HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO

 

V

MEDOS E PERSAS

 

A civilização persa é a primeira civilização da raça ariana, que vamos estudar. Esta raça habitou primitivamente o centro da Ásia, e dividiu-se em diversos ramos, um dos quais penetrou na Europa, outro na Índia, e finalmente outro, denominado Irânio, deu origem aos dois povos que vamos estudar — os Medos e os Persas.

É um tanto obscura a origem dessa raça, variando muito as hipóteses a esse respeito. Alguns dizem que ela teve origem nas margens do Danúbio; outros, nos montes Cárpatos, ou na Escandinávia, etc.

O ramo Iraniano, assim chamado por causa das montanhas do Irã, bifurcou-se, dando origem aos medos e aos persas. O povo persa manteve-se muito tempo em um estágio de civilização bastante rudimentar, ao passo que os medos constituíam uma monarquia florescente e já bastante civilizada.

Porém, em determinada época, os persas superaram e dominaram os medos, e projetaram sua influência sobre a Ásia, a África e a Europa. Não criaram uma civilização própria, como os egípcios, mas apenas fizeram uma obra de síntese e de difusão das outras civilizações, isto é, assimilaram as civilizações de outros povos e espalharam-nas, pelas suas numerosas conquistas.

A obra de síntese dos persas foi muito dificultada, porquanto os povos que compunham o seu império se diferenciavam muito uns dos outros, sob o ponto de vista da civilização e da cultura. Nós vemos, por exemplo, a Itália. Antes da sua unificação havia diferença, até nos idiomas, entre os povos que habitavam as diversas regiões desse país. O que dizer-se pois do Império Persa, muito mais extenso e formado de povos muito mais heterogêneos entre si que os italianos?

 

Cultura e produção literária

As produções literárias no Império Persa começaram muito cedo, e ainda hoje temos obras elaboradas nos mais antigos períodos da civilização dos medos e persas. Cumpre notar que nessas obras encontramos muitas tradições, que coincidem bastante com as da Bíblia, principalmente no que concerne aos primórdios da humanidade.

O maior dos pensadores dessa raça foi Zoroastro, cuja existência está aquém de todas as dúvidas, havendo porém discussões sobre o lugar e a data de seu nascimento. Consta que o seu nascimento se teria dado entre os anos 6.000 e 6.600 a.C.; teria sido persa, medo, bactriano ou assírio.

A filosofia de Zoroastro enraizou-se profundamente em sua terra. Ainda hoje há cerca de 500.000 adeptos de sua doutrina. Ela parte da observação de que, quer no mundo moral, quer no mundo físico, há luta incessante entre fatores favoráveis à vida ou à ordem, contra fatores favoráveis à morte ou à desordem.

Para explicar a existência desse fato, Zoroastro afirmou a existência de um antagonismo irredutível entre Ormuzd, que é um ser imensamente poderoso e bom, e Arimânio, que é um ser imensamente poderoso e mau. Tendo Ormuzd criado o homem e todos os fatores que concorrem para a sua saúde física e moral, Arimânio, com o intuito de combater a obra de Ormuzd, começou a se utilizar, nessa luta, de todos os fatores nocivos ao homem. Por isso é que há animais bons e daninhos, climas amenos e ásperos, alimentos saudáveis e venenosos. Enfim, por toda parte, auxílio ou agressão para o homem, representando tudo isto a luta entre Ormuzd e Arimânio.

Para Zoroastro, havia de um lado o exército favorável ao homem, tendo por chefes os ameshapentas (eles eram os gênios do bem), e por chefe supremo Ormuzd; e de outro lado os daevas (que eram os gênios do mal), chefiados por Arimânio, os quais procuravam destruir a obra de Ormuzd. O homem faria então o papel de um pêndulo, oscilando entre um e outro partido, tendo porém, por dever, combater a favor de Ormuzd contra Arimânio.

O homem que combatesse a favor do bem, ao morrer a sua alma iria para o paraíso. Ao fim de certo tempo, um homem nascido de uma virgem viria ao mundo, e salvaria a humanidade. Depois haveria um choque de uma estrela com o nosso planeta, aparecendo então um mar de metais derretidos, onde todos os homens se haveriam de banhar. Para os que tivessem sido bons, o banho seria um prazer, constituindo um tormento para os que não tivessem auxiliado a obra de Ormuzd. Porém, como todos eram criação de Ormuzd, logo o mar se acabaria, indo todos gozar num paraíso eterno, junto de Ormuzd, que aniquilaria os daevas junto com Arimânio, e depois os homens viveriam sempre bem.

Podemos notar aí certa semelhança com a doutrina católica. Devemos porém frisar que, na doutrina católica, há um só Deus, ao passo que na outra há dois deuses. Na religião católica, o demônio não é um deus, ao contrário do que ocorre na doutrina de Zoroastro. A tradição do salvador existe em muitos outros povos antigos, como por exemplo na China.

O império persa baseou toda a sua moral na doutrina de Zoroastro. Havia entre os povos que estamos estudando um profundo horror à mentira, porque o deus do bem deveria ser também o deus da verdade (o amor da verdade originou o culto da luz, porque a luz é uma imagem da verdade).

Os persas divinizaram e cultuaram a luz, e tinham o respeito à verdade como dever fundamental do homem, desprezando por isso o povo grego (que era muito mentiroso). Por tal fato é que não havia (?) em todo o império persa, ao contrário do que ocorria na Grécia, onde os mercados eram muito numerosos, e constituíam centro de intrigas e de perfídias. Tinham também penas muito severas para o adultério, que é uma espécie de perjúrio.

Era também proibido: 1) atirar um cadáver à água, porquanto era contaminar um elemento favorável ao homem; 2) limitar a prole, porque seria cercear o desenvolvimento do exército de Ormuzd; 3) o assassínio era considerado falta grave, e era severamente punido, principalmente quando o assassinado era um homem bom, pois Zoroastro dizia que o homem só devia exterminar os seres prejudiciais.

O homem que ferisse de morte a um cão, era condenado a receber oitocentas chicotadas, que não eram aplicadas no culpado, mais num ser daninho, porquanto isto seria muito mais útil à defesa da causa de Ormuzd.

As formigas prejudicavam a agricultura, e por isso era um ato de benemerência o seu extermínio. Por isso muitos mártires cristãos da Pérsia deixaram-se martirizar, por não quererem matar formigas. Matá-las era interpretado como aceitação da religião persa.

Eles confundiam a noção da pureza moral e da pureza física, porquanto acreditavam, como já foi visto, que um banho em metais liquefeitos faria desaparecer as impurezas morais. Aproximar um cachorro de um moribundo afugentava a morte, porque, se o cão afugentava os ladrões, montando guarda aos bens do seu dono, deveria também afugentar a morte.

Quando alguém morria, extinguia-se o fogo em sua casa, para que este não fosse contaminado pelo cadáver. O cadáver era então levado para um lugar onde não havia nem água nem árvores, e era abandonado às aves de rapina, que o devoravam. Era proibido enterrá-lo, porque seria contaminar a terra, criação de Ormuzd. Pelo mesmo motivo, era pecado cuspir na água. Em caso de falecimento, o fogo era reacendido na casa do finado só nove dias depois.

Quase todos os seres favoráveis ao homem eram sagrados. O fogo sagrado era levado em enorme consideração. Era aceso no alto de altares, em recipientes chamados piras, aos quais se tinha acesso por meio de escadas. Nesse fogo sacrificavam-se animais sagrados, porém destituídos das entranhas, que haveriam de contaminar o fogo. Havia fogos para diversas classes sociais, e eram mantidos por uma espécie de monges, que se alimentavam com queijos e hortaliças, viviam em casas muito originais e habitavam províncias em que mandavam. Estava generalizado entre eles o hábito da confissão a um sacerdote.

Organização política e social

Era enorme a extensão territorial do Império Persa, desde o Hindus até além do Bósforo, compreendendo o Egito. Estava dividido em províncias, denominadas satrápias, governadas por sátrapas.

Os soberanos dotaram o império Persa com muitas vias de comunicação, porquanto tinham necessidade de se comunicarem em situações difíceis. Havia também um sistema de correios, muito bem organizado.

Os reis não confiavam muito nos sátrapas. Por isso é que colocavam junto aos sátrapas um espião, que era o próprio secretário destes. Estes secretários eram recrutados na aristocracia, e tinham o caminho aberto para o cargo de sátrapa. Sendo nomeado pelo rei, este era por eles informado de tudo quanto fazia o sátrapa.

Os persas praticavam uma política de tolerância, deixando aos povos conquistados todas as suas leis, costumes, etc. Os impostos eram cobrados pelos naturais do país. Esta política era benigna, e por isso o Império Persa teve muito mais duração do que o dos caldeus. Os persas unificaram o Oriente sob o seu domínio. Governavam com relativa brandura, apesar de os seus soberanos terem por vezes rasgos de crueldade, como por exemplo o seguinte: Ciro, o grande persa, tendo vencido os Lídios, aprisionou Creso, rei da Lídia, condenando-o à fogueira. Mas o filho deste, que era mudo, falou pela primeira vez, implorando a vida de seu pai, no que foi atendido.

Quando Creso já se achava no alto da pira, onde devia ser queimado, começou a bradar: Sólon, Sólon! Ciro, intrigado, perguntou a Creso o que significavam tais brados. Creso disse então a Ciro que Sólon, legislador ateniense, certa vez lhe dissera que não havia no universo reino imperecível. Ciro então perdoou a Creso, e ainda nomeou-o seu ministro. Ciro não errou nesse procedimento, porquanto Creso auxiliou-o muito, ajudando-o a governar a Lídia com benignidade e brandura.

Os soberanos persas nos deixaram também, a exemplo dos caldeus, narrações de bravuras.

Entre os persas, muitas vezes os filhos pagavam pelos pais, como em caso de alta traição, em que eram punidos também todos os parentes do traidor.

Quanto à organização da sociedade, podemos distinguir na Pérsia antiga quatro classes: sacerdotal, guerreira, agrícola e artesã. A classe guerreira era muito importante, porquanto fornecia o exército, e os guerreiros eram recrutados na nobreza.

Os povos incorporados ao império não tinham direitos iguais. Em primeiro lugar vinham os persas verdadeiros, seguidos dos medos, depois vinham os bactrianos, etc; enfim, os povos que mais haviam resistido ao domínio dos persas tinham menos direitos. O critério da distribuição dos direitos obedecia ao nascimento da raça, sendo que a raça vitoriosa se impunha à vencida. Os povos conquistados mais recentemente ficavam sob a tutela dos povos conquistados anteriormente.

Assim, em quase todas as sociedades da antiguidade havia a divisão em classes sociais. Foi o Cristianismo que extinguiu esse costume de distinção entre o vencido e o vencedor, e fez com que um homem de uma classe mais baixa pudesse atingir, por seus méritos, outra classe mais elevada.

O critério aceito para a distribuição das riquezas não tinha por base o mérito, mas exclusivamente a raça de que havia nascido a pessoa. Por isto é que era extremamente difícil uma pessoa gozar de direitos maiores do que os que as leis do império facultavam às pessoas de sua raça. E a hierarquia das raças, dentro do império, tinha como único critério a força.

Os persas venceram os medos, e por isso tinham mais direitos que estes. Medos e persas, aliados, venceram juntos os outros povos que compunham o império, razão pela qual os medos eram o segundo povo do império. Assim, portanto, os povos eram colocados em posição superior à destes últimos, e portanto o único critério que vigorava para estabelecer a hierarquia dos povos, dentro do império, era a força.

Quanto ao exército, havia nele um núcleo formado pela guarda dos 10.000 imortais, todos persas, constituindo a medula do exército, e todos eles fidelíssimos ao rei. Isto prova a instabilidade do Império Persa, pois se os reis tivessem confiança nos povos conquistados, formariam esse corpo de guarda com soldados recrutados entre os povos vencidos.

Família

A família era indissolúvel, havendo porém raras exceções, como no caso de esterilidade da mulher, em que, se a esposa quisesse, o marido poderia abandoná-la. A família era muito sólida e estável, tendo o pai muita autoridade.

Arte

A respeito da arte dos persas, já demos apenas uma pequena e ligeira nota. Como já dissemos, a Pérsia elaborou uma civilização de síntese, assimilando-a à dos vários povos de que se compunha o seu império. Este caráter heterogêneo da civilização persa se nota acentuadamente na sua arte, que em grande parte se inspirou nos princípios artísticos caldaicos.

Mas além da influência caldaica nota-se também na arte persa, com menor intensidade, a influência dos egípcios e dos gregos. Encontramos também na arte persa particularidades que lembram a arte egípcia. Portanto, eles elaboraram uma arte de síntese, em que entraram elementos artísticos de várias procedências (assírios, gregos, egípcios, etc).

Um dos motivos de decoração dos persas era o touro alado, como o dos assírios. Eles eram useiros no encimar os capitéis das suas colunas com cabeças desses animais.

Na antiga Pérsia não havia templos, porque os persas consideravam o seu deus como um ser puramente espiritual, que não podia caber entre as paredes de um edifício. Eles achavam que deviam adorá-lo ao ar livre, e por esta razão havia as piras nas florestas.

Os persas empregavam muito os ladrilhos, à semelhança dos caldeus. Entretanto, havia uma diferença entre as figuras artísticas dos persas e as dos caldeus: as figuras dos assírios e babilônios aparecem sem relevo, ao passo que as figuras persas nos ladrilhos apresentam-se como um alto-relevo; são figuras que se destacam sobre o fundo. Essa foi uma pequena diferença da arte persa, com relação à arte caldaica.

Não se pode dizer que a escultura dos antigos persas foi grandiosa, contudo atingiu um grau apreciável de desenvolvimento. Não é errôneo afirmar-se que a escultura dos persas foi uma cópia servil da escultura caldaica.

Como tipos mais importantes de arquitetura persa, podemos citar os palácios e as sepulturas. Os palácios eram muito suntuosos, lembrando os palácios assírios. Os tetos eram feitos com madeiras preciosas. As sepulturas reais não tinham o caráter de religiosidade das sepulturas egípcias. As sepulturas reais persas eram talhadas em rochedos. A entrada representa a entrada de um palácio, mas para se tomar acesso às mesmas não há escadas nem rampas. Estão situadas a uma boa distância do solo.

Costumes

Já expliquei qual era a política dos persas. Falei também sobre os princípios de benignidade da administração dos persas, com relação aos povos por eles vencidos.

Como os senhores já sabem, os judeus viviam sob o domínio dos caldeus. Quando os persas, derrotando os caldeus, destruíram o Império Mesopotâmico, foram os judeus restituídos à liberdade, por um decreto de Ciro. Foi encontrado tal documento, e se conhece o texto do decreto em que Ciro deu a liberdade aos judeus. Por esse texto, sabe-se que Ciro permitiu aos judeus reconstruir o seu templo em Jerusalém, fato que é confirmado também pela Bíblia.

Isto não nos deve levar a supor que os persas foram um povo de inigualável benignidade. Fatos como os narrados impressionaram o espírito da maioria dos povos da antiguidade, que eram em geral dotados de grande inclinação para a crueldade, e fizeram com que os persas passassem para a História como um povo benigníssimo. Tal critério pode nos levar, à primeira vista, a juízos errôneos a respeito do caráter deste povo. Convém fixar bem este caráter dos persas, porque por ele se define toda a antiguidade.

Aliás, os senhores podem ver por isto até que ponto eram considerados pelos antigos os sentimentos de bondade, solidariedade e misericórdia, que, pode-se dizer, eram quase inexistentes entre esses povos, e aparecem em toda a sua pujança com o advento do Cristianismo. Nós encontramos entre os persas fatos que acusam grande crueldade, pois sabemos que chegaram a mutilar prisioneiros vencidos, cortando-lhes o nariz, as orelhas, enfim, tudo o que havia de "cortável" no rosto deles.

Pois bem, este era o povo que tinha fama de "benigno" na antiguidade. Costumavam os soberanos persas vangloriar-se dos seus feitos, das suas vitórias, como no famoso rochedo de Bebristum. Uma ou outra vez, usavam de misericórdia para com os povos vencidos. Entretanto, muitas e muitas vezes, à maneira dos caldeus, usavam de grande crueldade com os povos que dominavam, como já tivemos oportunidade de ver. Havia entre eles o costume de crucificar os prisioneiros.

Também já tivemos ocasião de fazer referência ao caso de Creso, rei da Lídia. Os senhores sabem que Creso foi condenado à fogueira, juntamente com quatorze crianças da nobreza lídia, e toda aquela história da invocação de Creso a Sólon, etc, é que Ciro pensou que aquilo que se tinha dado com Creso podia se dar com ele, e então libertou Creso e nomeou-o seu ministro. Podemos ver com isto o verdadeiro caráter da benignidade de Ciro, baseada inteiramente no temor de um infortúnio.

Com referência à crueldade, conhecemos casos muito interessantes que mostram a existência deste instinto entre os persas. Entre outros, podemos citar o de Cambises, que tentou a conquista da Etiópia e foi mal sucedido neste empreendimento. Na volta, sobreveio uma grande tempestade de areia, que fez com que os persas ficassem sem víveres. Os soldados persas sofreram então muita fome, e contam os historiadores que eles se matavam uns aos outros, para saciarem a fome. Numa ocasião, tendo Cambises recebido um desacato em Mênfis, no Egito, mandou matar 2.000 pessoas desta cidade, por tal motivo. Este foi o povo que passou para a História como um dos mais benignos da antiguidade, tendo em vista que naquela época imperava a lei da força.

Um fato significativo na História, neste sentido, verificou-se na história romana. Os gauleses, chefiados por Breno, venceram os romanos nas proximidades do rio Alia, entraram em Roma, e só se comprometeram a retirar-se com o pagamento de pesada indenização. Tendo os gauleses usado pesos falsos, os romanos reclamaram contra esta irregularidade. Breno atirou então a sua espada ao prato da balança, pronunciando a frase que ficou célebre na História (tudo antes do advento do Cristianismo): "Vae victus!" — Ai dos vencidos!

Há ainda um outro fato característico, auferido pela sociedade com o advento do Cristianismo: os hospitais só foram fundados após o advento do Cristianismo. Os doentes, que eram inferiores fisicamente, eram por isso votados ao desprezo. Haja vista o caso dos espartanos, que matavam as crianças nascidas com físico inferior.