Catolicismo N.o 516 – dezembro de 1993 (www.catolicismo.com.br)

 

O crime de Sancho Pança

 

Há 58 anos, na edição de 8-12-1935 do semanário católico Legionário, órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, então seu jovem diretor, escreveu o artigo reproduzido ao lado [abaixo]. É impressionante o fato de o autor, ao descrever a crise do Brasil naquela época, dias após a Intentona comunista de 1935, já apontar, com rara clarividência, os mesmos defeitos e mazelas que estão na raiz da imensa crise que assola hoje nossa Pátria. Estamos certos de que a reedição deste texto será de grande proveito para os leitores.

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Escrevendo a história de Dom Quixote, Cervantes lhe associou um personagem secundário, que nunca abandonou o herói da Mancha. Este homem se chamava Sancho Pança.

Que surpresa sentiria Cervantes, se um telescópio profético lhe pudesse desvendar os acontecimentos futuros, e lhe mostrasse que, enquanto o valente Dom Quixote entraria definitivamente para a galeria dos dementes inofensivos, com sua lança, sua couraça e seu esquelético Rossinante, Sancho Pança, o tímido Sancho Pança, o medíocre Sancho Pança, o desprezível Sancho Pança, haveria de acometer dentro de alguns séculos uma grande nação, e atirá-la, ele sozinho, às beiras do mais negro precipício?

Foi, no entanto, o que se deu com o Brasil. Se nosso País não estivesse sob uma proteção especial da Virgem Aparecida, não duvidaríamos muito que, dentro de algum tempo, se lhe pudesse cavar sepultura em sua terra fecunda. E, como justo epitáfio, poder-se-iam escrever no túmulo estes tristes dizeres: “Aqui jaz uma Nação fundada por heróis, civilizada por Santos, e destruída pelo comodismo imprevidente de alguns de seus filhos”.

Sancho Pança? perguntarão alguns leitores, mas Sancho Pança não morreu? Que tem ele a ver, pois, com a crise brasileira?

Não, Sancho Pança não morreu. Sancho Pança revive em espírito, e inspirando milhares de mentalidades, dita as atitudes de seus filhos espirituais nos Parlamentos, nas Cátedras, nos Bancos, na alta administração.

Sancho Pança revive no comodismo dos imprevidentes que fecham os olhos às nuvens de hoje, que serão tempestades amanhã. Ele fecha os olhos, não por que confie na Providência, não porque tenha qualquer motivo sério para negar o perigo, mas simplesmente para gozar em paz o momento que passa. Não morando no Rio, em Pernambuco ou no Rio Grande do Norte, julga que o perigo não existe simplesmente porque não lhe atacou o pêlo.

Sancho Pança revive no snobismo míope dos jovens plutocratas inscritos na ANL[Aliança Nacional Libertadora], que atiçam o incêndio que ameaça sua classe, esquecidos de que o destino de Judas ou de Philippe Égalité será o fruto de sua vaidosa mania de originalidade.

Sancho Pança revive no imediatismo mesquinho e cúpido de certos políticos de oposição, ou de certos literatos vaidosos que não se incomodam de proteger com um liberalismo de mau gosto, os petroleiros [terroristas] que atacam as bases da Nação. Na imprevidência de sua ambição só pensam em gozar de momentânea popularidade e... quem sabe, assenhorear-se, por alguns minutos, do poder. Por alguns minutos, dizemos, porque a onda imprudentemente levantada seguirá seu rumo. E ela tragará num futuro bem próximo àqueles mesmos que lhe abriram caminho.

Sancho Pança revive na incúria comodista de muitos cidadãos a quem o Brasil havia confiado a missão sagrada de defender a Religião, a Família, a Propriedade, e que não se pejavam em designar para cargos de máxima responsabilidade os mais encarniçados inimigos dos princípios cuja custódia lhes incumbia como dever sagrado.