdade de sentir, palpitando sob o efeito dos diversos movimentos e afetos de sua alma e da ardente caridade de suas duas vontades. Mas nem por isto deixam eles de mencionar muitas vezes seu divino amor e as emoções sensíveis que a ele se prendem: desejo, alegria, tristeza, temor e cólera, segundo as exprimem seu olhar, suas palavras e sua atitude. A face de nosso adorável Salvador foi sobretudo o sinal e como que o espelho fiel desses sentimentos; eles impressionavam sua alma como as ondas se refletem sobre uma e outra margem, e atingiam seu Coração santíssimo e o animavam ainda mais. Com efeito, aqui se verifica igualmente o que o Doutor Angélico, rico em ensinamentos de experiência comum, observa a propósito da psicologia humana e dos fenômenos que ela condiciona: A perturbação da cólera se estende ao exterior do corpo, sobretudo lá onde a influencia do coração se faz mais fortemente sentir, como os olhos, a face e a língua (22). É pois a justo título que o Coração do Verbo Encarnado é considerado como o sinal e o símbolo principal desse tríplice amor com que o Divino Redentor não cessa de amar o Pai Eterno e todos os homens. Ele é o símbolo desse amor divino que o Verbo tem em comum com o Pai e com o Espírito Santo, mas que nele só, enquanto Verbo Encarnado, se manifesta a nós através do corpo frágil e caduco do homem: Nele, com efeito, habita corporalmente toda a plenitude da divindade (23). O coração é, alem disso, o símbolo dessa ardente caridade que, infundida em Cristo, anima a sua vontade humana, e cujo ato é esclarecido e dirigido pelas duas ciências, ambas perfeitas, a ciência de visão beatifica e a ciência infusa (24). Por fim. - e isto mais natural e mais diretamente - ele é igualmente o símbolo dos sentimentos, pois que o Corpo de Jesus, formado pela operação do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, é perfeitamente capaz de sentir e de perceber, muito mais do que todos os outros corações humanos (25)".

"É claro - diz mais adiante a Encíclica - que podemos contemplar, com razão, e venerar o Coração do Divino Redentor como o sinal de sua caridade, o testemunho de nossa redenção e como a escada mística pela qual subimos até o amplexo do Salvador Nosso Deus (26). Eis porque suas palavras, suas ações, seus preceitos, seus milagres, devem ser considerados como testemunhos de seu tríplice amor; o que se aplica particularmente às obras que atestam mais luminosamente sua caridade para conosco, como a divina instituição da Eucaristia, seus sofrimentos violentíssimos e sua morte, o dom que Ele nos fez de sua Mãe Santíssima, e enfim a missão do Espírito Santo sobre os Apóstolos e nós. Devemos pois contemplar amorosamente o pulsar de seu Coração sagrado, que tem como ritmo a duração de sua peregrinação terrestre, até o momento supremo em que segundo o testemunho dos Evangelistas: Exclamando com voz forte, Ele disse: "Tudo está consumado", e, inclinando a cabeça expirou (27). Então o pulsar de seu Coração cessou, seu amor sensível se interrompeu até que Ele ressuscitasse do sepulcro, vencedor da morte. Mas a partir do momento em que o Corpo glorificado do Redentor Divino novamente se uniu à sua Alma, seu Coração santíssimo não mais cessou nem cessará de bater seu ritmo regular para significar ainda o tríplice amor pelo qual o Filho de Deus está unido a seu Pai Celeste e com toda a comunidade dos homens, da qual Ele é, Ele mesmo, de pleno direito, a cabeça".

Veremos no próximo número o resumo das três ultimas partes desta admirável Encíclica: "Parte ativa e profunda do Sagrado Coração de Jesus na obra salvífica do Redentor", "Nascimento e progressivo desenvolvimento do culto ao Sagrado Coração de Jesus", e "Exortações a uma pratica mais esclarecida e à difusão do culto ao Sagrado Coração de Jesus". 


Notas:

1) Iac. 1, 17.

2) Io. 7, 39.

3) Cfr. Is. 12, 3; Ez.. 47, 1-12; Zach. 13, 1; Ex. 17, 1-7; Num. 20, 7-13; 1 Cor. 10, 4; Apoc. 7, 17; 22, 1.

4) Io. 4, 10.

5) Act. 4, 12.

6) Enc. Annum Sacrum, 25 Maii 1899; Acta Leonis, vol. XIX, 1900; pp. 71, 77-78.

7) Enc. Miserentissirnus Redemptor, 8 Maii 1928; A.A.S. XX, 1928, p. 167.

8) Cfr. A.A.S. XXXII, 1940, p. 276; XXXV, 1943, p. 170; XXXVII, 1945, pp. 263-264; XL, 1948, p. 501; XLI 1949, p. 331.

9) Is. 12, 3.

10) Conc. Ephes. can. 8; cfr. Mansi, Sacrorum Conciliorum Ampliss. Collectio, IV, 1083 C.; Conc. Const. II, can. 9, cfr. ibid. IX, 382 E.

11) Cfr. Enc. Annum sacrum; Acta Leonis, vol. XIX, 1900, p. 76.

12) Sum. Theol. II, q. 2, a. 7; ed. Leon. tom. VIII, 1895, p. 34.

13) Deut. 32, 11.

14) Os. 11, 1, 3-4; 14, 5-6.

15) Io. 1, 14.

16) Ier. 31, 3; 31, 33-34.

17) Io. 4, 24.

18) 2 Io. 7.

19) Cfr. Luc. 1, 35.

20) Cfr. 1 Cor. 1, 23.

21) Hebr. 2, 11-14; 17-18.

22) Sum. Theol. I-II, q. 48, a. 4; ed. Leon. tom. VI, 1891, p. 306.

23) Col. 2, 9.

24) Cfr. Sum. Theol. III, q. 9, aa. 1-3; ed. Leon. tom. XI, 1903, p. 142.

25) Cfr. Ibid. III, q. 33 a. 2, ad 3m; q. 46, a. 6; ed. Leon. tom. XI, 1903, pp. 342, 433.

26) Tit. 3, 4.

27) Matth. 27, 50; Io. 19, 30.


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