Capítulo XIII

 

Confiança,

palavra que nos acalma

 

 

Da obra A Calma e sua gentil superioridade – Excertos do pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira, recolhidos por Leo Daniele, Editora Artpress, São Paulo, 2014 – 1ª. edição, págs. 117-125. Os destaques em negrito são deste site.

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“O nervosismo é, no fundo, uma forma de masoquismo psicológico”

 

Nossa Senhora da Confiança

A confiança e a tranquilidade

Não gostamos de confusão, por isso a confusão nos causa perplexidade, nos atormenta, nos angustia. Queremos uma certeza, um rumo, um desfecho, e a confusão cria condições onde certezas, rumo e desfecho não aparecem, daí nossa perplexidade e angústia. Quando se apresenta a confusão, chega a hora não mais de uma luz, mas de uma palavra interior. Essa palavra, que é o contrário da confusão e da angústia, em nosso drama diz apenas o seguinte: Confiança! Confiança!

Trata-se de uma voz interior que muitas vezes nos terá cicatrizado as feridas. É como se uma palavra interna nos dissesse: “Confiança, os ventos e o mar obedecem a Ele” (Lc. 8, 25). E assim se aplacam logo em nossa alma várias angústias e perplexidades. Tem-se a impressão de estar acordando de um pesadelo, e percebe-se que o vulto das coisas, bem como o estrangulamento de que éramos vítimas, não era tão negro quanto tínhamos imaginado.

Compreende-se então que Alguém, que nunca mente, nos prometeu dentro da alma, de uma maneira que nenhum ouvido ouve, que levará a cabo alguma coisa tranquilizante. Essa promessa traz um absoluto de verdade, que nada romperá. Quando o estrangulamento voltar, e a confusão se manifestar novamente, ao ouvirmos interiormente confiança, saberemos que a promessa renascerá em nossas almas. Compreendemos assim que houve uma palavra da Mãe de Deus, dizendo algo dentro de nossas almas. Ela realiza o que diz, promete conança e dá confiança. Essa conança não tem seu fundamento nas coisas externas, mas tem o timbre da verdade: nesta palavra eu acreditei, porque Ela é a Mãe de Deus. Vou para a frente sem discutir, confio.

 

No silêncio dos corações

O livro do Abbé Saint Laurent (O Livro da Confiança, Boa Imprensa, Campos, 1960, p. 9) tem estas palavras iniciais: "Voz de Cristo, voz misteriosa da Graça que ressoais no silêncio dos corações, vós murmurais no fundo de nossas consciências palavras de doçura e de paz”. Às vezes elas não dizem nada, mas outras vezes fornecem a impressão seguinte: bem, tudo é incongruente, mas está sendo dita ao meu espírito uma palavra, e essa palavra tem uma plenitude de certeza e de verdade que tranquiliza minha alma, fazendo-a compreender que devo ir para a frente, e que de algum modo se resolverá o problema. Furam-se as paredes, varam-se as lajes, transpõem-se os espaços enquanto eu caminho de encontro ao estapafúrdio e ao absurdo, mas alguma coisa se resolve.

Essa palavra interior não é uma luz, nem algo que nos aparece brilhante e luminoso. Não resulta de algo que vimos fora de nós, mas nos está sendo dita dentro da alma, gratuitamente. E uma conança que entra e opera em nós o ato de conar, ela diz e faz nossa conança. E conantes vamos para a frente, convictos de que é algo racional. É a coisa mais racional que há, pois damos ouvidos à voz de Deus que se faz ouvir dentro de nós.

Somos os bem-aventurados, aos quais Deus não fala apenas pelo ouvido exterior, mas também internamente, dentro da alma. Essa palavra nós seguimos, com essa palavra nós continuamos. Essa é a conança dentro da confusão.

 

A angústia, o nervosismo e a confiança

Psicologicamente falando, dá-se uma coisa incrível nas tentações comuns de angústia, nascidas da confusão infernal dos nossos dias: a pessoa muitas vezes não quer deixar a angústia, prefere car dentro dela. Quando se começa a provar-lhe que não deve angustiar-se, começa a lutar como uma criança de quem se quer tirar o bombom, faz tudo para defender sua angústia.

O homem assaltado de nervosismo pode não querer que se lhe tire a angústia. Quer continuar dentro dela. O fato é que ele está tentado por uma espécie de masoquismo, com o qual se dilacera interiormente de mil modos. Esse estado não corresponde à mentalidade de um indivíduo preso em uma cadeia, e que quer por todos os modos libertar-se. Ao contrário, quer estar dentro da cadeia e prefere agredir quem quiser tirá-lo de lá. Até se impacienta e ruge quando se quer libertá-lo. Está de costas para a confiança, voltado para o desespero, e pode estar com apetência de desespero.

Portanto, a palavra que ele é levado a engendrar não é a palavra conança, mas desconfiança. Ele a engendra torrencialmente, são rios de desconanças que convergem para águas corrosivas e efervescentes. Podemos imaginar assim um rio de ácido sulfúrico no qual a pessoa se joga inteira, num festival de autodemolição e sem nada com delicias.

 

O nervosismo, geralmente uma perversão

Em todos os tempos houve pessoas com o defeito do nervosismo, mas eram exceção dentro da história dos defeitos morais, porque os homens não se tinham deteriorado de maneira a desejarem habitualmente coisa tão absurda. Com a decadência da humanidade - que é muito mais a violação do 1° Mandamento do que a violação dos outros - apareceram perversões como essa, que se tornou regra geral. O nervosismo, no fundo, é uma forma de masoquismo psicológico.

Imaginemos uma pessoa com a tendência de quebrar os próprios dedos, e que precisasse engessá-los para não serem quebrados. Que juízo poderíamos fazer dela? (nota: conferência de 13-9-1974).

Quando a confiança assume as rédeas do comportamento, esse nervosismo desaparece. A pessoa se acalma, todos os seus lados lúcidos tomam a parte superior de sua alma, os lados doentios são relegados para baixo, o que equivale a dizer que a lucidez venceu.

 

A confiança tem as características das operações do Espírito Santo

Tudo o que diz respeito às operações do Espírito Santo na alma caracteriza-se por três elementos: ação súbita - portanto, inopinada - eficaz e de frutos bons.

Em geral, essa palavra interior de conança vem quando menos se o espera. Às vezes é apenas uma oração, e a pessoa sai tranquilizada. È inopinada, não produzida por nada que existe dentro de nós, pois nunca conseguiremos fabricar em nós uma palavra assim. De repente ela vem, é uma palavra súbita. Ela nos diz cone, e nós confiamos realmente.

É uma palavra eficaz, que produz os frutos do Espírito Santo. A pessoa fica com a alma disposta para todos os atos de virtude, para toda forma de correspondência à graça. Torna-se articulada, flexível, alegre para com o bem. Dir-se-ia que ela foi curada. Mais ainda, ela foi desinfestada, entram os Anjos nela e a tornam diferente. É uma palavra que torna realidade seu significado.

Nosso Senhor disse: Pelos seus frutos vós os conhecereis (Mt. 7, 16-20). A confiança opera em nós todos os frutos característicos da ação do Espírito Santo: propensão para a fé, piedade, abnegação, renúncia, heroísmo, ordem. Conaturalidade para com tudo que é da Igreja, fácil renúncia às coisas que não o são. A desconança opera precisamente o contrario, ponto por ponto.

Houve um grande santo no deserto, que foi muito tentado contra a pureza. Lutou o quanto pôde. Quando afinal penetrou uma claridade na gruta, o demônio saiu e ele sentiu-se inundado de luz. Perguntou então a Deus:

- Onde estáveis, Senhor, enquanto vosso servo lutava?

Deus respondeu-lhe:

- Estava no fundo de tua alma, resistindo.

 

Paris, pichamento feito durante as agitações de maio de 1968

Seja realista, exija o impossível

Nos dias da agitação da Sorbonne (1968), os estudantes - com seu talento francês, mesmo ao defender a pior das causas - axaram este lema na universidade: Seja realista, exija o impossível.

Diante desse lema, como diante de muitas produções do espírito francês, duas famílias de almas se colocam: o espírito geométrico é contra uma afirmação assim, pois exigir o impossível é utópico, logo o lema contém um absurdo. Mas as pessoas dotadas de espírito fino compreendem que propositalmente ele contém uma espécie de contradição berrante. Impossível é uma palavra que está aí psicologicamente entre aspas.

Em outros termos, há mil coisas que os indivíduos medíocres consideram impossíveis, e que o são realmente para os medíocres. Mas não são impossíveis para quem tem uma noção inteira da realidade. Estes compreendem que os horizontes do medíocre são limitados e circunscritos, e quão facilmente a maior parte dos homens desanima diante de coisas que qualifica de impossíveis, mas que de fato não o são.

 

Cópia da nau Santa Maria, no porto de Barcelona, em 1950

Quem vai a Barcelona pode visitar reproduções das três naus de Cristóvão Colombo. São umas cascas-de-noz com as quais, exagerando um pouco, ter-se-ia medo de atravessar o pequeno lago de uma represa.

No entanto elas vieram até a América, e exatamente no momento em que se planejava uma revolta a bordo - com pretexto de que, anal de contas, nunca se chegava a lugar nenhum - alguém gritou: Terra! Estava-se precisamente no momento em que o impossível - entre aspas, para os medíocres - tinha se tornado possível.

Mas este é um fato natural. Do lado sobrenatural isto é muito mais bonito e tem muito mais riqueza. A riqueza está no seguinte: sabemos que quando a Providência quer algo, Ela o realiza contra todas as esperanças e contra todas as aparências. O que é impossível até mesmo aos grandes homens, a Nossa Senhora é possível, porque a oração dEla é onipotente diante de Deus, de Quem obtém absolutamente tudo o que possa estar nos planos de Deus.

 

A voz da confiança não mente nunca

Quando alguém é levado a pensar que a voz da confiança lhe mentiu, não deve acreditar, pois a voz da conança não mente nunca, e acaba realizando aquilo que promete.

Algumas vezes também estamos cheios de areia da aridez, do isolamento, da incompreensão, do tédio, da impressão de estar diante de algo que não é caminho. Então é o caso de dizer: gaude et letare! (alegrai-vos e exultai; do hino Regina Coeli) - alegra-te! Alegremo-nos de fato, porque o melhor caminho parece ser realmente o beco fechado e sem saída. Aí está, no campo espiritual, uma explicação para essa parte do lema exija o impossível. Ele virá a nós, desde que estejamos com os olhos postos em Nossa Senhora (nota: conferência de 3-8-1968).

Alguém poderá indagar: como posso saber se essa voz interior da alma não é uma ilusão? Como posso discernir esse movimento de uma imaginação, de uma impressão  colocada no espírito?

São coisas impalpáveis, mas tudo que é espiritual joga com fatores impalpáveis. Temos que conferir com os caminhos da graça em nós. Se o movimento interior ruma na direção da graça, podemos confiar nele. E assim, por uma espécie de jogo de impalpáveis, podemos ter certeza plena do caminho que devemos seguir (nota: conferência de 7-8-1971).

Quando temos um movimento interior e percebemos que se ele for atendido nos levará à virtude, devemos julgar muito provável, ou até certo, que esse movimento interior corresponde a algo da graça. Se, pelo contrário, leva a nos distanciar da virtude, devemos ter como certo que nos afasta dos caminhos de Deus. Portanto, que ele é falso e nele não podemos conar.


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